Ela disse, Ele disse
35 Nova Fase
Notas iniciais
– Ô Pedro, tem certeza de que vai fazer isso mesmo?
– Tô com cara de quem vai desistir por acaso?
– Tá e se der tudo errado?
– Tudo errado como? Já deu tudo certo, eu passei na universidade de música em São Paulo!
– Ah e você não consegue nem convencer a você mesmo, que dirá convencer a mim, que você está indo pra lá só pelo curso! Fala sério cara! Todos nós sabemos que...
– Que eu estou indo pra sampa pra estudar porque ralei muito e passei no vestibular João...e o resto, é consequência do destino!
– Destino, sei...
(...)
– Ai acabei! Nem acredito! — falei exausta depois de esvaziar a última mala, e organizar o meu novo quarto.
– Ah que bom! Você passou a manhã toda ai! — Nat, como eu passei a chamá-la, disse entrando no quarto com um copo de suco na mão e me entregando outro.
– Mas acabei! Pelo menos o quarto tá limpinho e arrumadinho, o que você achou? — perguntei me sentando à cama, enquanto ela se sentava à minha frente no puf.
– Ficou bom...precisa de alguns toques femininos, mas isso a gente resolve rapidinho com uma ida ao shopping! — ela disse com um sorriso empolgado.
– Ótimo, a noite a gente vai então...- falei me deitando na cama.
– Ah Bella, bem que a gente podia ir agora né? — ela fez um biquinho engraçado, mas não me enrolou.
– Nada disso! Você me prometeu que hoje a gente ia na academia onde você treina! Estou empolgada! — falei me levantando e indo em direção ao guarda roupa e pegando uma roupa para trocar depois do banho.
– Tá legal...eu prometi né...mas você tem que prometer que vai a noite comigo no shopping hein? — ela disse com um sorriso vencido.
– Tudo bem! Vou tomar um banho, a gente almoça e depois vai lá o que acha? — peguei a toalha e segui em direção ao banheiro do quarto.
– Vou fazer uma gororoba pra gente comer, já que você claramente me passou a perna! — ela levantou com uma expressão emburrada e saiu do quarto.
– Só hoje Nat...prometo! — e fechei a porta.
(...)
– Caramba...que carro lindo! — falei enquanto Natalia dirigia calmamente em direção a academia Khan onde ela treinava todos os dias.
– Ganhei de aniversário no ano passado...- ela falou e eu me lembrei do meu aniversário do ano passado...foram tantas coisas que aconteceram...muita loucura.
– Legal! Ele é incrível! E agora vou ter carona sempre! — falei rindo e ela gargalhou.
– Vai sonhando loira...Olha aí, chegamos! — ela manobrou e estacionou o carro na rua ao lado da academia.
Ao entrarmos, haviam vários lutadores, e um homem baixo, loiro e de barba dava instruções para os garotos que treinavam.
– VAMBORA CAMBADA! QUEREM GANHAR O QUÊ NESSA LERDEZA? — eu tremi com os gritos dele, que cessaram ao ver Nat entrando junto comigo. Tiramos os sapatos e caminhamos em direção à ele.
– Oi mestre. — Nat fez um cumprimento com as mãos e ele acenou com a cabeça.
– Boa tarde Nat, que bom que você chegou, seu horário já vai começar. — ele disse com uma voz calma totalmente diferente da que eu ouvi há minutos atrás.
– Claro mestre. — Nat olhou pra mim e então voltou ao "mestre" e continuou — a propósito, essa aqui é a minha amiga Isabella, ela veio conhecer a Khan.
– Fique a vontade Isabella...eu sou o mestre Lobão, prazer...- ele apertou minha mão e sorriu, eu fiz o mesmo.
– Prazer, obrigada por me deixar ficar. — falei e ele riu.
– Sem problemas, o treino dos garotos já acabou, o horário de agora é fechado só pra sua amiguinha aí...- ele disse rindo enquanto ela revirava os olhos.
– Vem Bella...vou me trocar, vamos comigo...- Nat saiu me puxando enquanto Lobão seguia em direção aos meninos.
– E ai cara, rola hoje de ver o jogo lá na tua casa? — um dos meninos perguntou a outro que guardava suas coisas em uma mochila.
– Ah não dá cara, o garoto que vai dividir o apartamento comigo chega hoje, preciso ajudá-lo com a mudança coisa e tal — ele responde dando de ombros.
– Falaí Alan, resolveu assumir que gosta da mesma fruta que eu e já até levou pra morar contigo? Te dou todo apoio mano! — Nat estava na minha frente, provocando o garoto que revirava os olhos teatralmente diante de suas alfinetadas. E ele era realmente bonito, se fôssemos analisar. Era alto e forte, cabelos pretos, com barba e um sorriso canalha.
– Não gata, sei que você zoa, mas é porque morre de vontade de provar desse corpinho mas eu nunca te dei a honra né?! — um coro de "uuuuh" foi gritado pelos garotos, e eu me conto para não rir da cara perplexa dela, diante do comentário debochado do garoto.
– Escuta aqui ô maromba, eu não sou esse bando de piriguete que você pega e joga fora não! Nem que você fosse o último cara da terra eu ficaria com você! — ela berrou e eu até tapei os ouvidos. O que não passou despercebido por Alan, que passou a me analisar sem o menor pudor.
– Calma ai Nat...pra quê tanto ódio? A raiva te consumiu tanto que você até esqueceu de me apresentar sua amiga? — ela revirou os olhos enquanto ele piscava pra mim e eu continha um sorriso, não era hora de apanhar de Nat.
