Electric Heart
14 Está na hora de escolher
Notas iniciais
POV – Thalia
De acordo com Jason aquela seria a última cabana em que passaríamos o dia antes de finalmente encarar Zeus, aquilo fez com que minha barriga gelasse. Eu esperava alguma coisa diferente, com todos os preparativos de Nico para tentar arrumar um exército o rumo em que estávamos tomando me deixava cada vez mais confusa.
Era uma cabana bem maior do que as outras, a beira de uma cidade aonde conseguíamos ouvir pessoas conversando, alguns animais descansavam no quintal atrás da cabana.
Assim que entramos, Jason foi direto a comida, mas antes que eu pudesse seguir esse mesmo caminho, Nico segurou minha mão com delicadeza, me puxando para mais fundo na cabana, conseguia sentir o olhar dos dois que ficaram para trás nos seguindo, mas ninguém se pronunciou.
Entramos em um quarto, coisa que as cabanas anteriores não tinham, mais de um cômodo.
O di Angelo deitou-se nas típicas pelagens que forravam os chãos para dormirmos, indicando que eu me juntasse a ele.
Sentei ao seu lado, mantendo meu corpo de frente para ele, que parecia relaxado. Sua mão acariciou a minha com delicadeza.
— O que quer fazer? — ele perguntou, me fazendo franzir o cenho.
— Como assim? — questionei baixo, avaliando-o na expectativa das coisas se esclarecessem ao o fazer. Nada aconteceu.
— Desde sempre as coisas tem sido impostas a você, mesmo suas escolhas parecem que é sempre entre a vida e a morte, pois essas parecem sempre ser as duas opções que te dão... — ele comentou, parecia reflexivo — a verdade é que você agora consegue sobreviver no mundo lá fora, e ao entrarmos amanhã no castelo de seu pai, na melhor das hipóteses ele acabará morto, ele ainda é sua família e nunca fez nada contra você, quero que decida o que quer fazer, sem apenas duas opções, você é livre a pouco tempo comparado ao tempo que é viva, mas já está na hora de fazer as suas escolhas por conta própria.
— Por que agora? Eu não entendo — aquilo começou a me deixar agoniada, quando conseguia sentir a umidade crescer no ar, as madeiras soavam.
— Porque se ganharmos amanhã você se tornará rainha, precisará fazer escolhas o tempo inteiro, precisará decidir não só o que é melhor pra você, mas para outras milhares e milhares de pessoas que iram te seguir esperando que você tome a melhor decisão para eles, para o seu povo... — Nico suspirou cansado, jogando a cabeça para trás, encarando o teto de madeira antiga. — eu decidi muitas coisas, muito cedo, nem todas as escolhas que eu fiz foram as melhores e nem chego perto de me orgulhar delas, principalmente depois de assumir o reinado do meu pai, mas eu sempre soube o que eu queria fazer por fim, queria tirar meu pai do poder, queria vingança, queria ser alguém que ajudasse o reino melhor do que ele fez e não me importava como as pessoas me olhariam, se elas entenderiam minhas atitudes, minha regras e qualquer outra coisa, mas Thalia, a opção de escolha foi dada a você a alguns meses, e agora uma responsabilidade será posta em suas costas, arrancar a vida de um pai não é fácil, principalmente quando ele não fez nada contra você, você não é obrigada a isso, não é obrigada a seguir viagem com a gente, não é obrigada a se tornar rainha, ou não assumir o trono que legitimamente lhe pertence, não é obrigada a sair vagando sozinha, nem acompanhada, você precisa tomar suas decisões, precisa parar de deixar os outros fazer isso pra você e isso me inclui.
Pisquei desnorteada com o dito, eu realmente estava deixando que as pessoas controlassem minha vida?
Eu me sentia fazendo as escolhas, me lembrava de decidir lutar ao lado de Nico, de decidir que meu pai não merecia continuar vivo, lembrava de decidir não ir explorar mundo a fora, eu me lembrava de ter feitos diversas decisões, mas agora eu me sentia apenas concordando com as coisas.
Tinha seguido os outros até ali, simplesmente seguindo cada dia que se passava sem realmente pensar muito nas coisas, nas consequências, mas como eu saberia o que eu queria? Eu nunca pude pensar desse jeito.
No berço fui arrancada da minha família, passei anos até estar grande o suficiente para ser vendida, me tornando escrava aonde se eu queria viver tinha que dar o melhor de mim, ser boa o suficiente para que todos gostassem de mim, então tudo foi destruído em questão de minutos por Nico, novamente me tornei uma escrava que precisava sobreviver, tinha deixado claro que o faria, tinha deixado claro pra mim e para o di Angelo que eu faria o necessário e isso era ser interessante para o moreno.
