Como grande parte das garotas da sua idade, Risa não gostava de estudar. Não por ser “careta” ou “desnecessário”. Apenas não via sentido em ficar estudando por horas e horas uma matéria chata, a qual já entendia. Mas tinha algo mais que não gostava.

- Risa! Venha logo, vão fechar o portão!

Sua amiga Annie gritava no portão da escola, desesperadamente tentando desenrolar seus curtos porém bagunçados fios loiros de cabelo. Porém Risa não movia sequer um musculo, quase não respirava. “ Queria eu poder ‘ir logo’ ’’, a garota reclamou mentalmente. Logo a sua frente, estava um ser. Não possuía uma forma, era como uma fumaça negra... com vários olhos, que a encaravam, esperando o mínimo movimento para atacar.

A morena estava acostumada com isso, mas não deixava de ser um pouco assustador. Essas coisas apareciam do nada, e para piorar, aparentemente era a única que conseguia ver. Logo, deixou de ser popular por causa de seus olhos brilhantes cor de mel e cabelos longos e negros, para se tornar a “esquisita que fica olhando para o nada”.

– Regna terrae, cantate deo, psállite dómino... – Ela sussurrava, tentando não demostrar medo. O ser se afastou ao ouvir as palavras, e antes de encara-la mais uma vez, sumiu nas sombras formadas no chão pelo portão da escola. Era como se aquilo estivesse querendo guardar a imagem da garota, não se esquecer de quem lhe afastou... Era de dar calafrios.

- Risa! – Annie gritou mais uma vez.

- Estou indo! – A garota correu, por pouco conseguindo passar pelos portões.

Risa e Annie eram amigas desde antes de a morena começar a ver aquelas coisas. Eram inseparáveis, mas muito diferentes. Annie gostava de compras e karaokê, e atualmente, estava com seu terceiro namorado. Gostava de aparecer bonita e arrumada, mas não era metida ou coisa do tipo. Mesmo assim, a amiga não conseguia entender o que tinha de tão bom naquilo. Trocaria boa parte daquelas coisas por uma tarde no Fliperama, ou um bom livro. Mas por serem tão diferentes, se completavam.

Mesmo assim, a morena nunca contou a Annie pelo o que passava, pois tinha medo de assusta-la. Afinal, depois de tantos livros, notou que personagens principais tinham habilidades diferentes do comum, poderes estranhos... Por isso, passou a se chamar assim. “Personagem Principal”. Assim sentia que aquilo era uma brincadeira, ou um livro, e que tudo iria acabar bem...

- Como todos vocês sabem – O diretor começou a falar no momento em que entrou na sala, obrigando os alunos a ficarem em silencio. – A policia ainda não tem pistas sobre o Serial Killer... Por isso, como todos os dias, recomendamos que não andem sozinhos nas ruas, e não fiquem até tarde fora de casa. Não queremos que nada de ruim aconteça a mais ninguém...

O clima na sala ficou pesado com aquele comentário. Fazia duas semanas desde que John, o professor de literatura, tinha sido encontrado morto de forma brutal. Com um suspiro triste e pesado, o Diretor, amigo de longa data do ex-professor, continuou.

- Felizmente, vocês não terão mais que ter aulas com a professora substituta. Conseguimos um professor. Ele veio de fora, mas é muito bom em nosso idioma. Não quero nenhuma brincadeirinha, está bem? Por favor, entre.

Todos olharam para a porta, curiosos. Mas Risa não estava muito interessada. Gostava muito de John. Tinha aula com ele desde sempre, e ele era muito mais que um professor. Era um amigo, quase um pai para ela. Mesmo assim, aquela figura chamou-lhe a atenção.

O homem não era nem muito alto, nem muito baixo. Sua pele era quase tão branca quanto o jaleco que usava por cima da camisa social acinzentada e semiaberta. Seus cabelos, assim como os dela, eram completamente negros, porém curtos na frente e longos atrás, completamente repicados e até mesmo bagunçados. Mas o que chamava a atenção era seu rosto. Seus olhos levemente puxados denunciavam que era asiático, mas o tom de seus olhos... Não eram pretos, ou azuis... Era uma mistura de cores, mais parecida com um roxo, que a fazia lembrar de uma Nebulosa. Mas mais do que isso, ele tinha um incrível, indiscutível e extremo... olhar de sono. Era como se fosse dormir a qualquer momento, como se estivesse completamente desinteressado em tudo a sua volta. Mas mesmo assim, analisava cuidadosamente cada um dos trinta alunos da sala, tirando o pirulito da boca antes de falar.

