Ela é tudo
4 Visitantes
Notas iniciais
Como Diana havia aceitado, eu iria me encarregar da enfermaria, por isso Abraham acompanharia Daryl nas rondas a partir de agora.
Foi até bom, não íamos nos dar bem, nós dois temos gênios fortes e quando entram em atrito, consequentemente causam colisão.
Ninguém tinha aparecido, por isso decidi organizar a prateleira, só para manter tudo em ordem.
— Toc-toc.
— Oi, Maggie. — sorri para ela.
— Vim trazer essas toalhas… — disse colocando-as em cima do balcão — E pegar as outras usadas. — passou por mim, indo em direção ao banheiro onde todas se encontravam já usadas. — São muitas!
— Estão bem sujas mesmo. — comentei com uma careta.
— Até parece o Daryl. — Maggie brincou e eu apenas dei um sorrisinho de canto — Vocês dois ainda não se falam?
— Só o necessário. — fechei a porta do pequeno armário e me virei para ela — Ele não deve gostar de mim, tornando tudo uma grande incoerência já que o mesmo ajudou a me salvar.
— Daryl não gosta de se apegar às pessoas. O que é normal para todos nessas condições, mas no caso dele é bem mais complicado.
— Ele perdeu alguém? — minha curiosidade possuía vida própria.
— Sim… O irmão e a Beth. — Maggie suspirou.
— Beth? Quem é Beth?
— Minha irmã.
Dessa eu não sabia.
— Ah, desculpa, não sabia. — pedi, me sentindo uma idiota novamente.
— Nem tinha como saber, relaxe. Então, os dois eram bem próximos, ele a tratava muito bem, do jeito torto e seco dele, mas tratava. Disposto em protegê-la de qualquer coisa. — Maggie limpou os olhos — Mas aí mataram ela, depois disso Daryl se manteve muito mais recluso que o normal. Acredite ou não, suas atitudes mudaram depois que você chegou. Sei que não parece, mas lá no fundo ele se preocupa contigo, pois ninguém visita o quarto de outra pessoa sem realmente se importar.
Como é, que é? Daryl visitava meu quarto toda noite?
— Espera… Calma, deixa eu ver se entendi… Daryl entra no meu quarto toda noite quando estou dormindo? — de fato, me encontrava chocada.
— Droga, prometi ao Glenn que não contaria. — ela coçou a nuca.
— Não vou contar nada, só quero saber o que ele faz indo me ver dormir. Que bizarro. Devo me preocupar?
Maggie deu risada.
— Definitivamente, não.
— Mesmo assim, continua estranho. Agora me sinto estranha.
— Saiba apenas que por baixo de toda aquela armadura e sujeira, existe alguém que morre de medo de passar pelas mesmas coisas de novo.
— Tentarei me lembrar disso quando for me deitar.
— Deixa eu ir lavar isso, a gente se fala depois. — ela não quis prolongar a conversa.
Passei a tarde toda pensando naquilo e bolando alguma forma de pegá-lo no pulo.
No fim do meu “expediente” tranquei a “enfermaria” e voltei para a casa. Finalmente Rick havia encontrado um tempo para me ajudar a atirar.
— Olá, garotos e Judith. — cumprimentei Carl e Enid que estavam sentados na varanda cuidando da bebê.
— Oi, Lessa. — responderam.
— Seu pai chegou? — perguntei apontando para a casa.
— Chegou, está tomando banho. — Carl falou, assenti e segui para dentro.
Também iria tomar um banho antes de colocar a mão na massa. Subi as escadas com pressa e estava indo na direção do meu quarto quando Rick surge no corredor somente com a toalha na cintura.
Deus.
— Alessa, oi. — ele reforçou a toalha para que não houvesse nenhum imprevisto, suponho.
— Oi. — tentei não demonstrar estar completamente constrangida e impressionada ao mesmo tempo. — Acabei de chegar, já ia tomar um banho… Também.
— Ainda está de pé, certo?
— Está sim, com certeza. — fechei os olhos, procurando o que dizer — Melhor ir, não quero me atrasar.
— Te esperarei lá embaixo. — avisou e eu somente assenti.
Nada poderia ficar mais estranho.
***
Aquela coisa ficava me encarando e eu não fazia ideia do que fazer com aquilo.
— Rick, não vou conseguir. — falei com medo de encostar naquilo e acabar disparando sem querer.
— Você precisa conseguir. Sua foice não será útil para sempre. — ele colocou as balas no revólver e mirou no alvo que era justamente a cabeça de um zumbi. — Vamos, pegue. — hesitei um pouco — Alessa, por favor…
— Está bem. — peguei da mão dele sem nenhuma prática e mirei mesmo tremendo.
— Um pouco mais para o meio. — Rick tocou a minha mão com a dele, levando-a na direção correta. — Assim.
— Está bom? — perguntei.
— Atira.
— O quê!? — engoli seco — Mas já?
