Zenity... Um planeta criado e batizado com o nome de seu criador, no qual criou seres vivos semelhantes aos de sua companheira, a Deusa Atrídia, com exceção de que em seu mundo não existiam uma grande variedade de raças a princípio e assim como Atrídia, deu à todos um manto mágico, a chamada “Seiteru”. Os Eirians são a raça predominante do planeta, onde os mesmos desenvolveram sua civilização, conhecimento e tecnologia base na magia.

A fonte da magia vem das três luas do planeta, onde a “chuva astral” ocorre durante a noite, despejando “mahyou”, partículas mágicas invisíveis que dão vida e movem o planeta. A Seiteru absorve o mahyou e o transforma em Mana, preenchendo as almas dos seres vivos.

Existe a força contrária ao Mana, o Marui. Uma energia misteriosa que nem mesmo o próprio Zenity não consegue eliminá-la, mas depois de muitas viagens entre o Plano Celestial e o Espiritual, ele descobriu como o Marui era criado. Todo mal causado pelos seres vivos davam força ao ser responsável pela energia, sejam desde pensamentos ruins à atitudes maléficas. Tudo isso davam força à coisa e faziam o planeta ficar cada vez mais corrompido.

Os Desbravadores surgiram. Aventureiros habilidosos, fortes e inteligentes, responsáveis por purificar o mundo, lutando contra a corrupção causada pelo Marui. Infelizmente, começaram a surgir também aqueles que adoravam a energia negativa, estes eram chamados de Bruxos, pois trocavam o Mana por Marui como fonte de vida, como consequência acabavam mudando levemente sua aparência e drasticamente sua personalidade.

Os bruxos surgiram numa época pós-Zenity, com o aparecimento de Luthine e Darkar, os primeiros bruxos e também aqueles que se diziam responsáveis pelo Marui. Ambos se proclamavam Deuses Ancestrais, com o ideal de criar um novo mundo, um mundo perfeito.

Agora, vamos falar um pouco sobre mim e do meu primeiro contato com a guerra contra os Bruxos, onde começou minha jornada que futuramente fez meus caminhos se cruzarem com os Ascendentes. Isso tudo começou há cinco anos atrás, em Utsuren, um reino grande e desenvolvido, contendo cinco grandes estados: Garsen, Harber, Horen, Strongard e Aldera. Cada qual, focado em respectivamente: agricultura, comércio, ciência, militarismo e este último, era onde se localizava a família real, onde administravam todos os outros.

Eu sou Eillen Kallenor. Uma filha bastarda de alguma família nobre, cresci sozinha nos subúrbios de Hanlisgard, o maior Reino Eirian do planeta. Tive uma vida difícil pelo fato de minha Seiteru ter despertado meu brasão mágico de forma tardia, mas no fim consegui entrar para um Clã e aperfeiçoar minhas habilidades mágicas. Não consegui me tornar uma Desbravadora, mas por causa de minha inteligência e astucia fui capaz de me tornar uma Investigadora, que são aqueles que purificam o mundo de uma forma que envolve um nível de poder mais baixo, ajudando os outros desde casos de crimes comuns à destruir maldições.

—--***---

A locomotiva estava a todo vapor, acordando a floresta silenciosa e azulada por onde passava. O destino do trem era Strongard. Apesar de muitos desbravadores preferirem viajar usando suas próprias montarias, se o destino for muito longo, as máquinas eram a melhor opção.

Eileen estava sentada sozinha numa cabine, lendo um livro relacionado à Lycantropia. Seu cabelo ruivo alaranjado tremulava por causa do dos ventos gelados que vinham de fora, erguendo sua franja que repousavam sobre o óculos e mostrando a cor azul olho esquerdo, diferente do amarelo do direito.

— Que frio... — ela disse fechando a janela, em seguida ajeitando seu casaco branco, sem interromper a leitura.

— Atenção passageiros! Estamos a quinze minutos do nosso destino final, por favor se organizem para uma saída inteligente! — disse o maquinista.

Eileen apenas olhava para o lado, certificando-se de que sua bolsa mágica, um artefato exclusivo de Investigadores e Desbravadores estava ali, juntamente de seu precioso guarda-chuva. Não tinha o que se preocupar, então voltava sua leitura por alguns minutos até que chegava ao fim das páginas.

— Foi um bom livro, mas as provas sobre a existência de “Lobisomens” e a tentativa de uma explicação científica deixou muito a desejar. — disse para si mesma enquanto guardava-o na bolsa.

— Você está bem, moça? — disse um rapaz de pele parda, cabelos negros e olhos esmeralda parado na frente de sua cabine.

— Sim. — Ela disse rapidamente, observando o manto escuro que cobria sua roupa, sua mala na lateral do corpo e uma mochila nas costas. — Eu tenho esse costume, não se preocupe, não sou louca.

— Sim, eu reparei... Você é Eileen Kallenor, não é? A Investigadora prodígio. — disse o rapaz com sorriso sincero, ou quase. Eileen notava em sua expressão, ele não estava verdadeiramente surpreso, já havia a notado antes.

— Talvez. Por que? – disse rispidamente.

— Você é famosa em Hanlisgard. Desde os 14 anos de idade resolvendo diversos casos e destruindo várias maldições, indo até o limite da habilidade de um Investigador.

— Eu pegava os casos que eram difíceis demais para um Investigador, por muitas vezes envolver combate real com certas criaturas e que ao mesmo tempo eram fáceis demais para um Desbravador. Uma estratégia inteligente e perigosa para ser reconhecida, não é nada demais. – disse Eileen.

A locomotiva parava e o maquinista anunciava a chegada à estação. Eileen se levantava, pegava suas coisas e se despedia brevemente do rapaz, descendo na estação de Strongard, o Polo Militar de Utsuren.

— Vamos ver... — Ela retirava um envelope da bolsa mágica, em seguida lia para relembrar o que devia fazer na cidade.

Ela deveria ir até a residência dos Groudave, investigar a morte do amigo do príncipe de Aldera, o General Hanks e a Capitã Lena. Havia poucas informações na carta, mas o caso envolvia um assassino da Rosa de Sangue, um clã que tentou matá-la no passado, enviado por alguém de sua família verdadeira. Este era o motivo de Eileen ter aceitado o caso num reino distante, numa cidade ainda mais longe ainda de Hanlisgard. A chance era pequena, mas se encontrasse o assassino, poderia ter alguma informação sobre sua descendência e o que ela é, pois tudo que sabe foi que a largaram nas ruas, sem nem mesmo ter um nome, com uma carta dizendo “A família real não tem lugar para uma bastarda”.

Com uma sensação estranha, ela sente que está sendo seguida por alguém. Discretamente vira-se para trás, fingindo que está ajeitando a bolsa e analisa todas as pessoas atrás, nenhuma parecia estar lhe seguindo, mas a sensação ainda era a mesma. Continuava andando na calçada da cidade, usando o guarda-chuva como bengala, passando ao lado de postes de luz com grimas iluminadoras dentro, que estavam apagadas por ser de dia. Calhambeques e carroças passavam ao lado dela na rua, todas funcionando com grimas de eletricidade e um sistema mecânico.

Grimas são cristais nulos, encontrados em praticamente todo planeta ou fabricados artificialmente através de alquimia. Elas possuem a capacidade de armazenar algum feitiço ou elemento dentro de si.

— Não existem muitos desbravadores aqui... — murmurou observando as pessoas ao lado, havia bastante guardas em treinamento, correndo e ou montados em Cargadror, um tipo de equino com a pele dura como pedra.

As casas eram tecnicamente simples se for comparar com Hanlisgard, mas tinham seu charme. Naquela região, tinham várias iguais da mesma cor. Eileen se perguntava se aquele estado inteiro era daquele jeito, com casa planejadas.

Ela finalmente chegava ao seu hotel, pegando a chave na recepção luxuosa, mas ao mesmo tempo não muito vulgar. Ao subir para seu quarto, se deparava com uma sala de estar, com um sofá e uma mesa na frente. Eileen tranca e vai até o quarto próximo do banheiro e ao lado da cozinha. Aquela mesma sensação novamente, alguém estava lhe observando. Ela caminha até a janela, fitando com uma expressão despreocupada para os outros prédios.

— Ou alguém me quer muito neste lugar, ou me quer fora daqui.

Quando a Seiteru, o manto mágico de Eileen despertou, o que o ocorre quando a criança tem por volta de 6 anos, seu brasão mágico não desenvolveu a habilidade de manipular algum elemento, o que era uma característica necessária para se tornar Desbravador Mago, Guerreiro ou Ladino. Seu brasão desenvolveu aptidão Mística, o que podia fazer dela uma Feiticeira, um Eirian mais focado em magias de suporte. Porém ela nunca conseguiu se dar muito bem com feitiços de cura, magias principais para se tornar Desbravador Feiticeiro.

Eileen também nasceu com uma habilidade ocular especial, perfeita para o trabalho de Investigador, infelizmente ela não pode desativa-la, então esconde seu olho com o cabelo para não chamar muita atenção e também evitar ver coisas que não deveria.

Final de tarde, após tomar um banho, se alimentar e tirar um breve cochilo ela tinha de ir para a delegacia, onde pegaria mais informações sobre o caso dos Groudave. Ela tranca o apartamento e em seguida se concentra para usar um feitiço no lugar.

Tanto os Eirians como Bruxos utilizavam o Zetrin, a língua usada pelos Deuses que ativavam os “Códigos do Mundo”, dos quais dependiam da força do usuário para manifestar um fenômeno no mundo. No caso de Eileen, ela planejava deixar uma armadilha no apartamento, para qualquer pessoa que não fosse ela fosse amarrada com correntes de etéreas. Se ela usar as palavras certas, conseguirá materializar as correntes etéreas, em seguida terá de usar outras palavras para programar elas para fazer o que quer.

