Electus
11 Capítulo 10
Notas iniciais
Capítulo 10
Se eu ainda tinha esperanças de ter uma vida normal, aquela cena na sala de estar do Lysandre quebrou ela. Após os ensinamentos de Dona Margarita eu conhecia um pouco das raças que habitavam em Eldarya. Assim que notei as longas orelhas de coelho da jovem percebi que era uma Brownie, raça conhecida por possuir características de animais em sua aparência.
Lysandre, recuperado do choque, guardou os itens espalhados com eficiência. Eu sabia que ele fazia o serviço como meio de se acalmar. Eu mesmo preparei café para me aliviar após o susto das revelações. Entretanto, notei que ele não estava tão alarmado quanto fiquei. Ou ele era mais cabeça aberta do que eu, ou sabia de algo.
Algo que aprendi por esses dias era que ninguém aparentava ser o que realmente era. Quando imaginaria que a família de Olimpya tinha conhecimento do sobrenatural?
— Como sabe o que sou? — a jovem pediu para mim, seu cenho franzido.
Suspirei, prevendo a enorme conversa que teríamos naquele momento. Então fechei a porta e esperei Lysandre levar a maleta para seu local de origem e voltar. Somente após todos estarmos devidamente sentados, virei-me para ela.
— Uma pessoa querida me ensinou sobre vocês, depois de um certo… acontecimento – respondi. De jeito nenhum deduraria Dona Margarita para ela sem saber sua procedência.
Lysandre olhou-me com uma sobrancelha erguida.
— Então o ataque de uma bruxa não era mentira – comentou, erguendo uma sobrancelha.
Soltei um curto riso, acenando em concordância.
— Você foi atacado por uma bruxa! — a jovem exclamou.
Dei de ombros.
— Ela devia me achar apetitoso demais – brinquei, sorrindo de leve – Você não parece tão surpreso – comentei para Lys, cruzando os braços.
Lysandre suspirou como se estivesse cansado.
— De fato não estou. Já sabia sobre eles – indicou a brownie sentada com uma mão – a algum tempo através dos meus pais, mas não quero falar sobre isso agora.
Uma memória se ascendeu em mim. Todos acompanhamos Lysandre no enterro de seus pais. Apenas Castiel e eu ficamos com ele na fazenda por uma semana, apoiando-o naquele momento triste. Lembrei-me de como meu amigo entrara no quarto do casal e sentara-se na cama com uma grossa carta nas mãos.
Naquela época imaginei que fosse o testamento, mas agora me perguntava se não foi ali que soube desse mistério. O modo como Lysandre agira após a morte era no mínimo incomum. Ele vivia circulando pela propriedade, e por vezes o notei fazendo desenhos nas árvores próximas. Ele jamais saía dali, forçando a mim a outra parte da nossa sociedade. Pensar demais no que ele fazia não me levaria a nada.
— Como quiser – respondi, respeitando sua privacidade.
Eu mesmo não compartilhei com ele o que tinha acontecido comigo, salvo aquela brincadeira escondendo a verdade.
— A propósito, como é o seu nome? — pedi para a moça, voltando ao tópico da conversa.
— Ykhar. E o seu?
— Kentin – respondi.
Ykhar piscou os olhos rapidamente. Pelo seu ato eu suspeitava que meu nome significasse algo para ela. Pelo canto do olho vi que meu amigo notara o mesmo.
— Eu não sei quem você é, mas meus feitiços de proteção lhe permitiram entrar na fazenda, então não tem intenções perigosas ou maldosas. Seja sincera e nos diga o que faz aqui – Lysandre comentou, sério.
Tentei não expressar minha surpresa com tais feitiços protetórios e o que faziam com quem era malvado. Então olhei para Ykhar, esperando sua resposta.
— Vocês são exatamente como Olimpya descreveu – ela falou, sorrindo como se estivesse com saudades.
O nome da nossa amiga nos atingiu como um golpe. A brownie notou isso e torceu as mãos, nervosa.
— Eu vim de um mundo paralelo a esse, onde pessoas como eu podem viver em segurança. A três anos uma jovem humana apareceu misteriosamente em nossas terras, tão confusa quanto nós. Seu nome é Olimpya – Ykhar pausou a fala, olhando para o retrato em cima da lareira com afeto. Para a jovem de cabelos platinados no meio – o começo da nossa interação foi conturbada e com o passar do tempo fomos criando amizade. Ela conquistou todos da Guarda de Eel e solidificou sua posição entre nós.
