Ela é o Cara
6 Acorda, acorda, acorda, acorda!
Notas iniciais
— Aí Uon-Uon, o que você acha? Parvati e eu queremos sair no próximo final de semana. Quero comprar algumas coisas no shopping, já que eu estou mesmo precisando renovar algumas peças do meu guarda-roupa... Você não vai se importar com isso, não é, amorzinho? Nunca fiquei tanto tempo longe de você, meu Uon-Uon... — dizia a garota loira, com voz de taquara rachada que seria uma ótima imitação fazendo jus à Janice de Friends, se a frase seguinte fosse: "OH – MY – GOD" ela poderia ganhar um Oscar pela excelente representação.
Em apenas meia-hora de almoço, enquanto todos se encontravam no Salão Principal após as duas primeiras aulas do dia, Ginny já não estava mais conseguindo suportar o showzinho melo dramático do seu primo Ronald e sua namorada — sanguessuga — Lavender Brown. Os dois pareciam ter ímãs próprios implantados em vários pontos da anatomia física, pois assim que ficavam próximos demais um do outro ou nem que fosse a centímetros de distância; começavam a se atracar incontrolavelmente como animais selvagens, um engolindo o outro, sem se importar com quem que estivesse presenciando a cena. O que era — no mínimo —, bem constrangedor. E, ainda como se não bastasse: Em algum momento tinham que se desgrudar para conseguirem respirar e descansar os músculos faciais... Mas, eram aí que as juras de amor infinito começavam, com todos os tipos de declarações de amor melosas e clichês.
Aí meu Deus do céu, acho que vou vomitar!
Ginny não saberia dizer o que era pior, e ficou imaginando como Harry conseguia continuar sendo o melhor amigo do seu primo, tendo que aguentar ele e a namorada com vestígios ninfomaníacos. Era terrivelmente enjoativo. Mesmo estando sentada numa distância razoável de onde Harry, Ron, Lavender e sua amiga Parvati Patil estavam, ainda era possível ouvir e ver, o quanto aqueles dois eram grudentos juntos.
Por isso, desviou os olhos do "espetáculo" a parte, antes que seu almoço fosse desperdiçado... Examinando o Salão Principal com os olhos, Ginny acabou vendo Draco Malfoy almoçando com uma turma bem diferente do que estava acostumada a ver: Junto com ele haviam dois garotos grandões com caras de idiotas que comiam tudo que viam pela frente, um outro moreno mal-encarado que não gostava muito de sorrir, e uma garota bonita com um corte de cabelo preto ao estilo egípcio com um olhar entediante. Esta por último, em especial, aparentemente gostava muito de massagear os ombros do jogador meio-de-campo. Portanto, aquela turma era uma novidade para Ginny, afinal Draco estava sempre na companhia de Harry e Ron, todavia poderia ser apenas por causa do time de futebol. Ou talvez ele não conseguisse suportar ficar muito perto do Uon-Uon e sua namorada: Janice, A Incontrolável Sanguessuga. Ginny riu sozinha do codinome que atribuiu a garota, e acabou pensando que Hermione também iria rir muito com aquilo.
Então, foi aí que acabou sentindo falta da presença da monitora-chefe e mais uma vez averiguou ao redor do Salão Principal a procura do alguém com cachos volumosos e castanhos, mas não encontrou ninguém. Por fim, não conseguiu deixar de se sentir decepcionada, por não encontrar a única pessoa no momento que poderia considerar como uma amiga.
Surpreendentemente, Hermione conseguiu ler seus pensamentos e simplesmente "brotou" do nada no campo de visão de Ginny.
— Acredite, eu consegui identificar diversas formas de acasalamento entre espécies animais nas aulas de Biologia com a professora Sprout — anunciou Hermione de modo que somente as duas poderiam ouvir, enquanto ela sentava-se no banco da comprimida mesa de refeições de frente para Geofrey —, mas essa aí, é uma novidade na área da procriação pra mim.
Hermione não apontou para nenhum lugar ao dizer aquilo, mas Ginny sabia perfeitamente a quem, ou melhor ainda, às quais pessoas ela estava se referindo. Por causa disso, foi quase impossível não abrir um enorme sorriso de satisfação, ao ver a sua mais nova amiga sentada bem à sua frente.
— O pior é que existe uma definição exata para o que eles estão fazendo, mas normalmente não fazemos isso em público... — falou, sem precisar alterar seu tom de voz para parecer com um garoto. — Peraí, por que você está aqui? Não pode sentar comigo, quero dizer, com o Geff.
