Ela Disse,ele Disse

1 Primeiro dia de aula


Notas iniciais
todos os personagens pertencem a o ilustre Mauricio de Sousa

Mônica:

Assim que fechei a porta do carro da minha mãe bateua quele frio na barriga. Respirei fundo e caminhei na direçãodo enorme portão de ferro. Era meu primeiro dia de aula na Escola do Limoeiro, minha escola nova. Claro que estava tensa. Onde sentar? O que conversar? Como puxar assunto? Com quem puxar assunto? Antes de ir embora minha mãe deu uma buzinadinha, mandou um beijo e um sorriso fofo, e eu entrei.

A escola era grande, tinha piscina, quadras de basquete,muito verde e ocupava um casarão antigo no coração de Botafogo, aos pés do Cristo Redentor. Bonitona. Bem maior doque a que eu estudava em Vitória, no Espírito Santo, onde morei seis anos. Eu fui para lá com 8 anos, quando meu pai teve de se mudar de mala, cuia e família depois de ser transferido para a filial capixaba da empresa em que trabalhava. Gostava muito das minhas amigas de Vitória, a maioriaeu conhecia desde que cheguei lá. Algumas eram como irmãs para mim. Por isso, fiquei com o coração partido na hora de voltar para o Rio, a cidade em que nasci. Mas fiz questão de vir para a Cidade Maravilhosa com a minha mãe,ela precisava da minha companhia, ainda mais depois que se separou do meu pai.

Não, não fiquei triste com a separação. Juro! Os dois viviam brigando, discutindo, dizendo coisas horrorosas um para o outro. Eu chorava, eles choravam, batiam porta, gritavam, ficava o maior climão pesadão lá em casa... A decisão de cada um seguir para um lado foi mais do que acertada. E tomada civilizadamente, o que eu achei muito legal. O meu pai voltou para Vitória depois de passar três meses de férias no Rio aproveitando a família (entenda-se por família eu, ele, mamãe, vovó, vovô... Não disse que a separação foi civilizada? Pois é, meus pais mantiveram a amizade, o que é maravilhoso). Ele foi embora na véspera do meu primeiro dia de aula e prometeu me visitar sempre.Sabia que não o veria mais com a frequência que gostaria,mas optei por ficar com a minha mãe e estava muito feliz perto dela. Enquanto caminhava à procura da sala de aula, pensava que era chegada a minha hora, a minha virada, a minha vez de encarar o desconhecido. Do alto dos meus 14 anos, vi minha vida mudar por completo de uma hora pra outra, eprecisava olhar para o futuro de frente, sem medo, sem vergonha, sem constrangimento. Porque primeiro dia de aul aem colégio novo é ridiculamente difícil. Será que iam implicar comigo porque eu tinha moradoem Vitória? Pô, adolescente implica com tudo, por qualquer motivo — e sem qualquer motivo também, vamos combinar.Será que me deixariam de lado, sozinha num canto? Será que me tachariam de chatinha? Será que achariam meu nariz muito grande, minhas canelas muito finas, meu cabelo ressecado, minha voz esganiçada? Será que a comida da cantina era boa?

Antes de entrar na minha sala,fiquei na porta observando as pessoas que conversavam animadamente lá dentro.Eram amigos se revendo depois dos messes de férias ,mostrando fotografias,falando dos presentes que ganharam no Natal,todo mundo alegre,todo mundo rindo muito.Ninguem com cara de peixe fora dágua.Só eu.

Entrei e logo tive a nítida sensação de que era invisível.Ninguém me viu, ninguém reparou em mim, ninguém sequer fingiu ter me visto. Desviei dos vários grupinhos espalhados pelo lugar e escolhi uma mesa perto da janela.Fiquei ali sozinha por um bom tempo, com vergonha de me aproximar de algum grupo. Fingi procurar alguma coisa na minha mochila e tirei tudo lá de dentro. Torcia para que alguma pessoa viesse me dar um oi, um sorriso, qualquer coisa para me tirar daquela aflição de estar completamentesozinha numa sala cheia de gente.

— Oi. Beleza?

Não creio! Alguém falou comigo! Alguém falou comigo!Não posso perder tempo, tenho que ser simpática, que sorrir mostrando os dentes, preciso me mostrar interessada, engrenar um diálogo incrível!, planejei.— Arrã.

Nossa, nota zero para mim. Zero, zerésimo. Eu sou uma anta mesmo. Louca para fazer amizade, para não me sentirdeslocada, para me sentir alguém no mundo e mandei um“arrã” logo no primeiro contato. Péssima aluna na matéria“relacionamento com gente nova”. Em pouco tempo, comcerteza, eu viraria “a antipática do arrã”. Meu apelido em toda a escola seria “Arrã”. “Olha a roupa que a Arrã veio hoje!”, “Repara só na Arrã comendo”. “Nossa! Arrã não sabe escolher perfume!”, “A letra da Arrã é medonha!”, eles diriam, às gargalhadas. Triste. Para piorar meu sofrimento,de “Arrã” eu viraria “a rã”, de “rã” pra “sapa” seria um pulo e“sapa” seria o fim. O fim! Que futuro terrível me esperava!Claro que depois dessa recepção gélida (com direito ao arrã estúpido que me fadaria ao insucesso escolar) seri apraticamente impossível o menino continuar puxando assunto.