— Mas ela é humana – falei, interrompendo-a.
Pelo modo como ela falava, parecia que Olimpya era uma integrante deles.
— Ela não é completamente humana. Olimpya possui sangue faelin em suas veias, traços de sua descendência. Ela ficou tão abalada com isso – respondeu, um pouco pesarosa.
Minha amiga era faelin? Deus, isso estava cada dia mais louco. Se pensar tinha um fundo de lógica, já que foi de sua avó que aprendi mais sobre eles.
— E onde ela está? — Lysandre pediu, sua voz tremendo de leve. Denunciando sua ansiedade.
Ah, era de se imaginar sua reação. Lysandre era simplesmente apaixonado por ela. Sua felicidade era palpável quando a nossa amiga começou a corresponder os sentimentos, pouco antes de… sumir.
— Em Eldarya ainda, mas onde exatamente eu não sei – ela suspirou – infelizmente não conseguíamos retorná-la para cá por não termos os itens necessários. Porém, alguns meses atrás um grupo contrário a Guarda de Eel apareceu em nosso mundo e começou uma guerra civil. Esse grupo, apelidado de Trio Negro, tem poder de abrir portais para cá e foi assim que quatro dos nossos melhores membros foram expulsos e Olimpya feita de refém.
Meu coração martelava. A história estava tremendamente parecida com uma que já tinha ouvido falar. Com menos detalhes, mas tão parecida quanto. E Olimpya no meio de tudo isso me deixava nervoso e com medo.
— Ela é valiosa por lá – continuou – sendo disputada pelos dois grupos combatentes, cada qual com seu objetivo. Por isso ela não consegue voltar, pelo menos não até o conflito ser resolvido. Fui enviada para cá por um aliado nosso, e de Olimpya, para ajudar esses nossos membros. Tenho um ingrediente importante para que eles possam recuperar a memória. E com isso nos mexermos por aqui.
Ela olhou-nos com ferocidade e garra em ajudar seus amigos.
— Vim para cá para ajudá-los e a minha amiga – seu dedo apontou o retrato.
— Vamos te ajudar – Lysandre respondeu.
Eu senti veracidade nas palavras de Ykhar. Se não tivesse a questão do feitiço de proteção do Lysandre e se eu não conhecesse quatro figuras inusitadas, diria que ela tinha uma excelente imaginação. Mas, enquanto narrava sua voz transmitia seu desejo de ser entendida, de que ouvíssemos a verdade dita.
— Obrigada! — ela exclamou, batendo palmas em felicidade.
— Pode nos descrever esses seus amigos? — Lysandre pediu, pronto para a ação – você vai nos ajudar? — perguntou, dessa vez para mim.
— Vou – respondi, fazendo a moça bater palmas de novo – mas, não é necessária a descrição deles.
Lysandre franziu as sobrancelhas para mim.
— Digamos que eu já me encontrei com esses quatro a pouco tempo – comentei, um pouco desconfortável.
— Então me mostre o caminho!
Ykhar mal se aguentava de animação e ansiedade, mas notei a pequena careta que fez em relação ao seu pé machucado. E levá-los até onde moravam era difícil, já que não lembrava como chegar até lá.
— Na verdade eu tenho outra ideia – comentei, pensando no que tinha me levado até ali.
(…)
— Ezarel pare de brincar com o carro dele – chamei a atenção de meu amigo.
Após a promessa de Kentin de conversar com um amigo dele, Ezarel e eu esperamos meio dia antes de voltar até sua casa em busca de respostas. E para nossa felicidade aparentemente íamos passar por um teste para ver se conseguíamos o emprego.
Então, entramos no carro de Kentin e nos dirigíamos para a fazenda em questão. Ezarel, que ia no banco de trás, descobriu um dispositivo que abaixava e levantava o vidro da janela. Faziam uns bons vinte minutos que ele brincava com aquilo. Pelo canto do olho vi uma veia pulsar na testa do humano irritado com o elfo.
— Deixe de ser estraga prazeres, Valkyon – ele suspirou, porém parou de mexer na janela – estamos chegando? — pediu ao rapaz concentrado na estrada.
— Quase – foi a resposta, acabando com a conversa.
