Ele
1 Ele
O que eu mais amava nele era a sua disciplina. A maneira como ele se portava, sempre muito digno e correto. Ele nunca desistia, e sempre fazia o que deveria fazer, o que se comprometera a fazer. Assim como a sua vocação, aquilo parecia fazer parte do seu próprio ser. Ele nunca gostou de surpresas, e sempre foi muito previsível. Para os meus amigos, aquilo significava uma chatice sem tamanho, mas eu gostava que ele fosse assim. Que sempre fosse o primeiro a levantar a mão e se oferecer para fazer alguma coisa, e que realizasse as suas funções de maneira rígida, como se esperava que ele fizesse. Como militar, como filho, como namorado. Ele era o que era, e não havia nada secreto por baixo de seu jeito simples e leal.
O que eu mais amava nele era a maneira como ele fazia com que eu me sentisse protegido. Eu sabia que sempre poderia contar com ele, independente do que fosse, já que para ele eu era a pessoa mais importante do mundo todo. Se eu estivesse errado ele me falaria isso, mas antes de tudo ele me defenderia. Se estivéssemos na chuva, ele me deixaria caminhar debaixo da marquise, e sempre me ofereceria o banco da janela, longe do alvoroço do corredor. Ele sentiria fome, frio e desconforto, mas jamais demonstraria. E ele se sentia feliz assim, sendo ferozmente protetor.
O que eu mais amava nele era a sua dedicação. Ele ofereceria tudo e não exigiria nada além do justo em troca. Se trabalhava, estava satisfeito em receber o seu salário de sempre, sem exigir um bônus ou aumento, mesmo que tivesse ficado trabalhando até muito tarde durante várias ocasiões. Se ajudava com as contas na casa dos pais, se contentava com o almoço da mãe no domingo e com um cafezinho no fim da tarde. Se me amava e me protegia, ficaria feliz se eu apenas fosse leal a ele, e que demonstrasse carinho uma vez ou outra. Eu lhe pagava em excesso, é claro, mas isso nunca foi algo que ele exigiu ou tomou como certo.
O que eu mais amava nele eram seus gostos. A tradição parecia estar em seu sangue, e ele sempre gostava das mesmas coisas feitas da exata mesma maneira. Isso não o impedia de experimentar coisas novas, é verdade, mas se possível ele sempre faria a escolha a segura. Apostar não era algo de seu feitio. O suco tinha sempre o mesmo sabor, uva, e cebola jamais seria uma escolha em seu cardápio. Apesar disso, se o que estivesse disponível para ele fosse um suco de laranja e uma salada recheada de cebolas, ele aceitaria de bom grado e pagaria a conta sem nenhum remorso. As roupas eram sempre as mesmas, e a sua farda deveria ser levada à mesma lavanderia por anos a fio. Os seus programas de TV eram cancelados, mas ele os acharia na internet e os reassistiria à exaustão.
O que eu mais amava nele era o seu corpo. A maneira como suas bochechas ficavam exageradamente vermelhas quando ele realizava algum esforço físico, e como o suor escorria delicadamente de suas têmporas. Eu amava os seus cabelos militarmente curtos e da cor de areia, um pouco arrepiados na parte de trás, e com fios finos e macios como o cabelo de uma criança. Eu amava a sua (falta de) barba, e o seu meio sorriso, com lábios finos e um jeito bem característico de pronunciar as palavras. Eu amava especialmente os seus braços, um pouco pálidos e com ralos fios claros espalhados por toda sua extensão, que ficavam arrepiados quando eu lhe fazia carinho. Eu amava as suas mãos, grandes, mas bastante macias e quentes, e amava quando elas tocavam o meu rosto ou tocavam as minhas próprias mãos, num abraço que fazia com que eu me sentisse bem.
