Eldarya - Promessa de Sangue

2 Capítulo 1 - A fuga


Eu não tinha ideia do tempo decorrido desde que Jamon havia me trancado naquela cela. Era como se estivesse presa por horas ou um dia inteiro. Eu perdi totalmente a noção do tempo. De tanto ficar à toa ali dentro, comecei a rpestar atenção nos detalhes, mas aquilo estava me sufocando. Meus pensamentos eram cada vez mais obscuros e lágrimas começaram a sair pelos meus olhos. Foi nesse momento que ouvi um tilintar de chaves perto de mim.

“Click”.

Surpresa, eu olhei para a direção de onde o barulho vinha. Me levantei tão rápido que alguns músculos não tiveram tempo de responder, e cambaleei um pouco antes de me recompor. O portão da jaula estava aberto, e alguém esperava do lado de fora. Supus que, pelo torso, era um homem. Ele estava mascarado e me encarou se dizer uma palavra. Curiosamente, era a pessoa mais estranha que eu tinha visto até agora, e olha que estranho era pouco para descrever.

Me senti um pouco mais tranquilizada do lado de fora, apesar de as imagens do monstro do lago verde ainda perambular pela minha mente. Quando fui agradecer ele me impediu, colocando o dedo nos lábios para insinuar silêncio. Era óbvio que ele estava desrespeitando as regras da Miiko. Finalmente alguém havia me ajudado, e eu não queria que tivesse problemas por causa disso. Eu concordei em fazer silêncio, feliz em poder sair daquele lugar sujo. O que quer que fosse aquilo no lago poderia haver muito mais, e eu não queria estar lá para concluir essa hipótese.

Eu dei alguns passos para fora da cela e observei o redor em busca de alguma armadilha em potencial. Quando voltei para agradecer o homem que havia me ajudado ele, simplesmente, não estava mais lá. Eu estava novamente sozinha e livre para sair se eu quisesse. Respirei fundo, me preparando psicologicamente para subir todos aqueles degraus infinitos de novo, já que ir nadando pelo lago não era uma opção.

Eu estava chegando na primeira etapa da escada. Eu não havia prestado atenção antes, mas havia água e flores por todos os lados onde eu andava. Algumas flores pareciam brilhar e outras eram tão coloridas que faziam meus olhos doerem. Era lindo e perturbador ao mesmo tempo.

Enfim no topo da escada, eu me via em um salão tão estranhamente decorado quanto todos os que eu já havia passado, lembrando-me de que Jamon me guiara por ali na descida torturante para o calabouço. Mas antes eu tinha alguém que conhecia o lugar, e agora, com tantas portas, eu mal sabia para onde ir.

Havia, no mínimo, cinco portas, e escolhi a maior delas acreditando ser a porta da saída. Havia luz por debaixo dela, e uma pontada de esperança me percorreu. “Não cante vitória ainda”, me lembrei. Segui o mais furtivamente que podia para aquela porta, não me importando com mais uma dezena de degraus que levavam até ela, mais um indício de que era a saída.

Finalmente na porta e prestes a sair, um barulho me chamou a atenção. Demoraria muito para abrir aquela porta, que parecia pesada, e se fosse Miiko chegando eu voltaria pra sela da qual eu consegui sair por pura sorte. Corri e entrei na porta ao lado, que já estava aberta.

Eu entrei em uma biblioteca. Havia tantos livros! A quantidade de livros daquela biblioteca poderia ser o dobro ou o triplo do que eu já havia lido em toda a minha vida. Tantos livros, e nenhuma saída. Alguém passou na frente da porta pela qual eu havia entrado, felizmente não me vendo no canto em que eu estava. Contei alguns números, juntando coragem para sair, me arriscando depois de contar mais alguns. Minhas mãos suavam.

Segui, de novo, para a grande porta, mas bati em algo. Logo eu percebi que era um homem. Mais um.

— Mas o que...

Eu corri antes que ele pudesse me ver ou me capturar novamente. Droga, se ele me alcançasse era bem capaz de eu voltar lá pra baixo. Voltando ao corredor cheio de portas — e com o coração a mil — havia alguém perto das escadas infinitas. Me escondi atrás de um pilar, me surpreendendo com as minhas habilidades furtivas que, até o momento, eu não sabia que existiam.