Seguimos em silêncio, milagroso diria, até nosso destino. Ao passarmos por um portão alto e rústico senti uma pressão de leve no peito, fazendo com que eu franzisse o cenho. Espiei meu amigo pelo espelho entre o humano e eu, notando que ele havia sentido o mesmo.
Parecia ser um rastro de magia. Mas, como poderia haver isso em uma fazenda humana?
Guardei meus pensamentos ao descer do carro, fechando com cuidado a porta. Afinal, Kentin praticamente estrangulou Ezarel quando ele bateu com força demais ao entrar. Tão sensíveis sobre seus pertences. Olimpya era igualmente ranzinza. Vivia ralhando com o elfo e com Nevra quando os mesmos pegavam suas coisas sem permissão. Pensar nela era algo caloroso. Rezei para qualquer Deus que existisse pedindo proteção a ela em Eldarya.
— São eles?
Uma voz masculina soou próximo a varanda da casa. Olhando mais atentamente notei uma figura parcialmente escondida nas sombras projetadas pelas árvores.
— Sim – Kentin respondeu, subindo os degraus em sossego.
A figura saiu das sombras para nos observar melhor. Meu rigoroso treinamento me permitiu permanecer neutro quando sua face tornou-se clara. Ele era estupidamente parecido com um amigo nosso de Eldarya. Leiftan.
— Sou Lysandre, dono dessa fazenda e possivelmente futuro patrão de vocês – ele apresentou-se, vindo ao nosso encontro – quem são vocês?
— Sou Ezarel e este é meu amigo, Valkyon – o elfo estava incrivelmente educado.
Lysandre pendeu a cabeça levemente para o lado, como se nos pesasse.
— Eles não oferecem perigo – disse para Kentin, confundindo a nós dois por tabela – sendo assim, podem entrar – falou, agora para nós, indicando a porta ao meio da varanda.
Sem entender bem o que acontecida, porém acreditando ser parte do teste, tomei a dianteira. Ezarel seguia alguns passos atrás com mais cautela. Os olhos varrendo todo o local em busca de pegadinhas.
Dei uma espiada em Kentin quando estava com a mão na maçaneta, o humano apenas indicou com o queixo para que agíssemos logo. Meus instintos gritando por cuidado me acompanharam enquanto eu abria a porta, para então ser recebido por um abraço de urso, jogando-me ao chão.
— Mas o que… — tentei falar, mas os braços que me envolviam eram apertados demais.
— Ykhar! — o berro de Ezarel me forçou a desfazer o abraço com rapidez.
Arregalei os olhos para a figura em minhas mãos, sorrindo largamente. As orelhas de coelho, o cabelo alaranjado e o astral animado não deixava nenhuma dúvida de que era a nossa amiga.
— Estou tão feliz em vê-los! E bem!
— Com licença – Kentin apareceu, empurrando-nos para o lado.
Assim, ele e Lysandre entraram na sala.
— Como? — foi a única coisa que consegui dizer para os três, tentando entender a dinâmica que ocorria naquele local.
— Lysandre me ajudou quando me machuquei vindo para cá. Então conheci o Kentin que trabalha aqui e ele conhecia vocês. Aí fizemos um plano para que pudéssemos nos encontrar, pois preciso ajudar vocês …
Ykhar desatou a falar rapidamente, seu hábito incorrigível.
— Eia! Vamos com calma, sim? — Ezarel cortou a falação, balançando as mãos na frente dela.
— Querem sentar? — Lysandre ofereceu, já sentado.
Por conta daquela comoção não reparei ao meu redor. Estávamos em uma sala de estar aconchegante com dois sofás e duas poltronas. O dono do local estava em uma poltrona situada ao lado de uma lareira, Kentin pegou a outra que também ladeava a lareira. Ykhar sentou-se no sofá próximo a Lysandre e Ezarel sentou-se ao seu lado. Então, dirigi-me para o outro sofá que ficava próximo de Kentin.
— Primeiro quero agradecê-los por terem ajudado Kentin – Lysandre iniciou, inclinando de leve a cabeça em nossa direção – e depois, pedir desculpas pela encenação lá fora. Queria confirmar se minhas defesas não tinham falhado.
Ah, então era aquilo que havia sentido ao chegarmos. Esse rapaz certamente era alguém interessante. Seu olhar não demonstrava susto conosco, possivelmente já sabia o que éramos por conta de Kentin e Ykhar, e ele tinha feitiços protetórios em sua propriedade.
