Ela Escolhe
4 O Sorteio
Notas iniciais
Naquela quarta-feira, dia em que eu sortearia os nomes, na hora do café, uma criada bateu à porta de meu quarto e entregou a mensagem de meu pai:
Querida Wendy,
sei que a semana tem estado complicada, mas está quase no fim... ou no início de tudo. Preciso fazer uma viagem ainda hoje, de última hora, e estarei de volta apenas sexta-feira, a tarde. Bem, quero que descanse durante a manhã e tome seu café em seu quarto, está livre para repousar, por hora. Esteja no Saguão 11 h 30 min para o sorteio. E não se esqueça: amanhã voltará ao trabalho, pois como não prestou seu serviço comunitário no sábado, terá de ser agendado para amanhã as 14 horas.
Fique bem, papai.
P.S.: Que a sorte esteja sempre ao seu favor.
Sorri ao ler o bilhete. Não me agradava a ideia de estar longe de meu pai, mas pelo menos eu poderia descansar, por hora. Meu trabalho comunitário era ler para algumas crianças, que visitavam o palácio e brincavam nos jardins. Esse trabalho já pertencera a minha mãe, mas eu o assumi aos 14 anos. Cada um fazia um trabalho comunitário: Maddie separava todas as roupas para doação segundo o clima e situação de cada província; Chris monitorava a doação de comida e geralmente acompanhava o mesmo grupo que Maddie; Kile cuidava de pequenas reformas que melhoravam o espaço público e faziam toda a diferença; Cheryl preferiu cuidar das doações para os hospitais, como doações de sangue ou remédios raros; Katherine cuidava dos idosos, indo a asilos e dando total conforto para a terceira idade; e o pequeno Simon apenas acompanhava a reciclagem, pois como era muito pequeno estava aprendendo aos poucos. Eu sentia que o trabalho dos outros era mais pesado que o meu, mas minha mãe me lembrou que meu cargo de futura governante de Illéa já exigia demais de mim.
Usei meu tempo livre para ler, não meus livros acadêmicos que eu havia praticamente decorado, mas os de ação, aventura, lugares distantes, lutas em que os mocinhos vencem e magia. Mas queria ficar pronta o quanto antes e comecei e me arrumar quando o relógio mostrou dez horas. Quase onze e trinta e eu estava pronta, então levantei a barra do vestido e segui correndo pelas escadas me despedindo de Lanna.
Minha família me esperava no Saguão, todos prontos para partir para a Praça Central de Angeles, onde eu faria o anúncio. Meu amado povo estaria lá para me apoiar e me receber, mas infelizmente por motivos de segurança estariam a alguns metros afastados por uma enorme faixa e guardas. Hoje, os cabelos loiros de Maddie caiam em cascatas de cachos em seus ombros, e voavam com a leve brisa quente que chegava das enormes portas, ela conversava com tia May, que estava estonteante com sua trança e o vestido roxo simples rodado. Minha mãe tentava ajeitar o seu ruivo mais novo, que não parava de amassar o terno enquanto corria animado. A Rainha estava simples e encantadora como sempre, uma pequena tiara enfeitava seu coque trançado e o vestido verde de passeio lhe caía muito bem. E então ela me olhou, e com um sorriso aprovador me disse:
– Azul, fica muito bem em você, e adoro essa sua tiara.
– Obrigada, mamãe — eu mexia em meu anel, um claro sinal de ansiedade. Maddie, ao ver aquilo veio ao meu lado e segurou minha mão.
– Ei, está tudo bem e acho que eu estou mais emocionada que você com isso — minha irmã era mesmo muito parecida com nossa tia May quando estava animada. — Você vai sair magnífica. Mas tente não tropeçar... principalmente hoje, além de ser ao vivo na TV terá mais gente na Praça então você não poderá repetir a gravação...
– AO VIVO? — Eu levantei a voz um tom a cima do que era me permitido, e minha expressão deveria estar paralisada de choque.
– Oh... parece que esqueceram de lhe avisar, tamanho descuido... bem, mudança de planos de última hora.
Eu não tive tempo de falar qualquer outra coisa, pois o motorista apareceu avisando que o carro estava pronto, e nos encaminhamos a uma limusine nos aguardando em frente aos portões abertos e rodeados de guardas.
A medida em que o carro avançava lentamente enquanto os guardas abriam gentilmente caminho pelo meio da multidão, eu percebi que a Praça estava mais cheia do que eu supus, e isso me assustava, mas eu não podia demonstrar, portanto regulei a respiração e me uma postura firme e ao mesmo tempo delicada. O carro finalmente parou e eu respirei fundo, o motorista abriu a porta e os gritos da multidão ficaram mais fortes, eu saí sendo saudada por meu povo, e as câmeras focadas em mim. Logo atrás de mim desceram minha mãe, Maddie, Simon e tia May. Meus irmãos e minha tia sentaram-se em cadeiras preparadas a eles, enquanto minha mãe deveria estar ao meu lado, deveríamos sorrir juntas e acenar, caminhando conforme eu sorteava os pretendentes de cada província.
Os envelopes estavam dispostos em uma meia-lua, dentro de caixas de vidro que estavam em cima de pequenas colunas gregas, com o nome de cada província indicados em plaquinhas. Sorri ao ver as colunas: todos sabiam que eu tinha uma paixão pela Grécia antiga, principalmente se tratando de sua Mitologia, repleta de heróis e deuses. E então eu não poderia mais enrolar, caminhei para a primeira das províncias e em duas delas sorri para minha mãe segurando a mão dela, enquanto erguia os envelopes de Angeles e Carolina mostrando-os alegremente ao povo.
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