Existem também os feitiços. Que são usadas na manipulação de elementos. Elas possuem mais liberdade de ação e não precisa que sejam utilizadas Zetrin para soltá-las. Fazer uma bola de fogo, por exemplo... Podem ser feitas com um feitiço, mas se a Seiteru do usuário for do elemento fogo, ele pode dispará-la sem recitar qualquer palavra, instantaneamente. Porém, para chegar a utilizar uma técnica instantaneamente dessa forma, o usuário deve programar seu brasão mágico para isso, gravando a técnica nele. Então, nas primeiras vezes que um usuário de fogo for disparar uma bola de fogo, ele deve dizer em alto e bom tom, em Zetrin: “Hari boru”.

— Mahi no Genzai torapu. — Sussurrou Eileen enquanto materializava correntes, que logo se tornavam invisíveis.

Com o local enfeitiçado, ela saia do apartamento, do hotel e ia até a delegacia. De noite, ela saia do local com alguns papeis na mão, pensativa e relendo-os, relembrando o que o haviam lhe dito.

— Os Groudave foram assassinados enquanto estavam nas suas férias, num dia normal e calmo, em seu quarto. Mortos por uma minúscula agulha que penetrou o vidro da janela do quarto e acertou-lhes o pescoço, deixando uma última agulha com um bilhete escrito: Kishan Zakrasen, da Rosa de Sangue.— Pensou Eileen ao mesmo tempo que observava a cidade.

Ela notava alguns cavaleiros montados pelas ruas. Soldados da Guarda de Aldera, pelos uniformes diferentes. Logo atrás deles, vinham os policiais da cidade, cavalgando mais rapidamente. Eles estavam de armas diferentes, espadas, lanças, cajados e bestas em mãos e em formação. Certamente algo havia acontecido novamente, estavam procurando algo. Ela notava um guarda que estava falando pelo bracelete de comunicação. Eileen sussurrava um feitiço: “Hana katemu”, fazendo ela escutar a conversa.

— Ele está nos telhados, na quinta avenida! Cerquem o perímetro com triângulos mágicos para bloquear a Seiteru dele, dessa vez o Assassino não escapa...

— Perdemos ele. – disse uma voz no bracelete.

— Droga! Cancelem todas as viagens de trem e fechem os portões da cidade. Hoje ele não vai a lugar algum.

— Sim senhor!

O guarda murmurava xingamentos ao desligar o bracelete e partia com o Cargadror.

— Hm... Será o mesmo assassino que estou procurando? Mais tarde voltarei a delegacia para saber mais sobre essa perseguição. — Pensou Eileen, em seguida caminhava na direção da residência dos Groudave.

Eileen batia na porta e enquanto aguardava continuava a relembrar o que havia lido no relatório da polícia enquanto caminhava até a residência dos Groudave, pensando se havia algum detalhe que deixou escapar. A filha do General a recebia, uma mulher de cabelos castanhos, porém com o rosto inchado de tanto chorar.

— Boa noite. Sou a Investigadora Eileen Kallenor, será que posso entrar? — disse Eileen mostrando o braço direito, onde havia um bracelete com uma runa de comunicação, característica dos Investigadores.

— Sim... Me disseram que você viria. — A mulher dava passagem para Eileen. — Fique à vontade, a cena do crime é no segundo andar, não quero subir lá. — disse a mulher sentando-se no sofá da sala, assistindo um programa jornalístico da cidade no Espelho Transmissor.

— Tudo bem. Muito obrigada.

Eileen subia até o quarto, onde a cena do crime estava intacta. Ela fechava o olho direito, enxergando apenas com esquerdo. O local ficava com umas cores diferentes do normal, tudo exalava uma aura diferente. O vidro furado estava em vermelho e o local das agulhas também e também, raízes e algumas folhas próximas à janela.

— O vermelho indica uma alteração do ambiente normal...— pensou Eileen, procurando algo diferente naquele quarto, mas nada do que já não tinham encontrado. Ela seguia até a janela e observava a casa ao lado, telhados, casas próximas, onde não havia fumaça vermelha em lugar algum, porém havia além de fumaça vermelha naquelas raízes e folhas, havia Marui. Ela sai do quarto, observando que havia fumaças vermelhas no chão, como pegadas que ia até a sala, no sofá e outras que iam até o quarto da filha.

Eileen entrava silenciosamente no quarto, onde a cama estava desarrumada, porém o resto estava bem arrumado. A Investigadora se aproximava da cama, que era até onde a fumaça vermelha ia.

— Sinto cheiro de duas pessoas diferente. Uma é da filha deles, o outro não sei...— não tendo mais nada para procurar, ela saia do quarto e ia para sala.

— Encontrou algo? — perguntou a mulher.

— Sim... Desculpe, qual é o seu nome mesmo?

— Megan.

— Megan, disse no relatório que estava numa festa quando isso aconteceu. Onde era essa festa mesmo?

— Umas duas quadras daqui.

— Entendo... Tem a lista de convidados com você? Talvez o culpado esteja entre os convidados.

— O que?! Isso é impossível, eram todos meus amigos!

— Você conhecia todos mesmo? Sem exceção?

— Bom... Havia algumas pessoas novas. — disse Megan cabisbaixa, nervosa.

Eileen se sentava ao lado de Megan, apoiava o guarda-chuva ao lado e colocava uma das mãos no ombro da mulher, tentando acalmá-la e ao mesmo tempo chamar a atenção dela.

— Olha... Mesmo não conhecendo seus pais, sei o quanto todas as pessoas gostavam dele e quão importante eles eram para esse Reino. Foi uma grande perda, eu também estou de luto por ele. Mas, eu preciso achar quem fez isso com eles, para evitar que mais pessoas sejam assassinadas. Você entende?

— Sim... — Megan começava a chorar discretamente, mesmo tentando segurar.

— Me conte... Você conheceu alguém naquela festa? Veio para casa sozinha?

— Sim, eu conheci alguém. Seu nome era Kalina, ela era uma Desbravadora. Dançamos, nos beijamos e... Viemos para casa. — Megan parava de chorar, ficando séria.

— Você acha que Kalina matou meus pais?!

— Talvez ela tenha visto algo. — disse Eileen, escondendo o que realmente achava para não abalar ainda mais o psicológico de Megan.

— Talvez ela tenha sido cúmplice. — Pensou Eileen cruzando as pernas, pensativa. — Esta casa tem uma barreira mágica em volta, seria impossível alguém disparar uma agulha envenenada pela janela sem antes desativar a barreira. Ou... Kalina fez parecer que a agulha foi atirada pela janela, para não levantar suspeitas sobre si.

— O que está pensando?

— Eu preciso falar com Kalina. Sabe onde ela está agora?

— Não sei... Não me lembro muito bem, talvez ela tenha dito, mas eu estava bêbada. Lembro que ela possuí cabelos pretos cacheados, pele negra e olhos castanhos. Acho que era da minha altura também, um pouco maior talvez.

— Tudo bem, obrigada. — disse Eileen se levantando e pegando o guarda-chuva.

— Se tiver qualquer informação a mais, entre em contato comigo. — disse Eileen apertando alguns botões que surgiam de um holograma do bracelete e em seguida aparecia uma mensagem no espelho transmissor de Megan.

— Obrigada...

— Se encontrar com Kalina, não diga que perguntei sobre ela. Sei que você deve ter um carinho especial por ela, mas... É para a segurança de ambas isso que vou dizer agora. Aja naturalmente se a ver novamente e tente entrar em contato comigo. Tudo bem?

— Está bem...

— Até mais. Se cuide. — disse Eileen sorrindo levemente e acenando.

— Cada vez mais eu tenho certeza de que não foi Kishan Zakrasen que matou o General e sua esposa. Alguém tentou incriminá-lo. Eu pesquisei sobre o estilo de assassino da Rosa de Sangue na delegacia, eles além de assassinos são cortesãos. Muitas vezes, primeiro conquistam a pessoa e depois a matam quando abaixam a guarda.— Pensou a Investigadora.

Eileen ia até uma rua mais movimentada, esperando um táxi. Havia bastante gente naquele lugar, próximo dali era a praça de comércio, onde a maioria estava indo e algumas voltando. As luzes brancas da cidade ganhavam destaque apenas quando as três luas eram encobertas pelas nuvens, pois do contrário estavam sendo ofuscadas pelo brilho delas.

— Kalina pode ser da Rosa de Sangue também... É bem provável, afinal ela seduziu Megan e a fez levar para sua casa. O difícil é saber se ela ainda está na cidade, pois ela veio até aqui para incriminar Kishan.

O um táxi estacionava próximo. Uma carroça puxada por um Barowl, um animal parecido com um cachorro grande, porém suas pernas eram mais longas e fortes. Ele possuía orelhas bem grandes e uma pele que mais parecia um tecido, entre as patas. Um animal que geralmente vive em montanhas altas, planando entre elas. É bem manso, também era usado muito nas fazendas, pois assustavam qualquer animal selvagem criando ilusões de sombras.

— Para onde? — disse o guia enquanto Eileen entrava na cabine.

— Quarta avenida, Delegacia.

— Tudo bem. Vamos lá, amigão! — disse o guia enquanto o animal latia e começava a correr.

— Não faço ideia de onde ela podem estar, tenho que procurar os registros de Kalina na cidade, pensando bem... Kalina pode não ser o nome verdadeiro dela. Se eu não encontrar nenhum registro dela, terei de procurar pelas características físicas, o que será mais trabalhoso... Os policiais certamente tem tudo isso em mãos, preciso encontrar onde ela esteve. Pelo menos, o cheiro dela estava impregnado naquele quarto, saberei quem é a mulher se estiver perto de mim.