— É claro que eu posso, estamos num país livre. Portanto, eu sento aonde eu quiser, e principalmente, com quem eu quiser.
Ginny sabia que aquela era uma desculpa plausível e ela estava certa, ao menos se elas tivessem que se preocupar apenas com direitos políticos. Em contraposição, não conseguiu deixar de pressupor que aquilo poderia trazer comentários maldosos de pessoas inconvenientes. E também, não conseguiu deixar de pensar no que seu colega de quarto acharia disso... Oras, ele não teria motivos para não gostar que Hermione se sentasse junto com Geofrey no horário de almoço, não é mesmo? Ou será que ele tinha...? Porque se ele tivesse alguma coisa contra, talvez, fosse porque ele sentisse algo por Hermione... Ciúmes, por alguém que ele gostava, estar perto de alguém que ele não gostava?
Ela não pode deixar de se sentir desconfortável, caso isso fosse verdade.
Voltando-se para olhar discretamente com o canto dos olhos na direção em que Harry estava, Ginny notou que ele estava observando Hermione e Geofrey, com um dos arcos das sobrancelhas arqueados, demonstrando estar intrigado com a companhia dá amiga, mas, nada além disso. Contudo, seu primo Ron — depois de ter recebido um beijo desentupidor de sua namorada —, deve ter se sentindo curioso com a expressão do amigo, pois acabou girando a cabeça na direção em que Harry estava olhando... E Ginny não conseguiu segurar o riso depois de ver a reação do seu primo. A qual, por sinal, foi muito expressiva: as orelhas dele ficaram quase no mesmo tom dos cabelos ruivos, ele franziu o cenho de um modo que as sobrancelhas formaram uma única linha em sua testa, e ficara segurando o copo de vidro com suco que tomava a pouco, com tanta força que os nós de seus dedos ficaram esbranquiçados. Aquela com certeza era uma reação típica de ciúmes, e não era nenhum pouco amigável.
— Do que você está rindo? — Hermione quis saber.
— Ah, não olhe agora — Ginny disse com ar de riso, fixando o olhar em Hermione. — Mas, Ron não está nenhum pouco feliz em ver você sentada junto com Geff.
— O que? Porquê? Isso é ridículo — disse ela incrédula, mas acabou não aguentando a curiosidade e girou a cabeça rapidamente para o lado para constatar o que Ginny dissera.
— Hermione, eu disse para você não olhar para eles!
— Não foi uma opção quando você não disse, para qual lado exatamente, eu não poderia olhar — constatou ela notoriamente. Ginny girou os olhos para a desculpa esfarrapada dela. — Além do mais, eu não acho que Ronald esteja com raiva por minha causa.
— Ah por favor, é claro que ele está assim por sua causa — constatou enfaticamente. — E ele não está com raiva, está com ciúmes.
— O que? Claro que não — Hermione falara enquanto abria um de seus livros em cima da mesa, sem olhar para os lados —, e de novo, isso é ridículo, Ginny.
— Eu acho que você só está tentando negar o fato, que é meio obvio.
Hermione bufou irritada depois do que ela dissera, acertando a caneta que estava segurando com tanta força de encontro com o papel que acabou furando-o com tamanha a sua fúria. Ademais, Ginny arrependeu-se um pouco por ter insistido tanto naquele assunto, e achou melhor terminar a sua refeição de bife com batatas do meio-dia, deixando incorporar o silêncio entre as duas. Antes que Hermione resolvesse fura-la do mesmo jeito que furara a inocente folha de papel, se ela não calasse a boca.
Após várias viradas bruscas de papel, e algumas garfadas de comida. Hermione relaxou os ombros de modo derrotado.
— Você está certa.
Ginny apenas levantou os olhos sem dizer nada.
— Eu gosto dele — confessou ela, Ginny abriu e fechou a boca, prestes a contradizer alegando que não fora exatamente isso que ela havia dito anteriormente, mas achou melhor continuar apenas ouvindo.
— Eu sempre achei que havia alguma coisa diferente entre nós dois, sabe? — disse Hermione contidamente, pois provavelmente aquele era um assunto difícil para ela abordar abertamente. — Quero dizer, sempre fomos só nós três, eu, Harry e Ron, desde que começamos a estudar aqui em Hogwarts. E, eu sempre tive certeza do modo que me sentia em relação ao Harry. Porque, ele sempre foi o irmão que eu nunca tive, assim como eu sempre soube que ele sentia a mesma coisa em relação a mim. Só que, com o Ron... Era muito mais complicado.
