Efeito Alternativo
1 Capítulo 1 - Quase monótono
Aquela manhã nublada não ajudava para que o café da manhã obtivesse um gosto melhor ou mais apetitoso. As torradas secas praticamente ralavam a minha garganta levemente, como se os pedaços que eu mastigava vagamente não fossem o suficiente, pois aquelas torradas feitas por meu pai estavam excepcionalmente ruins, mas eu já devia estar acostumada com aquele gosto de queimado e aquele café forte demais para que eu pudesse apreciar com calma e vontade, aliás, as manhãs haviam se tornado aquilo desde que minha mãe, a renomada cientista Glenda Jones, havia decidido iniciar com um projeto inesperado com o foco em possíveis viagens no tempo através dos buracos negros, assim, fazendo certo estudo da composição do mesmo. Ela vivia dizendo que o objetivo era calcular uma propulsão e assim, manipular o destino do buraco, como se o próprio fosse uma máquina do tempo, mas para ser sincera, eu nunca realmente prestei atenção nas palavras que ela dizia durante o almoço, que era considerado o momento sagrado da família, na verdade, o único momento completamente sagrado no qual ninguém poderia faltar.
– Aveline, poderia me ajudar com a mesa enquanto ajeito as louças? — Meu pai disse, quando concluía o seu magnífico café da manhã quase impossível de ser engolido.
– Claro.
Apesar das minhas controvérsias, não negava ao meu pai uma pequena ajuda, já que ele passava a maior parte do dia fazendo pesquisas para novos artigos — já que ele trabalhava para o jornal local — ou então para o seus livros. Dessa vez não protestei contra ele, e colocando uma mecha do meu cabelo loiro atrás da orelha, o fitei por alguns segundos. Meu pai não era um homem atlético, porém não era gordo, talvez ele houvesse alguns quilos a mais, por isso estava um pouco distante de ser magro, mas ainda assim, não era gordo, pois havia um costume de sempre praticar esportes nos tempos vagos — apesar de serem poucos.
Minha família poderia ser feliz, apesar da correria, alguns membros da mesma achavam alguns problemas para que “animassem” as coisas quando todos estivessem juntos em um âmbito quase familiar, se não fosse por um ou outro que rapidamente se distraía com algo mais interessante do que uma simples discussão, e essa geralmente era representada por mim.
Peguei os dois pratos que estavam na mesa e os coloquei na pia, assim, guardando os outros objetos que meu pai havia disposto sobre a mesa de uma forma não tanto cuidadosa quanto minha mãe, em seu estado normal, faria. E logo os dois pratos e xícaras estavam limpos, e sendo secos pelo meu pai enquanto eu caminhava preguiçosamente na direção do meu quarto, onde eu pegaria minha mochila e revisaria meus poucos materiais para uma garota do segundo ano, e então, desse o meu habitual beijo no rosto do meu pai e me dirigisse ao colégio. E foi isso que eu fiz. Para o meu azar, uma chuva começou a cair violentamente, eu podia ouvir seus dedos nervosos percorrerem os vidros do carro enquanto meu pai dirigia. Não era todos os dias que ele me levava, por isso, hoje eu havia duas oportunidades de sentir a barba mal feita dele ao beijar a sua bochecha numa despedida um tanto rápida, pois, sempre me disseram que eu não fazia o tipo que se despede como se fosse a última vez, aliás, despedidas eram demasiadamente dolorosas no meu pensamento, e meu objetivo seria não me despedir de forma intensa, como se fosse uma última vez.
