Eldarya - Promessa de Sangue
1 Prólogo
Eu sempre gostei de vagar pela floresta. Para mi, é o lugar mais relaxante do mundo. Eu posso descansar lá ou apenas pensar na vida. Nas minhas escolhas. E, sinceramente, isso era o que eu mais precisava naquele momento. Eu estava prestes a terminar meus estudos e ingressar no mercado de trabalho: aprender novas regras, novos meios. Aquilo era assustador, e eu não sabia se estava pronta. Não realmente. Eu estava prestes a entrar em um novo mundo e mal sabia se poderia sobreviver a ele. Não queria me tornar aquelas pessoas que apenas seguem o fluxo como um peixe morto.
Havia um pequeno bosque atrás do parque do meu bairro. Era tranquilo ali, apenas com a presença dos pássaros. Apesar de ser cercado, alguém antes de mim havia se dado o trabalho de arrebentar a cerca da forma mais discreta possível, mesmo se ninguém tivesse o interesse de ir para aqueles lados. A única presença viva ali, no momento, era a dos pássaros, e alguns até construíam seu ninho num galho acima da minha cabeça, me ignorando como se eu fosse mais uma das árvores dali. Outros animais como esquilos ou lebres também eram comuns por ali, ou pelo menos era isso que dizia na entrada do parque, abaixo de um letreiro em letras garrafais e amigáveis “não alimente os animais”. Eles não estavam ali, provavelmente assustados com os meus passos ou com outra coisa que eu não percebi.
Foi quando notei uma espécie de cogumelos que eu nunca tinha visto antes. Eles estavam dispostos de uma maneira estranha, e me aproximei para ver melhor. Eles haviam se enfileirado para formar um círculo perfeito, como se, talvez, alguém os tivesse plantado ali daquela forma. A grama do centro parecia mais verde e recente do que o restante por onde eu havia andado até agora. Era o lugar perfeito para descansar.
A partir do momento em que entrei no círculo, vagalumes apareceram começaram a voar em volta de onde eu estava. Aos poucos, uma luz diferente da fraca luz dos vagalumes brilhou à minha frente, e por alguns segundos minha visão se perdeu. Era como olhar para o sol. Pisquei algumas vezes para me acostumar com a luz ofuscante. Eu podia ver algumas formas e cores em torno de mim, mas a floresta havia sido substituída por algo completamente diferente, longe de tudo que eu podia ter conhecido ou visto em toda a minha vida.
Eu estava em uma grande sala estranhamente decorada com pedras e materiais que eu não conseguia identificar. Eu olhei em volta várias vezes na esperança de encontrar uma explicação para tudo isso até que, de repente, tive uma sensação de vertigem. Eu podia muito bem ter sido abduzida e estar numa nave alienígena apenas esperando a minha morte.
Então, notei um cristal estranho no meio da sala. Senti uma imensa atração pelo fraco brilho que emanava da rocha. Lentamente, me aproximei, subi as escadas e estendi minha mão para tocá-la. Meus dedos tremiam quando apenas poucos milímetros nos separavam.
— Hey! — eu me virei de uma vez, surpresa — Quem é você? Como você chegou aqui? — eu simplesmente não conseguia falar. Uma mulher havia agarrado meu pulso tão rapidamente quanto o soltou e, que Deus me ajude, ela tinha orelhas de gato. Orelhas de gato de verdade. Mas aquilo não era o mais estranho até o momento. Ela também segurava um cajado com uma gaiola, mas não havia um pássaro lá dentro. Era inútil. — Eu te fiz uma pergunta! Você faz parte dos Templários? Dos Maçons, talvez?
— Espere! Eu não sei do que você está falando!
— RESPONDA! — ela estava brava. Não, ela estava furiosa. Eu acabei descobrindo da pior maneira para que a gaiola servia quando um fogo azul simplesmente saltou da mesma para a mão da mulher/gato/sei-lá-o-quê. Aquilo era um sonho. Poderia muito bem ser um pesadelo. Talvez eu tivesse comido alguns daqueles cogumelos sem perceber.
— Eu estava na floresta andando, de repente apareceu uma luz e... Ah! — e tudo pareceu tão obvio — Eu já entendi! É uma pegadinha, certo? Há uma câmera escondia aqui e tudo o mais.
Era a única explicação. Ao menos, a única plausível. Na pior das hipóteses, era a única que eu tinha. Então eu comecei a rir nervosamente enquanto a mulher me encarava. Pelo menos ela não “segurava” mais o fogo. Olhei ao redor, procurando a tal câmera escondida. A sala era enorme, e ela poderia estar em qualquer lugar. O desespero foi batendo quando não vi nada. De repente, ouvi um barulho.