— Atira. — tornou a repetir, ignorando meu desespero.
Respirei fundo, segurei com mais firmeza e apertei o gatilho, sentindo uma pressão enorme sobre meus pulsos, porém acabei acertando entre as sobrancelhas.
— Meu. Deus. — joguei aquilo na mesa e me afastei.
— Você foi bem. — Rick retirou a munição e guardou em seu bolso.
— Eu fui bem? Eu estou em choque! Escuta meu coração! — peguei sua mão e coloquei sobre o lado esquerdo do meu colo.
Seus olhos se abaixaram para sua mão e um silêncio perturbador se instalou entre nós.
— É, ele está bem acelerado.
— Sim. — o soltei e passei a encarar meus pés.
— Rick, temos… — eis que surge Daryl — Visitantes. — sua expressão confusa me fez alvo de curiosidade.
— Visitantes? Como assim? — Rick saiu dali rapidamente, claro que fui atrás.
Ao pisarmos para fora do pequeno barracão pudemos ver um agrupamento de pessoas armadas. Nem pensei duas vezes, voltei e peguei o revólver em cima da mesa.
— Rick, Rick! — o chamei, alçando-o no meio do caminho — As balas! — pedi.
— Ainda não, você não está preparada.
— Veja pelo lado bom, posso fazê-los de peneira até que você ou alguém chegue e acerte em cheio. E ainda tenho minha foice, caso algo dê errado.
— Aqui está, só não faça nada até termos certeza do que eles querem. — Rick me entregou as balas. — Seja discreta.
Michonne já estava lá junto de Abraham e Sasha, conversando.
— O que está acontecendo aqui? — Rick fez todos o olharem.
— Vejam só pessoal, esse é o grande Rick Grimes! — um dos caras disse, jogando o cigarro longe e vindo de encontro com a gente.
— Quem são vocês e o que fazem aqui?
Fiquei apenas na espreita, observando.
— Sou Ben, estamos procurando por um lar e comida, estamos na estrada faz dias.
— Como podemos ter certeza de que vocês são confiáveis? Pois pessoas que invadem um local fechado, normalmente são consideradas fora da lei. — tomei partido e perguntei.
— Não existe mais nenhuma lei que diga isso, vadia. — uma loira se dirigiu a mim enquanto girava uma faca entre os dedos.
— Ninguém aqui falou com você. — rebati e olhando com repulsa.
— Escutem, não queremos guerra.
— A menos que vocês queiram. — novamente a loira abriu a boca.
Rick se calou, ficando pensativo.
— Não está pensando em aceitá-los, não é? — perguntei baixo, evitando que os demais ouvissem.
— Diana nos aceitou sem saber quem éramos, seria injusto não retribuir, Alessa. Não é do meu feitio.
— Eles não parecem ser pessoas boas. — encarei a loira que mascava seu chiclete de modo grosseiro.
— Se não forem, temos como nos defender. — pude ver certeza na forma que me olhava, mesmo que eu não estivesse nada confiante em relação a eles.
Olhei atravessado para ela, com uma imensa vontade de cortar sua garganta e entregar aquele corpo esguio aos zumbis.
Atrevida.
— Não acho que seja uma boa ideia. Eles não são confiáveis. — sussurrei para Rick.
— Você tem razão, temos que manter a ordem por aqui. — ele me respondeu sem tirar os olhos de cima dos visitantes.
— E aí? — um dos outros caras “ameaçou” dar um passo para frente, porém Daryl o impediu.
— Sinto muito, mas terão que sair daqui agora mesmo. — Rick colocou a mão sobre sua arma que estava em seu quadril.
— A gente não tem para onde ir! — disse Ben. — Precisamos ficar!
— Mas não vão! Será que são surdos? Ouviram ele! — Daryl disse alto — Atreva-se a erguer essa arma que faço de sua cabeça um belo alvo de minha flecha.
— Qual é… — a loira andou até Rick, se aproximando bastante dele — Nos ajude. Podemos ser um reforço.
— Sinto ter que repetir, mas não é não, acho que já aprendeu isso em algum momento de sua vida. — ele se manteve forte ao negar-se em olhar para o decote dela.
— Sinto te dizer que, nunca recebo um não! — ela arrancou uma faca da sua bota e enfiou no ombro de Rick.
Não pensei duas vezes e saquei a arma, atirando acima da sobrancelha esquerda dela e empurrando Rick para o lado.
— Vadia! — exclamei dando mais um tiro.
Todos começaram a atacar uns aos outros com suas armas.
Joguei aquilo do lado e peguei a minha foice, realmente pronta para dar conta do recado.
Me sentia desconfortável segurando um revólver, mesmo sabendo que era necessário.
— Você matou a minha… — Ben desejou atirar em mim, mas Daryl foi mais ágil e o matou com uma flecha na cabeça.
Não falei nada, só continuei os ajudando como podia.