"Nós dois nunca nos demos muito bem, sempre brigávamos por várias coisas, implicávamos com tudo que fazíamos, estávamos sempre prontos para discutir por alguma coisa. E ele nunca me viu como uma opção, entende? Como uma garota que ele poderia convidar para sair, nos termos de um encontro romântico. Eu esperei que ele fizesse isso, mas nunca aconteceu. Então, um dia eu conheci Victor... Ele era gentil, simpático, engraçado e sempre conseguia me fazer sentir especial. Nós começamos a sair, e eu gostava muito da companhia dele... Mas, havia sempre um problema, um defeito, e eu sentia que alguma coisa estava errada. Foi quando eu percebi que não tinha como dar certo entre nós dois... E acabei terminando com ele.
"Nesse meio tempo, as brigas entre mim e Ron pioraram, a ponto de que ficamos muitos meses sem falarmos um com o outro. Como consequência disso, Harry acabou ficando dividido entre nós dois, sem querer escolher um lado. Depois de um tempo, Ron e eu voltamos a nós falar, mas já não era como antes. Porque eu sabia que alguma coisa havia mudado, mas não conseguia aceitar isso. Então, eles entraram para o time de futebol e começaram a frequentar as comemorações pós-vitória do campeonato que Draco começara a dar na mansão dos pais dele. E essas festas na casa dos Malfoy, eram bem conhecidas por haver muita badalação, garotas oferecidas e álcool. Eu nunca havia frequentado esse tipo de festa e nem tinha interesse nisso, só que um dia Draco resolveu me convidar e eu acabei aceitando, por educação, é claro. Eu não queria, mas acabei indo para um dessas comemorações idiotas, e com certeza foi a pior decisão que já tomei na vida.
"Quando cheguei lá, a primeira coisa que vi, foi um dos meus melhores amigos caindo de bêbado, Harry estava dançando num canto escuro com a maluca da Romilda Vane, que provavelmente o embebedou para conseguir aquilo. Mas, no meio da sala de estar, de frente para todo mundo que quisesse ver, estavam Ron e Lavender deitados no sofá, se agarrando tanto que a blusa dela foi parar no meio da mesinha de centro. Eu nunca me senti tão horrível em toda a minha vida, depois de ver essa cena. Tive vontade de voar para cima dos dois e arrancar a cara dela de cima dele aos tapas, e depois chuta-lo no meio das pernas com tanta força que ele nunca mais poderia ter filhos, e assim quem sabe ele sentisse a mesma dor que eu estava sentido naquele momento... Só que eu não fiz isso. Nem poderia, afinal nós não éramos nada além de amigos. Apenas isso, amigos. Então, eu só consegui dar meia volta e ir embora. E foi nesse dia, depois de vê-lo com outra garota, que eu parei de negar o que já estava sentindo a muito tempo."
Ginny ouviu tudo o que ela dissera atentamente, sem fazer nenhum tipo de comentário. Mesmo depois que Hermione terminou de falar, as duas apenas se olharam por um momento, numa muda compreensão.
— Quer saber? Meu primo é um completo babaca, por não ter percebido o que estava bem de baixo do nariz dele.
Hermione sorriu de canto depois do que ela dissera, mas acabou suspirando com desânimo em seguida.
— Eu nunca contei isso para ninguém. Nem mesmo para o Harry... Mas, é que eu...
— Precisava desabafar.
— Sim, eu precisava. Obrigada por me ouvir, Ginny.
— Você já fez muito por mim Mione sem nem me conhecer, então era o mínimo que eu poderia fazer por você.
Com ambos sorrisos de gratidão entre amigas, elas voltaram para o que estavam fazendo. De repente, Hermione levantou de um salto, guardando todos os seus livros e deixando apenas um deles numa das mãos, movimentando-se rapidamente.
— Vamos, o sinal para a próxima aula vai tocar e você não vai querer chegar atrasada para as aulas de Literatura Inglesa com a professora McGonagall.
Ah, agora sim, aí está a velha e boa Hermione de sempre...
Mas, Ginny achou que ela estava se apressando demais antes do tempo. No entanto, achou preventivo se levantar e guardar suas coisas assim com Hermione fizera. Então, quando estava prestes a sair para acompanhar a amiga para a próxima aula...
PIIIN PIIIN PIIIN
Caramba, será que ela tem um cronômetro sincronizado com esse negócio?
x.x.x.x
No final de duas aulas seguidas de Literatura Inglesa com a vice-diretora Minerva McGonagall, Ginny sentia que seu cérebro iria explodir de depois de ter absorvido tanta informação em tão pouco tempo.
