Eis os Mistérios da Fé
1 Capítulo 1 - Blasfêmia
Notas iniciais
A vida é um mistério
Todos devem permanecer sozinhos
Ouço você chamar meu nome
E me sinto em casa
[...]
Like a Prayer — Madonna
I
Além das janelas – duas únicas se integravam as paredes – a penumbra espalhava-se como neblina em manhã fria após quente madrugada. Resistia fortemente a luz que miseravelmente irradiava dos postes esparsos na rua vazia – silenciosa e de aparente tranquilidade incomum àqueles que temiam meio a imaginação. Poucas vezes se era possível ouvir o bater de assas de qualquer inseto, seja além dos vidros ou debaixo das camas velhas e gastas. Ruídos abafados emanavam do piso inferior periodicamente e o odor amadeirado dos tacos tomava o ambiente úmido. As venezianas – esquecidas abertas em negligência – movimentavam-se guiadas pelo soprar da noite, projetando sobre o corpo dormente sua sombra.
Miranda pouco sentiu o despertar. Em súbito, abriu as pálpebras cansadas. Sentiu a leve dor em seu fêmur esquerdo, decorrente da posição a qual deitara. Procurava nunca adormecer frente à janela – sua cama se posicionava a poucos metros da mesma, em paralelo horizontalmente. Receava em ver seus temores refletidos na paisagem, amaldiçoando aquelas que sempre as esqueciam abertas. Abaixo de seu travesseiro tinha em mãos um rosário o qual lhe auxiliava, através de preces ditas em sussurros, na busca pelo descanso meio a fé e a crença.
Pouco tardou até que pudesse novamente fechar os olhos; sua insônia era remediável. Já não mais sabia estar acordada. Em transição, não conseguia distinguir o real do imaginativo, o sonho. Em seu último instante de lucidez, despertou em decorrência do ranger gradativo da porta a qual lhe espantou o torpecer do sono. Fitou o antes escuro, agora iluminado por uma luz fraca e amarelada que manava, provavelmente, de uma vela única. Supôs inicialmente ser o barulho oriundo de qualquer outro quarto corredor afora, mas a intensidade e proximidade do mesmo a fez crer ter vindo de seu próprio.
Haveriam de estar finalmente fechando as venezianas. Especulou. Não se virou na busca de reconhecer a visita noturna, já havia se desprendido demais do sono oportuno. Os passos de quem dividia o ambiente eram leves e calmos. A vela fora posta sobre o criado-mudo, evidenciado pelo bater do pires na madeira, todavia não era aquele ao lado da cama de Miranda. Em qualquer momento se ouviu o fechar das janelas, tão pouco o caminhar até as mesmas. Permanecia-se, seja lá quem fora, próxima a porta. Estranhou por um instante e então ouviu um assoprar contínuo o qual deu fim a chama. Permaneceu inerte.
Perante a curiosidade nada fez. Levou o objeto em mãos junto ao peito onde orou em agradecimento, evitando atentar-se ainda mais naquilo que agora pensava ser apenas um devaneio. Ao fim da terceira súplica, arrepiou-se.
Meio ao até então silencioso quarto, escutou-se o gritar abafado de quem clamava por algo. O corpo em agitação movimentava-se pelo colchão e as mãos batiam no chão – e ou em algo – em desespero. O estrado estralava e a armação em conjunto deslizava sobre o piso. Pressionou o rosário em seu coração pulsante e arregalou os olhos em temor. A língua escapou entre os lábios e as pernas enrijeceram-se como as de um coxo. Findou-se os barulhos e não se pôde mais decifrar os clamores daquela que agora calada estava. Os passos anteriormente calmos do visitante agora expressavam certa pressa em se ver fora daquele ambiente. Abriu-se a porta e Miranda pôde ver, projetado na parede a sua frente, a sombra de quem não vira o rosto.
[...]
…Esclareceu-lhe Jesus: “Eu Sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, mesmo que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá eternamente. Tu crês nisso?” Ela lhe afirmou: “Sim, Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo.” Jesus vence a morte …
[...]
João 11
II
Pousou sobre a testa uma mosca em busca do inimaginável. A mão direita tocava o chão em uma permuta de gelidez. Os olhos estavam fechados como quem parecia dormir em um sono de temor e angústia. A boca, entreaberta, deixava escorrer um liquido um tanto quanto viscoso.
A sua frente, três figuras contemplavam o corpo falecido de Nelita.