Meus coturnos tocaram o chão úmido quando eu desci do carro e eu logo me apressei em correr para a entrada do meu colégio, que era um prédio com arquitetura própria de Amsterdã, fazendo jus ao lugar que pertencia, como a maioria dos prédios naquele lugar. Aquele inverno estava me incomodando muito, na verdade, eu estava acostumada ao frio de Amsterdã, mas ele estava me levando a usar agasalhos reforçados, e isso me fazia fitar, com meus olhos brilhantemente verdes – como minha avó costumava dizer quando viva – as garotas que vestiam menos roupas, ou seja, não pareciam um guarda-roupa ambulante com roupas que atrapalhavam até a caminhar ou a enxergar os seus pescoços. Todos os alunos se encontravam no pátio, divididos em duplas, trios ou grupos, e aquilo me incomodava, apesar de ter o meu próprio grupo de amigos. Na verdade, eu não gostava daquela divisão e sempre me enxergavam como A filha de Glenda, e nunca como Aveline, pois eu gostaria de poder conseguir o meu próprio título, mas parecia que minha mãe já havia feito isso por mim.
Avistei a cabeleira ruiva da tagarela Grace de longe, mas não ousei chegar perto, não hoje. Grace Hopkins podia ser considerada a minha melhor – e tagarela – amiga no colégio. Apesar das nossas diferenças, ela conseguia guiar um assunto sem problemas, sempre nos deixando isentos de inventar algo na hora. Ela mais parecia uma máquina programada para falar duas vezes mais rápido do que o normal, do que uma humana simples, louca por possibilidades malucas. Ela era uma das quais não me perguntava sobre o projeto da minha mãe, pois parecia que todos tinham uma sede incontrolável de poder mudar o passado, talvez, elas tivessem cometido erros demais e queriam ter uma chance de que tudo fosse diferente. Para ser sincera, eu utilizaria isso para cometer mais erros, assim, as coisas poderiam ser melhores, aliás, nós fomos feitos para aprender com o erro contínuo.
Subir algumas escadas enquanto carregava minha mochila pesada era uma tarefa difícil, quando se tem uma multidão que anda numa velocidade similar a usada pelas tartarugas, mas fora isso, tudo estava bem, aliás, até agora ninguém havia ousado a pisar em meus coturnos favoritos. Após aquele sufoco proporcionado por alguma força altamente pessimista, eu já estava quase adentrando a sala de aula ampla e arejada que me oferecia horas de sono confortáveis, quando meu pulso foi fortemente puxado por alguém que deveria ter perdido o cérebro ou simplesmente poderia ter me confundido com alguém. Eu só enxerguei olhos castanhos claros e vívidos antes que me apagasse por completo, e então, a escuridão me abraçou como uma velha amiga e me tomou em seus braços, me levando para um lugar distante, como uma terceira dimensão na qual era apenas eu, e mais nada.
Meus pés flutuavam e minha cabeça girava e doía fortemente, e na tentativa de abrir os meus olhos, eu havia me deparado com a luz forte de uma lâmpada acesa. Como que por comando de um controle, a maca na qual eu estava presa por correntes fortes, se virou e me deixou numa posição desconfortável em pé, pois eu sentia o peso do meu corpo cair por completo em minhas pernas, começando então a despertar uma dor vaga nos joelhos, mas logo me distraí de tudo o que se passava quando o enxerguei.
Parecia um humano convencional, se não fosse pelos olhos com alguma espécie de laser vermelho. Os olhos eram vazios e pareciam congelados, e após me analisar de pés á cabeça, eles voltaram ao mesmo castanho claro que eu havia visto antes de tudo escurecer. Não sabia o que aquela criatura, ou ciborgue pretendia fazer, mas me assustei mais ainda quando ele se aproximou de mim, ainda me fitando, com uma espécie de bisturi na mão direita.
– Diga-me onde está a sua mãe. – A voz grave preencheu o silêncio da sala, provocando um eco que me incomodava intensamente.
– Eu não sei do que se trata, mas eu não a guardei no bolso da calça. – Eu respondia mecanicamente, e logo um sorriso torto havia se formado em meus lábios. A mão pesada dele acertou em cheio o meu lado direito do rosto quando eu sorri, e notei que agora eu não poderia contar com alguma ideia mirabolante de Grace ou poderia contar com a voz calma do meu pai, talvez tudo estivesse perdido, mas eu não me sentia completamente amedrontada pela criatura a minha frente, apesar de uma ponta de medo começar a florescer lentamente no meu peito, tomando conta do meu ser pouco a pouco.
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