Notas iniciais
Os acontecimentos daqui tomam parte depois da fic "Quando chega no limite". Altamente recomendo ter lido anteriormente, não tenho certeza se ela faz sentido se lida separadamente, mas se assim desejar, tudo bem. Vou deixar o link desta lá em baixo. Boa leitura! :3 Essa fic foi inspirada na música She, da Doodie Clark/doodleoodle ^^

O bom de ser vice-presidente da sala era que o presidente automaticamente se tornava seu pseudo-amigo. Caso você fosse um ótimo vice-presidente, e o presidente em questão nem aparecesse direito na escola, ele provavelmente te deve favores igual a um amigo de verdade.

A vantagem de Kylo Ren ser vice-presidente era que ele podia pedir favores e o presidente, sem querer perder seu posto e privilégio, fazia tudo o que ele mandava. Isso também incluía entrar nas mentiras sobre ter reuniões do conselho estudantil e às vezes até precisar de uma casa para dormir quando ele não aguentava mais o clima da própria casa.

Em um desses dias, quando Kylo Ren descobriu que Hux ficaria até mais tarde na escola devido à substituição do professor de sociologia (Hux era bom em tudo, principalmente em doutrinas e dogmatismos), ele decidiu falar com o presidente e pedir autoritariamente que ele falasse para seus pais que o mesmo chegaria tarde em casa por causa de alguma reunião. Kylo sabia que era errado, no entanto, não eram muitas chances que ele tinha de ganhar alguns momentos com seu professor fora do horário escolar.

Se tivesse sorte, ele e Hux poderiam ir até a cafeteria dos primos da supervisora Phasma e ter um “encontro”. Eles nunca tinham um encontro de verdade, até porque ainda não podiam admitir que estavam namorando. Isto é, se estivessem namorando. Kylo nem sabia o que eles eram, mas eles não se importavam muito com isso no momento: o importante era a companhia e a presença; títulos vinham depois.

Eram seis e meia da tarde e Kylo estava quase se fundindo com a estante mais abandonada da biblioteca – a seção musical dos anos 90 -, esperando que o último sinal do dia tocasse para que ele parasse de se esconder e encontrar-se com Hux.

Quando o som estridente cortou seu tédio e seus pensamentos nada apropriados, Kylo se pôs de pé em um pulo e quase tropeçou nas próprias botas sem cadarços, tamanha sua ansiedade.

Embora eles se vissem quase todo dia na macieira perto do prédio do ensino infantil, isso não era suficiente para suprir toda a necessidade de um jovem de dezessete anos e um jovem adulto de vinte e um, precocemente dando aulas e amaldiçoado com os melhores e piores alunos que poderia imaginar conhecer. O destino às vezes nos traz situações deveras interessantes.

Kylo olhou de um lado para o outro a fim de ver se seu Tio Luke estava por perto. Ele não morria de amores por ele como os amiguinhos bobos de Rey faziam. Ele sabia muito bem como aquele velho podia ser inconveniente, principalmente se tratando dele mesmo – Kylo sabia muito bem como cuidar do cabelo fabuloso, obrigado, e não, não era ensebado.

Como não vira nada fora do comum, andou gatuno entre as estantes, se escondeu nas sombras de fim da tarde por precaução e em poucos minutos já estava na porta, correndo para a liberdade e para os braços de Hux que o esperava no portão de trás da escola.

Não literalmente, obviamente, mas o sorriso contido que Hux dera quando o avistara valeu por todas as poucas palavras que Kylo já ouvira sair de sua boca (palavras completas, pelo menos, as incompletas ou interrompidas não contavam, ainda que fossem muitas). Eles se olharam por um momento, e Hux recuou alguns passos até chegar no ponto cego da câmera de entrada e sinalizar para que Kylo fosse até ele.

O mais novo consentiu com um sorriso no rosto, um de seus raros sorrisos sinceros. Ele sentiu as mãos de Hux envolvendo suas maçãs do rosto e logo seus narizes se encontraram, provocando cócegas. Não demorou muito tempo para que ambos os lábios finos tocassem um no outro, em uma carícia leve. O estudante até queria aprofundar o beijo, contudo eles ainda se encontravam na rua, então aquilo deveria esperar.