— O que aconteceu?! — A mulher olhou para mim, novamente furiosa.
— Não fui eu, eu juro!
— Jamon, faça o que tem que fazer. Você sabe o procedimento. Nós vamos lidar com ela mais tarde. Vou ver que barulho foi esse.
“Jamon?”
A mulher-gato saiu sem falar mais uma palavra. Em seguida, algo ficou de pé diante de mim, bloqueando a minha visão. Uma parede. Ou melhor, um torso. Ergui a cabeça para ver o que era aquilo. Ele passou por mim, e era como um homem-javali. “Há animais demais por aqui”, pensei. Ele fez um tipo de escolta à minha frente. Por fim, me perguntei como não havia notado a sua presença ali antes. Será que ele era do tipo grande e furtivo?
Ele devia ser o tal “Jamon” que a mulher falou antes. Ele tinha uma cabeça de porco ou de javali, e tinha mais massa muscular que um lutador mexicano. De repente, ele me agarrou pelo pulso e me puxou para fora da sala.
— Hey, seja menos bruto. Você está me machucando! — ele não fazia mais que grunhir — Me solte!
Continuei insistindo, mas ele não mudava. Minhas tentativas de me soltar eram completamente falhas, assim como as vezes que tentei causar alguma dor a ele. Ele era como rocha. Então parei de me debater, sabendo que era uma causa perdida. Passamos por várias partes estranhas antes de chegar á um lugar mais escuro, sem janelas. Lá havia uma escadaria que parecia nunca ter fim. Nós teríamos que descer tudo aquilo?
Sim.
Eu nunca desci tantos degraus em toda a minha vida. Nem se eu somasse todos os degraus que já desci, poderiam ser apenas metade dos degraus daquela escadaria. Minhas pernas doíam e meu pulso estava dormente sob a pata do Presunt... digo, Jamon. Quando finalmente paramos, ergui a cabeça para ver onde estava. Não bastasse a fadiga por descer tantos degraus, ele me jogou dentro de uma espécie de jaula flutuante, um calabouço.
— Não se mover daqui. — ele finalmente disse, numa espécie de linguagem primitiva.
— Espere, você não vai me deixar aqui, né?
— Miiko disse “não se mover”.
— Mas eu não vou conseguir, de qualquer jeito. — ele ignorou e saiu, subindo pela mesma escadaria por onde descemos. Do fundo do meu coração, eu esperava que ele tivesse cãibra no meio do caminho. — Espere, isso não é engraçado! Volte aqui!
Por favor...
O pouco de otimismo que eu tinha começou a desaparecer. A hipótese de uma câmera qualquer escondida tornou-se mais ridícula. Se bem que eu já havia descartado isso antes. Eu ainda não sabia onde estava, e sabia que não seria fácil encontrar o caminho de volta para casa. Eu sequer sabia como havia chegado ali. Eu estava presa. Trancada no lugar mais sombrio possível.
Havia um lago ali. Um lago verde. Extremamente verde, do tom das coisas tóxicas que aparecem nos desenhos. Também havia cogumelos, mas eu evitava olhar para eles. Informação demais. Quando eu achei que minha situação não podia piorar, uma “sombra” apareceu na margem do lago à minha frente. Um calafrio me percorreu. Essa “coisa” parecia me encarar. Lentamente, cambaleei e cai sentada no chão da minha sela. Eu iria servir de petisco para aquilo?
Felizmente, para mim, “aquilo” não parecia estar com fome, e voltou para dentro do lago num mergulho. Se eu conseguisse sair dali, não tentaria uma fuga pelo lago. Eu poderia acabar virando algo pior que aquela sombra.
Tremendo, encostei minhas costas no ferro frio da gaiola e permaneci assim, tentando me acalmar. Voltei a pensar que aquilo era um pesadelo, e que eu ira acordar logo, mas a dor no meu pulso causada por Jamon me trouxe de volta para o presente, e foi aí que tive certeza de que tudo era bem real. Em poucos minutos, minha cabeça estava cheia de pensamentos terríveis. Imaginei o pior dos cenários para a minha morte. Sempre desejei morrer de forma épica. Provavelmente eu iria morrer ali, trancada, definhando, tendo que comer minha própria carne. Eu estava em um pesadelo real, e aquilo era demais para mim.
E o pior é que estava apenas começando.
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