Eidos: Adormecer
1 Capítulo 1
Carregando...Esses minutos entre o nada e a escuridão parecem eternos, então ocorre a conexão. Linhas multicoloridas explodem, serpenteando bem à vista, um momento desorientado, nada de barreiras ou dimensões conhecidas. O enjôo natural é compensado pelas substancias lançadas diretamente na base do cérebro. Alívio, doce e inebriante. Sinto uma ardência em várias partes do corpo. “Deve ser normal...”. Penso, procurando prestar atenção na figura translúcida à minha frente. Uma mulher, ou pelo menos deveria ser uma, o corpo nu, assexuado, prateado, olhos violeta e cabelos no mesmo tom. Concentro toda a minha atenção em seus lábios...Bem vindo a BIO_CIBER_REDE. Antes de acessar efetivamente, realize os protocolos de reconhecimento. Por favor, responda as questões que seguem:
1- É a primeira vez que conecta na BCR? S/N2- Consegue visualizar com clareza este programa de Boas-vindas? S/N3- Deseja um guia? S/NEnquanto meus olhos ardem e tudo fica mais brilhante, a voz feminina me impele rumo ao desconhecido. Sem pensar muito eu apenas dou respostas comuns: Sim. É a primeira vez que entro. Posso te ver e eu gostaria muito mesmo de um guia! A mulher/programa está pensativa, talvez eu não tenha formulado corretamente minha resposta. Quando penso em retificar ela já está falando outra vez.Preparando máscara... Utilitário iniciante. Deseja imagens padrão? S/NEu não tinha notado antes, mas não havia nada diante daquela mulher/programa. Eu não possuía corpo ou qualquer referencial, apenas uma luz informe. O medo me tomou de tal modo que suspeito ter gritado. Porém a coisa de olhos violetas nada fez. Tentei me acalmar e respondi: Si... Sim. Eu quero uma máscara, seja lá o que for isso. Por que eu não tenho corpo?Uma máscara é a forma como você se vê e será visto pelos outros usuários na BCR. Alguns costumam chamá-la de Pele ou Casca. Porém a denominação correta é Interface Neuro-representativa. Existem vários tipos de máscaras e normalmente elas definem o quão versado é o usuário da rede. Através das máscaras é possível reconhecer funcionários, protetores, auxiliares ou simples visitantes da BCR. Os modelos padrão são: Homem, Mulher, Garoto, Garota ou Assexuado. Todos disponíveis em uma ampla paleta de cores. Quanto a sua segunda pergunta. Seu corpo está exatamente onde o deixou antes de conectar-se a Rede, porém sua mente não tem uma forma concreta e assim representa-se sem uma máscara. A resposta foi satisfatória?Eu devia ter prestado atenção quando o médico me explicou o procedimento, mas não é fácil entender os termos técnicos dessa coisa. Estar conectado em uma ampla rede de usuários diretamente pelo meu... Como é o nome? Hipo... Sei lá! A base do meu cérebro. Não há o que fazer e essa coisa quer uma resposta minha. Pelo menos acho que entendi sobre a máscara e tudo mais, melhor eu responder logo: Sim, sua resposta me satisfez. E onde está o guia que você falou?Ficamos felizes em saber que somos úteis. Antes de entrar em contato com seu guia é necessário à configuração de uma máscara e um nickname/apelido. Pode fazê-lo agora?Bem... Isso pelo menos eu sei. Principalmente qual vai ser a minha nova Casca. Tentei responder vacilante: Posso, se você me ajudar. Gostaria de ser um homem alto de feições andróginas e cabelos muito longos, negros, olhos prateados. Vestirei um casaco da cor de meus cabelos... É complicado de explicar.Com prazer ajudarei. Não precisa especificar em palavras, basta apenas imaginar a máscara e aguardar alguns segundos. A resposta foi satisfatória?Sim. Vou tentar agora. Respondi meio sem jeito e já começando um exercício mental. Ver-me ou ao meu novo ego era uma brincadeira antiga, mesmo para mim. A cada segundo me sentia mais seguro e o desconforto desaparecia gradativamente. Estava em meu meio, um