Efeito Borboleta
46 Déjà Vu
"Um cientista no seu laboratório não é apenas um técnico: é, também, uma criança colocada à frente de fenômenos naturais que impressionam como se fossem um conto de fadas."
(Marie Curie)
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Raccoon City
2007
— Então, como foi a escola hoje? Está animado para o baile de formatura? — Annie diz casualmente enquanto coloca um pedaço de bife malpassado na boca.
— Eu não vou para o baile — o rapaz diz com indiferença enquanto termina de jantar.
— Por que não vai?
— Porque para eles, eu sou um Psicopata, mamãe — ele diz com desdém. — Além disso, a escola continua a mesma porcaria de sempre. — Embora suas palavras soassem rancorosas, sua atitude era tão apática. — Não é porque aquela garota morreu que algo ia mudar.
— Isso não é justo! Foi provado que você... não matou Lisa Trevor. — Ela tenta agir com naturalidade e otimismo, mesmo que no fundo se sentisse apreensiva. — Eles estão enganados sobre você. Sempre estiveram.
— Mas e SE... eu tivesse a empurrado do prédio? E se eu fosse mesmo um Psicopata? — Ele começa a brincar com a faca sobre um pedaço de carne em seu prato. — Se eu fosse mesmo um Psicopata, você continuaria me amando, mamãe? — Ele finca raivosamente a faca sobre a carne, assustando Annie que lhe olha atordoada. Por um minuto, eles se encaram num silêncio pesado e tenebroso. Um minuto que parece uma eternidade.
— Para com isso, Leon! — Annie lhe repreende furiosa, provocando uma risada sarcástica nele. — Isso não tem graça!
— Me desculpa. Eu só estava brincando, mãe. Relaxa! — Aqueles olhos azuis dele, às vezes eram tão sombrios, tão diferente do olhar sincero e gentil da sua versão mais velha que ela havia acabado de conhecer. — Bem, eu vou voltar para o meu quarto. Tenho um trabalho para terminar. — Ele se levanta, coloca os pratos, os talheres e o seu copo na pia, antes de desaparecer da cozinha, deixando sua mãe presa em pensamentos perturbados.
Do lado de fora, Ada ficou em silêncio observando pela janela toda aquela conversa esquisita entre mãe e filho. Havia uma tensão pairando sobre eles. E a voz daquele garoto soava tão diferente, tão mordaz.
— Eu tive a impressão de ter ouvido que... — Ada passa a língua sobre os lábios, nervosamente, quando Annie vem se juntar a ela no jardim. — Lisa Trevor morreu?
— Sim. Ela se suicidou há alguns dias. — A Professora Kennedy não estava feliz por tê-la encontrado bisbilhotando em seu jardim.
— Ai meu Deus! — Isso significava que coisas bem diferentes aconteceram aqui, o que tornava a sua estadia nesse mundo algo imprevisível. — Olha, o Leon foi preso. Precisamos ajudar ele.
— O que ele fez?
— Ele estava perseguindo o Assassino... — Ada ficou hesitante. Afinal, o quanto ela poderia interferir na vida da sua Ex-professora se lhe revelasse sobre o seu futuro trágico?
— Que Assassino? Do que você está falando? Desembucha! — Agora ela havia conseguido deixar Monica aflita. — É alguma coisa que vai acontecer com o meu filho? Leon está em perigo?
— Na verdade... agora é você quem está em perigo. — Ada toma a coragem de revelar para Monica sobre o que aconteceria a ela AMANHÃ. Eles estavam correndo contra o tempo, sem saber o quanto poderiam mexer nesse mundo sem sofrer as consequências. Ainda assim, Wong resolveu fazer alguma coisa. Afinal, aquela mulher um dia se arriscou para salvar a sua vida.
— Não posso acreditar nisso. — Annie estava relutante em acreditar em sua amiga.
— Você deveria partir dessa cidade. Pega o seu filho e fujam daqui. Fujam dessa cidade!
“Fujam dessa cidade!” De repente, ela tem um déjà vu. Um Déjà Vu desta mesma cena e desta mesma conversa.
— Eu já tentei te alertar sobre isso antes?! — Isso significava que essa viagem do tempo já havia acontecido em seu mundo. Ou seja, outra Ada do futuro já havia vindo para tentar alertar Annie (Monica). Ou seja, tudo só estava se repetindo.