Eles se separaram de olhos abertos, cada um com suas cores observando o que o outro dizia com seu silêncio e seu brilho. O negro de Kylo demonstrava sua felicidade, o verde de Hux apresentava sua mascarada satisfação. O mais novo sempre fora o mais sincero, e o professor, ironicamente, precisava aprender a ter essa facilidade de se expressar.

Seguiram lado a lado na calçada, a uma distância que os irritava e não era suspeita para os que observavam. A cafeteria não era muito longe, o dia ainda estava cedo. Talvez eles finalmente tivessem um encontro completo antes que os pais de Kylo ligassem ou Hux se lembrasse de qualquer compromisso ou dever que ele precisava atender.

O problema começou quando eles entraram e cumprimentaram um dos inúmeros parentes da supervisora loira da escola. Eles logo avistaram as duas últimas pessoas que eles sonhavam encontrar por ali a essa hora. Uma delas era Poe Dameron. A outra era o Finn, órfão e sem sobrenome, criado por Amidala III. Os dois compartilhavam um beijo molhado e causador de vergonha alheia a qualquer um que olhasse a mesa mais óbvia para casais que frequentavam o café e queriam se pegar “discretamente”.

Hux fez uma cara de desgosto, ele nunca gostou de demonstrações de afeto. Agora Kylo sorriu perverso, guardando aquela informação para usar contra eles quando os tempos ficarem difíceis. Ele sempre esperava pelo momento certo para fazer esses movimentos arriscados, sendo que seu único ponto fraco era o ruivo que estava distraído fitando as obras de arte feitas com pedaços de peças mecânicas de modo que evitasse fazer contato visual com o casal da mesa do canto.

O estudante agarrou o antebraço do mais velho, puxando-o para a mesa de sempre em frente à janela perto da cozinha. Era um canto ligeiramente escuro e que ninguém passava a não ser os garçons. Como os garçons eram muito calados – constatação quebrada apenas quando alguma mulher bonita chegava desacompanhada -, era um canto bem tranquilo e perfeito para os dois. Kylo gostava de apelidar aquele lugar como “nosso canto”, apenas para desencargo de consciência.

Eles se sentaram, pediram uma bebida quente, e logo estavam se encarando novamente. Sorrisos de canto e conversas silenciosas se seguiram, em uma paz que você não saberia dizer se eles eram amigos de longa data ou namorados de mais de cinco anos. Uma aura os cercava, e impedia qualquer pessoa de se aproximar.

Pouco a pouco Kylo foi passando para a cadeira ao lado, ficando próximo do mais velho. Eles se tocaram de novo, aprofundando o beijo dessa vez.

Kylo Ren cheirava a erva-limão e a sono. Ele tinha gosto de suco de maçã e de pêssego. Ele gostava secretamente de pegar emprestada a Polaroid da mãe e tirar fotos no espelho, com a paisagem de sua janela ou de seu quarto aparecendo por trás.

Naquele dia, Kylo tinha gosto de bolo de aniversário e de histórias não contadas e do outono que se aproximava.

Hux naquele momento queria ter coragem de dizer que ele significava muito, mas ainda não sabia como se expressar.

Kylo esperou algum comentário, e seu sorriso morreu quando, ao fim do beijo, Hux disse que não podia ficar por muito tempo. Ele não sabia se foi ali que o negócio do karma começou, mas definitivamente o gosto de limão em seus lábios não saiu até de noite, quando após o banho ele lavou a boca para se redimir de tudo que ele podia ter falado de errado.

Quem sabe a macieira floresceria naquela estação, simbolizando a vida, o amor, a imortalidade e a juventude de uma relação que ainda estava germinando.

Notas finais
Link da primeira parte: https://fanfiction.com.br/historia/680994/Quando_chega_no_limite/Vai ter uma continuação, só que ela não está pronta (ainda). Eu quero evitar sofrer. Vai acontecer muita coisa. E não garanto que será coisa boa como essa e.eEspero que tenham gostado, expressem uma opinião se quiserem.Até ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!