— Michonne, leve o Rick para dentro e tente estancar o sangue, em alguns minutos estou la! — pedi ao enfiar a ponta da Fany na cabeça de mais um cara.
Ela assentiu e fez, o levando com dificuldades para dentro da casa.
— Desgraçado! — Daryl praguejou ao pegar a flecha usada de volta.
— Matamos todos? — questionei ainda em alerta.
— Atrás de você! — Sasha me avisou.
Me virei e parti a cabeça do maldito em dois, o vendo cair desfalecido no chão.
— Odeio turistas! — bufei olhando o caos que aquele pequeno metro quadrado havia-se tornado em poucos minutos — É por isso que não devemos confiar em Visitantes que invadem um local fechado. — guardei a Fany no lugar — Querem ajuda com a desova? — ofereci-me.
— Não, vá ver como Rick está, nós cuidamos disso. — Sasha disse.
— Tudo bem, qualquer coisa me chamem, estarei lá dentro. — avisei e antes de ir, olhei para Daryl, pois parecia que gostaria de dizer algo, mas como sempre, ele virou o rosto.
Infantil.
Subi o pequeno degrau e da janela pude ver que Michonne fazia o que eu tinha pedido.
— Pode deixar comigo, assumo daqui. — sorri para ela — Obrigada.
— Não por isso. Fique bem, Rick. — ela sumiu pela porta, deixando a gente sozinhos.
— O corte foi profundo. — disse ao me aproximar dele para olhar com mais nitidez — Vamos ter que dar uns pontos. — constatei nada contente enquanto tocava em volta da ferida. — E vai doer um pouco. — torci o nariz — O que foi? Está sentindo alguma coisa? — perguntei ao vê-lo me olhar.
— Não, eu só fico feliz por estar aqui. Cuidando de todos e de mim. — ele sorriu.
— É o que uma enfermeira faria em qualquer caso, cuidar das pessoas.
— Obrigado. — agradeceu.
Nossos olhares se uniram por longos segundos, descompassando a minha respiração até eu cair na realidade e agir como se nada de estranho tivesse acontecido.
— Eu que agradeço, sempre. — passei a mão pelo cabelo dele — Vou pegar algo para tampar isso até que amanheça. Não saia daí. — avisei e ele assentiu.
Ele era um homem bom, todos eram pessoas boas, inclusive Daryl que agia de forma estranha, mas que pelo o que descobri hoje, tem um bom coração, só que ainda está meio machucado.
Após toda confusão, todos estavam realmente exaustos, algo que era de se esperar tendo uma vida como essa. Por tanto resolvi me deitar antes para poder descansar, mas ao pousar a minha cabeça no travesseiro, a única coisa que me veio a mente foi Daryl vindo me ver enquanto durmo.
Naquele instante já perdi o sono e me sentei sobre a cama.
Não era para ser tão perturbador se ele fosse alguém sociável e que ao menos demonstrasse se importar com algo, mas não é o caso, certo?
Estiquei meu braço e acendi a luz, esperando o sono chegar de todas as formas, era frustrante ficar pensando naquilo sendo que o mundo está desabando.
Ouvi passos e apaguei a luz correndo e me deitei, cobrindo-me a cabeça e fingindo estar dormindo.
Os passos foram ficando cada vez mais altos e pude perceber que já se encontravam ali.
Estava aterrorizada mesmo sabendo de quem se tratava, meu cérebro sempre dava um jeito de me fazer duvidar da coisa mais certa que existe, colocando buracos onde não tem.
— Oi. — começou a dizer e meu coração desacelerou ao ouvir sua voz — Sou eu de novo, isso continua estranho… Tanto quanto da primeira vez e seria constrangedor se caso ficasse sabendo, mas claro, não tem porque saber, você me odeia.
Eu não o odiava, só não entendia as milhares de coisas que ele fazia.
— Queria que soubesse que, após sua chegada, meu subconsciente trouxe Beth de volta, por isso estive tão longe e aparentei ser um pé no saco. Não sou um ser humano ruim, só passei por coisas ruins e sei que passou também, deveria me entender. — senti sua mão tocar meu braço — Rick gosta de você, muito mais do que parece gostar dos outros. Deve ser loucura minha, talvez. Mas quem não gosta de você, certo? É uma garota genial! Inteligente, habilidosa, amorosa e cuidadosa. Tudo que todo mundo poderia desejar, inclusive eu. Poderíamos ser amigáveis um com o outro, já me bastaria, mas ainda assim não tem como saber, então… Continuamos nesse dilema. Sinto muito por achar que sou um carrasco quando na verdade estou tão perdido quanto qualquer um aqui. Quer saber? Não deveria ter vindo aqui hoje, foi um péssimo dia e tenho certeza de que está muito cansada. Boa noite, Alessa.
E seus passos foram se distanciando, fazendo coro com as batidas frenéticas do meu coração.
Daryl Dixon tem sentimentos.
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