- Hmm... – Ele fez, parando de andar. – Me chamo Mitsuo. Vinte e dois aninhos, japonês, sou de capricórnio e solteiro. Ah, mas não entendam errado. Não estou procurando por uma namorada...

Após um instante de silencio, a turma começou a rir. Que tipo de professor fazia uma apresentação como aquela? Tinham certeza de que seria no mínimo um professor divertido. Já Risa não tinha gostado dele... Tinha algo de estranho naquele homem. Sentia isso.

- Obrigado, obrigado... Estou aqui todos os dias. – Ele deu um pequeno sorriso, antes de fazer uma leve reverencia. – É um prazer conhece-los, alunos meus...

A aula foi um completo tédio.

Apenas para Risa, é claro. Mesmo sem notar, Mitsuo falava coisas engraçadas, fazia caretas, e suas reações – ou falta delas, faziam a turma rir. Além de que era um bom professor. Explicou a matéria muito bem, de uma forma fácil de entender, por duas aulas... sem olhar sequer uma vez para o material.

Então finalmente chegou o intervalo. Infelizmente, todos, inclusive Annie estavam falando com o novo professor e o enchendo de perguntas e por isso Risa passou o tempo sozinha, lendo “Como se Livrar de Espíritos Ruins”.

- Mas que droga! – Ela gritou.

Após o fim das aulas, ignorando quase que completamente os avisos, foi diretamente para o Fliperama, um dos lugares onde mais passava tempo. Era muito conhecida lá, não havia sequer um cliente que não a conhecesse. Afinal, seu nome sempre estava no Top Três de todos os jogos e competições dali. Porem, por conta do humor, tinha perdido pela terceira vez em um jogo de tiro, o que a colocou em terceiro lugar pela primeira vez.

- Não adianta agora... Misael! Amanhã eu volto. Coloque na conta para mim.

Ela falou para o atendente, que sorriu e arrumou os óculos, fazendo um leve sinal positivo.

Misael era um bom rapaz. Trabalhava no fliperama já fazia dois anos. Além disso era atraente, pelo menos para a garota. Tinha olhos gentis e esverdeados, que ficavam atrás das lentes de seus óculos de grau. Sua pele era perfeita, e após ter a chance de encostar em sua mão, descobriu que era tão macia quanto aparentava. Seus cabelos cor de mel eram ondulados, quase enrolados, levemente bagunçados, até a nuca. Sempre conversavam muito, e sabia que podia contar com ele para tudo.

Um de seus três amigos.

Quando saiu, já era tarde. Aproximadamente oito da noite. Tinha que chegar em casa antes de sua mãe. Após alguns minutos andando, notou que não estava na rua certa. Mesmo tendo certeza de que pegou o caminho de sempre. Tentou ir para outra rua, mas não era a certa. Tinha mudado? Impossível. Continuou a andar, até notar que estava completamente perdida. Pensando no que faria, viu ao longe sua amiga.

- Ei! Annie! – Ela gritou, mas como não teve resposta, correu em sua direção.

Até que se sentiu subir em algo, e então o cenário mudou. Era um cenário que conhecia bem. Uma ponte a dois quarteirões da sua casa, que ficava por cima de um rio. E lá estava ela, prestes a cair em direção de sua morte.

“Nessa hora... alguém devia me salvar, certo? Protagonistas não morrem tão fácil assim...”

E no instante que pensou isso, sentiu um braço em volta de sua cintura, a puxando para trás com força, fazendo-a cair no chão. No momento, não entendeu o que tinha acontecido. Apenas entendeu que estava viva, e isso era ótimo.

- Quase... Não notou que era uma ilusão?

Conhecia aquela voz. Tinha ouvido pela manhã. Confusa, olhou para Mitsuo, que estava parado a sua frente, comendo uma barra de chocolate. Tinha o mesmo olhar cansado, ainda falava devagar e baixo. Mas tinha algo diferente... Talvez sua voz, que estava um tom mais alto, ou o fato de estar sem o jaleco branco... Ou então, a enorme espada prateada que carregava.

- Ei, professor... Acho que acabei de descobrir o porquê de eu não ter ido com a sua cara... – Ela falou, com um sorriso completamente falso.

Era assim que os casais dos livros se conheciam e se apaixonavam, certo?...

Errado!