Ela disse, Ele disse
33 Outra página - Prólogo
Notas iniciais
– Nem acredito que você está indo embora Bells! Quem vai me dedurar agora? Você tem mesmo certeza do que ta fazendo amiga? — Jade fazia seu típico drama pela milésima vez. Mas é claro que eu sabia que nada daquilo era sério, se eu desistisse da mudança ela seria capaz de me arrastar a pé até São Paulo. A dançarina depois de parar no hospital havia ficado um tanto quanto sentimental. Não era aquele poço de frieza. Dizem, que quando corremos algum perigo, começamos a dar valor as coisas mais simples, pelo menos era assim que Jade estava agindo. Ela agora fazia um tratamento em casa. Tomava alguns remédios para controlar a fome e tinha que injetar a insulina durante o dia, dependendo do seu nível glicêmico. Ela tentava parecer forte, mas eu sabia que estava sendo difícil, felizmente Ricardo havia oficializado o namoro dos dois, e apoiava minha amiga. Parece que mais alguém passou a valorizar mais as pessoas.
– Ai Bellinha vou sentir sua falta sabe disso né? Mas você vai lacrar lá amiga! Aposto que logo você vai abrir seu próprio restaurante e vai me dar comida de graça! — Antônia agora batia palmas empolgada em me explorar.
– Você só quer me explorar né? Não sei como vou sobreviver sem vocês! — me joguei em cima das duas sentadas na minha cama e elas gargalharam comigo — ah! Mas é a vida né? São Paulo que me aguarde! — falei colocando as últimas peças de roupas na minha mala. Depois de fechar, tendo ajuda das meninas sentando em cima da mala, tudo estava pronto, definitivamente.
– Filha? Ta pronta? — minha mãe bateu a porta e abriu. Eu vi que ela segurava o choro. Apesar de me apoiar sabia que estava sendo difícil me deixar ir, mas dessa vez, era um mal necessário.
– Tô sim mãe! — olhei em volta do quarto cheio de malas e encarei as meninas — Partiu?
(...)
Eu estava lá, sentado com ela no meu colo, no meu quarto, na minha cama, me beijando freneticamente, e tentando de todo jeito tirar minha blusa, se eu queria? Claro que eu queria! Bianca era gostosa pra cassete, com aquele corpo maravilhoso, aqueles peitos... Mas não adiantava, nada daquele corpo maravilhoso iria me deixar com um pingo de excitação... ela não me saía da cabeça, sua voz, seu cheiro, tudo nela me enlouquecia, e eu nem sei se consegui dizer isso à ela... na verdade eu não disse... porra!
– Bi...espera Bianca...- afastei Bianca que teimava em tentar beijar meu pescoço em vão — Bianca! — aumentei o tom e ela se afastou assustada.
– Que foi Pedro? — perguntou se fazendo de desentendida, ambos sabíamos o que eu queria.
– Bianca, o que a gente ta fazendo? Ta tudo errado aqui! — me levantei e passei as mãos pelos cabelos. Eu já estava a ponto de enlouquecer há tanto tempo longe da Isabella. Nunca senti uma agonia tão grande, uma saudade que ardia o peito.
– E-eu não sei do que cê ta falando Pedro! — Bianca se levantou também ficando de frente pra mim — Você não tava curtindo? — ela fingiu um bico e eu tive que rir.
– Não Bi...nem você que eu sei! — ela tentou protestar mas eu não deixei — tu é gamada no Jhonn...no João! A gente ta fazendo isso pra tentar esquecer os dois, mas você concorda que não vai rolar né? — perguntei e ela bufou. Caminhou em círculos pelo quarto apertando o nariz e depois parou a minha frente de novo suspirando.
– Tabom! Você tem razão! Eu sou louca pelo idiota do João, mas ele fez merda e eu tô brava! A gente não ta mais junto! — ela prendeu o cabelo ainda de cara fechada e eu segurei suas mãos.
– Bi...vocês fizeram muita merda juntos, vai ser muita idiotice depois de tudo isso não ficar com ele! — falei sincero, depois de tudo que eles passaram, parecia loucura não vê-los juntos.
– Ele me julgou Pedro...ele era o único que não podia e...- depois disso o que se seguiu foram apenas soluços e muitas lágrimas, e algumas frases que eu nunca poderia entender, mas que sabia ser um lamento da atriz.
– Bi olha aqui...melhor a gente esquecer qualquer ideia de ficar de novo, porque não vai dar resultado, sabemos disso...- continuei segurando suas mãos enquanto ela ainda fungava encarando os pés. Ela levantou a cabeça, limpou o rosto, fechou os olhos, e respirou fundo algumas vezes e abriu um sorriso. Eu estava um tanto quanto assustado com seu método para ficar no controle.
– É, você tem razão...eu vou embora, preciso ir pra algum lugar pra pensar, e em casa não vou conseguir...- ela pegou sua bolsa e caminhou em direção a porta do quarto.
– Ei Bianca — chamei e ela virou-se — você disse que não ia conseguir pensar em casa — eu estava muito curioso sobre o porque disso, qualquer informação por menor que fosse sobre o que se passava com a Bella, agora valia pra mim — aconteceu alguma coisa?
– A Isabella embarca hoje pra São Paulo — e nem me deixou responder, saiu andando, e pelo susto, acho que eu também demoraria alguns minutos pra ter uma reação. Ainda bem que ela conhecia a porta.
