Ele Não Sabia

1 Ele Não Sabia o Porquê


E como era frustrante!

Ele olhava todos ao redor, focados, sérios, aqueles lábios perfeitamente retos, como aqueles que não sabem o que é um sorriso, sem aquelas ruguinhas nos cantos dos olhos ou ao redor da boca que geralmente são um sinal de felicidade em excesso – o único excesso que, talvez, ele achasse bom –, então sempre tinha a impressão de que sentia falta de alguma coisa. E aqueles olhares baixos? Céus, as pessoas não se atreviam a olhar para cima, talvez porque as janelas, posicionadas naquelas monótonas paredes cinzas que fechavam o cerco em todo o espaço, estavam muito altas, muito altas mesmo, então as cabeças não se atreviam, ou talvez tivessem preguiça, a se levantar para encará-las. Não que houvesse algo de interessante naquelas aberturas para o mundo exterior; na verdade, o que se via eram mais prédios, não muito diferentes daquele em que ele e mais todas aquelas pessoas se encontravam, exceto pela cor das paredes e pelo posicionamento das janelas. O cerne, em si, era o mesmo. Aquela mulher que sentava lá no canto, bem lá no canto, isolada atrás da tela de seu computador e com a mesma expressão que todos adotavam no momento, era a única que tinha a chance de ter um vislumbre do céu e dizer de que cor ele estava, mas ela também não se atrevia a fazer isso, ah, não. O que quer que acontecesse no seu computador era bem mais interessante do que o céu, estando ele ensolarado ou não.

Aliás, ele às vezes se deparava pensando que a única janela capaz de interessar a todos era aquela que estava em seus computadores. Muitos abriam várias delas, deixando uma planilha aberta a um canto, mais um link do youtube em outro, coisas do tipo. Já ouvira falar de gente que assistia pornografia no trabalho, mas ele nunca se atrevera a isso, até porque sua posição no escritório não era das mais privilegiadas, o que significava que a janela que era a tela do seu computador era às vezes assistida não só por ele, mas por todos aqueles que passavam no corredor também. De qualquer forma, quaisquer que fossem os interesses daquelas pessoas vestidas em cinza, azul, branco e preto – havia uma mulher que gostava de se vestir com vestidos floridos, vestimenta que talvez fosse a única responsável por trazer um pouco de alegria e cor ao ambiente –, eles estavam todos sendo mostrados nas telas dos computadores.

Por conta disso, ninguém erguia a cabeça para conversar um com o outro tampouco, até porque, pelo menos assim ele imaginava, ninguém tinha assunto com ninguém. Porque ninguém se conhecia. Quer dizer, a faceta que ele, por exemplo, conhecia do cara que se sentava à sua frente era aquela que ele mostrara quando precisaram resolver juntos um problema relacionado ao trabalho. Ele tinha iniciativa e garra, costumava bater a mão na mesa com força toda vez que encontrava uma boa solução, mas longe desse cenário ele dificilmente abria a boca. Exceto nos horários de almoço e durante a pausa para o café, que acontecia umas boas vezes durante o dia, tempo que ele supunha somar quase uma hora, sem exageros. A propósito, esse costume não pertencia só ao cara que se sentava à sua frente, mas a todos os outros ao seu redor também. Se beber café e se manter em silêncio era uma doença, ela contaminara grande parte daquele escritório.

Outro momento em que as pessoas gostavam de abrir a boca era para falar ao telefone. Quer dizer, não eram muitos aqueles que trabalhavam ou que precisavam de um telefone, mas aqueles que tinham acesso a um costumavam falar alto, aos brados, como se fechassem importantíssimos negócios, apesar de só trocarem informações bastante simples sobre trabalho, produtos, serviços, coisas do tipo. Do contrário, essas pessoas falavam aos sussurros, porque o que quer que tinham para resolver e que nada tinha a ver com o trabalho deveria ser mantido em segredo de Estado, como se aquelas vidas medíocres de acordar cedo, se arrumar, enfrentar o trânsito e ir “trabalhar” tivesse algo bastante relevante que não podia ser revelado para o universo. Ele mesmo não se interessaria em ouvir o que aqueles sussurros queriam dizer, mas mesmo o ser humano mais desinteressado acaba apurando os ouvidos quando pressente que algum segredo está sendo contado. É natural, como um instinto.