— E pelo jeito você falhou... — Apesar do clima tenso, sua antiga Professora tinha uma face impassível. — Talvez, porque fugir não é a resposta. — Pelo seu tom de voz, Monica parecia um pessoa cansada da vida. — Devemos parar de fugir e apenas aceitar o nosso destino.
— Então, diga isso ao seu próprio filho! — Ada sabia que Kennedy nunca desistiria de continuar lutando. — Porque o Leon que eu conheço, nunca aceitou a morte da mãe. — Desabafa. — No futuro ele até se tornou policial e passou anos em busca de pegar o seu assassino, Monica. — Nesse instante, no andar de cima o adolescente Leon começa a gritar loucamente, assustando as duas mulheres.
— Eu vou ver o que está acontecendo. Deve ser mais um pesadelo. — Ela para no limiar da porta de entrada para impedir que Ada tente segui-la. — Eu cuido dele, sozinha... E você deve cuidar do outro Leon. — Depois retira do bolso a chave de seu carro e joga para Ada. — Aqui. Pega o meu carro.
R.P.D
Delegacia de Polícia de Raccoon City
2007
Já que foi levado para a RPD, Leon decidiu que tentaria falar com Burton. Se seu capitão fosse um viajante do tempo, ele iria ajudá-lo sem hesitar. Além disso, seria muito bom revê-lo e poder matar a saudade. Entretanto, logo que chegou ali se deparou com vários rostos desconhecidos, exceto pelo novato Chris Redfield que estava sentado na mesa dele mexendo em seu computador, tentando ignorar completamente a sua existência.
— Ei Redfield, onde está o capitão Burton? — Ele remexe as mãos que ainda estavam algemadas sobre a mesa, sentindo o pulso querer doer.
— Você quis dizer, Tenente Barry Burton — Chris retruca sem tirar os olhos do computador. — Bem, ele... infelizmente, faleceu há alguns meses. — Isso obviamente chocou Leon.
— Faleceu? Como? — Leon se sentiu tão agonia em saber que, mesmo neste mundo, o destino de Barry se repetiu de forma trágica.
— Ele morreu enquanto perseguia um bandido. — Apesar de não tirar os olhos da tela do computador, pelo seu tom ficava nítido que aquele assunto era delicado e o deixou triste.
— Sinto muito, Chris.
— Ei, não me chame assim como se fôssemos amigos. — Chris deu uma rápida encarada mal humorada. — Eu nem te conheço, cara.
— Bom, você ainda não sabe, mas no futuro seremos grandes amigos... — Leon murmura com ponderação. — E parceiros de equipe.
— Sério?! — Chris para de digitar e encara Leon com uma expressão irônica.
— Sério. — Leon se sentia estranho em ter que usar apenas da argumentação para convencê-lo a acreditar nele. — Eu sei muitas coisas sobre você. Sei que você perdeu seus pais quando era criança. E você e sua irmã Claire foram criados pelos avós. Seu avô, aliás, acreditava em abduções alienígenas. Ele até acreditava que o desaparecimento misterioso de Lisa Trevor era um caso de abdução. — Chris se pegou rindo sobre essa informação, o que deixou Leon constrangido.
— Se você queria tanto me convencer, deveria ao menos ter se informado melhor sobre a Lisa Trevor.
— Eu não entendi. — Leon fechou o cenho.
— Olha, não importa. — Chris se afasta um pouco da mesa e cruza o braço impaciente. — Por que você não fala primeiro quem é você? E de onde você veio?
— Do futuro, mesmo que você não acredite em mim.
— Você ainda não me convenceu. — Seus olhos desafiam Leon que precisa puxar pela memória algo mais pessoal a fim de convencê-lo.
— Amanhã, 14 de Junho será um dia muito marcante. — Seu tom é melancólico. Há esse aperto no peito de saber que algo ruim irá acontecer com a sua mãe, se ele não conseguir impedir. — Pra você será um dia feliz.
Uma memória lhe vem a mente sobre uma conversa em que Chris lhe confidenciou que naquele noite; após tê-los deixado no Baile de Formatura; ele foi se encontrar com alguns amigos e acabou esbarrando com Valentine.
— Amanhã você vai receber a resposta que tanto está esperando.
— O quê? Do quê você está falando?
— Jill Valentine. O Sim que ela lhe dará, será através de um beijo no meio da chuva.