Os humanos não parecem tão alienados a magia.
Seu jeito calmo e educado de conduzir as coisas me fez associá-lo a Leiftan. O modo de se vestir e portar eram parecidos, sem contar a sua presença que preenchia todo o local. Uma das poucas particularidades que possuía era notar a aura das pessoas e aquela definitivamente era impressionante. Olimpya também tinha uma igualmente poderosa.
Sem saber a razão do ato, meus olhos se desviaram para a lareira. Meu coração ribombou ao notar uma determinada figura ao centro de uma foto. Ignorando a conversa que havia se estabelecido, levantei-me e peguei a foto.
A conversa morreu ao meu redor, mas meus olhos só conseguiam fitar aquela pessoa. O sorriso transmitia a mais pura felicidade, os olhos violeta brilhavam. Eu praticamente tremi de saudades daquela que já considerava como uma irmã mais nova. Então minha atenção foi para outra figura de cabelos brancos. A garota ao lado de Olimpya, seus olhos do mesmo tom que os meus.
Por que tenho a impressão de já a ter visto?
— Valkyon? — a voz de Ykhar transpassou pelos meus pensamentos.
Pisquei, despertando.
— Encantadora, não? — Lysandre comentou, parado ao meu lado.
O quão imerso estive para não notá-lo ali perto?
— Sim – respondi, sabendo de quem ele falava. A jovem de olhos violeta.
— Espero que tenham a tratado bem – retrucou.
Seu tom de voz fez com que lhe olhasse com atenção. Havia um fogo dentro dele, uma ardência em proteger aquela pessoa. Apesar de ser um humano, senti-me intimidado pela sua encarada, como se ele soubesse o modo como tínhamos recebido Olimpya em Eldarya. Algo dentro de mim queria ajoelhar-se e pedir desculpas pelos atos.
— O que você é? — perguntei.
Aquela sensação que transmitia não era comum. Ele não era comum.
— Uma pessoa preocupada com sua amiga desaparecida – respondeu.
Alguém limpou a garganta, interrompendo a repreensão muda que acontecia ali. Repousei o retrato no seu local de origem e voltei para o sofá. Os demais nos olhavam com surpresa.
(…)
Após finalizarmos a explicação de como aquele grupo estranho tinha se atrelado, a cena entre Lysandre e Valkyon tornara-se um pouco esquecida. De fato, tomei a fala e desatei a descrever os fatos que nos encontrávamos como desculpa para preencher o silêncio que se sucedeu.
Vamos lá Kentin, salve a pátria! Pensei, irônico.
Lysandre havia enfrentado o guerreiro sem um pingo de medo. Quando se tratava de sua família ou Olimpya ele tornava-se alguém incrivelmente corajoso e amedrontador. Até mesmo Castiel parava de atormentá-lo com suas piadas e comentários irônicos.
A pergunta de Valkyon ainda estava rodando em minha mente. O que você é? Não quem, e sim o que. E meu amigo havia esquivado de forma esperta. Eu consegui ver que as palavras haviam sido escolhidas com cuidado. Aquela imagem do enterro me veio a mente novamente. Quais são os esqueletos guardados em seu armário, Lysandre?
— O que aconteceu em Eldarya? — o guerreiro pedia para a brownie, a voz tensa – Fomos expulsos de lá sem memória e sem meios de voltar.
O elfo assentiu, concordando. O olhar atento na jovem.
— O Trio Negro tomou posse de Eldarya.
Os dois convidados soltaram maldições em voz baixa.
— A Guarda de Eel foi subjugada. Como medida de segurança deles vocês foram expulsos para cá – ela continuou, agora com uma postura séria – suas memórias foram removidas para que não se tornassem perigosos. Se não sabem quem é o inimigo não poderão retaliar.
Inteligente o plano, tinha que admitir.
— Você disse que tinha um ingrediente importante para resolver isso – comentei, lembrando do que havíamos conversado antes de trazer os dois até aqui.
Ykhar assentiu para mim.