“Deus tenha misericórdia! ” Desejou uma delas. As roupas lhe caiam até os pés, cobrindo toda a extensão de seus corpos. Sobre a cabeça o mesmo se repetia, deixando a mostra poucos trechos de seus cabelos variantes. A altura entre elas também era contrastante, com destaque para a figura central, mais alta.
“Há de ter.” Respondeu a do meio recobrindo o rosto da mulher com o lençol que lhe cobria parcialmente durante a noite. “Logo haverão de buscar o corpo. A família fora avisada”.
“Sim, Madre Maria.” Concordou delicadamente a mais jovem. De pele pálida e cabelos longos, do qual os fios caíam sobre as costas por debaixo do denso tecido, gozava de grande aptidão e vivacidade.
“Era uma boa mulher.” Lastimou repetidamente a negra. De baixa estatura, tinha cor de ébano e quadril avantajado – como o de uma boa mãe. Doçura era expressa em suas feições delicadas e preocupação era interpretada em suas colocações. Munida estava de um terço e rezava ininterruptamente pela que se fora. Sentiu a mão da mais velha toca-la:
“Não é preciso mais isto.” Censurou. Olhou-a por um rápido instante e virou-se como quem deixaria o quarto. Mesmo diante dos dizeres, Irmã Dulce deu continuidade as preces, desta vez em baixa voz.
“O que houve a Nelita?” rompeu o silêncio uma voz grave de quem acabara de despertar.
“Miranda.” Respondeu de imediato Dulce, sem se atentar propriamente a indagação.
“Volte a dormir, querida. Ainda é cedo.” Pediu Maria sem qualquer intenção de alarma-la sobre a morte repentina da companheira de quarto. Miranda mirou a janela – insistentemente aberta – e contemplou rapidamente o nascer do sol. De certa forma, Maria estava certa. Como não aproveitara durante a noite, deveria estender seu descanso pela manhã.
“Deixe-me explicar, senhora.” A jovem seguiu até a cama de Miranda onde sentou-se a seus pés. “Deus chamou por Nelita esta noite.” Abaixou a cabeça em sinal de dor. “O senhor atendeu ao seu clamor e curou sua dor. Ela atendeu seu chamado durante o sono.” Sorriu. “É uma grande perda, porém um grande ganho para o divino. Nelita era uma mulher devota.” Finalizou. Lúcia dirigiu-se ao rosto de Miranda, beijando-a carinhosamente na testa. O crucifixo em seu pescoço tocou os lábios da idosa.
“Parece cansada.” Atentou-se Dulce a figura abatida de Miranda, juntou-se a ela e a Lúcia.
“Rezei poucos rosários, mas não consegui dormir.” Lastimou “Deve ter sido as venezianas abertas. Elas... incomodam-me.”.
“Deixe-me fechá-las...” Seguiu prontamente Dulce, sendo interrompida por Lúcia.
“Não há por quê.” Antes mesmo de ser questionada, foi apoiada pela madre.
“A menina tem razão. Está amanhecendo e logo não haverá uma razão em manter o ambiente escuro.” Olhou de soslaio para Nelita. “Aliás, ainda há um corpo entre nós.” Concluiu.
“Tem razão, madre.” Obedeceu Dulce.
Maria seguiu até a porta onde, delicadamente retirou a tranca.
“Lúcia.” Chamou, a jovem levantou-se em prontidão. “Venha comigo. Dulce espere até que possam levar Nelita. Eles não tardarão.” A jovem guiou-se junto à madre, deixando juntas o ambiente.
Estando somente as duas, o silêncio alastrou-se por toda a esfera daquele quarto.
“Sente fome?” Questionou Dulce, solicita.
“Ajude-me a levantar, por favor.” Pediu Miranda. “Não suporto mais definhar sobre esse colchão fétido.” Em sua voz era perceptível certa agressividade; Dulce não estranhou. A freira a sentou e, com um abraço, ajudou-a a levantar. Pacientemente guiou-a com o braço até a porta.
Diante do corpo de Nelita, Miranda indagou:
“O que houve a esta pobre mulher?” Questionou, esquecendo-se das anteriores respostas.
“Faleceu.” Retirou uma mecha de fios brancos que caiam sobre a testa enrugada.
“Deus tenha piedade.” Ansiou.
†
A sombra do portão projetava no chão de terra batida os dizeres “Casa Para Idosos do Convento de Santa Rita”. Miranda já havia se atentado, com o embasamento de uma mulher vivida, o erro grotesco impresso no nome. Como unidade religiosa, em nada aquilo seria um convento. Afastado de qualquer urbanismo, erguido em meio ao campo, além de seja qual for outra coisa proveniente da civilidade, o nome correto seria mosteiro.
