Ela não está assim tão interessada
3 Capítulo 2 - Post-it
Notas iniciais
Olhava frustrada para o ecrã do celular e o post-it antes de um amarelo bem vivo e agora, três dias depois, já desbotado e amachucado por todas as vezes em que o segurei com as mãos suando frio. "Te ligo" Mas que porra de frase curta é essa? Ela sequer especifica se seria mais tarde que me ligaria ou amanhã ou depois. Ou nunca. Sim, provavelmente ela não ligaria nunca. É, deve ser essa a mensagem que ela quer transmitir ao não ter ligado até hoje. Ela está educamente me dando um fora.
– Ahá! — Arrancou o post-it da minha mão de supetão.
– Me dá isso aqui. — Pedi esticando o braço não tão paciente quanto eu gostaria.
– Vamos ver o que temos aqui. — Desdobrou o papel se preparando para lê-lo quando fui para cima dela recuperando apenas metade dele.
– Porra, Bia. Olha só o que tu fez. — Tirei da mão dela a outra metade do post-it e corri para a minha mesa revirando o estojo até encontrar um pedaço de durex para remendar. Suspirei de alívio após alisar bastante o papel tornando-o quase tão perfeito como era.
– Te ligo?! — Exclamou atrás de mim depois de ter conseguido ler na curvatura vazia que formava um triângulo quando eu colocava a mão na cintura naquela pose que era já uma velha mania minha.
– Que espécie de fora é esse? — Riu virando a latinha de fanta na boca.
– Então era isso que não queria que eu lesse? — Atirou as mãos para trás dos ombros com descaso.
– Quem é a moça? — Diana prosseguiu após arrotar e arremessar a latinha dentro do cesto de lixo distante o suficiente para fazê-la sentir-se uma atleta inata.
– A garota mais linda nesse universo.
– Outra? — Bia se debruçou sobre a mesa desgastada. — Eu pensava que Laís era a Miss Mundo. — Brincou com os dedos como se se tratasse de um número de ilusionismo. E pensando bem até era. Laís não me parecia mais a Miss Mundo.
– Se Laís é Miss Mundo a gostosa do domingo à noite era a Miss Universo.
– Quem era Miss Universo? — Carla entrou na sala já atirando os livros para a mesa ao lado da minha.
– A garota mistério que deu um fora em Ester. — Diana se adiantou matando a charada.
– Poxa, era tão bonita assim? — Arregalou os olhos. Às vezes me esqueço que Carla é praticamente a única alma hetero no meu círculo de amigos.
– Uma mulata de parar o trânsito. Bocão lindo, olhos grandes de boneca, corpo maravilhoso. Uma voz doce e um jeitinho de menina encantador. Cara, ela -
– Te deu um fora. — Me interrompeu agora que a imagem dela começava a se formar novamente na minha cabeça ainda embriagada pela sua beleza. — É nisso que tem que focar. — Bateu na mesa.
– Ela disse que iria me ligar. — Protegi minha réstia de esperança.
– Que tipo de bilhete é esse, afinal? Quem se dá ao trabalho de entregar um bilhete dizendo: "Te ligo"?! Obviamente se ela quisesse manter contato ela teria deixado um número de celular ou até endereço. Mas, isso aí, minha amiga, é claramente um fora.
– É. Pense nesse "Te ligo" como um 'Me esquece'. — Diana completou a teoria de Bia.
Carla apenas me olhava pesarosa visivelmente com pena da amiga lésbica e feia que havia acabado de perder uma namorada e levado um fora de uma estranha linda. Não admira que ela permaneça hetero.
– Vocês têm razão. — Amassei o pos-it. — Eu acabo sempre mergulhando nesse mesmo poço de falsas esperanças no que toca a mulheres lindas e interessantes. Valeu por me trazerem de volta pra cima. — Lancei o post-it pela mesma trajetória que a latinha de fanta havia feito de encontro ao cesto de lixo.
A aula prosseguia tediosa como costume e ainda faltava uma hora para o fim daquele tormento semanal. Tirei o óculos esfregando os olhos. Deitei a cabeça em cima da mesa e começava a me perder entre imagens soltas e a perda da consciência para o sono quando um formigueiro na perna me despertou. Puxei o aparelho pra fora do bolso colocando o óculos no seu devido lugar.
'Hey, eu pensei te ligar na segunda-feira, mas percebi que tava sem créditos no celular. Aqui a pobre te pede desculpas pela demora e espera que ainda se recorde de quem sou. P.S- A garota do bar :)'
Uma onda de energia percorreu meu corpo me endireitando na cadeira. Relia a mensagem com um sorriso bobo teimando em se rasgar no meu rosto quando recebo uma nova.
'P.S do P.S- Meu nome é Fernanda'
Imediatamente salvei seu número e tratei de ver o detalhe mais relevante do seu contato: a fotografia. Maximei me deixando hipnotizar uma vez mais por aquele rosto que pensei jamais voltar a ver em parte alguma.
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