Caramba, as políticas de ensino da literatura avançada na educação da sociedade subdesenvolvida, são realmente muito importantes!
A sala de aula estava totalmente silenciosa, pois o silêncio gera concentração e a concentração faz com que todos tenham um melhor desempenho de aprendizagem, e essa era uma das muitas exigências na disciplina da vice-diretora. E ninguém seria idiota o bastante para contradizer, ou dizer algo sob o olhar severo da professora de Literatura Inglesa, ainda mais com o agravante do olhar mortal da melhor aluna e também monitora-chefe sentada à frente da mesa da vice-diretora.
Por fim, depois de duas horas de atividades de literatura avançada em concentração, o silêncio fora quebrado.
— Ótimo, agora eu quero vocês ouçam atentamente os avisos que irei dar — anunciará a professora McGonagall, prestes a dar por encerrada as atividades curriculares do dia. — Neste final de semana estarão abertas as permissões da direção para os passeios em Hogsmeade.
Ante as palavras de “permissão” e “passeio” que foram ditas numa única frase pela professora, os cochichos de excitação acabaram sendo inevitáveis, com até mesmo alguns gritinhos a parte por garotas alegrinhas demais.
— Nada melhor, do que uma boa escapada no final de semana, hein — Draco falara com uma piscadela e um sorrisinho sínico, cheio de segundas intenções, para o mesmo grupinho de garotas alegres demais, que retribuirão a insinuação do loiro com sorrisinhos e cochichos entre si.
Ginny tivera que se sentar na mesa-dupla ao lado de Draco e de frente para Harry e Ron, pois ficará sem opções quando chegará na sala de aula. Afinal não poderia sentar perto de Hermione novamente, pois era provável que começassem a fazer perguntas embaraçosas, com a aproximação repentina de Geofrey e a monitora-chefe. Então, as duas concordaram que teriam que manter uma relação não tão próxima para não levantar suspeitas entre os fofoqueiros de plantão.
Portanto, ela tivera que presenciar os “galanteios” baratos de Draco Malfoy com as garotas sorridentes sentadas do outro lado da sala. Tendo que ficar desviando dos vários aviõezinhos de papel que voavam pela sala, assim que a professora McGonagall virava de costas.
— Obviamente espero que se comportem neste final de semana — continuou dizendo a professora, sem se afetar com os falatórios. — Eu e o professor Dumbledore, não queremos de forma alguma, receber reclamações por parte dos cidadãos do vilarejo, assim como já ocorreu anteriormente. Portanto, está terminantemente proibido qualquer tipo de agrupamentos festivos, contendo álcool, relações sexuais e principalmente drogas estimulantes.
— Aposto que esse último aviso aí, é para você Draco — sussurrou Harry sorrindo, de modo que somente os quatro puderam ouvir.
— Sabem como é né, nada como a velha e boa tática: o que os olhos não veem, a gente não se arrepende — responderá o loiro em seguida para os três.
Harry e Ron riram.
— Contudo, para os que não pretendem seguir os avisos que acabei de informar, saibam que este ano tomaremos precauções maiores. Todos aqueles que pretenderem ir para o vilarejo, serão revistados na entrada e na saída da cidade, tanto na ida quanto na volta. Desse modo não tentem ser espetos meus caros, pois já entramos em contando com os comerciantes dos estabelecimentos locais, portanto não serão vendidos produtos alcoólicos para nenhum aluno desta instituição, sem exceções. Ou seja, para àqueles que forem pegos burlando as regras... — dizia a professora, dando ênfase a última palavra. Olhando sob a armação quadrada dos óculos, propositalmente, para o grupo de quatro rapazes. — Irão lamentar, terrivelmente, durante todo o restante do ano letivo.
Ok. A ameaça foi enviada e recebida, com sucesso.
— Droga, lá se vão todos os meus planos para o final de semana — lamentou Draco, fazendo uma careta tristonha para as garotas sorridentes, que já não estavam tão alegres como antes.
— Dado os avisos para este final de semana. Eu e o professor Dumbledore esperamos que todos vocês aproveitem e se divirtam, crianças.
Com um sorriso genuinamente severo é inflexível, a professora McGonagall encerrou oficialmente as aulas do dia.
Ginny guardava suas coisas em sua mochila conforme todo mundo saia da sala de aula, quando encontrou bem no meio dos muitos aviõezinhos amassados em cima da sua mesa, uma folha de papel dobrada perfeitamente. Ela conseguiu identificar imediatamente de quem era aquela folha, por isso quando abriu-a não se surpreendeu com o recado que continha nela: "Me encontre amanhã bem cedo, no mesmo lugar de sempre."
x.x.x.x
Dormir.