Logo o calor do sol daria lugar ao frio das sombras e não seria possível mais se ler o nome daquele lugar. Miranda não gostava do escuro, desde menina. Seu quarto era o refúgio para este temor, mesmo que as “imposições” da vida adulta lhe fizessem dormir no mesmo. Porém, ainda haveria trancas – e seu rosário sob o travesseiro.
No decorrer da vinda da noite, Miranda pediu para que Dulce a leva-se para seu quarto. Deixaram o jardim a passos calmos. A freira observou na idosa certo temor.
“O que há de temer uma devota de Deus?” Questionou.
“Sinto que estou padecendo.” Entristeceu-se. “Tenho falta de meu marido. Mas isto não é o que me preocupa.”
“Então o que lhe toma a tranquilidade?” Dulce pegou em suas frágeis mãos, atentando-se a aliança. Indagou-se se Miranda já havia esquecido que seu marido morrera há anos.
“Houve algo que levou Nelita.” Confessou.
“Deus mandou seus anjos para...” Dulce foi interrompida.
“Não fora Deus quem a levou.” Fitou o nada em nervosismo. A freira sentiu seu tremor. “Nelita gostaria caso fosse. Mas ela gritava... calada.”
“Nelita está em um lugar melhor.” Tentou acalma-la. “A senhora está um pouco confusa. Temos de ir agora, logo o sol dará lugar à lua.” Aproximou-se vagarosamente outra figura.
“Mulheres tementes não podem estar vulneráveis aos riscos da noite.” A voz doce de Lúcia despertou o sorriso de Dulce. “Veja bem... Sob o sol, o divino há de nos guiar. Sob a penumbra, as trevas entorpecem nossas vistas.”
“Bela analogia, minha querida.” Elogiou Dulce.
“Há um jeito de lidar com seus temores.” Assegurou Lúcia. “Agora vá, Dulce. Sei que está cansada. Posso guiar Miranda até seu quarto.”
“Certamente.” Concordou. “Vá com ela, Miranda. Irei até a capela e orarei por Nelita.”
A idosa pouco protestou a ordem de Dulce. Lhe agradava a ideia de rezar pela alma daquela mulher, mesmo não se lembrando direito de sua feição. De toda forma, era uma cristã e nada menos válido tais homenagens. Despediu-se da velha amiga com um beijo no rosto proveniente de um abraço tímido.
Seguiram até o quarto sem maiores conversações. A idosa não possuía quaisquer vínculos com Lúcia, seja por sua idade precoce – a juventude a irritava profundamente – ou, mais provavelmente, pelo pouco tempo o qual a jovem fazia parte daquele contexto. Subiram vagarosamente as poucas escadas e logo chegaram ao cômodo. Adentraram e, ao passar novamente frente à cama da falecida – agora vazia – Miranda questionou:
“Onde está Nelita?” Lúcia negou-se a responder repetidamente. A jovem a ajudou a sentar-se sobre a cama e a cobriu logo que se deitou.
Prestes a deixar o quarto, Lúcia ouviu o chamado da idosa:
“Não se esqueça de fechar as venezianas.” Avisou.
Lúcia obedeceu prontamente em sinal de respeito e boa vontade. Miranda a ouviu fechar as janelas, mas não o ranger da porta. Tão pouco o atrito do sapato com o piso. Estranhou. Procurou pelo rosário, normalmente abaixo de seu travesseiro, não o sentindo. Alarmou-se e, antes mesmo de poder chamar por Lúcia, escutou sua voz rente ao ouvido esquerdo.
“As venezianas já estão fechadas”. A jovem sentou-se a sua frente, sobre os pequenos degraus que auxiliam os pacientes a subirem em suas camas. Contemplava, entre os dedos da mão direita, o rosário de Miranda.
“Que ótimo que o achou!” Alegrou-se a idosa. “Deve de ter caído assim que me levantei.” Estendeu a mão em direção a Lúcia, no entanto não sentiu o entregar do objeto. A freira fechou a mão suspensa de Miranda.
“Como pode tomar isto como objeto de salvação? De súplica?” Questionou.
“A que se refere?” Questionou Miranda, alarmada.
“Não é nada além de um cordão. A salvação é bem mais que palavras e adornos. São ações.”
“Como as que vocês têm conosco.” Concordou. “Mesmo sendo uma verdade, não desmerece qualquer crença. A fé é inata ao pecador.”