– Essa é a Bella, ela vai morar comigo agora em diante...- Nat parou e juntou as sobrancelhas — porque eu tô te dando esse tipo de informação? Minha amiga não é pro teu bico não! — ela bufou e saiu me arrastando para um dos banheiros.
– Isso é o que vamos ver né Bella? — pude ouvi-lo gritar e Nat grunhir
– Ridículo!
– Calma Nat...respira! Achei que você tivesse começado a treinar a pouco tempo aqui, como conhece o Alan? — perguntei me sentando em um banco no banheiro enquanto ela trocava a calça por um short fino de luta.
– E faz pouco tempo mesmo, mas esse idiota veio de Berlim comigo, ele faz parte da mesma equipe de luta que eu, só que no time masculino e em outra categoria...- com dificuldade de prender o cabelo ela gritou novamente me assustando — Esse idiota me tira dos trilhos! Ai que ódio!
– Sei bem como é, mas sabe né, às vezes tanto ódio é revertido em outra coisa...- falei e ri com a careta de nojo que ela fez do meu comentário
– Impossível loira...do Alan eu só quero distância!
– Sei...
(...)
Era segunda feira. Nunca esperei tanto por esse dia. Por esse momento. Trabalhar no maior restaurante do país. Com um dos melhores chefs do mundo. Parecia surreal demais. Se alguém me dissesse isso à meses atrás eu riria. Parecia loucura demais. Mas eu superei todas as expectativas, e não ia me decepcionar, a partir de agora eu poderia realizar meu sonho. Estava em frente ao espelho me olhando. Pronta à algumas horas devido a insônia vinda da ansiedade. Saí do quarto com uma infinidade de coisas na bolsa e cheguei a cozinha vazia. Resolvi preparar o café, e depois de tudo pronto, coloquei-o na bancada e sentei para comer. Logo Nat apareceu com os cabelos molhados e vestida de branco.
– Bom dia Bella! Nossa...você fez café! Ah que bom tô morrendo de fome...- ela acariciou a barriga e sentou a minha frente do outro lado da bancada.
– Bom dia...suas aulas começam hoje? — perguntei tomando um gole de café.
– Começam sim, quer dizer, já começaram né, eu fui apenas transferida...- ela comia uma fatia de bolo do outro dia.
– E quando é a sua luta? — ela suspirou e me olhou.
– Daqui há duas semanas...não vejo a hora...- ela sorriu empolgada.
– Imagino mesmo...eu estarei lá hein, e quero área vip! — ela gargalhou enquanto eu olhava no relógio.
– Já está na hora? Eu te dou uma carona, preciso ir também! — e levantamos pra sair.
(...)
– Boa sorte loira...vai dar tudo certo! — Nat desejou enquanto me dava uma piscadela quando desci do carro em frente ao restaurante.
– Obrigada! — e o carro saiu cantando pneus. Ela devia estar atrasada.
Caminhei até a entrada e abri a porta. Na recepção havia uma garota de cabelos e olhos castanhos. Me assustei ao vê-la. Era muito parecida com...Bianca. Mas era impossível.
– Ahn...bom dia...- falei incerta quando a garota que digitava no computador e levantou o rosto para me encarar.
– Bom dia! Me chamo Bruna, como posso te ajudar? — respirei fundo e a encarei novamente. Os olhos fundos, castanhos. O sorriso brilhantes, os cabelos lisos e sedosos. Ela era realmente a cópia de minha prima/irmã. Ela pareceu incomodada com a minha demora e coçou a garganta. — Ahn...você está bem? Quer um copo d'água? — eu pisquei e sacudi a cabeça.
– Ah não...obrigada, é só que você parece muito com alguém que eu conheço...- ela abriu um sorriso gentil.
– Ah...eu costumo ouvir muito isso...mas e você? Precisa de algo? — e ai eu me lembrei do que realmente fazia ali. Olhei em volta do restaurante decorado e com vários tipo de verde e abri um sorriso.
– Eu sou Isabella Duarte, sou a estagiária do chef...- nem precisei terminar.
– Ah claro! A garota do Rio de Janeiro não é? Estava esperando por você! — ela bateu palmas e deu a volta do balcão onde estava.
– Jura? — ela assentiu e me puxou pela mão em direção a uma sala e bateu duas vezes antes de entrar.
– Chef? A Isabella do Rio de Janeiro está aqui...- um homem grisalho com barba e um avental branco que estava sentado em uma mesa, levantou-se e abriu um largo sorriso.
– Finalmente! Chegou cedo hein? — Bruna saiu da sala e me deu uma piscadinha, enquanto o chef de aproximou de mim apontando pra que eu sentasse na cadeira em frente a sua mesa, enquanto ele dava a volta.
– Eu estava ansiosa...- sorri apreensiva e ele assentiu.
– Tudo bem Isabella...olha só vou te explicar como tudo funciona e depois vamos até a cozinha começar o dia! — eu assenti ansiosa para começar minha nova fase.
(...)
– Oi cara! Seja bem vindo! — o garoto com quem eu iria dividir o apartamento abriu a porta com um sorriso no rosto. Ele era alto e forte, com certeza eu não ia querer arrumar briga com ele.
– E ai mano...Alan né? — perguntei arrastando minhas malas para dentro.
– Isso né...Pedro! — ele respondeu me ajudando com a bagagem.
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