Electus
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Capítulo 2
A porta do casebre abriu-se com cuidado para não deixar a luz solar adentrar violentamente no recinto. Valkyon fechou-a tão rapidamente quanto a abriu, ainda tendo o cuidado para que não batesse e assim não sofresse danos. O local que estávamos não era um palácio, mas estava nos servindo muito bem desde que chegamos no mundo humano.
— Olá Miiko – cumprimentou assim que me viu sentada na sala de estar do local
— Consegui mais lonas – o loiro anunciou, indicando com um gesto de cabeça o fardo que trazia nos braços.
Valkyon era praticamente o único que podia se aventurar pelas ruas daqui, afinal possuía aparência humana. Os cabelos albinos na altura dos ombros não traziam estranheza aos moradores, nem sua pele morena ou os olhos dourados. Ao contrário de mim, Ezarel e Nevra.
Bem, Nevra poderia até passar por um humano se não fosse o grande detalhe de queimar-se assim que entrava em contato com o sol, conforme foi comprovado de forma dolorosa nos primeiros dias.
Ezarel chamava muita atenção pelos longos fios azuis e a orelha pontuda, sem mencionar a língua afiada propensa a fazer comentários inadequados, como no dia em que perguntou a um senhor se possuía parentesco com algum Goblin por conta do nariz pontudo dele.
Já a mim, as orelhas e as caudas eram o suficiente para assustar as pessoas em primeira vista. Mesmo usando um chapéu para esconder as orelhas de raposa, as caudas ainda eram excessivamente visíveis.
Portanto, sobrara a Valkyon a tarefa de sair todos os dias em busca de alimentos e os itens que nos faltavam.
— Podemos terminar de cobrir a cozinha, finalmente – comentei, aliviada.
Nevra era o que mais sofria com a nossa vinda. Precisava esconder-se em meio as sombras do casebre de madeira, que por sinal havia muitas lascas que forneciam pontos de luz, até o anoitecer para então poder respirar ar puro de fora.
— E sobre o sangue? — pedi, analisando a carga do Chefe da Guarda Obsidiana.
Ele puxou dois pacotes transparentes de dentro do casaco que usava, entregando-os a mim.
— Consegui após duas horas de bajulação – disse enquanto começava a desenrolar a lona e seguia em direção a cozinha – são O+, não é o tipo favorito dele, mas acredito que dê pro gasto.
— Não acho que ele vá reclamar – constatei, olhando as bolsas de sangue, tentando decifrar o que estava escrito na etiqueta.
A comunicação no mundo humno era um ponto importante da nossa sobrevivência, mesmo que tenhamos estudado um pouco sobre ele enquanto crianças, ou por conta dos relatos daqueles que vinham até aqui periodicamente em busca de alimentos mais nutritivos.
Foi um tremendo golpe de sorte termos sido arrastados para um local onde se falava nosso idioma. Ezarel acredita que aqui seja a antiga morada dos nossos antepassados enquanto viviam em harmonia com os humanos, antes do grande banimento para Eldarya, explicando a familiaridade com a linguagem.
— Falando em reclamar, aqui está muito calmo. Onde Ezarel se escondeu?
Com um suspiro indiquei a porta dos fundos com a mão livre.
— Ainda tentando cultivar sálvia, mas ele ainda não está acostumado com o clima e terra daqui. E claro, plantar não é a melhor de suas habilidades, o que o deixa mais sensível ultimamente. – expliquei.
Valkyon pausou o que fazia e olhou para a porta por alguns segundos, como se conseguisse ver o amigo do outro lado.
— Apesar de termos sálvia aqui, os demais ingredientes serão complicados de se cultivar no momento – ponderou, pesaroso.
Desde o momento que chegamos, dois meses atrás, Ezarel ficou obcecado em descobrir o que havia sido apagado de nossas memórias. Muito provavelmente a resposta para a nossa viagem sem passagem de volta estava escondido nos pensamentos perdidos. Porém, com o passar dos dias e das tentativas infrutíferas a esperança de recuperarmos algo foi minguando aos poucos.
A fala de Valkyon me trouxe uma questão de volta, algo que me incomodava a um tempo sobre nossa recente amnésia.
— Não acha engraçado lembrarmos de como manipular a poção Memoriam Revoco? — indaguei, pensando sobre a poção que Ezarel exaustivamente procurava fazer e que, com certeza, teria efeito em nós.
— Um bom estrategista apagaria essa informação de nós, o que me leva a algumas suposições – o loiro disse após pensar um pouco, agora abandonando de vez a lona e voltando-se para mim – ou a pessoa que fez isso não tinha conhecimento da poção ou é confiante demais e acredita que não vamos conseguir todos os ingredientes.
Troquei as bolsas de mão, pensativa.
— Parece mais a segunda opção. Afinal, a flor flamejante só pode ser obtida em Eldarya – indiquei.