O que eu mais amava nele, eu amei logo no dia em que nós nos conhecemos. As suas sobrancelhas (finas e claras, quase imperceptíveis) estavam um pouco arqueadas, enquanto ele pregava um aviso qualquer num quadro verde na recepção do hospital do quartel. Eu amei quando ele se mostrou prestativo quanto à minha tarefa de escrever sobre o local para uma revista, e amei quando ele me guiou pelos corredores históricos. Eu amei como ele fazia questão de manter contato visual comigo durante todo o tempo, e amei ainda mais quando ele me puxou pela mão quando me disse que o parque que ficava atrás do hospital era o seu lugar preferido ali. Quando eu estava indo embora, sentindo um aperto no peito por estar deixando para trás alguém que povoaria os meus sonhos, eu não pude conter a minha empolgação quando ele perguntou se eu não queria lhe deixar o meu número. Você sabe, caso precisasse de mais alguma informação sobre o hospital. Eu tentei esconder o meu desejo íntimo de empurrá-lo para dentro de uma daquelas velhas e vazias salas e arrancar a sua boina, e escrevi o número em um pedaço de papel do meu bloco de notas. Nos despedimos de maneira estranha, e assim que entrei no carro recebi uma mensagem que me fez sorrir sozinho de maneira boba.
No nosso primeiro encontro ele pediu suco de uva e o seu sanduíche sem cebolas. Conversamos durante horas a fio, e nem uma única vez nós mencionamos o que estava metalinguisticamente acontecendo ali. O fato de ele ser disciplinado, rígido e convencional não o eximia de ter um senso de humor um pouco antiquado, mas eficaz o suficiente para me fazer sorrir. Quando eu posteriormente contei aos meus amigos que estava saindo com um militar, e que durante o nosso primeiro encontro nós apenas (relutantemente) demos as mãos, eles fizeram piada da situação. Mas eu amei, e eu comecei a amá-lo antes mesmo daquele momento. Algumas vezes eu sinto que o amei desde o começo, desde antes de ele existir. Eu o amava nas outras pessoas, e então eu o encontrei, todos os pedacinhos que amei durante toda a minha vida, unidos em um só ser.
Ontem, durante o seu enterro, eu ouvi uma garota magra e delicada dizer que ela conhecia ele desde quando eles eram pequenos, e que sabia muito sobre ele. Ouvi quando ela disse que ele era espontâneo e extrovertido, e contive meu protesto quando ela falou da ambição dele em tentar coisas novas. Ela elogiou suas mãos, seus gestos, até mesmo o seu beijo, muito diferente do que os beijos que ele me dava. Mas afinal de contas, para toda a família dele que não o conhecia realmente, aquele era ele. E eu não tinha o direito de apresentá-los a quem ele realmente era, porque isso significaria contar que éramos um casal, o que estava fora de cogitação. Ele viveu sendo quem deveria ser, e era assim que deveria continuar.
Algumas vezes eu penso que fui a única pessoa do mundo inteiro a realmente conhecê-lo por inteiro. A saber o que lhe dava prazer e do que ele não gostava. A entendê-lo e a amá-lo incondicionalmente, todas as qualidades e todas as falhas. Será que a mãe dele sabia que ele usava o mesmo perfume desde que era um adolescente, e que não gostava de uma marca específica de shampoo? Será que o seu irmão sabia que, apesar dos pesares, ele gostava de assistir futebol na televisão, e que sonhou, um dia, em ser um jogador? Será que a garota magra do velório sabia que uma leve penugem de pelos cobria a sua lombar, e que eu sabia daquilo porque ele dormia de costas, com o rosto virado em minha direção?
Nós seremos esquecidos, disso eu tenho certeza. A nossa história de amor, épica guardadas as suas proporções, nasceu e morrerá conosco, quando eu me for. Os livros de história nos esqueceram, e a bíblia nos condenou. Eu queria gritar para o mundo inteiro que ele foi a melhor pessoa que já existiu na face da Terra, mas não faria diferença. Só eu o conheci por inteiro, em seu âmago, e só eu tive a capacidade de amá-lo com cada célula do meu ser.
É por isso que, hoje, eu escrevo. Para eternizá-lo nesses pequenos e torturantes minutos em que o descrevo com dolorosa nostalgia. Não tenho a pretensão de que os que leiam consigam compreendê-lo por inteiro, mas o meu ego exige que outros saibam. Que saibam que alguém tão espetacular como ele me deu o privilégio de ser o seu objeto de afeto, e de poder chamá-lo de meu pela breve eternidade em que ficamos juntos.
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