— Na verdade já tenho a poção pronta – respondeu, arrancando suspiro de todos, com exceção do dono do local – Lysandre me deu permissão para usar a cozinha e sua horta, já que ele possui os demais ingredientes aqui. Assim, preparei-a enquanto você os buscava – concluiu. Ela realmente não brincava em serviço – mas antes de dá-la a vocês, quero que me prometam que vão ouvir tudo o que eu disser depois. Existem pontos a serem esclarecidos – disse, agora para seus amigos.
Depois dela se certificar de que a ouviriam, Lysandre buscou duas taças da cozinha e as entregou para Ykhar. A brownie fez os dois derramarem pequenas gotas de sangue em sua respectiva taça antes de beber. O sangue era opcional na poção, mas fazia com que seu efeito fosse mais potente. Afinal, eles estavam sem as memórias durante meses.
Observamos os dois mergulharem em pensamentos recebendo o que haviam perdido. Acompanhando pelo relógio, notei que passaram-se cinco minutos de total inércia até eles voltarem a nós. Ezarel acordou primeiro devido ser um elfo. Sua expressão era de desolação. Havia um embargo em sua garganta, como se segurasse o choro. O outro voltou segundos após. A expressão de Valkyon era tão desolada quanto.
— Leiftan nos traiu – a voz de Valkyon era puro aço.
Havia um ódio misturado com revolta nele a menção daquele nome. O engraçado foi que Lysandre se remexeu na poltrona a menção do dito nome. Ah, eu definitivamente vou pressioná-lo mais tarde. Esconder alguns detalhes pessoais, ok. Porém se tiver relação com esses malucos pode haver uma maneira de ajudar Olimpya.
— Sim, para todos os efeitos ele traiu – ela respondeu.
— Para todos os efeitos? — Ezarel ecoou, confuso.
Ykhar suspirou e mexeu as mãos como se estivesse se preparando para um longo discurso.
— Leiftan é, na verdade, um agente duplo. Ele infiltrou-se no Trio Negro a mando do antecessor de Miiko.
Ezarel soltou um bufo, descrente.
— E ele te contou isso? Ykhar, seja mais prática.
O olhar da brownie foi de desprezo, fazendo com que o elfo se calasse.
— Sempre pronto para me tirar os créditos. Guarde seu orgulho ferido e me ouça – ela retrucou, áspera – e respondendo-te, ele não me contou. Kero ouviu sem querer a conversa entre os dois a vários anos e guardou para si, até que Leiftan foi obrigado a sair da sua casca e nos trair.
— Desculpe – o azulado falou em voz baixa.
Ykhar assentiu, perdoando-o.
— O que aconteceu? — Valkyon pediu, disposto a ouvir todo o lado da história.
Confesso que até mesmo eu estava curioso a respeito desse Leiftan.
— O Trio Negro queria casar Olimpya com Leiftan para assegurar qualquer revolta da nossa parte, fazendo dela uma refém permanente – ouvi Valkyon praguejar, as mãos tremendo em raiva. Lysandre fechara a cara e Ezarel parecia ter provado algo azedo – mas, Kero e eu entramos em contato com Huang Hua clandestinamente e conseguimos armar uma confusão no dia do casamento e assim Olimpya conseguiu fugir.
“Como era de se esperar, eles ficaram furiosos. Em um descuido meu, descobriram a minha interferência e pediram a minha cabeça como pagamento. Fui presa e separada de todos. Tinha aceitado que aquele era meu destino quando Leiftan veio me visitar. No começo achei que era para me fazer falar, assim como os demais guardas tentaram. Mas, ele tinha se disfarçado e isso me fez pensar no que Kero tinha me confidenciado a alguns meses, sobre ele ser um espião.
Ele me contou, sem muitos detalhes, a respeito disso e me fez uma proposta. O Trio Negro o obrigaria a realizar uma promessa de sangue envolvendo minha morte. Então eles enviariam uma carta para Huang Hua e Olimpya dizendo que se ela não se entregasse em um determinado prazo eu seria torturada e então morta.”
— Que desgraçados! — Valkyon que até então manteve-se quieto, exclamou indignado.
— O que é uma promessa de sangue? — pedi.
— É um feitiço que prende a pessoa a promessa feita e caso não a cumpra sofrerá graves consequências – Ezarel respondeu, seu rosto branco – mas, você está viva – ele apontou para Ykhar, notando que a tal promessa não fora cumprida.
— Ele misturou uma pequena parcela do meu sangue com o dele na hora do feitiço. Isso atenuou a pena que ele sofreria ao descumprir. Porém, ainda será extremamente doloroso.