Um rangido ecoou pelo casebre fazendo-me lembrar do outro morador do local. Alguém cuja a sede precisava ser saciada com certa pressa. Com um aceno despedi-me de Valkyon e desci para o porão que estava maravilhosamente intacto apesar do visível abandono do local.
O som provinha do andar sistemático que Nevra fazia, ocasionalmente pisando na última madeira que finalizava a escada até o local, gerando assim o rangido que ouvi a pouco. Assim entrei o Chefe da Guarda das Sombras parou de andar e fitou-me com curiosidade.
— Hora do lanche? — brincou.
Apesar de tentar levar as coisas no bom humor, as olheiras e as veias levemente arroxeadas ao redor das têmporas denunciavam seu estado. Nevra recusava-se a caçar animais por aqui e tão pouco queria atacar inocentes na cidade a poucos quilômetros de onde nos escondíamos. Eu temia que um dia sua sede se tornasse insuportável e o levasse a fazer coisas que não desejava.
— Valkyon conseguiu – disse ao lhe entregar os dois pacotes com sangue.
— Agradeço ele depois – comentou, olhando para o sangue.
Para lhe dar um pouco de privacidade sentei no colchão levemente puído e comecei a despentear meus cabelos com os dedos, fingindo estar alheia aos barulhos de sucção que provinham do canto do porão, onde o vampiro fora se esconder. Normalmente eu sairia após entregar-lhe os pacotes, porém naquele dia eu tinha uma ideia diferente, algo que despertou com a conversa que tive a pouco com Valkyon.
Esperei que ele terminasse o lanche e tivesse seguro o suficiente para sair do canto. O que não demorou muito dado ao estado dele. O conteúdo dos dois pacotes sumiram rapidamente.
— Pronto, estou alimentado. Pode dizer ao Ezarel e Valkyon que não vou arrancar as cabeças deles e nem enlouquecer – ele resmungou.
— Eles estão preocupados contigo – retruquei.
Nevra soltou um suspiro.
— Eu sei – ele concordou – mas, é frustrante ficar parado enquanto vocês fazem todo o serviço.
Levantei-me e fui para seu lado, ignorando o leve espasmo que meu amigo teve com medo de que eu me aproximasse demais. Nevra era forte em seu controle, porém não estava confiante disso, portanto havia pedido que nos cuidássemos em sua presença.
— Por isso vim lhe ajudar e pedir que faça algo por nós – disse, séria.
Ele ergueu uma sobrancelha, interessado e desconfiado ao mesmo tempo.
— Não vou cantar junto com Ezarel para aquelas flores crescerem – zombou.
Segurando o riso e abanei uma mão.
— Aquilo é um cântico de feitiço e as flores chamam-se sálvia.
— Que seja – retrucou, mostrando a língua em seguida – então, o que está planejando, Miiko? — pediu, tomando uma pose mais séria.
— Nos nossos livros e através de relatos de missões, descobri uma informação. Num perímetro pequeno ao redor dos portais existem bruxas que costumam desorientar os viajantes por diversão – comecei a falar, despreocupadamente desenrolando a manga de meu braço direito – Também sabemos que bruxas adoram colecionar itens raros, sejam no mundo humano ou em Eldarya. O que planejo é uma visita a uma bruxa e pedir emprestado alguns itens que são de origem eldaryana.
Nevra estreitou os olhos notando o rumo da conversa.
— Quer que eu vá até uma bruxa e roube ela?
Assenti, confirmando sua pergunta.
— Quer que eu seja amaldiçoado? Está louca?!
Sem prestar atenção ao seu pequeno ataque terminei de desenrolar a manga, dobrando-a logo acima do cotovelo.
— Você é o único de nós quatro que consegue mover-se rapidamente, é treinado para missões furtivas e seu olfato poderia identificar uma bruxa com mais facilidade – refutei, elencando suas habilidades com a voz calma – além do mais, não existe a possibilidade da bruxa lhe amaldiçoar, pois você já é amaldiçoado – finalizei, batendo o dedo indicador esquerdo em seu peito, lembrando-o de sua característica que o transformou em vampiro.
Nevra soltou um bufo e estreitou os olhos para meu braço desnudo.
— Tudo bem, sou imune a velhas loucas. Mas, como planeja que eu faça isso?
Ergui o punho diante de seus olhos, procurando ignorar a leve sede que dançou sob seu olhar ao observar minha veia.
— Vou doar um pouco do meu sangue a você. E quando anoitecer estará forte o bastante para correr até o local que fomos despejados e seguir o rastro de uma bruxa que passou pelo local – expliquei.
— Miiko, isso é perigoso. Posso passar dos limites e o que vai sobrar de você será uma casca vazia – ele recusou, sua voz levemente grossa, porém controlado – E como tem certeza sobre a bruxa?
— Quando chegamos percebi alguém expiando. A energia que ela emanava era um tanto escura, logo deve ser uma bruxa.
— Por isso praticamente chutou todos nós para fora daquele local.