Dois homens desciam as escadas por onde eu havia descido correndo. Eles usavam roupas igualmente estranhas, mas eram bem diferentes. Um, o que eu havia esbarrado, era moreno e seus cabelos eram bem brancos na altura dos ombros. Ele também era mais musculoso que o outro. Esse ultimo era bem pálido e seus cabelos eram negros, num comprimento que cobria o olho também com um tapa-olho, como um pirata. Um pirata emo.

— E você não viu quem era? — foi o emo que disse, provavelmente se referindo à mim.

— Foi muito rápido. O tempo que eu levei para entender o que estava acontecendo foi o que ela levou para fugir.

— Muito rápida para você? Ah, boa piada.

— Eu estava de costas, e ela não me deu tempo para me virar e reagir.

— Tudo bem, vamos procura-la.

Felizmente, eles não me viram. Eles entraram pela porta que eu tentei sair, e decidi que era melhor procurar outra saída, senão eles poderiam me encontrar.

Quando achei que não havia mais alguém ali, entrei por outra porta, dando num tipo de dispensa esquisita. A comida era guardada numa espécie de móvel em forma de favo de mel, e tudo ali parecia bem organizado, como um estoque que estava para ser entregue a alguém. Prateleiras e comida na mesa — que era a coisa mais normal que eu havia visto até agora — me tranquilizaram bastante. Eu estava detonada, mas pelo menos havia ali uma oportunidade de comer.

Eu estava morrendo de fome. Não pensei duas vezes e pegar um pão que estava ali na mesa. Ele parecia tão solitário, eu poderia lhe fazer companhia.

— Bem, o que temos aqui! Ninguém te ensinou que é errado roubar? — Outro homem segurou meu pulso antes que eu pudesse chegar no pão. Aquilo estava acontecendo vezes demais. Ele estava de branco, e seus cabelos eram azuis e longos até onde eu podia ver. E suas orelhas eram... bem, pontudas. — É sério, o que está fazendo aqui?

— Eu não estava roubando.

— Então por que a sua mão estava tão perto do pedaço de pão quando cheguei aqui?

— Eu queria pegar, mas não deu tempo!

De repente, Miiko já havia entrado na dispensa e olhava furiosa para mim e para o homem orelhudo.

— Você de novo?!

Ela havia sido seguida por várias pessoas, incluindo os dois homens dos quais eu havia me escondido.

— Mas o que está acontecendo? — Foi um outro homem que disse, dessa vez um com chifres. Era incrível como aquilo já não me surpreendia.

— Essa humana apareceu no salão do cristal, e agora está aqui roubando comida!

— Não é verdade, eu não roubei nada!

— Não roubou porque eu te impedi. — O homem orelhudo disse, e olhei para ele furiosa, o que pareceu diverti-lo.

— Eu sabia! Foi ela que roubou o pão e o leite que nos falta! — Miiko tornou a acender aquele fogo azul, e tremi.

— Já disse que não roubei nada!

— Uh... é verdade. — o pirata emo disse, em minha defesa. Era menos incômodo ter alguém me defendendo — Foi um garoto do refúgio que roubou. Eu acabei de descobrir e estava vindo de avisar.

— Ah, então não foi você...

— Obrigada por me dize que eu não fiz algo que eu não fiz.

— No entanto uma lágrima de dragão foi roubada da sala de Alquimia.

— Viram? Foi você! Devolva a lágrima agora mesmo!

— Mas eu não peguei isso. Eu sequer sei o que é isso!

Miiko olhou para Jamon, e novamente me perguntei como não o havia percebido ali antes. Mas eu percebi o que Miiko estava prestes a fazer. Ou manda-lo fazer.

— Coloque-a de volta na cela, e dessa vez certifique-se de que ela não vá sair de lá. Ela vai ter mais tempo para se lembrar das coisas lá embaixo.

— Eu não vou voltar pra lá! Quantas vezes tenho que repetir? Eu. Não. Roubei. Nada. Nem sei como cheguei aqui.

— Não tome esse tom ou eu—

O homem chifre a interrompeu, o que a deixou um pouco mais furiosa, se é que aquilo era possível. Pelo menos o fogo que ela manejava sumiu.

— Miiko, por favor. Nós poderíamos ao menos ouvi-la, certo?

Ela suspirou, dando de ombros.

— Faça como quiser.

— Perfeito! Então nos conte tudo, vamos ouvir você.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.