— O quê? Como você... Como você sabe sobre a Jill e eu? — Chris estava atordoado com aquilo.
— Você me contou. — Seus azuis o encaram firmes. — Você também me disse que o nome da sua filha Jenna foi em homenagem a sua mãe.
— Que loucura é essa?! — Chris se levanta desbaratinado. — Filha? Que história é essa de filha?
— Você terá uma filha. — Leon afirma com presunção que deixa Chris pasmo.
— Não terei não! — O novato tenta rebater com convicção. — Além disso, a Jill não gosta de mim e já tem um namorado, seu imbecil! — Chris cuspia as palavras entredentes, frustrado com todo aquele papo furado.
— Bom, Jill sempre disse que o único IMBECIL na vida dela era você. — Agora Leon havia conseguido provocar a ira de Chris.
— Seu filho da puta! — Ele vem até Leon e o puxa pela frente de sua camiseta.
— Ei, o que está acontecendo aqui? — E no meio da confusão, Marvin Branagh resolveu aparecer e interromper a briga deles. Curiosamente, Branagh assumiu o lugar que era de Burton na equipe.
— Me desculpa, senhor Branagh. — Chris decide se desculpar com o seu superior, antes que ganhasse alguma advertência.
— Senhor Kennedy, você está liberado. Sua amiga apareceu e nos explicou a sua situação. — Marvin o livra das algemas e depois lhe entrega a sua carteira. — Ah, acho estranho que você tenha o mesmo nome do filho da Professora Kennedy. E vocês até se parecem um pouco. — Leon dá de ombros e apenas sai dali sem dar mais explicações.
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— Nunca imaginei ver você sendo preso daquele jeito. — Ada o provoca sentada no banco do passageiro.
— O pior é perder tempo com isso. — Leon pisa no acelerador, dirigindo o carro que pertencia a sua mãe.
— Leon, vai mais devagar. — Ela ainda não havia se recuperado pelo que experimentou com Spencer.
— Eu sei, eu sei. — Ele resolve desacelerar um pouco. — Só queria resolver isso logo. — Sua mente estava cheia de pensamentos sobre a mãe e o dia terrível que lhes esperava amanhã, isso estava o deixando louco. — Droga, achei que indo até a RPD conseguiria alguma ajuda do capitão... Mas, descobri que ele também já morreu aqui. E ninguém mais vai acreditar na gente.
— Isso significa que estamos num mundo muito diferente do nosso... Uma realidade distorcida, onde coisas muito imprevisíveis pode acontecer.— Ada começou a sentir um pressentimento ruim de estar ali. — Tipo, o Burton não é o único a estar morto aqui... Você sabia que a Lisa Trevor... Ela se suicidou?
— O quê? — Leon encara muito seriamente a mulher ao seu lado. A Lisa Trevor que ele conheceu em seu mundo apenas desapareceu e nunca foi encontrada.
— Eu percebi que há outras coisas estranhas também. — Ela murmura olhando pela janela, sentindo medo de encará-lo agora.
— O que você descobriu?
— Eu tive uma... espécie de déjà vu quando estava conversando com a sua mãe. E descobri que, no nosso mundo, outras versões nossas vieram até a sua mãe e tentaram salvá-la.
— O quê? Você tá querendo me dizer que...
— Que tudo isso está se repetindo, exatamente, como das outras vezes. — Eles compartilham um olhar temeroso.
— Ahhhhh! — Porém, de repente, Leon começa a gritar. Nesse momento, Ada percebe que o rosto dele está suando e se contorcendo numa expressão que parece de dor, os olhos azuis estão piscando sem parar.
— Leon, para! — Ada grita assustada, fazendo ele pisar no freio abruptamente e o carro parar.
— Faça essas vozes pararem! — o detetive continua a gritar insanamente e, de repente, sai batendo a porta do carro. Ele caminha cambaleando, com as mãos sobre os ouvidos, enquanto aquelas vozes terríveis continuavam a atormentá-lo.
— Leon, o que está acontecendo com você? Leon?! — Ele cai ajoelhado no chão, ergue o rosto para o céu, o nariz está sangrando de novo, por fim, solta um último grito doloroso, deixando Ada, completamente, desesperada.