Essa palavra tem uma entonação incrível, não é mesmo? E acredite, o significado dela é tão bom quanto. Afinal, depois de um dia cansativo, nada melhor do que poder se jogar numa cama macia e confortável e se entregar de bom grado as profundezas do sono relaxante.
Logo, lá estava Ginny, fazendo exatamente isso. Adormecida no mundo dos sonhos perfeitos, ressonando tranquilamente...
Vruuun – Vruuum
Resmungando porém dormindo, ela abrira as pálpebras lentamente para conferir se ainda era noite ou dia. Constatando brevemente, que a escuridão ainda cingia totalmente o quarto, remexeu-se um pouco mais na cama e voltara a dormir.
Vruuun – Vruuum
Virando-se de um lado para o outro, percebera que aquele barulho irritante estava sendo persistente demais. Mesmo assim a sua vontade de dormir era maior.
Vruuun – Vruuum
Mais um pouquinho...
Só mais um pouquinho...
Vruuun – Vruuum
Ok. Ok. Está bem, já acordei, já acordei!
Sabendo que aquele som inoportuno era o seu celular vibrando insistentemente, ela não tivera outra alternativa senão conferir o que havia interrompido sua noite de sono imprescindível.
Sonolenta, Ginny debruçou-se por sobre a cama para alcançar seu maldito celular, acessando a tela de início pelo leitor de impressões digitais no touchscreen. Logo de cara, não foi possível ver nada por causa da luz ofuscante da tela, que fizeram seus olhos doerem. Então, piscou várias vezes para que a retina do globo ocular se habitua-se a claridade repentina, quando finalmente conseguiu ler as várias mensagens que haviam no WhatsApp:
'Venha rápido, já estou te esperando... – Hermione Granger' 05:58.
'Já levantou? Pelo jeito não, mas é melhor você acordar... – Hermione Granger' 05:59.
'Ginny, temos que fazer isso hoje! – Hermione Granger' 06:04.
'Acorda, acorda, acorda, acorda! – Hermione Granger' 06:07.
Mesmo a conhecendo a pouquíssimo tempo, Ginny já havia entendido que Hermione era persistente demais, por isso, tratou de se levantar da sua deliciosa cama, macia, quentinha e confortável, e ir se encontrar com ela no ponto de encontro marcado. Sem moleza, afinal, era por uma boa causa...
Pé ante pé, sem movimentos bruscos, inspirar e respirar, silenciosamente. Ginny havia tirado a peruca ruiva durante a noite, de modo que retirara também a touca de tecido fino que usava por baixo da peruca para segurar o volume dos fios, por isso prendeu seus longos cabelos ruivos num coque alto bagunçado. Juntou todas as coisas de Geofrey em sua mochila, assim como seus livros e seu Macbook, fazendo tudo isso do mesmo modo, silenciosamente.
Tomando todo o cuidado mundo, para que Harry não acordasse. Conferindo se ele continuava dormindo, ela olhou para a outra cama ao lado da sua e viu seu colega de quarto profundamente adormecido. Estirado de bruços no colchão com uma perna esticada e a outra dobrada por cima do edredom e os braços entre o travesseiro. Ele sempre preferira dormir sem camiseta, por causa disso, naquele momento ela pode ter uma ótima visão da pele bronzeada das suas costas. Era uma visão tentadora e fascinante. Ginny sentira uma vontade imensa de tocar-lhe a pele nua e sentir os músculos do dorso em contato com o toque de suas mãos. Qual seria a sensação da maciez? Será que a pele dele seria tão quente quanto imaginava? Na sua fértil imaginação, ela conseguia sentir o quão instigante Harry poderia ser apenas com um toque das suas mãos grandes, nos seus...
Não Ginny. Esse não é o caminho certo... Não vai por aí.
Inspirar e respirar, silenciosamente. Tivera que obrigar-se a voltar para a realidade. Voltando a sua total concentração, para o que tinha que fazer... Limpara a mente, tirando Harry do seu campo de visão.
Virando-se para a porta, antes de sair do quarto, lembrou-se de responder as mensagens de Hermione:
'Infelizmente, você conseguiu me acordar. Não surte, já estou indo. – Ginny Weasley' 06:11
Passara pelos longos corredores revestidos de pedra, semi iluminados pela pouca claridade do amanhecer, que entrava pelas janelas altas de vidros rústicos. Ginny andou rapidamente ainda vestida com seu pijama-listrado masculino azul cruzando os corredores olhando para os lados, verificando em todos os cantos se não havia alguém que pudesse surpreende-la aparecendo de repente. Ainda bem que naquela hora, o castelo estava deserto.