— Acertou – respondi, impaciente.
Após uma longa olhada em meu pulso Nevra retrocedeu vários passos, fugindo de mim.
— Recuso.
Precisei de muito autocontrole para não berrar e socá-lo diante tamanha teimosia. A preocupação dele era honrada e até gentil, mas não estamos em uma situação favorável no momento. Qualquer dia um humano pode nos encontrar e acabarmos num jornal como criaturas bizarras, sem contar os cientistas loucos que podem querer nos examinar.
— Vou mudar a frase então! – bradei, irritada – Estou ordenando que beba meu sangue e vá até a bruxa próxima ao portal e roube uma flor flamejante e um pergaminho druida dela. Entendido guardião?
Com o olhar queimando e com uma pose de quem não estava feliz com a situação, Nevra aquiesceu com a cabeça. Sem esperar por um movimento seu, aproximei-me dele e praticamente soquei o pulso em sua boca.
Espero que não doa. Pensei ao ver os dentes se alongarem.
(…)
— Eu poderia ter ido – Valkyon resmungou pela terceira vez.
— E depois teria voltado igual um sapo – Ezarel rebateu na mesma hora, terminando de mastigar seu jantar.
Se analisado por alguém de fora o elfo pareceria despreocupado com o vampiro que partira a quatro horas, mas a sua ansiedade era denunciada pela sua fome. Já era o quarto pote que terminava. Quando está inquieto Ezarel tende a irritar Karuto por desfalcar os tickets de seus colegas da Guarda Absinto.
— Tenha um pouco de fé em Nevra – afaguei de leve o braço do loiro.
O que foi um erro. A concentração dele voltou-se toda para mim naquele momento. Quase sentia as faíscas voando dos olhos dourados.
— A senhorita ainda não terminou seu jantar – indicou o pote de macarrão instantâneo quase intocado em meu colo – quero ver isso limpo.
Engoli uma reclamação e servi-me outra garfada daquele alimento industrializado e com poucos suprimentos.
— Ela vai precisar de ferro. Acha que consegue feijão? — Ezarel pediu como se eu não estivesse presente.
— Vou providenciar – Valkyon respondeu, olhando-me atentamente.
Desde que revelei o plano sobre Nevra roubar a bruxa, tendo cuidado de já ter expulsado o vampiro do casebre para não haver interrupções, os dois enlouqueceram sobre eu ter me oferecido como alimento. Após explicar detalhadamente o por que de eu ter feito isso, eles começaram uma chuva de comentários sobre uma alimentação intensa para repor o que eu havia perdido.
Pareciam dois pais.
Um curto sorriso quase escapou por minha fachada tranquila. A atitude dos dois sobre mim fazia-me lembrar do modo como brigavam com Olympia quando ela se metia em confusões. Como quando enfrentou Yvoni, arriscando o próprio pescoço.
Gostaria de saber como ela está nesse momento. Se está conseguindo segurar as coisas em Eldarya junto com Keroshane, Yhkar, Jamon e todos os outros que acreditamos ter permanecido por lá. Era engraçado como sentia certa confiança naquela garota, de que ela faria tudo ao seu alcance por aqueles que conheceu em pouco tempo.
Apesar do nosso primeiro encontro conturbado, Olympia tornou-se uma amiga inestimável.
— Mundo dos humanos está chamando Miiko.
Pisquei um pouco, concentrando-me novamente. Ezarel estalava os dedos diante de mim, o cenho franzido.
— Sei onde estou – respondi.
O elfo rolou os olhos.
— É um modo de falar, minha cara. Olympia não te ensinou essas coisas?
Ergui uma sobrancelha.
— Ela certamente tentou me introduzir nos costumes humanos, só não imaginava que você tivesse sido pego por isso – brinquei, notando as bochechas do azulado se ruborizarem.
— Aquela peste sabe ser persistente quando quer – apontou, tentando se fazer de desinteressado.
Valkyon soltou um riso quase estrangulado pelo nariz, tentando permanecer sério.
— Mas, está errado. O certo é Terra chamando. Devia prestar mais atenção – Valkyon entrou na conversa, corrigindo o outro.
Ezarel abriu a boca, pronto para soltar algum palavrão sobre o colega quando a porta do casebre foi aberta repentinamente. Nós três saltamos do chão com rapidez, notando um Nevra apoiado num humano ao batente da porta.
— Mas o quê?! — exclamamos ao mesmo tempo, aturdidos.
O rapaz de cabelos castanhos e corpo atlético ergueu as sobrancelhas igualmente surpreso com a recepção.
— Como vai pessoal? Conheçam meu novo amigo, Kentin – Nevra comentou tranquilamente, indicando o rapaz.
Limpando a garganta e ajudando o vampiro a se sentar na cadeira próxima a entrada, Kentin fez um gesto com as mãos como se nos cumprimentasse.
— Olá, prazer em conhecê-los.
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