Eileen passava próxima de seu hotel, podendo enxergar a janela de seu quarto, o terceiro andar aberta. Aberta? Eileen se indignava com aquilo, pois havia trancado tudo e disse que não queria serviço de quarto.

— Pare!

O guia parou o animal com um “OHHHHH”. Eileen entregou algumas moedas de bronze para ele, agradeceu e desceu apressadamente.

Eileen subia as escadas, segurando o guarda-chuva com ambas as mãos. Ao chegar em seu quarto e tocar a porta, notava a ausência do feitiço que havia colocado. Ou alguém foi pego, ou desfizeram o feitiço de alguma forma.

Eileen olhava apenas com o olho esquerdo, em seguida sussurra as palavras “Viden xay”, fazendo-a enxergar através da porta. A janela estava aberta e havia alguém deitado no chão, ensanguentado. Ela abria a porta silenciosamente, com o guarda-chuva fechado ainda, na frente de seu corpo.

Ela apenas fecha a porta, sem tranca-la, para caso precise correr. A pessoa caída parecia um homem e sua roupa estava cheia de sangue e um pouco queimada, porém estava desarmado. Havia correntes em volta de seu corpo, quase invisíveis, o feitiço de armadilha que deixou no quarto o pegou.

— Ora, ora. — disse abaixando o guarda-chuva. — Está acordado? — perguntou chutando o corpo do homem, porém seu pé atravessava-o. Era uma ilusão. Bem poderosa por sinal, afinal seu olho não havia notado aquilo.

Uma sombra descia do teto. Eileen erguia o guarda-chuva e o abria, disparando uma rajada de vento poderosa, mas era apenas um manto sem nada. Algo vinha atrás de si, mas ela rapidamente aperta um botão no guarda-chuva, retirando o cabo e o mesmo se transformava num florete, perfurando o homem que vinha.

— Shhh! — disse a voz masculina atrás de si, coberto com um manto negro, encostando uma lâmina nas costas dela.

— O que? De onde você veio?! — disse enquanto observava o ser em sua frente desaparecendo, outra ilusão.

— Eu estava no teto.

— Mas o vento atingiu apenas...

— Para seu azar minha Seiteru é de vento. Eu o repeli enquanto você achou que era apenas um manto vazio, desviando sua atenção.

— Tsc...- Eileen cerrava os dentes de raiva, sentindo seu orgulho ferido por ter sido enganada de forma tão simples. — O que quer?

— Preciso de sua ajuda.

— E por que eu te ajudaria? Quem é você? Por que invadiu meu apartamento, se queria apenas falar comigo?

Eileen mexia sua mão no florete, onde o mesmo havia um tipo de tambor na base, na qual possuía grimas pequenas com feitiços prontos. Ela fecha os olhos e de repente uma forte luz encobre a sala. O som de uma pancada podia ser ouvido e quando a luz cessava, o homem estava no chão, enrolado por correntes mágicas que saiam do florete.

— Heh... — ele sorria, era o mesmo homem que falou com ela no trem. – Agora você me pegou. Era o que eu esperava da famosa Eileen Kallenor.

— Você é Kishan Zakrasen? — disse reparando marcas de queimadura na pele exposta de sua roupa e alguns cortes de lâminas.

— Sim. — Ele tossia sangue. — Será que... — ele tossia novamente. — Pode me ajudar? — disse ele com dificuldade.

— Você é um criminoso.

— Eu fui treinado para ser um Assassino, mas nunca matei ninguém. Quem matou os Groudave foi alguém se passando por mim. — Kishan tossia novamente, expressando muita dor em seguida. — Eu traí a ordem e ela está destruindo minha vida por isso.

— Você conhece alguém chamado Kalina?

— Nunca ouvi falar... — a visão de Kishan tornava-se turva, em seguida tudo começava a escurecer. Ele via Eileen falando consigo, mas não conseguia escutar muito bem, em seguida perdia as forças, apagando.

—--***---

Na manhã seguinte, Eileen se encontrava sentada numa poltrona ao lado da cama, tomando uma xícara de chá, observando Kishan. Ela havia tratado de seus ferimentos, mas ainda o deixou amarrado com as correntes, apenas por precaução. Além disso... Tomou outras providências, caso ele conseguisse fugir das correntes quando se recuperasse. Os olhos do rapaz mexiam algumas vezes, até se abrirem lentamente.

— Parece que fiz a escolha certa ao vir aqui, não estou preso ainda. — disse o rapaz tentando se mexer, mas não conseguia. Ele estava sem camiseta, apenas com sua calça e havia várias ataduras pelo seu corpo. – Ficou esse tempo todo aí, sentada enquanto observava meu corpo despido e amarrado? Que gosto peculiar... — disse ele com um sorriso confiante.

— Claro. Adoro ver supostos assassinos de forma tão fracassada em minha frente. — disse Eileen, enquanto Kishan ria.

— Vejo que tem senso de humor. Gostei de você.

— Vejo que é debochado, não gostei de você. — disse ela se levantando, indo até a cozinha para pegar o café da manhã de seu prisioneiro. Um lanche embalado e uma garrafa de suco, no qual ela jogava na cama onde ele estava.

— Nunca estive na prisão, mas acho que deve ser a mesma coisa o tratamento. — disse ele olhando a comida, não ia conseguir comer com aquelas correntes.

Eileen pegava o guarda-chuva encostado na parede, canalizando um pouco de mana e fazendo as correntes acima do tronco dele sumirem, deixando apenas as pernas amarradas.

— Obrigado. — Ele disse se espreguiçando, mas em seguida parava por sentir dor em algumas partes.

— O que veio fazer nesta cidade, exatamente?

— Alguém assassinou os amigos do príncipe de Utsuren em meu nome, queria saber quem era e por que fazia isso. — disse enquanto tirava o papel em volta do lanche, mordendo-o.

— Só por isso?

— Se alguém estivesse incriminando seu nome, não ia querer saber quem está fazendo isso?

— Digamos que eu acredito em você. Quem você acha que fez isso?

— Algum bruxo, querendo silenciar alguém que sabe demais sobre eles. Eu enfrentei uma mulher ontem, após despistar a polícia. Consegui enganá-la e fugir para cá, talvez seja ela quem esteja se passando por mim.

— Por que acha isso?

— Por que ela disse para me juntar aos Bruxos ou iria me matar, porque eu sei demais.

— E que tipo de informação você tem que é tão valiosa?

— O Clã da Rosa de Sangue fazia o trabalho sujo dos nobres de Utsuren. Quando o príncipe descobriu sobre isso, eles fizeram uma armadilha para capturar um assassino e o mesmo contou a localização do clã antes de ser assassinado. Houve um traidor entre os bruxos infiltrados na nobreza, isso resultou na destruição da Rosa de Sangue e uma tensão muito grande na corte. Luthine não ficou feliz com isso, ela está caçando todos aqueles que são traidores em potencial.

— E você sabe quem são os traidores?

— Sei. Fazia parte de nosso treinamento saber quem era nosso aliado no reino.

— Então... Você é um Bruxo também?

— Como eu disse, eu nunca matei alguém por não ter terminado meu treinamento. O último estágio era o ritual para transformar o mana em Marui, no qual eu não fiz, ao contrário de minha irmã... — ele disse, cabisbaixo.

— O que houve com sua irmã?

— Ela era três anos mais velha que eu, então se tornou uma bruxa antes de mim e como consequência uma ótima assassina, mas ela morreu no ataque ao clã.

— Meus pêsames. — disse Eileen, ficando em silêncio em seguida, absorvendo todas aquelas informações.

— O General Groudave estava comandando o ataque ao clã, mas quem emitiu a Ordem de ataque foi príncipe. Talvez ele seja assassinado em breve e talvez seja em meu nome novamente. — disse Kishan.

— Você será pego de uma forma ou de outra se isso acontecer, pois a segurança na cidade ficará ainda maior se ele for morto.

— Por favor... Será que você pode me ajudar? Eu finalmente estou livre daquele clã maldito, agora isso. — disse ele passando a mão na cabeça.

— Eu não sei se posso confiar em você. Meus sentidos dizem que está dizendo a verdade, mas você é um cortesão, é bom em mentir. Além disso, suas técnicas de ilusão conseguiram até enganar meu olho.

— O que posso fazer para ganhar sua confiança?

— No passado, quando eu tinha 13 anos um assassino de seu clã tentou me matar. Sabe me dizer quem foi que o contratou?

— Isso é difícil, pode ser qualquer um... Por que alguém queria matá-la? Tem que ser mais específica.

— Por que sou uma filha bastarda de algum reino. Talvez eu seja herdeira de algum trono também, por isso me queriam morta.

— Kallenor não é seu nome verdadeiro?

— Eu inventei meu próprio nome, incluindo Eileen... — ela passava a mão na cabeça. — Estou dando muita informação para alguém que provavelmente não sabe nada... — disse desencostando-se da parede.

— Espera! Eu sei onde posso encontrar essa informação para você, mas tenho que sair da cidade, o que é impossível agora.

— Como assim?

— Existe um arquivo secreto no clã, onde listavam todos os nomes que foram caçados e quem o procurou, com todas as informações do empregador, para o caso ele não pagar, eles o cobrariam de outra forma.

— Mas, deve ter sido destruído, não?

— Os arquivos ficam num cofre pequeno e bem protegido. Durante o ataque, minha irmã colocou lá... – Ele dava um pausa, pigarreando em seguida. – Ainda está lá. Tudo. Debaixo dos entulhos do clã.