Passadas algumas horas, eu ouvi um barulho familiar. Na verdade, eram gritos mesmo. Fui até o portão e não sei se me arrependi ou não. Estavam os garotos da academia do Gael, os malucos da terapia em grupo, e alguns rostos conhecidos como minha irmã e o namorado babacão, e espera...minha banda também estava ali?! Traidores! Mas nenhuma força da gravidade iria me fazer tirar os pés dali. Fiquei parado, encarando toda a felicidade exposta em frente a fábrica, pra quem quisesse ver, onde haviam bexigas e uma faixa escrita "sentiremos saudades". É, uma festa de despedida, quem diria.
(...)
Minha mãe havia me deixado nervosa. Insistiu tanto pra irmos cedo pro aeroporto que eu pensei que uma tragédia tivesse acontecendo e me impediria de embarcar. Mas o caminho que fizemos ao sair de casa, depois de colocar as malas no carro foi outro. Ela me obrigou a ir até a fábrica o que no fim, fez sentido. Ao entrar haviam bexigas espalhadas em todos os cantos, uma faixa escrita "sentiremos saudades" e havia um monte de gente com apitos. Jade e Antônia pularam do meu lado gargalhando alto com meu susto.
– E ai? Surpresaaaaa! — elas gritaram alto e Duca e Cobra vieram me levantar, debaixo de muitos protestos. Lá de cima, pude ver meus amigos da terapia, muito alunos do Gael, e até a Galera da Ribalta...que me lembrava ele. Ignorei meus pensamentos e voltei minha atenção a festa de despedida montada pra mim.
Depois de muitos abraços e beijos, e muitos "sentirei saudades" ou "aposto que você vai abrir um restaurante" era finalmente a hora de ir. Estava começando a anoitecer e o meu vôo era as 22h. Ao sair da fábrica acompanhada por todos, dei de cara com alguém inesperado.
– Bianca? — ela caminhava em minha direção e parecia determinada, não protestei.
– Eu queria me despedir Isabella...eu...- antes que ela continuasse, eu interrompi, não queria todos ouvindo nossa conversa.
– Espera! Um minuto ok? — me virei — Gente, vou ali dar uma palavrinha com a Bianca e volto logo tudo bem? — depois de muitas caretas, ela entrou na fábrica agora vazia comigo.
– Bianca, olha só...- me prontifiquei em falar, mas ela não deixou, parecia que estava com o discurso pronto na cabeça. Respirou algumas vezes antes de falar.
– Eu vim aqui me despedir porque ia ser horrível você ir embora sem falar comigo decentemente. Eu fico me perguntando esse tempo todo que porra eu tinha na cabeça quando fiz tudo aquilo. Eu sei que ficar me desculpando não vai resolver, então eu só queria que você aceitasse meu último "sinto muito" e se despedisse de mim — eu a encarei por um segundo, fitando seu olhar apreensivo, sei que, apesar da pose de durona confiante, ela estava ansiosa pela minha resposta.
– Tudo bem...acho que já te torturei demais, apesar de você ser uma grande vadia, não dá pra ir embora sem deixar as coisas mornas por aqui — caminhei um passo em direção a ela que me olhou curiosa — agora está tudo certo Bianca...mas não pense que a partir de hoje seremos primas ou...- faço uma careta ao lembrar — irmãs...isso só quer dizer que temos o mesmo sangue, e que ninguém precisará entrar em uma torta de climão quando estivermos por perto...- estendo minha mão a ela que arregala os olhos castanhos e antes que eu possa reagir ela me puxa e me abraça. Não posso dizer que fiquei totalmente confortável, seria uma grande mentira. Retribui o mínimo possível e a empurrei limpando a garganta. Quando a olhei vi que ela estava totalmente vermelha, provavelmente sua atitude inesperada acabou a deixando mais sem graça que eu.
– Hã...fico muito feliz com isso Bella...espero que você seja muito feliz em São Paulo! — ela abriu um sorriso que pela primeira vez direcionado a mim pude ver que era sincero. Eu assenti e nós saímos. Pude ver vários olhares confusos e curiosos em nossa direção. Sorri com isso.
– Achei que ia ter que buscar as duas princesas lá dentro! Você tem que ir Bella! — Gael reclamou mau humorado como sempre
– Bem...então está tudo certo? Vocês...ainda estão vivas não é...- dona Dandara falou com um sorriso divertido nos lábios e eu revirei os olhos. Jade e Antônia vieram correndo até mim e enquanto uma apertava minhas bochechas a outra me revistava. Me afastei confusa.
– Ei! Qual o problema de vocês? — perguntei confusa e as duas se olharam e me encararam incrédulas como se fosse óbvio a resposta
– Estamos verificando se ela não te fez nada — Tomtom começou
– Uma bomba amarrada em você talvez...- Jade levantou a barra da minha blusa para olhar e eu me remexi para longe
– Parem de ser loucas! Está tudo certo, como eu garanti que ficaria! — rosnei enquanto as duas bufavam e voltavam para seus respectivos namorados.
Foi ai que descendo as escadas eu o vi novamente. Ele parado em frente ao portão me encarando daquele maldito jeito. Como se apenas eu estivesse ali. Balancei a cabeça ignorando qualquer instinto de continuar a olhá-lo, ele a partir de agora seria uma página virada. Eu recomeçaria longe, e seria feliz, e livre.
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