— Você é nova aqui?

Ai, que fofo! Ele puxou assunto! Ele insistiu! Ele queria mesmo falar comigo. Oba!, comemorei por dentro.

— Sou, é meu primeiro dia — respondi.

Que avanço! Uma, duas, três, quatro, cinco! Cinco palavras! Eu estava melhorando. Tudo bem, podia ter perguntado “E você?”. A minha timidez atrapalhou, mas ele deveter lido meus pensamentos.

— É meu primeiro dia também. Onde você estudava antes?

Ufa! Que bom conhecer alguém na mesma situação. Um

parceiro de ADPD (Angústia Do Primeiro Dia), uma pessoa

tão peixe fora d’água quanto eu. Eu não estou só!, comemorei, brega, dramática e internamente.

— Numa escola em Vitória, no Espírito Santo. E você?

— Em Copacabana, mas meus pais cismaram de me botar nesse colégio. Além de ser bem mais perto da minha casa, eu gosto de colégio novo. E falam benzão daqui, dizem que é um dos melhores do Rio. Os alunos gostam, os pais gostam.

— É?

Caraca! Eu estava péssima no quesito diálogo. Péssima!Pior: com o menino que seria meu parceiro, meu brother deprimeiro dia, meu salvador! Ele desandou a falar e eu sófalei “é”. “É”!!! E pensar que eu estava feliz da vida por ter alguém para conversar, era incrivelmente maravilhoso não estar mais sozinha e deslocada... Pena que eu não conseguia traduzir essa ótima sensação em palavras. Coitado do garoto, ele parecia ser tão legal...

— É, dizem que é uma escola muito boa. Meu pai falou que os professores daqui são excelentes. E o lugar é irado,né?

Eu precisava continuar o diálogo decentemente! O garoto era fofo e conversador, não podia deixá-lo na mão! Não podia espantá-lo e expulsá-lo pra longe de mim. Precisava unir forças com ele. Mais um fora e ele não puxaria mais papo nenhum comigo e passaria o resto do ano me achando antipática, metida e nojenta. Ou burra, sem assunto e sem cultura geral.

— Com certeza.

“Com certeza”? O que é isso, Mônica?, recriminei-me. De onde eu tirei “com certeza”? Que coisa mais ridícula!Ele sentou-se na mesa ao lado da minha e fechou a boca. Claro, eu também calaria a minha depois de um “com certeza” desses. Precisava fazer algo, precisava voltar a conversar com ele. E já que ele tinha comentado o quão irado era o colégio...

— Irado é você — eu disse, perdendo uma ótima chancede ficar calada. Por que eu disse isso? Por que não pergunteio nome dele, que eu ainda não sabia? “Irado é você.” Que frase era aquela? Agora parecia que eu estava a fim dele.Mas eu não estava a fim dele. Eu nem conhecia ele!Ele ficou vermelho.

— Pô, que é isso...

Droga! Ele agora ia ficar metido, ia falar pra todo mundo que eu dei em cima dele, que eu estava derretida por ele, que eu estava apaixonada, que eu o achava irado. E ele era zero irado. Mas eu disse que ele era irado. Com todas as letras: i-r-a-d-o. Onde eu estava com a cabeça? Era preciso consertaro estrago.

— Irado é modo de dizer, viu? Nem te conheço, como é que vou saber se você é irado, né? Eu só quis dizer que você é simpático por ter vindo falar comigo. Simpaticão.

Meu Deus! Alguém podia enfiar uma rolha tamanho GG na minha boca? Simpaticão? Que coisa de vó! Minha avó que tem mania de tascar um “ão” nos adjetivos. Ai, que vergonha. Agora foi a minha vez de ficar vermelha.

— Meu nome é Cebola, mas pode me chamar de Ce.E o seu?

Ufa! Ele passou batido pelo meu insano comentário.

— Mônica. —Inacreditável! Eu nunca tinha ido tão mal numa conversa! O menino certamente ia sair dali me achando maluca!efeitos colaterais assim?, eu me questionei enquanto fazia cara de paisagem e tentava agir normalmente.

— Dizem que as gincanas daqui são sempre muit...

Nessa hora, o Ce foi cortado por um loirinho de olhos azuis que era o menino mais branco que eu já tinha vistoem toda a minha vida.

— Aí, beleza? Você joga bola?

— Jogo.

— A gente tá precisando de um lateral direito pra completar o time da turma, tá a fim?

— Tô dentro.

— Aí, gente, fechamos o time! Qual é seu nome?

— É Cebola.

— Vem pra cá, Cebola! Chega mais! — chamou um outro garoto.Cebola levantou-se e foi. Nem se despediu. Nem sequer de uum aceno. Deixou-me ali sozinha de novo, olhando para over de bonito do lado de fora da janela. Eu não podia correro risco de esbarrar com outra pessoa e fazer tudo errado de novo.

Notas finais
Deixem reviews pfv!