Evidentemente, afinal todo mundo deve estar nos braços de Morfeu.
Chegando no ponto de encontro marcado, Ginny bateu três vezes antes de entrar no banheiro feminino interditado, anunciando a sua entrada.
O lugar estava numa penumbra total, havia apenas a pouca luminosidade que penetrava pelas janelas pequenas de peitoril alto na parede central do banheiro.
Ela olhou ao redor, mas não havia ninguém. Nada.
Hermione não estava ali, constatou sentindo-se apreensiva.
Será que eu entendi errado e o ponto de encontro não era aqui?
Contudo, ela não conseguiu pensar em outro lugar que não fosse ali.
E se fosse num local diferente, Hermione diria.
'Já cheguei. Mas, aonde você está?! – Ginny Weasley' 06:15
Enviara a mensagem, que fora entregue e visualizada, assim como a anterior. Porém, ficara sem nenhuma resposta.
— Ah não, você só pode estar brincando... Eu odeio isso — dissera para a tela do celular, referindo-se as mensagens não respondidas da amiga.
— Eu gosto de brincar, mas porque ninguém quer brincar comigo? — soara a voz infantil fantasmagórica de uma garotinha. A murta-que-geme.
Ginny sentiu um calafrio na espinha ao olhar para os lados e não ver nada além de escuridão. Sentindo-se uma idiota, por ter medo de um fantasma... Mas, foi então que a sua ficha caiu. Aquilo não era um fantasma...
— Ok. Está bem, eu já entendi — falou, aparentemente para o nada.
— É mesmo? Então, você quer brincar comigo?
— Hermione, eu sei que é você...
Pelo menos eu espero que seja.
Mas, não houve uma resposta. O banheiro voltara a ficar silencioso.
Então, ela ouviu o ranger de uma porta estreita adjacente ao lado dos lavatórios de porcelana branca, abrir-se.
— Sabe da última vez você saiu correndo — falou Hermione rindo, ao sair de dentro de um deposito anexo ao banheiro.
— Serio, mesmo? — ela indagou irritada, cruzando os braços. — O que foi isso? Uma espécie de pegadinha?
— Me desculpe — Hermione dissera entre risos. — Eu não resisti.
Ginny teve que forçar seus olhos para conseguir vê-la nitidamente, por causa da pouca claridade do ambiente. Mesmo não enxergando muito bem, notara que Hermione estava vestida do mesmo modo que ela, com o seu pijama-listado na cor lilás que era padrão dos alunos de Hogwarts. Porém, o pijama que ela usava diferenciava-se — além da cor —, também no modelo, sendo feminino. No cabelo castanho volumoso ela havia feito uma trança lateral, que provavelmente fazia para dormir, prevenindo-se para não acordar descabelada. Além disso, o que era mais perceptível em seu semblante, era o seu sorriso alegre e descontraído, reparando nisso Ginny acabou suavizando a sua expressão, descontraindo-se involuntariamente, pois começara a rir junto com Hermione.
— Tem razão, a minha cara deve ter sido bem engraçada mesmo — concordou, rindo junto com ela. — Mas, vem cá, como foi que você fez isso?
— A murta-que-geme?
Ginny assentiu movimentando a cabeça.
— Bom, isso era uma brincadeira que nós fazíamos — contou Hermione sorrindo, mas de repente seu olhar ficou distante e o sorriso em seu rosto diminuiu, numa súbita melancolia ao lembrar-se do passado. No momento seguinte, como num clique ela voltar a sorrir. — Enfim, foi a muito tempo atrás. Harry, Ron e eu, queríamos fazer um clube só nosso quando estávamos no primeiro ano. Sabe ideias inocentes de criança. Então, acabamos encontrando esse banheiro abandonado, por causa de um antigo boato de que uma garota havia morrido aqui. Aproveitamos essa história mirabolante e inventamos a murta-que-geme, para assustar qualquer um que quisesse tomar conta do nosso lugar.
Ginny sorriu, imaginando como deveria ter sido divertido assustar outras crianças com aquela história fantasmagórica. Em sua mente ela criou a fisionomia de três primeiranistas, escondidos, assustando todos os intrometidos que quisessem invadir o lugar.
— Calma aí, isso aconteceu de verdade? Quero dizer, uma garota morreu mesmo aqui? — ela quis saber, de repente incomodada com o fato de aquilo poder ter acontecido exatamente aonde elas estavam.