— Sei... — Eileen se aproximava, retirando o florete de dentro do guarda-chuva, apontando para o pescoço dele. — Eu vou pegar quem está usando seu nome em vão, eu tenho um plano e você virá comigo. – Ela pressiona um pouco a ponta da arma no pescoço dele. — Não tente me enganar, eu implantei grimas explosivas dentro de você. Não vou falar revelar como elas funcionam, mas de preferência não tente matar ou descobrirá da pior forma. — Ao dizer isso, ela desativava as correntes na perna dele e vai em direção à porta.

— Você gosta mesmo de ficar no controle... – disse Kishan num tom de duplo sentido.

— Tem algumas roupas no armário. – disse Eileen, ignorando o comentário anterior dele.

— Você não está sozinha? Por que teria roupas masculinas aqui? – disse o rapaz, observando alguns conjuntos de roupas.

— Por que eu já havia planejado isso desde o começo. – ela se vira para ele, com um leve sorriso. – Gosto de ter tudo sobre controle...

— Olha só, parece que temos uma...

— Vista-se logo, tenho que investigar outro caso aqui na cidade. – Eileen fecha a porta, dando espaço para ele.

— Uma dominadora. – Ele sorri, completamente sua frase. – Isso vai ser divertido...

Após alguns minutos, Kishan finalmente estava pronto. Eileen entrava no apartamento novamente e observava em como aquelas roupas simples ficavam bem nele. Uma camiseta social preta, jaqueta vermelha e calças pretas, com sapatos da mesma cor.

— Você gosta de preto, não é? Como estou? Ficou bom? – perguntou o rapaz, exibindo-se de forma descontraída.

— Sim, ficou... – disse Eileen com sinceridade, porém havia dito sem querer, pensando alto.

Agora, para seu azar o cortesão estava todo cheio de si, com o ego tão grande naquele sorriso que mal cabia naquela sala.

— Você demorou muito para se arrumar, princesa, estamos atrasados. — disse ela abrindo a porta.

— Não precisa ficar assim, obras de arte demoram para ser terminadas. — disse Kishan a seguindo.

— Onde está indo? — perguntou Eileen ao lado da porta ainda.

— Como assim? Não disse para eu ir com você?

— Eu fiz a reserva sozinha aqui neste hotel, as regras não permitem que eu traga alguém.

— O que quer eu faça então?

— Saia pelo mesmo lugar que entrou. Só tente não ir muito longe, a não ser que queira que as grimas se ativem. Vou te esperar na frente do hotel. — ao dizer isso, ela fechava a porta para Kishan.

— Que coisa... Nunca esperei sair pela janela por um motivo desses... — Resmungou indo até a janela.

— Feche a janela quando sair. – ordenou ela.

— Estou começando a acreditar que ela é mesmo uma dominadora...

Minutos depois, Kishan a encontrava no local prometido. Ela estava um pouco impaciente, mas com a mesma expressão séria de sempre.

— Onde vamos?

— Alguém envenenou o Conde Alistair Belgart ontem à noite. Eles isolaram a mansão, estão me esperando lá.

— E quer que eu vá com você até lá? O que vai dizer?

— Você é Conerlius, meu guarda-costas.

— “Cornelius?” Está me zoando? Eu tenho chifres por acaso?

— Você com certeza seria responsável por muitos chifres, então combina com você. — disse Eileen, enquanto Kishan ficava em silêncio, em seguida sorria, para o desgosto dela.

— Está dizendo que sou lindo. Muito obrigado, milady. Você também é elegantemente maravilhosa e... — ela pisava no pé dele, calando-o.

— Pode parar. Já lidei com cortesões antes, eu sei o que está fazendo. — Ela disse enquanto o táxi parava para eles.

— Você é violenta... Mas, não se esqueça que ainda estou um pouco machucado.

— Você mereceu... Vamos, entra logo.

— Para onde vamos? — disse o guia.

— Para a residência do Conde Alistair Belgart.

— Tudo bem.

— Vão acreditar mesmo que sou seu guarda-costas? – disse Kishan.

— Sou Eileen Kallenor, ninguém ousa me questionar. – Ela sorria com confiança, em seguida cruzava as pernas.

Kishan apenas sorria de volta, ela parecia saber o que estava fazendo. Ele se perguntava o que ela estava planejando, levando-o consigo para suas investigações, colocando de graça um alvo em sua cabeça também.

Ao chegarem ao local, se deparavam com uma mansão gigantesca, porém cercada por uma barreira mágica e havia guardas espalhados por toda extensão do muro. No portão principal, havia dois com cajados nas costas.

— Não fale nada desnecessário... Aliás, não fala nada, seja uma sombra. — disse Eileen, enquanto Kishan acenava. — Ótimo.

— Investigadora Eileen Kallenor. — disse mostrando o bracelete.
Os guardas abriam uma fenda na barreira, deixando ela passar. No momento que Kishan foi passar, eles o barravam.

— Ele está comigo.

— Mas, senhorita, nós não...

— Deixe-o passar, agora.

— C-certo... — eles abriam a barreira para Kishan.

— Senhores... – disse Kishan num tom sarcástico, sorrindo enquanto acenava com a cabeça. — Estou começando a gostar de você dando ordens... É bem sexy. — Murmurou o rapaz.

— Calado.

Eles percorriam o longo jardim, onde Eileen observava com apenas seu olho especial, notando muitas pegadas e fumaças vermelhas.

— Muita gente já circulou por aqui, não vou encontrar nada dessa forma, as pegadas estão misturadas.— Pensou olhando com ambos os olhos agora.

— O que seu olho pode fazer? Ele possuí uma magia, não é?

— Eu posso ver Esdra, o plano espiritual com ele. É difícil de explicar, mas é como um sexto sentido.

— Interessante... Nunca encontrei alguém com um com essa habilidade antes.

Eles chegavam finalmente as portas da mansão. Eileen notava uma aura verde clara em volta, do tipo que aparece quando feitiços de ilusões são feitos... Porém, outro tom de verde significava que havia espíritos e ela não estava conseguindo distinguir muito bem aquelas cores. Estranhamente, quando Kishan abria a porta, havia um miasma verde da mesma cor em toda mansão.

— O que foi? — perguntou o rapaz.

— Nada... — ela passava pela porta, sentindo uma forte dor de cabeça, fechando os olhos por alguns instantes, mas logo parava.

— Você está bem mesmo? O que foi isso?

— Tem algo errado com esta casa, fique atento, vamos continuar por hora.

Eles eram recebidos por outros guardas, que os levavam até o responsável por estar cercando o perímetro

— O Conde Belgard foi assassinado ontem à noite. Kishan Zakrasen deixou seu cartão novamente. As defesas da mansão foram ativadas em seguida, então ele não teve saída, ainda deve estar aqui em algum lugar. — disse o sargento responsável pela a operação naquela mansão.

— Entendi. Quero o relatoria de todas as informações que recolheram até agora. Analisarei todas elas e em seguida irei até a cena do crime. – disse ela num tom de autoridade, enquanto o sargento assentia e organizava alguns papeis.

Alguns minutos depois, subiam até o quarto do Conde, onde a cena do crime estava intacta. Havia o corpo de um homem e o outro de uma mulher caída próxima a cama com uma bandeja em seu colo, abaixo da parede quebrada, que aparentava ser uma empregada. Havia vários móveis quebrados também e algumas folhas e raízes no chão. Eileen utilizava sua outra visão, observando a fumaça vermelha dos móveis quebrados e arranhões na parede e nos corpos de ambos. Ela se aproximava do corpo, analisando o pescoço quebrado, quase fazendo a cabeça se soltar. Ela revirava os tapetes e móveis caídos e quebrados, procurando por alguma outra pista, mas não achava nada.

— Há uma aura verde aqui também, mas não consigo dizer se é por causa de um espírito ou ilusão. Além disso, estas raízes... — pensou pegando uma na mão. — Contém Marui, uma das pessoas que lutaram aqui é um bruxo que possuí afinidade com Flora.

— O Conde tentou lutar por sua vida. Ele conseguiu evitar a morte pelas agulhas, mas alguém o matou enforcado. — disse Kishan, chamando a atenção de Eileen, que segurava o riso.

— Como Investigador você é um ótimo piadista. — Ela disse, rindo.

— O que eu falei de errado? — ele cruzava os braços, envergonhado.

— Você está certo em dizer que houve uma luta, mas as agulhas não estavam mirando nele... Havia quatro pessoas aqui. O Conde, a Empregada, alguém tentando matar o Conde e alguém tentando salvá-lo.

— Hmm... — Kishan coçava sua cabeça, sem entender.

— A empregada provavelmente veio entregar uma refeição para o Conde, em seguida alguém entrou para matá-lo. A empregada foi arremessada contra a parede... — disse Eileen apontando para a parede quebrada, próxima a cama. — Ela deve ter chamado socorro antes de falecer. Outra pessoa chegou, mas talvez tenha sido tarde demais, então eles lutaram... — disse Eileen apontando para os móveis quebrados e cortes na parede.

— O que pode ter sido? — perguntou Kishan se aproximando. — Há cortes estranhos nas paredes, não foram causados por lâminas.

— Um chicote talvez? — disse Eileen.

— Chicotes eram armas utilizadas pela Rosa de Sange. — disse Kishan.

— Deve ter sido isso mesmo, um chicote com espinhos ou lâminas. — disse Eileen, analisando profundidades irregulares nos cortes. — Alguém desta casa possuí afinidade com Flora, é forte o suficiente para lutar e essa pessoa viu quem matou o Conde.