Hotel Apple Inn
2007
Ada ficou desesperada sem saber o que fazer com Leon que não queria ser levado a um hospital e só queria retornar para a casa da mãe. No fim, acabaram tendo que alugar um quarto no hotel Apple Inn, onde ela passou praticamente a noite em claro cuidando dele, até que ele adormeceu.
— Ele teve febre a noite toda e ficou alucinando. — Ada revelou, assim que Annie veio encontrá-la no hotel no dia seguinte. — Ele ficava gritando que queria que as vozes parassem. Estava sofrendo tanto. Foi horrível.
— Eu imagino... — Annie também teve uma noite difícil.
— Algo me diz que você sabe o que está acontecendo com ele... — Ambas estão paradas em pé ao lado da cama, onde ele ainda estava dormindo. — Porque aconteceu o mesmo com o seu filho ontem... Não é mesmo?
— Você não deve se preocupar. — Annie puxa uma cadeira para se sentar ao lado da cama e segurar uma das mãos de Leon.
— É óbvio que vou me preocupar! — Ada estava suplicando por alguma ajuda. É, então, que se lembra dos papéis no bolso de sua calça jeans que resolve mostrar para Annie.
— Sei que meu filho... não é normal. Ele sempre foi diferente dos outros garotos. — Ela puxa um dos papéis da mão de Ada. — Ele fez esses desenhos quando era criança. Ele dizia que fazia esses desenhos para se lembrar dos seus pesadelos.
Annie continuou lhe contando que tentou queimar todos esses desenhos bizarros, mas Leon continuou os desenhando. E quando isso não era suficiente, passou a escrever coisas estranhas também.
— Ela abriu a porta proibida do tempo e viu um mundo que nunca deveria ser visto. Agora a punição dela foi sentenciada. Ela precisa morrer pelo futuro... — Ada repete aquelas palavras em voz alta, lutando contra o arrepio frio que a domina. — O que ele quis dizer com isso?!
— Eu veio me questionando sobre isso há muito mais tempo que você. — Ela se levanta e vai até a janela do quarto.
— E chegou a alguma conclusão? — Ada faz o mesmo parando ao seu lado.
— Eu tinha uma teoria sobre a garotinha do desenho... — Annie estava temerosa por seguir com essa conversa que, cada vez mais, se tornava obscura. — E se a garotinha fosse a Alice? Não seria uma baita ironia do destino... ele sonhar com a sua filha?
— Eu não tenho filha! E nunca terei... — Ada diz amargurada. — Portanto, aquele futuro não vai acontecer. — Seus castanhos refletem uma grande determinação.
— Quando fomos engolidos pelo buraco de minhoca, eu estava grávida dele. Eu acredito que isso deve tê-lo afetado de alguma forma.
Annie ainda estava tentando entender o que estava atormentando tanto o filho. E estava lutando para salvá-lo. Portanto, ela acreditava que, por causa do buraco de minhoca ainda estar aberto, isso estava causando algum tipo de caos no multiverso. Consequentemente, afetando a mente dos dois Leons...
— Eu acho que as vozes que eles escutam... são vozes de outras dimensões.
— Isso faz sentido.
— É por isso que ele não deveria estar aqui. Porque cada vez que o Leon viaja no tempo, algo diferente... vai acontecer com ele.
— Monica, existe alguma forma de fechar o buraco de minhoca, ou destrui-lo? — Ada estava assustada e querendo, mais do que nunca, retornar para o seu mundo. Mas, antes precisa descobrir um jeito de parar toda essa bagunça.
— É complicado, porque a resposta em teoria é simples e, igualmente, cruel... — Ela encara Wong com um olhar perigosamente sagaz, antes de olhar novamente para o papel com aqueles desenhos sobre a garotinha. — A garota que aparece nos pesadelos do meu filho... não é Alice... É você, Ada. Mas, acho que você já sabia sobre isso. — As duas se encaram demoradamente. — Agora... por que tem que ser Você? Por quê?
"Foi você que começou com tudo isso. É justo que esta história, só possa terminar com a sua própria morte." De repente Ada se pega lembrando das palavras cruéis de seu Algoz.
— Eu agora sei o porquê — Ada responde após se deparar com aquela verdade mórbida. — Por que no futuro, Ada Wong se torna a primeira viajante do tempo.
— Mãe. — Leon havia acordado, pegando-as de surpresa. As duas mulheres trocam olhares apreensíveis sem saber o quanto ele poderia ter ouvido da conversa delas.
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