— Oh, não, não, não — negou Hermione enfaticamente. — Eu nunca iria concordar com isso, se fosse verdade. Eu pesquise antes, todos os fatos. Foi um acidente. Na minha pesquisa, eu acabei descobrindo que a murta-que-geme estava sendo perseguida por um grupo de garotas idiotas que faziam bullying com ela. Naquele dia o banheiro estava realmente interditado, pois havia um cano entupido que causara um vazamento de água no banheiro, só que ela não sabia disso. E estava tão desesperada que acabou não vendo o aviso, é claro. Quando entrou correndo no banheiro para se esconder, escorregou no piso molhado e acabou caindo batendo a cabeça, bem ali, na pia. A pancada foi tão forte que ela desmaiou, levaram ela direto para o hospital. Felizmente ela sobreviveu. Acordou algumas semanas depois, pediu transferência e nunca mais voltou para Hogwarts. Por causa disso, o boato de que uma garota havia morrido no banheiro se espalhou tão rápido, que ninguém nunca quis saber, o que realmente havia acontecido.
Ginny estava impressionada. Hermione sabia mesmo fazer uma excelente pesquisa dos fatos.
— Uau — exclamou admirada. — Como foi que você conseguiu descobrir tudo isso?
— Ah, sabe, é bem interessante as histórias que encontramos em alguns jornais velhos na biblioteca — constatou ela orgulhosamente. — Mas, eu também consegui a maioria das informações diretamente da fonte. Conversei com a Murta, no ano passado, e ela me contou tudo o que aconteceu naquele dia. Eu até pedi permissão a ela para o que pretendíamos fazer, ela concordou, inclusive ficou bem entusiasmada com a possibilidade de dar uma lição nos alunos que acham engraçado praticar bullying. Depois disso, eu fiquei sabendo que naquele mesmo ano, quando conversamos, ela estava terminando o mestrado em Direito Processual. Não resisti, e liguei para ela novamente. No fim, acabou que ela me deu várias dicas úteis para o vestibular. O que, com certeza, vão ser bem úteis mais tarde.
Hermione terminara de contar a sua façanha com um sorriso gigantesco nos lábios. Os olhos de Ginny brilhavam enquanto mantinha o mesmo sorriso no rosto, compartilhando o contentamento da amiga.
— Com certeza você vai fazer um bom uso dessas dicas — certificou prontamente e, de repente, se deu conta de que elas estavam conversando sem haver luz alguma, na escuridão total do banheiro. Começara a olhar ao redor procurando por um ponto em especifico. — Ãããhm, será que tem algum interruptor por aqui? Ou nós vamos ter que procurar por uma lanterna?
— Nossa é mesmo, acabamos esquecendo disso — falou Hermione rindo, logo moveu-se para perto da porta de saída e acionou o interruptor.
Num clique, a luminosidade circundou totalmente o banheiro, elas tiveram que piscar várias vezes para que seus olhos voltassem a se acostumar com a claridade repentina.
— E aí, o que vamos fazer? — Ginny perguntou em seguida, enquanto observava Hermione movimentar-se para o outro lado do banheiro, abrindo a porta estreita do depósito e retirando suas coisas que estavam guardadas num canto da pequena sala de compartimento.
A monitora-chefe pegou seu computador que estava aberto e funcionando e levou-o consigo, sentando-se num dos bancos de madeira sem encosto, que ficavam abaixo das pequenas janelas com peitoril alto. Ginny seguiu a amiga fazendo a mesma coisa, sentou-se ao lado de Hermione colocando sua mochila ao seu lado.
— Temos que repassar todos os pontos do plano novamente para saber se não tem nenhum furo, depois vamos ter que pensar no dia e no lugar que iremos fazer isso — relatou Hermione, enquanto digitava alguma coisa em seu Macbook totalmente concentrada.
No primeiro momento, Ginny notou que no laptop dela haviam vários apetrechos conectados à ele, sendo estes, uma pequena câmera, um microfone e fones de ouvido beats. Compreendeu, que provavelmente Hermione utilizava todos àqueles acessórios para reproduzir a versão fantasmagórica da murta-que-geme. Deste modo, ao perceber resolutamente a importância daquele plano para com a convivência de Geofrey com o restante do time, sentiu total confiança no que elas iriam fazer. Afinal, não era algo que fosse extremamente complicado, pelo contrário, se elas conseguissem fazer tudo exatamente como o planejado, não teriam porque se preocupar. Pelo menos, ela sabia que tudo que Hermione planejasse para plano, teria que ser seguido nos mínimos detalhes. Portanto, Ginny não teria margens para erros idiotas, muito menos falta de confiança.