— E quanto ao cartão dizendo que foi Kishan Zakrasen quem fez isso? — disse Kishan.

— Há uma possibilidade de ser a mesma pessoa que assassinou os Groudave, mas também pode ser que fizeram isso para esconder a culpa de alguém desta casa. Afinal o caso de Kishan está bem famoso pela cidade, poderiam ter utilizado isso como bode expiatório. — disse Eileen retirando os cartões da bolsa.

— S-sim... É verdade. Mas, a letra é parecida com o primeiro cartão. — Ele disse.

— 90% de chance de ser a mesma pessoa... Kish... Cornelius. O assassino dos Groudave está nessa casa!

— Ótimo.

— Vou interrogar os moradores. — disse saindo do quarto, em seguida pegando os papéis do relatório.

— A Condessa Serissa de Belgard foi direto para o quarto e encontrou seu marido e a empregada daquela maneira.– disse Eileen, lendo alto.

— Ela disse que teve sorte de voltar para a casa mais cedo, pois iria parar uma reunião, que foi cancelada.

— Hm... Conveniente. Há uma boa chance de ser ela quem lutou contra o assassino. — disse Eileen, fazendo Kishan arquear as sobrancelhas, deixando-o pensativo.

Um tempo depois, Eileen se encontrava com todos os residentes. Empregadas, cozinheiros, jardineiros, mordomos e alguns guardas.

— Eu preciso de mais algumas informações, estarei na cozinha ao lado, se organizem e venham um de cada vez. — disse Eileen, em seguida cruzando o salão, indo até a cozinha onde colocava duas cadeiras de frente com a outra e sentava em uma delas enquanto Kishan ficava do lado de fora da porta, assegurando que ninguém tentaria ouvir a conversa. A Condessa Serissa era a primeira a entrar e começava a responder as perguntas de Eileen.

— Quer dizer que você voltou para casa mais cedo de propósito, pois tinha suspeitas que o Conde estava traindo a senhora com uma das empregadas? – disse Eileen, enquanto Serrissa limpava um pouco as lágrimas nos olhos lilás, em seguida tirando as mexas loiras de seu cabelo desarrumado de seu rosto.

— Sim...

— E quando chegou lá, estavam ambos mortos?

— Sim! Eu juro!

— Hm... — Eileen olhava para a mulher, ela tinha uma aura cor diferente do comum. Não era azul, era mais escuro, mais sombria. — Aquela empregada que estava com ele, era a suposta amante?

— Era nossa empregada nova, tinha começado o serviço fazia pouco tempo.

— Quanto tempo? Na mesma época que começou a suspeitar dele?

— Não, um pouco depois.

— Qual a afinidade da Seiteru da senhora?

— Mística.

— Tem apenas uma afinidade? E a do Conde?

— Sim, apenas uma. A dele era de Terra.

— Alguém aqui nesta casa tem afinidade de Flora?

— Não... As empregadas são místicas também, mas são bem fracas, duas conseguem usar cura apenas. O guardas possuem de fogo, os cozinheiros de eletricidade e os jardineiros são da Terra também.

— Entendo...

— Flora, Som, Gravidade, Luz, Trevas... Quem possuí estas afinidades geralmente são Desbravadores, Investigadora.

— Nem sempre alguém com estas afinidades gostam de lutar, então podem não se tornar Desbravadores. Porém... Bruxos também podem possuir estas mesmas afinidades. — disse Eileen, buscando alguma reação diferente na mulher, mas nada fora do comum, nem mesmo sua aura mudava.

— Eu li que certa vez o Conde foi acusado de ser aliado dos bruxos, mas não conseguiram comprovar que ele utilizava Marui. Com sinceridade, a senhora sabia de algum segredo obscuro dele?

— O que?! Não! Que ultraje!

— Tudo bem... Isso é tudo senhora, pode ir. — Ao dizer isso, a Condessa assentia e se retirava.

Eileen entrevistava os outros, mas nenhuma informação relevante. Não sabiam de nada sobre uma suposta amante, que não tinha ouvido ou visto nada diferente na hora do assassinato. Após ela dispensar as empregadas, Kishan se aproximava, querendo saber a opinião dela.

— Aquela empregada que estava no quarto dele era a novata. – disse Eileen.

— Só isso?

— Sabe... Todos mentiram para mim, menos a Condessa.

— O que? Como assim?

— Eu posso ver quando estão mentindo. Mas a Condessa... Ela é diferente, não consegui ler sua expressão muito bem. Ela deve ter me bloqueado de alguma forma. Além disso, tem outra coisa...

Eileen contava para Kishan sobre o que havia descoberto na residência dos Groudave e sobre o cheiro de Kalina que havia gravado.

— O mesmo cheiro está impregnado em todos, menos na Condessa.

— Você se lembra exatamente do cheiro dela? Mas, mesmo assim ainda não entendi onde quer chegar.

— Kalina é a mulher que procuramos, a assassina que está usando seu nome. Porém, a descrição da aparência não bate com ninguém daqui. Não foi ela quem matou o Conde, mas ela está aqui, sei disso por causa de sua afinidade com Flora. Ela é um pouco descuidada, sempre deixa raízes e folhas onde usa magia, assim como aquelas que encontrei no quarto dos Groudave.

— Se ela estava protegendo o Conde, quer dizer ele era seu aliado.

— Exatamente... — disse Eileen, dando uma pausa, reunindo as ideias. -Não consigo chegar a uma conclusão ainda, temos que investigar mais.

— Vamos começar pela Condessa, já que você disse que ela era diferente.

— Sim... Boa ideia Cornélius. — disse Eileen tomando a dianteira.
Kishan revirava os olhos com aquele nome e em seguida alcançava a mulher.

— O que foi? — perguntou Eileen.

— Isso é divertido.

— Seria... Se não tivéssemos dividindo o teto com dois assassinos. — disse Eileen, séria.

— Pensando dessa forma...

— Mas, você tem razão. Eu adoro meu trabalho. — disse Eileen sorrindo.

— Eu notei mesmo que você é muito boa no que faz. No começo, pelos boatos acha que você dependia apenas de seu olho para desvendar as coisas, mas você é muito inteligente e perspicaz.

— Obrigada. — Ela disse, sorrindo.

— Sabe... Apesar de nunca ter matado alguém, nós fomos treinados desde cedo primeiro na arte de cortejar, então já conversei com vários tipos de pessoas antes, mas... Eu gostava mais quando era alguém inteligente e que eram mais do que os olhos podem ver, assim como você é... — disse Kishan, fazendo-a soltar uma breve risada.

— Você não sabe quando parar...

— Estou sendo sincero, Eileen.

— Tá bom... Obrigada, eu acho. Aliás, disse que foram treinados desde cedo. Com quantos anos? E quantos anos você tem?

— Desde os doze... Tenho dezoito. — Eileen parava, incrédula.

— Como você é novo. — disse ela, boquiaberta. — Sério mesmo?

— Não pareço?

— Não que você tenha cara de velho, mas parece ser mais maduro. Achei que tinha pelo menos 21.

— E quantos anos você tem?

— Não se pergunta idade para uma mulher, Cornélius. — disse Eileen colocando as mãos na cintura.

— Tudo bem então... Vou chutar que você tem... dezenove? — ao dizer isso, Eileen sorria.

— Obrigada... Mas, tenho vinte e três. Pareço mesmo ser nova?

— Parece. — disse Kishan, indignado. – Eu teria chutado uma idade mais abaixo, mas obviamente você é adulta.

— Que bom. — Ela disse, continuando a andar. — Vamos nos concentrar na missão. — disse pegando o mapa da mansão. — Estamos perto da biblioteca.

— Sim senhora.

— Acha que a Condessa está envolvida de alguma forma com a morte do Conde? – disse Kishan.

— A Condessa era muito desconfiada de seu marido. De acordo com as empregadas, ela era muito neurótica e ciumenta, isso misturada com a afinidade mística dela, pode atrair e gerar Marui.

— Hmm... Vamos aproveitar que a polícia está vigiando todos no salão, assim poderemos vasculhar à vontade.

— Exatamente. — disse Eileen, ironicamente.

Eles entravam na biblioteca, vasculhando-a. Haviam muitos livros, separados por história, romance, comédia romântica, poesia e de terror.

— Essa biblioteca parece que era ocupada quase sempre pela Condessa... — disse Eileen sentindo o mesmo cheiro da mulher no local e uma aura verde mais forte.

— Os livros contêm anotações. — disse Kishan, observando três abertos na mesa atrás de si.

Eileen se aproxima para ver e nota coisas escritas como “Queria que ele me abraçasse assim”, “Queria que ele me desse tanta atenção quanto esse personagem”, “Queria viver nesse frio, ser a princesa”.

— Ela por acaso não sabe que existem diários? — perguntou Kishan.

— Boa ideia! Procure alguma fechadura, porta secreta, livro oco, qualquer coisa desse tipo.

— Sou um gênio, pode falar. Eu nasci para ser um Investigador.

— Claro, claro...

— Não senti firmeza.

— Quieto, estou sentindo algo... — sussurrou Eileen, observando um pequeno fluxo de Marui no ar e sentindo uma sensação parecida de quando entrou na mansão.

— Sim, eu causo isso nas pessoas...

— Causa um fluxo de Marui nelas? – Eileen começava a seguir o fluxo de ar com o mana sombrio.

— N-não... Ah, deve ser por isso que senti uma sensação ruim logo quando entrei aqui. — disse Kishan.

— Tem um pouco de Marui no fluxo de ar. — ela esbarrava em Kishan. — Desculpa, estou seguindo o rastro. — Ela observava que ele estava mais forte naquela estante na frente de Kishan. — Está ali, o terceiro livro da primeira estante. – disse a mulher apontando para cima, onde ela não alcançava.