“Sendo assim a fé é apenas o desejo do sujo em se ver perdoado por algo além dele. Em se ver amado por algo que não seja si mesmo, porque se acha o ruim bastante para tal. Para sanar os problemas que não é capaz de lidar. ” Finalizou. Levou a mão ao colo e se pôs a olhar para Miranda incisivamente.
“Suas palavras são vazias.” Contraponta.
“As suas que são cheias demais.” Rebateu.
“Por que me afronta? Se não acredita no que se põe a fazer, ser uma mulher de fé e destinada ao praticar da mesma, por que o finge fazer?” Miranda procurava entender os motivos de Lúcia.
“Por ser curiosa.” Respondeu ao descaso.
“Responda a minha outra pergunta.” Ordenou Miranda.
“Não há o quê responder. Nego a tudo o que disse.” Diante da confusão da idosa, Lúcia se pôs a explicar. “Deus não está presente. Digo, não como pensam estar. Não é algo além de nós, não nos vê de cima. Ele é a liberdade e a vida. O livre arbítrio. Nós somos ele e ele não é nada além de nós mesmos.”
“Devolva meu rosário.” Pediu, negligenciando as palavras confusas de Lúcia.
“Não há utilidade. Pode conversar com Deus sem isto. Ele está diante de ti. Para você, eu estou acima agora, da mesma forma como o vê. Neste quarto eu sou seu Deus por que tenho controle sobre sua salvação. Esta é minha crença.”
“Você matou Nelita.” Concluiu Miranda, diante da morte.
“A levei junto a qualquer coisa além da vida. Deus é intermediário, seja o que estiver ao lado da morte, não cabe a nós.”
“Está louca.”
Lúcia se levantou e se pôs diante de Miranda.
“Nunca se questionou?” Indagou.
“Não há o que duvidar.” Respondeu
“Seu tipo de mente subversiva não a faz ver onde está o poder.” Lastimou Lúcia.
“Por que julga ser necessário dar fim a vida de tantas? Estimo que Nelita não fora à primeira.”
“Apenas lhes dou a salvação verdadeira. A fuga das dores, dos males e dos temores.”
“Brincar de Deus não lhe fará um.” Provocou.
“Acreditar em outro não o fará tão real quanto eu.” Respondeu. Viu-se escorrer do olho esquerdo de Miranda uma única lágrima de temor. “Não peça pela salvação a qual acredita. O tempo lhe roubou a vivacidade e a saúde. A crença no antes imaginado, idealizado e criado por qualquer outro não irá lhe garantir os tempos áureos – os quais mal lembra. Pouco consegue ser independente. Esquece-se das coisas e dos próximos, logo a si mesma e seu rosário. Já esqueceu sobre o que acredita?” Ironizou.
Diante das palavras pesadas daquela que as faria valer, Miranda não se entregou.
“Crente ou descrente de qualquer coisa a qual antes venerava, não influenciará em nada sobre o empecilho que agora vivo. Assim como disse, acima de mim está você. Além de minha crença está sua vontade e loucura. Mate-me a faça-me esquecer, em sua salvação deturpada, seu maldito rosto e suas profanas palavras.” Ao fim dos dizeres, deu-se o esbofetear do rosto da idosa.
“Blasfêmia.”
Antes mesmo de poder recuperar-se, tanto de suas verdadeiras palavras quanto da dor e angústia meio a diversos outros sentimentos, emoções e sensações, Miranda sentiu-a subir sobre si e levar suas mãos a sua mandíbula. Apertou-a fortemente, forçando-a olhar diretamente aos olhos maldosos de Lúcia.
“Encontre na minha glória seu fim.” Sussurrou Lúcia. Escutou-se o pronunciar não entendível de Miranda, o qual fora calado com a mão da freira. Despejou o rosário sobre a boca flácida da idosa, forçando-a a engoli-lo. Riu diante da impossibilidade de Miranda. Sentiu o corpo quente e imaginou-o esfriar gradativamente. Emocionou-se por oferecer aquela mulher outra perspectiva – crer e redenção. Alegrou-se por cala-la e findar sua fragilidade no exercer de sua fé. Sem qualquer resistência, esvaiu-se dos olhos de Miranda os últimos resquícios de vida. Sentia o gosto do objeto tanto amado. Acostumava-se com sua presença impedindo a fluidez do ar em sua garganta. A morte veio seguida de uma profunda dor no peito.
Ao ver pela última vez seu entorno, questionou-se sobre seu nome.
Sobre Deus.
E sobre si mesma.
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