Curiosidade movia ele, ele queria saber o que eu tinha de diferente, então mesmo não tendo nada de diferente, pelo menos não até descobrir minha linhagem eu fiz o que era preciso para me tornar instigante, para que isso o fizesse me querer viva. Então nosso relacionamento aconteceu, ao mesmo tempo em que eu tinha visto um lado dele que eu amava, ainda tinha o lado selvagem, agressivo, controlador, um lado que eu precisava manter distante de mim para sobreviver da melhor forma possível.
E tinha a oportunidade de simplesmente sair. Era o que eu estava batalhando, mas eu já não tinha Percy na época, nunca tinha conhecido o lado de fora, e novamente eu tinha a opção de sobrevivência, Nico já tinha deixado claro que me protegeria e que me deixaria viva, mas para isso eu precisava estar com ele, mesmo não afirmando isso, era verdade, distante, em uma floresta, explorando áreas que eu nunca sonhei em conhecer ele não teria como cuidar de mim, provavelmente me tornaria escrava de novo antes de conseguisse ponderar voltar, sem falar que o medo de dizer que eu queria ir embora me assustava, e se aquela fosse a resposta errada, o que aconteceria.
Concordei com tudo até chegar aqui, mesmo me impondo da melhor maneira que eu podia, um fato era certo, eu queria sobreviver, não conhecia nada do mundo, não conhecia nada das batalhas, mas eu sabia que pessoas eram cruéis, faziam o que queriam, quando queriam e eu não podia lidar com isso sozinha.
Encarei o rosto de Nico, ele não exibia nada, acho que para não me manipular a tomar uma outra decisão por base do que ele queria. Seu rosto era completamente inexpressível naquele momento, os olhos negros me observavam cautelosos, nenhum movimento brusco como se soubesse o que eu estava pensando, que refletindo bem eu realmente estava me tocando da situação que ele tinha dito.
Suspirei, me levantando de cabeça baixa e sai em direção a mesa de comida sem falar nada, apenas o deixando ali, precisava me alimentar, precisava refletir.
Annabeth estava deitada em um canto, sua barriga virada para cima e seus olhos fitando o teto como Nico tinha ficado por boa parte do tempo enquanto falava, mas ela esbanjava tranquilidade, como se não estivesse nenhum pouco preocupada com a batalha que enfrentaríamos amanhã, ela tinha escolhido estar ali.
Jason comia com calma uma cocha de frango, seus olhos vagavam pelo chão pensativo, mas ele também estava tranquilo, novamente ele tinha escolhido estar ali. Caminhei até a mesa, pegando um pedaço do frango e levando a boca, vendo meu irmão me encarar e sorrir minimamente, antes de voltar o olhar para o chão.
Meu irmão. Era tão estranho pensar que eu tinha uma família. E que eu poderia gostar dela. Assim como a primeiro momento eu tinha achado Nico um monstro, eu tinha pensado a mesma coisa de Jason, de Annabeth e do meu pai.
Suspirei me sentando ao lado do Grace, que deu mais uma mordida em seu frango.
— Por que não quer governar? — inqueri baixo, o vendo dar de ombros.
— Acho que quero viver minha vida com minha esposa sem ter que me preocupar com o que os outros estão fazendo ou pensando e principalmente sem ter que talvez carregar o peso de uma decisão errada que pode quem sabe destruir o reino e as pessoas que confiam em mim, esperam que eu concerte tudo e garanta a segurança de cada um.
— Eu não quero esse peso — admiti, o vendo sorrir e assentir compreensivo, afinal ele tinha tido todo o treinamento para assumir o cargo do pai quando Zeus morresse, eu não.
— Não assuma, não é obrigada, se não quer governar renuncie ao trono, dê ele a alguém que ache que mereça — mordeu novamente o frango se recostando na parede. — Ser da realeza é um porre, é claro que nos livra de muita coisa ruim, mas também abre as portas para diversas outras, um universo inteiro de merda e pressão, mas mesmo assim acho que você seria uma boa rainha, precisa apenas começar a pensar por si só.
— Você também — torci o nariz e ele riu.
— Foi isso que o di Angelo foi falar com você? Para começar a decidir as coisas por si só? — ele indagou, me vendo assentir e seguindo tal movimento.
— É, é uma boa hora pra isso, a escolha que você fizer vai definir grandes coisas em seu futuro — e com isso ele se levantou deixando o osso limpo em um prato vazio. — Agora vou dormir, boa noite!
— Boa noite! — disse e ele assentiu, caminhando até alguns dos panos peludos para se acomodar e fazer o que tinha dito que faria, me deixando ali sentada pensando em um milhão de coisas com um fato claro em minha mente, se eu conseguisse dormir seria um milagre.
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