— Esse? — Ele disse puxando um livro oco, enquanto Eileen assentia.

Aquilo parecia mais uma caixa do que um livro. Ele o abria e havia um pequeno círculo mágico nele, com o formato de uma mão no meio.

— Parece que apenas a Condessa consegue abrir... – disse Kishan.

Eileen pegava da mão dele e o jogava no chão, retirando o florete do guarda-chuva e perfurando o selo com sua arma.

— Ou você faz abre a força mesmo... — disse Kishan.

Ela perfurava a capa protetora, em seguida abria com a mão, retirando um livro pequeno, que podia ser facilmente colocado no bolso. Aquele objeto era a fonte do Marui na sala, havia uma aura roxa e sombria em volta dele. Ela abria o diário, onde a Condessa Serissa contava os dias monótono de sua vida ao lado do casamento arranjado com o Conde Belgart.

— Um casamento forçado... Ele podia ao menos ter sido mais legal com ela. — disse Kishan, observando as anotações.

— Olha, ela estava tentando aprender um Feitiço do amor. — disse Eileen. — Procure este livro, acho que está na secção 3, lembro de ter visto algo assim.

— Sim senhora...

— “Eu tentei enfeitiçar meu marido, mas algo deu errado... Eu vi muitas assombrações e coisas ruins, talvez... O fato de eu não usar mana tenha influenciado.” — Eileen leu em voz alta.

— Se ela não usa Mana, então... — Kishan vinha o livro que ela pediu.

— Ela é uma bruxa. — Eileen pegava o livro do rapaz, que era sobre feitiços antigos e o folheava, indo para a página que estava marcada no diário.

— “O feitiço atrairá bons olhares para você, deixando-a mais charmosa, trazendo boas energias. Cuidado, é perigoso se as emoções usadas não forem as corretas.” — disse Eileen, lendo a descrição.

— Usando Marui, algo o contrário deve ter acontecido. — disse Kishan.

— O que será? Existem tantas respostas para isso, temos que investigar mais.

A porta da biblioteca era fechada. Eileen se levantava, guardando o diário e o livro de feitiços na bolsa e voltava seu olhar para Kishan, perguntando se alguém havia entrado, mas o rapaz negava com a cabeça. De rpeente, alguns livros caiam atrás dela, segundos depois todos começavam a cair.

— Fique por perto. — disse Kishan puxando Eileen para perto de si.

Ela observava o miasma verde na sala aumentar junto ao Marui, se focalizando na porta.

— Acho que a Condessa acabou atraindo mus olhares para si. — disse Eileen.

Uma cadeira voava em sua direção, mas Kishan a repelia com uma rajada de vento de suas mãos. As mesas da biblioteca eram erguidas, flutuando e girando ao arredor de ambos. Uma por vez, disparavam na direção dela. O rapaz erguia uma barreira de vento em volta, fazendo com que os objetos mudassem o percurso quando a tocassem, sendo destruídos ao atingirem a parede com força.

— Você...— disse uma voz parecida com um sussurro, ecoando na sala.

— Vamos sair daqui. — disse Kishan indo em direção a porta, puxando Eileen ao segurar em sua mão.

— Cuidado! – Ela parava de andar, forçando-o a parar.

A porta de madeira começava a quebrar, em seguida era derrubada no chão, em pedaços e era derretida. Daquela gosma negra que havia restado, algo começa a se erguer, tomando uma força humana grande e magra, feita de madeira, livros e um pedaço do próprio piso.

— Você... Veio roubá-lo de mim?! — disse a criatura com uma voz aguda e sussurrada, em seguida tomando a forma da Condessa.

— Que merda é essa? — disse Kishan.

— Ela não é a Condessa, é apenas uma manifestação da cognitiva dela. — disse Eileen retirando seu florete, girando o tambor, trocando os feitiços e fazendo-o ficar envolvido por luz.

— AHHH! — a Condessa berrava, arranhando seu próprio rosto com as unhas que cada vez ficavam mais afiadas. – POR QUE? POR QUE?!

Num piscar de olhos ela desaparecia e no outro, agarrava Eileen, sufocando-a e fitando com o rosto ensanguentado pelos cortes profundos que mostravam até mesmo o esqueleto de seu crânio. Kishan ia tentar empurrar ela com uma rajada de vento, mas Condessa o segurava com a outra mão, impedindo-o e sorrindo sadicamente com uma boca tão larga e aberta cujo uma pessoa normal nunca poderia imitar.

Eileen movia seu braço e cortava os braços da suposta Condessa com dois movimentos rápidos do florete energizado de luz, fazendo-a berrar de dor e desaparecer. Kishan aproveitava e os tirava daquela sala, usando os ventos para impulsioná-los para fora. O corredor estava completamente diferente de antes. Estava escuro e mais estreito, cheio de esqueletos vestidos de empregadas pelo caminho.

— Eu sabia que tinha algo de errado com esta casa... Ela está ligada com a mente da Condessa. O diário nos colocou dentro de seu próprio plano espiritual, feito a partir de sua mente caótica. – disse Eileen.

— Como isso é possível? — disse Kishan puxando-a para o caminho oposto de outra Condessa que vinha na direção deles.

— Pessoas com afinidades Místicas são muito fortes ou muito fracos. São capazes de utilizar poderes foras do comum e geralmente tem uma forte conexão com o Plano Espiritual. A Condessa é uma bruxa, mas ela não tem controle de si mesma e das emoções.

— Eirians poderosos sem controle de suas emoções são perigosos, afinal elas muitas vezes são um gatilho para utilizar a Seiteru... — disse Kishan.

— Exato. Além disso...

Outra aparição da Condessa vinha na direção deles, esta vinha voando, com as garras prontas para agarrar Eileen. Kishan entrava na frente e disparava uma rajada de vento, empurrando-a e fazendo-a colidir-se fortemente contra a parede.

Ambos então continuavam passavam pela aparição, continuando o caminho pelos corredores enquanto procuravam uma saída. Não demorou muito para que outra aparição surgisse e começasse a persegui-los.

— Temos que sair de dentro da mansão, a porta do salão principal é provavelmente a entrada da cognição, onde ficamos presos. Se sairmos esse pesadelo irá acabar. – disse Eileen, em seguida sentia as mãos de Kishan cada vez mais frias.

Eileen não estava correndo com Kishan, mas sim com uma das cognições da Condessa. No momento que ia cortá-la, seu braço era segurado com força e em seguida ela era empurrada contra a parede. A mulher abria o sorriso inumano novamente, mostrando os vários dentes afiados, abrindo a boca agora para engolir a cabeça da Investigadora.

— Seiharu hihari!— exclamou Eileen, em seguida seus tendões mágicos brilhavam por todo o corpo e uma forte luz era emanada de si, afastando a aparição e fazendo-a gritar loucamente de dor, o que dava a chance perfeita para ela fugir.

No momento que começava a correr, a o fantasma avançava em sua direção, furiosa e acabava atingindo Eileen nas costas, rasgando sua roupa e sua pele no processo, arrancando uma quantidade de sangue instantaneamente. O brilho de seu corpo ficava cada vez mais baixo até se apagar completamente, porém a aparição não a seguia mais. Ela se perguntava onde estava Kishan, mas não sabia onde começar a procurá-lo. As paredes ao arredor se abriam, segundos depois o corredor se transformou num grande salão.

Árvores, bancos, sofás e camas surgiam ao lado. O céu azul e os raios do sol refletiam num homem alto e elegante, de cabelos longos e sorriso encantador. Uma variação mais bonita do Conde Belgart. Ele estava tendo um piquenique com a Condessa, porém no momento que via Eileen, se levantava e ia até sua direção, curvando-se e oferecendo uma rosa do campo ao lado.

— Que bela dama... Por que está sozinha? — disse ele com um sorriso galanteador.

Eileen se afastava um pouco, o suficiente para ver a Condessa atrás com um olhar de ódio, emanando tanto Marui que corrompia e modificava a paisagem ao arredor, apodrecendo as árvores, secando o solo e fazendo sol ficar encoberto por nuvens.

— Você não vai roubá-lo de mim! — disse a Condessa surgindo ao seu lado, enforcando-a.

Outras aparições de Serissa surgiam ao arredor, cercando-a. Eileen não conseguia conjurar um feitiço, uma delas tampava sua boca e a outra arrancava o florete de sua mão. Ela sentia que seu pescoço fosse quebrar antes que pudesse ficar sem ar.

Uma onda de choque empurrava todas as cognições para longe. Kishan saltava por cima de Eileen mandando uma onda de vento cortante pelo ar, atingindo os braços da cognição que enforcava a Investigadora. Outras surgiam, pareciam um exército, mas Kishan as destruía mandando ventos cortantes com movimentos dos braços e de suas pernas, quase como se ele estivesse dançando.

— Fique perto! — disse ele girando Eileen, afastando uma cognição que estava prestes a pega-la. — Não se mexa, apenas fique perto! — disse ele tocando suas próprias mãos, girando-a e criando uma esfera de vento. Ela aumentava de tamanho até ficar maior que ele, em seguida a girava em volta de ambos, atingindo as cognições e juntando-as na esfera e depois mandando-as para longe, explodindo-as em seguida com ventos cortantes dilacerando todas.

— Isso não vai acabar. — disse ao ver que Kishan estava perdendo o ritmo, enquanto as aparições surgiam sem parar.

— Não temos para onde correr, pense em algo, vou mantê-las distante até meu mana zerar!