lugar familiar... Por que? Não quero pensar nisso.A forma brilhante sorri e eu contemplo meu trabalho. Estou lá! Sapatos lustrosos, roupa impecável, uma criatura saída de um destes filmes antigos. Sorrio para ela. E envio meu novo nome, tão fácil quanto beber água ou respirar.Seja bem-vindo a BCR jovem Oneiros. A INTERMETRON e os Conglomerados Atallante desejam-lhe uma boa navegação. Por favor, siga o corredor e encontrará seu guia.Sorri para a mulher/programa, afinal devia a ela meu estado atual. Despedi-me silenciosamente e caminhei... Não sei quando o corredor e a porta surgiram, mas o fato é que estavam lá. Respirei fundo antes de tocar a maçaneta, girei-a delicadamente. O que me espera? Como será um outro usuário? Tantas perguntas e nenhuma resposta... Era hora do primeiro passo, não vou desistir agora.A porta tinha a consistência que eu sabia ser à correta, até mesmo a maçaneta levemente escorregadia causou-me um prazer indescritível. Após cruzar o umbral fui invadido por uma onda de vertigem e precisei apoiar-me no que estivesse mais próximo, curiosamente um antigo e nodoso salgueiro. Todo o cenário interno era um campo verdejante coroado por um céu anil, daqueles saídos dos contos de fadas infantis. Senti o ar nos pulmões, límpido e carregado de vida. Algo perfumava a relva e mesmo a dor era suportável diante daquela maravilha. “Como é belo...” Exclamei meio que para mim.
“Realmente belo. Acredito ter sido concebido por um artista romântico do século retrasado”.Inclinei-me para traz a fim de saber quem era a dona de uma voz tão angelical e rouca. A minha esquerda encontrava-se uma garota cujos cabelos dançando ao sabor da brisa e vestes simples de camponesa fitava-me com doçura. Estive a ponto de correr. fugir da sensação pungente de mergulhar naqueles olhos negros. Seria sempre assim com outros usuários? Tão intenso e pessoal... Nem mesmo quando estava sedado e as drogas corriam em minhas veias a emoção tornava-se devastadora. É como tocar o intangível. Engasguei sentindo a saliva percorrer meus lábios. Como uma máquina poderia trazer tantas sensações familiares e comuns? Seria isso o sono? Agarrei-me a moça quase em lágrimas.Porque?Foi tudo que pude dizer enquanto era devastado pelo contato com suas vestes macias e seu calor percebido em cada centímetro de minha alma. Era sinestésico aquele encontro. Cada parte do lugar transmitindo ao mesmo tempo uma informação diferente ao meu corpo. Ela aumentou minha agonia tremendamente ao aconchegar-me em seu colo. Como era doloroso o contato... Toque... Sono... Sonho...“Tudo vai ficar bem. A sua máscara está se ajustando aos seus padrões sensoriais e testando as respostas corretas. Não me tome por uma máquina, apenas quero que compreenda as transformações por que está passando. Logo tudo ficará normal. Tente não pensar em nada...”.Anos de isolamento mental no mundo lá fora e palavras tão doces numa desconhecida libertam lágrimas salgadas e cortantes. Ela estava certa, afinal a dor amainou e pude falar-lhe.Você é como eu? Abandonada em algum lugar no mundo lá fora, sedada e letárgica?“Sim e não. Estou aqui com você e isso é o mais importante. Sou sua guia e amiga nessa faze embrionária. Chamo-me Nimue. Qual o seu nome?”Oneiros.A moça sorriu ternamente. “Li um pouco sobre mitologia e percebo uma inclinação para o clássico em você, Oneiros.” Ela tomou-me pela mão, sentia cada u, de seus dedos enlaçados em minhas mãos enluvadas. “Sente-se aqui um momento e vou ajuda-lo. Afinal é muita falta de cortesia minha não lhe apresentar meu pequeno eidos... Reino na BCR.”Eidos? Como o de Platão? Um mundo imaginário de idéias.“Sim e não. Mas vamos com calma. Primeiro eu devo me apresentar de uma forma mais educada... Sou Auxiliar Numui ”Continua ...
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