Fora essas ocasiões, as pessoas tinham outro hábito bastante curioso, que era o de conversar de um jeito que, para ele, era engraçado: elas digitavam. Passavam dias e dias e horas e horas inteiras digitando, conversando em falso silêncio, já que, apesar de seus lábios estarem selados naquelas caretas sérias, os dedos, ao apertarem as teclas do teclado, compunham uma verdadeira sinfonia. Era um som que, se ouvido com atenção, poderia levar alguém à loucura, inclusive a ele próprio, que vivia a dizer que era um rapaz paciente. Talvez não fosse tanto, mas sua rotina monótona de acordar cedo, se arrumar, enfrentar o trânsito e ir trabalhar não lhe fornecia muitas oportunidades de “agir” realmente.

Mas havia aqueles ao redor que agiam, sim, e eles estavam vestidos com aquelas mesmas roupas brancas, pretas, azuis e cinzas e costumavam falar aos brados também. Falavam sobre o trabalho que faziam com a desenvoltura de um palestrante bastante experiente. Seguravam folhas de papel como se fossem troféus e, se não fosse esse o caso, balançavam o conteúdo de um copo de café como se esse fosse capaz de lhe conceder credibilidade. A outra mão geralmente estava no bolso e o olhar ganhava um aspecto severo, com aquelas sobrancelhas curvadas para baixo, como se a pessoa vivesse em um constante estado de estresse e aquela conversa, apesar de proveitosa, lhe fosse um verdadeiro tormento. Pois é, ele também acreditava que eles acreditavam que esse marra toda trouxesse credibilidade a uma fala.

E os horários de almoço eram uma atração à parte! Se não fosse a comida e sua deliciosa dança sobre a língua, ele imaginava que fosse morrer de tédio. As pessoas falavam sobre trabalho como se esse fosse um assunto interessante, mas ele não conseguia entender como elas conseguiam pensar daquela forma. Não fazia sentido para ele. Será que elas não percebiam que estavam discutindo algo que tinha pouca ou nenhuma importância para o mundo? Quer dizer, tudo bem, lucro, despesas, dinheiro e tudo mais fazem parte do funcionamento do mundo, mas aquelas discussões em particular pareciam não fazer nem mesmo uma cócega no curso do universo. Era como se as pessoas estivessem contentadas em levar o mundo do jeito que ele é, como se não se importassem em talvez mudá-lo algum dia. Era incrível.

Era incrível, mas ele ainda assim não entendia. E as pessoas gostavam daquilo, porque, do contrário, não passariam tantos anos repetindo todos aqueles rituais, passariam? Talvez passassem. Porque os tempos modernos criaram um mundo onde ser feliz e fazer as coisas que gosta não é uma opção realmente, mas um sonho. Um sonho que, muitas vezes, pode nunca vir a se tornar realidade, mas tudo bem. Esses tempos tornaram a todos seres pessimistas, que se contentam em pensam que felicidade é um estado de espírito pouco duradouro, e não um estado para a vida inteira. Contentam-se com a ideia de que boas coisas só podem ser compradas, e não criadas ou sentidas.

Por essas e outras que ele sentia tanta frustração a cada dia que passava. Sabia, ou pelo menos suspeitava, que aquele não era o seu lugar. Só não tinha certeza se devia fugir do interior daquelas paredes cinzas ou do mundo como um todo, afinal, nunca tivera chance de conhecê-lo de verdade e fazer a comparação entre aquele fragmento de espaço em que se encontrava e os outros lugares para os quais o sol também brilhava. Um vislumbre nas fotos de sites de busca e também nas de noticiários não supre a necessidade de alguém de experimentar novos lugares com a presença e saber se, afinal, a vida em todo o mundo é tão medíocre quanto aquela que a gente assiste acontecer no dia-a-dia.

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