— Ok! Droga... As cognições parecem não estar muito interessadas em Kishan, desde o começo elas vieram atrás de mim... Este é o mundo da Condessa, ela não gosta de mim porque... — ela olhava para o Conde lá atrás, deitado na cama, ao lado de uma empregada caída, sendo enforcado enquanto uma cognição lutava contra uma mulher feita de cipós, usando chicote.

— Ela me vê como uma rival também... Ela acha que sou amante do Conde, ou... Que vou roubá-lo dele. Como posso provar o contrário...? — ela olhava para Kishan. – Ah não... – ela revirava os olhos e respirava fundo.

Eileen interrompia a canalização de vento nas mãos do rapaz ao segurar em seu braço, chamando sua atenção.

— O que?! – disse o rapaz, eufórico.

— Eu pensei em algo, ignore as aparições. — Ela puxava sua camiseta para abaixá-lo e o beijava. Kishan não entendia nada, ele resmungava ao ver que uma cognição estava perto dela, mas Eileen fazia força para ele não se afastar e prensava ainda mais seus lábios contra o dele. A Condessa bem próxima de agarrar Eileen, cessava o ataque. Todas as cognições paravam, confusas, apenas observavam.

— Fhuchionhou... — tentou dizer Kishan.

— Então... – Eileen soltava os lábios dele. – Me beija direito, elas não estão convencidas ainda! – ela o beijava novamente.

Kishan a jogava de lado, segurando em mão em sua cintura e a outra na nuca dela, depositando um beijo dramático e molhado ao segurar os lábios dela com os seus e encontrando-a a língua dela com a sua. Alguns minutos se passavam e as cognições iam desaparecendo, aos pouco. Ambos se ajeitavam numa pose normal, onde Kishan aos poucos escorregava sua mão para a bunda dela, puxando para mais perto de si. O cenário começava então a se modificar, quando abriam os olhos novamente, estavam no salão de entrada, próxima a porta de saída.

— Deu certo... – disse Kishan, com uma voz meio rouca, um pouco corado.

— Er... Sim. Já pode tirar a mão daí... – disse Eileen separando-se dele, tão vermelha quanto a cor de seus cabelos.

— Bem inteligente, eu entendi o que fez, nunca pensaria nisso.

— Obrigada... Mas se você não estivesse aqui eu não sei bem como faria isso tão bem. — disse Eileen sem olhar para o rapaz, cruzando os braços, ainda envergonhada.

— Eileen, você me roubou dois beijos, que tal se eu pegar eles de volta?

— Ham?! Não... Nossa, você não toma jeito. — Ela ficava ainda mais vermelha e tomava a dianteira, batendo o pé.

— A senhorita Kallenor beija muito bem, sabia? — disse o rapaz, provocando-a.

— Eu... Ah, cala a boca! — Eileen não sabia se sorria e ficava brava, estava um conflito de emoções dentro de si que mais parecia um mar em fúria, o que refletia também em suas expressões e obrigava Kishan a segurar a vontade de rir se quisesse continuar vivo.

— Bom... Viemos parar aqui, significa que a Condessa está no deixando ir embora?

— Acho que sim. — disse Eileen, abrindo a porta,
reaparecendo do lado de fora da mansão.Ambos suspeitavam se vieram mesmo parar no mundo real, mas ela teve certeza ao ver o brilho verde da porta.

— Aqui é a saída da cognição, mas também é uma entrada. Ela tem que ser destruída. — Ela disse perfurando a porta com o florete.

— Mahi hari Bakui! — exclamou enquanto um círculo mágico era emitido da arma, em seguida a porta era encoberta por rachaduras flamejantes e explodia em pedaços.

— O que está acontecendo?! — exclamou a Condessa, que estava ao lado das empregadas e de alguns guardas. Ela caia no chão, sentindo sua cabeça doer muito.

— Condessa Serissa, você está presa por assassinato e por bruxaria! Prendam-na! — exclamou Eileen enquanto os guardas a obedeciam, imobilizando-a.

— Que ultraje! Perdeu alguns neurônios, Investigadora?! — disse a mulher emitindo uma aura roxa em volta de seu corpo. — Eu sou da corte real, sou uma das mulheres mais influentes desta cidade, não pode simplesmente me prender!

— Marui?! — disseram os guardas, apontando as espadas e cajados.

— Não adianta discutir, eu vi tudo... — disse Eileen enquanto os tendões mágicos de seu rosto brilhavam próximos de seu olho, que se acendia e mostrava uma imagem parecida como um holograma.

As páginas do diário onde ela alegava ser uma bruxa, o feitiço de amor, o Marui, o mundo cognitivo dela, as aparições e a cena dela mesma enforcando o Conde, enquanto outra de si mesma lutava conta alguém de chicote.

— Isso... Não faz sentido, é uma ilusão que você criou!

— Isso era tudo parte de sua mente. As provas estão bem aqui agora, gravadas em minha memória. Mas não se preocupe, os feiticeiros da polícia irão averiguar a veracidade dessas imagens e não haverá mais dúvidas sobre sua acusação. — disse Eileen escondendo seu olho com o cabelo agora. – Acabou, Condessa Serissa. — disse enquanto os guardas a arrastavam para fora.

— NÃO! — Condessa liberava um grande poder de si mesma, empurrando os guardas que a carregavam com uma explosão de Marui. Ela sorria sarcasticamente, apontando suas mãos e carregando uma esfera de sombras.

— Ótimo, você descobriu que sou uma bruxa. Além da afinidade mística, também possuo a das sombras e não há ninguém aqui nesta casa capaz de lutar contra mim, nem mesmo seu guarda-costas! — disse enquanto os empregados da casa iam na direção dela, transformando-se em sombras e unindo-se ao corpo dela, fortalecendo-a.

— Parece que o poder dela está impregnado na casa inteira... — disse Eileen, observando a mansão transmitindo Marui e fortalecendo a Condessa.

— Os empregados da casa eram criações de sombras... – disse Kisha, cerrando os dentes ao sentir tamanha força emitida a aura de Serissa.

— Isso faz todo sentido agora... — murmurou Eileen.

Antes que a bruxa pudesse disparar aquela energia gigantesca em sua mão, Kishan explodia uma esfera de vácuo na frente de seu rosto, atordoando-a e interrompendo a canalização. Ele a erguia do chão, envolvendo-a numa esfera de ventos e sufocando-a.

— Pare, vai matá-la! — disse Eileen, desesperada.

— Não vou matá-la... — no momento que ela perdia a consciência, ele cessava o poder e em seguida mandava ar para os pulmões dela. A Condessa acordava brevemente, mas voltava a dormir por um feitiço de Kishan. — Viu, ela vai dormir por algumas horas apenas.

— Vi... – Eileen cruzava os braços, com um sorriso satisfeito. — Bom trabalho.

O caso estava parcialmente encerrado. Os guardas levavam Serissa para fora, aplicando triangulos mágicos em seu corpo para bloquear sua Seiteru, para caso ela acordar no caminho, antes de chegar na sela anti-magia. Eileen e Kishan passavam pela barreira, deixando a mansão.

— Você havia dito que existiam dois assassinos, mas será que quem protegeu o Conde não seria uma outra cognição da Condessa? – em resposta a pergunta, Eileen sussurrava algo no ouvido de Kishan, que olhava assustado para Serissa.

— Não podemos deixar isso acontecer! — exclamou ele, olhando ao arredor.

— Droga, Cronélius. Eu disse para ser discreto... – Eileen calmamente usava seu olho para procurar algo suspeito.

Ela via uma rosa presa no uniforme de um dos guardas próximos à Condessa e sorria. Bingo! Eileen se aproximava, cheirando-a e rapidamente retirava seu florete, perfurando a flor.

— Investigadora?! O que está fazendo? — perguntaram os guardas, em seguida a rosa começava a sangrar e ficar pesada. Eileen a deixava cair da arma, em seguida a planta crescia, emanando uma nuvem roxa e negra até de repente uma mulher aparecer.

— Agnes...? — perguntou Kishan ao ver uma mulher de cabelos castanhos cacheados e olhos da mesma cor, usando uma roupa colada a corpo num tom de verde claro, botas vermelhas e jaquetas da mesma cor, carregando um chicote na cintura.

— Desgraçada... Como percebeu?! — exclamou a mulher se levantando, tampando o sangue do ferimento em sua barriga enquanto algumas raízes e cipós eram erguidos do solo.

Os guardas a atacavam com raios disparados dos cajados e em seguida outros disparavam flechas em sua perna, fazendo-a cair no chão.

— Eu sabia que dificilmente te encontraria naquela casa, afinal... Depois de falhar em proteger o Conde, um aliado dos bruxos, o melhor a se fazer era se esconder. Qual o melhor lugar para isso? O imenso jardim da mansão, perfeito para alguém com a afinidade Flora. Você aguardou até tudo acabar para se esgueirar entre os guardas, aproveitando a abertura na barreira para fugir.

— Isso não é motivo para me espetar uma flor com uma florete. Como chegou a essa conclusão?! — disse ela se debatendo, tentando se livrar dos guardas, mas os mesmos haviam conjurado triangulos mágicos para bloquear sua Seiteru. — Me soltem!

— Eu tive certeza que estaria escondida no jardim após a Condessa absorver todas as cognições que se passavam por moradores da casa. Você era da Rosa de Sangue, está se passando por Kishan Zakrasen, incriminando-o, assassinando traidores bruxos no processo. Você o queria nesta cidade, por que o queria de volta para o lado dos bruxos.