Sendo assim, ela tratou de ouvir, questionar e repassar todos os detalhes minuciosamente junto com a morena.
Iriam aproveitar o final de semana em Hogsmeade para pôr o plano em prática, pois certamente conseguiriam encontrar a maioria dos integrantes do time titular juntos num só lugar. Ademais, para poderem se comunicar sem precisarem usar os celulares, Hermione teve a brilhante ideia de utilizarem mini antenas de rádio para conversarem entre si, sem que ninguém mais às ouvisse. Sendo que, eram essas mesmas minis antenas, que Hermione e os outros monitores usavam para se comunicarem durante as rondas pela escola, ou seja, este apetrecho passava imperceptível aos olhos, pois as minis antenas só funcionavam se fossem conectas num computador, deste modo a outra pessoa colocaria um mini fone dentro da cavidade do ouvido, assim como um mini microfone posicionado em outra parte do corpo, muito bem escondida. Basicamente, como espiões. Portanto, quando fossem revistadas na entrada para o vilarejo não correriam o risco de serem pegas.
Por fim, a maior parte do plano já estava totalmente concluída. No entanto, Hermione advertiu que ainda havia um detalhe muito importante que elas teriam que resolver para que tudo desse certo.
— Ok. Agora precisamos pensar em pelo menos mais duas pessoas que saibam de toda essa história — constatou ela. — Ou não vamos conseguir fazer nada do que nos planejamos.
Depois de repassarem tudo o que ia acontecer, este era o único pormenor que estava faltando para conseguirem dar sequência com o plano. Contudo, Ginny não conseguia pensar em ninguém que fosse confiável o suficiente — assim como Hermione —, para que ela pudesse pedir algo do tipo. Pelo menos, não conseguia pensar em ninguém que estivesse ali em Hogwarts. Há não ser que...
Então, como se uma lâmpada se ascendesse em cima da sua cabeça, Ginny tivera uma epifania. Como não pensei nisso antes!?
— Eu sei exatamente o que nós temos que fazer. Ou melhor ainda, quem nós vamos chamar! — exclamou com entusiasmo erguendo-se num pulo.
Ao movimentar-se pelo banheiro, Ginny pegou o seu celular e o de Hermione. Depois, conectou os dois com chamadas de vídeo, sem explicar ou dizer nada. Hermione ficou apenas observando o que ela estava fazendo, sem entender muito o bem o porquê de estar fazendo tudo aquilo, mas não dissera nada.
Esperaram, após alguns instantes de conexão com a chamada de vídeo — agradecendo por haver um bom sinal no wi-fi: Hogwarts Monitors. Depois de alguns minutos, puderam ver Katie e Angelina aparecerem em ambas as telas dos celulares, tendo uma conexão com segundos de atraso entre uma e a outra.
— Que porra é essa, hein cabeça de fosforo ambulante? — xingou Katie claramente irritada, aparecendo no visor do celular com o seu cabelo castanho-claro totalmente bagunçado.
— Puta merda, você tá morrendo por acaso Ginny? Porque é melhor que você esteja, senão eu mesma vou ir aí te matar sua ruiva maluca — esbravejou uma Angelina raivosa, deitada em sua cama esfregando os olhos.
Ginny riu da reação de suas amigas, mas Hermione ficara chocada com os insultos gratuitos que as duas podiam proferir àquela hora do dia.
— Bom dia meninas — cumprimentou alegremente com um grande sorriso.
— Bom dia? Ará, só se for pra você — resmungou Angelina.
— Vai falando de uma vez o que você quer — disse Katie zangada, bocejando logo em seguida, acabando totalmente com a sua fisionomia hostil.
— Ah, sabe, eu só liguei para saber se vocês estavam com saudades... — disse ela zombeteiramente fazendo-se de desentendida, recebendo dois olhares assassinos em troca. — Está bem, está bem. Então, vocês por acaso têm planos para o final de semana?
— Não — disseram.
— Mas, na verdade depois dessa sua ligação — Katie continuou dizendo. — Eu fiquei mesmo com vontade de ir até aí sabe, de dar um chute, pessoalmente.
— Dois chutes — acrescentou Angelina.
Ginny riu com vontade.
— Ótimo, então está marcado — confirmou com um grande sorriso, olhando para o lado e vendo uma Hermione sorrir contidamente para as suas duas melhores amigas, que bufavam falando vários xingamentos feios por terem sido acordadas sem haver sequer um raio de sol. — Nós vamos nos divertir muito em Hogsmeade.
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