Senti arrepios só de pensar no que esse cara estava fazendo por Eldarya.
— Qual foi a proposta dele? — Lysandre pediu, retomando o rumo da explicação.
— Estamos chegando – ela respondeu Lysandre antes de voltar sua atenção aos dois – o Trio Negro queria matá-los inicialmente, então ele precisou tomar um rumo diferente para que isso não acontecesse.
— Nos mandar para cá – Ezarel completou o pensamento, notando as peças se encaixarem.
— Mas, era perigoso mandar os itens da poção para recuperação das memórias junto de vocês. Leiftan ainda estava pensando num modo de mandá-los para cá quando toda a situação comigo surgiu. Então ele me ofereceu a alternativa de vir ao mundo humano e trazer os principais itens da poção, aqueles que se encontra em Eldarya, para ajudá-los. Eu desaparecia de Eldarya, corroborando a história de ter sido morta e poderia ajudá-los sem levantar suspeitas, onde ninguém se perguntaria em que raio de lugar me meti.
— Uau – comentei, espantado.
Essa pessoa tinha uma mente que trabalhava sem parar.
— Tenho uma pergunta – Lysandre falou, interrompendo o momento de admiração de Valkyon, Ezarel e eu.
— Sim? — Ykhar ergueu as sobrancelhas.
— No seu relato parecia haver a certeza de que você morreria. Conheço Olimpya e sei que ela jamais deixaria alguém morrer por ela.
Franzi o cenho, notando tardiamente o que Lysandre falara. De fato, existia essa presunção que nossa amiga abandonaria a brownie aqui.
— Ah! Olimpya jamais faria isso! Ela seria a primeira a se entregar, eu sei! — ela exclamou, enérgica.
— O que mais ocorreu? — Ezarel questionou, sério.
— Digamos que as pessoas que estavam com Olimpya não tinham planos de deixá-la sair livremente.
— Como assim? — pedi.
— Huang Hua não faria isso – Valkyon comentou.
— Propositalmente não, mas as pessoas em seu conselho sim – ela respondeu, triste – o grupo resistente ao Trio Negro vê na Olimpya uma arma e não pretender abrir mão dela. Assim, é provável que escondessem a informação sobre mim por um determinado tempo, fazendo com que sua entrega voluntária fosse em vão – ela suspirou, os olhos marejando – e de fato ocorreu. Leiftan fingiu decepar minha mão na frente dos homens negros para enviar junto da carta e então me levou para o local de encontro que ela deveria se entregar. O prazo estava passando e ela não vinha. Não fiquei até o final do dia para ver, pois ele precisou me enviar para cá, mas eu já estava dada como morta para todos.
Ezarel levantou-se, agitado.
— Temos que voltar para lá! Ela não é uma arma e sim uma amiga!
Ykhar assentiu, séria.
— Vamos fazer Nevra e Miiko beberem a poção e explicaremos a situação primeiro. Então, daremos um jeito de voltar e ajudá-la – Valkyon colocou as coisas em ordem, levantando-se também – agradeço por ter ajudado Ykhar e a nos reunirmos. Não sei como retribuir – falou, dirigindo-se a Lysandre.
Meu amigo também ergueu-se, fazendo-me imitá-lo.
— Pode agradecer trabalhando na fazenda – respondeu, dando um pequeno sorriso.
— Não era apenas uma desculpa? — Ezarel questionou, erguendo uma sobrancelha.
— Todos aqueles que se preocupam com nossos amigos são bem-vindos aqui – ele retorquiu, indicando qual havia sido o real teste para empregá-los.
O elfo deu um sorriso lupino.
— Além do mais, pegarão alguma doença naquele casebre que estão vivendo e transmitir para nós – zombei.
— Lysandre disse que podemos ficar aqui em troca de ajudar na propriedade – Ykhar complementou.
Então Ezarel ajoelhou-se perto de Lysandre, fingindo chorar.
— Obrigado Mestre! Finalmente uma cama descente. Parece que os humanos não são tão insensíveis assim!
Aquele momento de descontração nos permitiu rir um pouco, esquecendo no momento das dificuldades que enfrentaríamos e sobre uma pessoa querida que precisava de nós. Olhando por cima do ombro para o retrato, fiz uma prece silenciosa.
Fique bem.
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