Você, Kalina, seduziu Megan Groudave para adentrar na residência deles e matá-los, a prova disso são seu cheiro na casa e as raízes impregnadas de Marui, sendo que esta casa era seu esconderijo, bruxos aliados viviam aqui quando precisavam... Porém, tudo ficou comprometido quando a Condessa surtou e matou o Conde, ativando as defesas programadas da residência. Você se viu sem saída, então resolveu incriminar Kishan novamente, para não suspeitarem de ninguém desta casa, para não suspeitarem de que não houvesse nenhum bruxo aqui. Foi um bom plano, mas para seu azar, eu estava na cidade.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

— Tsc...! — Kalina ria, em seguida apontava suas mãos para os guardas ao seu lado, disparando agulhas venenosas de sua manga, derrubando-os no mesmo instante e fazendo os triângulos mágicos sumirem.

Ela apontava para a Condessa, disparando agulhas na direção dela, porém Kishan as repelia com uma parede de vento.

— Agnes, minha irmã, você está viva! — disse ele se aproximando dela, repelindo as agulhas com o vento em seguida imobilizando-a com um movimento rápido. – É verdade o que Eileen disse? Estava me incriminando para chamar minha atenção? Quer que eu me alie aos bruxos?

— Você cresceu bastante, irmãozinho. É verdade... Há anos estou de procurando, mas você desapareceu por tanto tempo que tive que recorrer a uma abordagem diferente.

— Por que não deixou os bruxos? O Clã foi destruído, era a chance perfeita para ser livre. Você nunca gostou de lá, por que ainda trabalha como uma bruxa?! Você odeia o mundo? Quer vê-lo destruído?! É isso que os bruxos desejam, é isso que Luthine e Darkar desejam!

— Não, Kishan. Estou colaborando para a criação de um mundo melhor, você deve entender isso, afinal sabe o quanto este mundo é podre e doentio! — disse Kalina enquanto raízes envolvia seu corpo, puxando-a para o solo, escapando dos braços dele e reaparecendo numa distancia segura.

— Irmão, venha comigo... Somos uma família, temos que ficar juntos... Por favor, Kisha... Eu sinto muito sua falta. — disse Kalina estendendo sua mão.Ela notava que Eileen se aproximava sorrateiramente, em seguida erguia raízes que a imobilizavam completamente, inclusive a fazia soltar de seu florete.

— Solta ela! – disse Kishan.

— Se vier comigo, eu soltarei ela.

— Agnes, eu não posso. Escuta... Você precisa de ajuda. O Marui te corrompeu, você mudou, mas pode voltar a ser quem era se for purificada.

— Isso só traria desequilibro a mim. O marui fez-me encontrar a mim mesma. Todos nós precisamos do bem e do mal dentro de nós, não podemos simplesmente descartar parte de nossa natureza. — Disse enquanto segurava o marui na palma de sua mão. — Eu tenho um propósito maior neste mundo. Sou Kalina, dos cinco pilares do julgamento de Luthine, a Bruxa do Vazio.

— Luthine? Essa mulher... Ela... — disse Kishan se aproximando, cerrando os dentes de raiva. – Agnes... Por que? Você odiava ser uma Assassina, por que ainda continua trabalhando com isso? Por que...

— COVARDE! Você sempre foi covarde! Você sabe o que é certo, o mundo está errado, nós precisamos de um lugar melhor para viver e a Bruxa do Vazio é a única que pode dar isso à todos nós! — berrou Kalina erguendo vários cipós gigantes com espinhos à sua frente. — Eu achei que você entenderia, mas... Você não tem mais salvação. Eu não vou te obrigar a vir comigo, você seria inútil por ser um completo covarde. – Agnes deixava escapar algumas lágrimas que tentava com todas as forças segurar. — Adeus, irmão. No dia da grande destruição, terá outra chance, mas agora se cruzar comigo novamente, não terei piedade... — disse a bruxa sendo envolvida por plantas e raízes, descendo na terra e ao mesmo tempo Eileen era libertada.

Kishan caia de joelhos, sem forças, apenas deixando as lágrimas descerem de seus olhos, sentindo um imenso vazio em seu coração que o deixavam ar. Sua irmã se foi novamente. Ela se tornou algo que dificilmente teria volta e ele não podia fazer mais nada. Eileen ajoelhava em sua frente, segurando sua mão e puxando-o para perto de si, abraçando-o. Com o leve conforto que sentia agora, o fazia querer tirar todas aquelas mágoas que segurava, Kishan desabava, entregando-se às emoções ao sentir-se seguro novamente.

Alguns dias depois, Serissa foi interrogada, julgada e sentenciada. Sua pena foi reduzida por ela revelar quais outros bruxos ela conhecia que estavam infiltrados entre a nobreza. Eileen também conseguiu a inocência de Kishan no processo. Foi um pouco mais demorado, ele acabou dormindo numa sela por alguns dias até o julgamento, mas tudo ocorreu bem e agora ele estava livre. Como parte do acordo inicial, eles partiam para o antigo Clã da Rosa de Sangue, afim de revelar quem foi o contratante que mandou assassiná-la no passado.

—--***---

Ambos chegavam ao local no meio do deserto, entre um oásis rochoso. Desciam dos Galarbos, uma ave grande, parecida com avestruz de pés grandes e bicos longos como de tucano.

— Espere aqui, eu volto logo. — disse Kishan, adentrando por uma abertura entre as pedras.

Eileen aguardava, sentava no chão arenoso, observando a visão do sol preparando para se por. Minutos depois, o rapaz voltava, segurando um livro grande, velho e surrado.

— Bom, eu dei uma olhada antes, para caso tivesse que me preparar para dar uma notícia ruim, mas... — ele sentava ao lado dela, abrindo na página que havia marcado.

— Morrigan Skyrine, Rainha dos Vampiros. — disse Kishan, apontando para onde havia todas as informações.

— Isso não faz sentido. — disse Eileen, sacudindo a cabeça. Ela virava uma página, em seguida voltava duas, procurando algo, mas o único lugar certo com o seu nome no meio era onde Kishan encontrou. — Vampiros não existem, foram extintos há anos!

De repente, o olho de Eileen começava se iluminar e pulsar, emitindo uma luz vermelha, o que ao mesmo tempo a fazia sentir uma forte enxaqueca.

— Você cresceu, Nemilla. Achei que nunca saberia o nome de sua rainha, mas vejo que finalmente encontrou... – disse uma projeção feita pelo olho de Eileen, de uma garota jovem de cabelos curtos e pálidos, com mechas avermelhadas e com um olho escondido por um tapa-olho.

— Quem é essa...? – perguntou Kishan, sem entender o que estava acontecendo.

— Eu sou Morrigan Skyrine. Rainha dos Vampiros... Sua rainha.

— Eu não sou uma vampira, sou Eirian. – disse Eileen, sentindo as enxaquecas piorarem.

— Será mesmo? Nunca se perguntou porque tem esse olho e porque tem tanta dificuldade em usar magias? Você é última esperança do nosso povo, bastarda. Encontre os fragmentos de sua alma e me venha me libertar... Os vampiros são a última esperança de recuperarmos Atrídia e virar a guerra contra os Bruxos. — Ao dizer isso, a imagem de Morrigan desaparecia, junto com as dores de Eileen.

Kishan se aproximava dela ao ver que ela começava a cambalear a segurava para não cair.

— Você está bem? Eileen?!

— Sim... Não grita... Ainda sinto umas pontadas... – ela dava um passo dele, refletindo sobre o que acabou de acontecer.

— Então... O que foi isso?

— Meu olho de alguma forma se conectou com o dela, abrindo uma imagem entre a dimensões...

— Isso quer dizer que o que vimos agora era real...? Ou, quero dizer...

— Sim. Morrigan Skyrine existe. Esse nome de alguma forma libertou algum selo mágico em meu olho e fez a conexão ser feita através do mundo espiritual.

— Que coisa doida...

— Minha alma, ela está dividida. Eu preciso encontrar ela, preciso de respostas, não posso mais viver assim.

— Então, temos uma jornada longa pela frente.

— Temos? Quer dizer que vai vir comigo? — perguntou a mulher, surpresa.

— É claro, por que eu não iria?

— Mas... Não tem motivos. Nosso acordo acabou agora, você está livre.

— Então por que não firmamos outro? — perguntou, sorrindo sedutoramente e corando-a.

— Você... Pode continuar sendo meu guarda-costas, se quiser. Com direito a remuneração.

— Por mim tudo bem. — Ele disse.

— Simples assim? Sem outra exigência?

— Na verdade, tenho uma.

— Qual?

— Lembra daqueles dois beijos que você me roubou?

— Hm... – ela cruzava os braços, franzindo a testa, mas não conseguia segurar o riso. – Vem aqui. – Ordenou Eileen.

— Sim senhora...

Ele se aproximava dela, abaixando-se um pouco ao mesmo tempo em que Eileen envolvia o pescoço dele com seus braços, tocando os lábios e fazendo sua língua ir de encontro com a dele. Ambos continuavam com o beijo por alguns minutos e dessa vez a mão boba era de Eileen, apertando a bunda do rapaz antes de separarem.

— Ei... – disse Kishan, indignado, porém sorrindo. – Que ousada.

— Você não viu nada... Vamos, Cornélius. Temos muito trabalho pela frente.

— Ah não... Pode parar com esse apelido. Além disso, onde nós vamos?

— Em busca dos fragmentos de minha alma... E resolver alguns casos no caminho.

— Por onde iremos começar? Tem alguma pista?

— Tenho... Acho que Morrigan me mostrou onde o primeiro fragmento está.

—--***---

E foi assim que comecei minha jornada. Eu e Kishan mal sabíamos que a busca dos fragmentos de minha alma acabaria nos envolvendo em algo extremamente grande, que mudaria o destino do mundo. Mas, apesar de tudo o que aconteceu, eu não me arrependo de nada.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!