Ela
1 Um Sonho a ser Vivido
Notas iniciais
Faz já um tempo que vejo Ela nos meus sonhos. Lembro das mãos suaves d'Ela passando pelo meu rosto, da neblina branca que nos encobria, da perfeição de seus cabelos dourados. E, sempre que o sonho termina, ela sussurra algo em meu ouvido que não consigo distinguir, e acordo sentindo meu peito cheio.
Saio da cama, e vou seguindo minha rotina. Todos os dias, a mesma rotina, a mesma vida cinza. Mas o que me motivava a continuar era a sabedoria que todas as noites eu encontraria Ela nos meus sonhos.
Quando finalmente deito, fecho meus olhos e entro em sono profundo, lá está Ela. É como se todo o seu ser fosse meu motivo de viver, todo aquele lugar fosse meu parque de diversões. Ela pegou na minha mão, e me conduziu pelo parque de brincadeiras.
"Vamos, pois não temos muito tempo." ela disse, com um sorriso que derreteria mil corações. O toque dela era quente e cheio de felicidade.
"Por que esse sonho tem que acabar?" perguntei. Me surpreendi, afinal, era a primeira vez que eu conseguia produzir algum som naquele sonho.
"Por que senão Ele chega." me respondeu, numa voz baixa, como se estivesse com medo.
"E quem é Ele?" questionei mais uma vez, curiosidade fervendo nas veias.
"Ele é a destruição. Se Ele chegar, isso tudo vira cinza." explicou. Eu nem sabia se estava prestando atenção nas palavras ou na pura voz angelical d'Ela. "Mas tem um jeito de detê-lo."
"E qual é esse jeito?"
Ela apenas sorriu para mim de novo, e continuou a conduzir-me pelo maravilhoso sonho. Cada passo, cada respiração, cada toque, eu valorizava como se fosse o último. Me perdia entre seus cachos, e em seus olhos caramelados. E ria, ria como nunca na minha vida.
No final, enquanto deitávamos na relva, ela se aproximou do meu ouvido e sussurrou as palavras incompreensíveis mais uma vez. Tentei perguntá-la o que era, mas já era tarde. O branco do teto do meu quarto já era visível, e o formigamento inconfundível do meu peito já atacava.
De novo, segui minha rotina, cada vez mais roboticamente. Sem Ela, para mim, as coisas não tinham mais cor. As pessoas não eram tão interessantes. A rotina era tediosa. Ela preenchia um vazio que minha mente não sabia explicar. Por isso, ao passar de cada dia, eu ia dormir um pouco mais cedo.
Dessa vez, o sonho começou no topo de uma montanha, esta preenchida de adoráveis flores amarelas. E Ela estava lá, rindo no meio delas. Comparado com seu cabelo, o amarelo das flores era quase inexistente para mim.
"Vem, e sente o quão macias elas são!" gritou para mim, e eu corri até ela. Ajoelhei ao seu lado, e senti as flores.
"É verdade, são agradáveis ao toque." comentei, porém com meus olhos fixos n'Ela.
"Uma pena que talvez tudo isso irá sumir." disse, tristemente. "Por que você vai fazer isso?"
"Fazer o quê?"
"Se Ele vier, tudo isso vai sumir. E você tem pensado n'Ele, não é?"
Eu não entendi o que ela estava querendo dizer, mas a expressão triste escrita por toda sua face me entristeceu também. Me fez querer destruir esse tal "Ele"... pois, afinal, quem seria louco de destruir toda aquela beleza?
"Não deixe Ele turvar suas ideias. Não deixe." implorou Ela.
Depois, se inclinou até mim, e sussurrou mais uma vez as palavras incompreensíveis. Acordei, mas desta vez, com vazio no peito. Enfim, olhei para os remédios, em cima do criado-mudo ao lado da cama, e decidi que não queria tomá-los.
Na verdade, eu não queria levantar da cama. O que poderia ser melhor que aquele sonho? O que, na vida, poderia preencher o vazio senão Ela?
Me isolei no quarto por um dia inteiro, e quando a noite finalmente veio, adormeci, recheada de esperança fantasiosa. Eu precisava vê-la.
Todavia, o sonho estava diferente.
Ela estava em pé, me encarando diretamente. Os cabelos dourados reluzentes já não flutuavam como sempre, nem transmitiam o mesmo brilho. Os olhos, antes cheios de vida em forma de caramelo, agora estavam vermelhos de choro. Ela veio, e me abraçou, forte, e eu não soube reagir.
"Ele chegou. Você precisa ser forte." lamentou no meu ombro, apertando-me como se eu fosse sua única esperança.
"Me diz, quem é Ele? E o que aconteceu com você?" perguntei, com desespero em cada palavra. Eu não queria ver aquele mundo perfeito desabar.
Ela apenas me encarou, com uma expressão de luto. Se aproximou de meu ouvido, e eu sabia que ela iria sussurrar algo que eu não entenderia.
"Olhe para o espelho."
Acordei num susto, suor escorrendo pelo meu rosto. Ainda era madrugada, e aquele vento frio se arrastava pela janela meio aberta do meu quarto.
Levantei, hesitante e sem motivação. Ela havia mandado eu olhar para o espelho, mas eu havia jogado a maioria fora conforme os meses passaram.Estava triste, afinal, como iria salvá-la?
Então lembrei: eu ainda guardava um espelho de mão no fundo da gaveta do armário. Com pressa, me dirigi até o móvel, e cacei o objeto como se eu precisasse dele pra viver, alucinadamente. Quanto minhas mãos alcançaram uma superfície lisa, soltei um suspiro. Quantos meses haviam passado sem que eu me olhasse no espelho?
Tive que me forçar a olhar. Eu não queria, mas tive que me forçar. Eu queria salvar Ela.
No espelho, um rosto cansado me encarou de volta. Cabelos dourados, mas sujos, adornavam as laterais da cabeça num turbilhão bagunçado. Vi olheiras que enfeiavam olhos de cor caramelo. E então, finalmente entendi.
Eu era Ela consumida por "Ele".
Larguei o espelho e me ajoelhei, chorando. Eu sabia quem era Ele. E também sabia que era Ele que retirava a cor dos meus olhos, e a diversão da minha mente.
Ele, que quase fez eu destruir tudo que amava, pois os remédios estavam espalhados pelo chão.
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