Ela Escolhe
11 Noite de Pânico
Minha mãe sempre dizia histórias sobre ataques dos rebeldes — tanto do sul, quanto do norte. Mas ela sempre falou que era mais tranquilo do que parecia, que os esconderijos eram confortáveis, que sempre haviam bastante guardas... minha mãe sempre dizia. O que ela esqueceu de contar é que os esconderijos da família real eram úmidos e frios, que os guardas não gostavam de dizer qual é a situação real do ataque, que se os ataques acontecem durante a noite a única coisa que você ganha é um hobbie, um cobertor e uma maca dura, e que há um sério risco de você quebrar a unha. E foi exatamente esses pontos ruins que ela esqueceu que me prejudicaram naquele ataque.
Mais desesperados que eu, só os garotos. Os coitados mal tinham chegado no palácio e já tentaram assassina-los. O que eles pensariam do palácio? Que não era seguro? Que ninguém liga para a segurança deles? Que vergonha, a minha Seleção já começou com vestido manchado e ataque, tudo na mesma noite! Os jornais vão ter o que falar amanhã!
Me aproximei do meu pai, que estava sentado em uma maca próxima a saída do esconderijo, e indaguei:
– Papai, quando poderemos sair daqui? Como está o ataque? Estou preocupada com os garotos, papai!
– Acho bonito você se sentir responsável pelos Selecionados, minha filha, mas acredito que no momento não podemos fazer nada além de esperar. — ele me respondeu com a maior paciência do mundo. Ele fora treinado para isso.
Saí atrás de mamãe bufando. Ela estava ajudando alguns criados com os cobertores, mas quando pude falar com ela, desabafei sobre como a Seleção tinha sido um desastre até agora. Então ela fez uma piadinha sem graça mudando um ditado velho:
– Filha, não adianta chorar pelo vinho derramado.
Então ouvimos uma grande explosão, seguida por uma chuva de tiros. Fui dar uma volta para ver como estavam meus rapazes. Casey, um dos garotos mais tímidos do primeiro dia estava vomitando. Murphy estava chorando de pavor. Edward estava encolhido em sua maca, parecia estar com um pouco medo. Zack era o único que estava dormindo. O restante estava conversando aos sussurros ou encolhido nas macas.
Fui falar com Murphy primeiro. Murphy é um cara alto, só é meio corcunda, e é loiro com olhos castanhos.
– Murphy? Você está bem? — passei a mão em suas costas, numa tentativa de conforta-lo.
– Desculpe, Alteza. Só estou assustado. — ele respondeu secando as lágrimas e tentando parar de chorar.
– Precisa de alguma coisa?
– Sem ofensas, Alteza, mas eu só preciso ir para casa.
– Certo. Você pode ir amanhã.
– Mas... é meio vergonhoso dizer que eu pedi para sair porque estava com medo. Vão me chamar de covarde a vida inteira!
– Ok. Eu invento uma desculpa simples e te elimino. Falo que não somos compatíveis, fechado?
– Fechado. Muito obrigado, Alteza.
– Por nada, mas por favor, me chame de Wendy. Agora me dê licença, preciso ver os outros garotos.
– Certo, Wendy, muito obrigado. — ele fez uma reverência e eu saí.
Fui falar com Casey.
– Casey?
– Alteza. — ele fez uma reverência rápida.
– Está tudo bem? Precisa de um remédio?
– Estou, já passou. Acontece que eu vomito muito fácil, principalmente quando estou assustado.
– Ok, mas tem certeza?
– Absoluta, Alteza.
– Certo, mas por favor, me chame de Wendy.
– Wendy... é um nome bonito, sabia? Tão bonito quanto você. Eu deveria ter dito isso na nossa primeira conversa, mas acho que estava nervoso.
– Mais do que quando estava vomitando a pouco? — zombei.
– Sim. — ele riu. — É que sabe, eu nunca conversei com um príncipe, uma princesa, nem ninguém da família real antes. Antes da Seleção, eu estava bem longe disso. Sabe, meus pais eram Seis.
– Bem... eu não gosto muito de falar de casta, afinal meus pais eliminaram-nas... então, mudando um pouco de assunto, o que você faz na sua província?
– Meu pai tem uma loja de brinquedos, eu trabalho nela.
– Parece interessante, a maioria dos brinquedos da minha infância eram exportados de várias províncias, e eu sempre quis saber da onde eles viam.
– Sim, fazem bastante encomendas de Angeles lá, já vendemos uns cinco brinquedos para a família real.
Eu apenas sorri e pedi licença para me retirar. Licença concedida, lá fui eu novamente dar uma voltinha. Brad parecia estar bem, tirando a confusão estampada no seu rosto. Sorte a dele não que não estava ouvindo os tiros, os socos e a bagunça que estavam fazendo lá fora. Madame Lucy era a mais apavorada. Coitada, todos sabemos que ela tem crises em ataques rebeldes, mas parece que ela foi superando com o tempo, mamãe disse que ela já esteve melhor. Lembrei-me de uma vez que simulamos um ataque rebelde no palácio e ela simplesmente surtou quando ouviu o alarme de invasão. Foi terrível, ela ficou uma semana de cama, vomitando. Fiquei imaginando como ela ficaria depois, agora que o ataque era real, e pior: era sulista.
Eram sete horas da manhã quando vieram alguns guardas avisando que já poderíamos sair. Seria um dia cheio, teríamos que organizar tudo, dar entrevista eliminar alguns Selecionados... e o pior: concertar a minha unha quebrada.
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