Echo
1 Echo
Capitulo único
Echo (Eco)
Louise Daniels
O vento frio que entrava pela porta de entrada da casa, me fazia tremer, ao mesmo tempo que me fazia desejar com todo meu coração que minha irmã mais velha e o namorado parasse de se pagar na calçada e decidissem logo se iriam para um motel, para a casa dele ou ficaria aqui. Seriam incômodos de qualquer maneira, mas, pelo menos nas duas primeiras opções eu me livraria deles.
— Lô... Nós estamos indo para uma festa... na casa da Sam. Não me ligue se algo acontecer e lembre-se que a Sra. Lewis vem deixar os gêmeos aqui em meia hora. — A felicidade de Alice apenas me deixava mais consciente que não, ela não iria somente para uma festa na casa da amiga... Ok. Cenas mentais perturbadoras, hora de assistir um bom e velho filme de — comedia — terror.
Pelo menos eles fecharam a porta, com força suficiente para que o barulho ecoasse, mas elo menos o vento frio que vinha dessa não me incomodaria mais. Me deitei no sofá ocupando todo o espaço reservado para cinco pessoas, com meus milhões de cobertores e almofadas. Em frente a mim, na mesinha de centro, uma lata aberta de brigadeiro, pipoca, um copo cheio de coca-cola e uma tigela transbordando doces esperavam pelo ótimo e confortável Hallowen que eu esperava ter.
Na TV uma loira burra — nada contra loiras, já que eu mesma sou uma, mas convenhamos que os filmes não nos representam muito bem — qualquer era esfaqueada continuas vezes por um cara de vestes negras e mascara branca. Um clássico — que eu já havia visto milhares de vezes, vale acrescentar — sorri em direção a TV, recordando-me de cada uma das mortes que seguiriam a da loira.
Em pouco tempo eu já estava completamente imersa na singularidade macabra que aquele conto me proporcionava quando, para quebrar totalmente o clima tenso do filme o irritante som da companhia começou a soar. Andei lentamente até lá, abrindo a porta rapidamente.
— Oh. Louise. — A mulher me fitou decepcionada. Sim definitivamente ela não gostava de mim. — Aqui estão as crianças. Cuide bem delas estarei de volta por volta da meia noite, eles devem estar dormindo antes das dez.
Os gêmeos — cof, cof pestes cof, cof... que crise de tosse, não é? — Adentraram o local. As caras angelicais tornaram-se demoníacas, e os olhos azulados pareciam brilhar tão sadicamente e insanamente quanto os de todos os assassinos dos filmes de terror da franquia do que eu assistia naquele momento.
— O que vocês querem? Assistir Disney? — Indaguei esperançosa que eles dissessem que queriam dormir ao invés de qualquer outra coisa.
— Podemos assistir isso? — Ambos seguravam uma embalagem de um filme infantil recente, que até mesmo eu tenho que admitir que consegue ter mais nexo que muitos filmes feitos para adultos.
Os deixei lá com tudo que eu havia preparado para mim e corri para meu quarto, pulando degraus na hora de subir as escadas. Deitei-me na minha cama, colocando os fones de ouvido no meu celular antes de começar a escutar uma música aleatória. Hora de relaxar um pouco antes de ter que me matar para cuidar das crianças. Realmente o que eu não faço por dinheiro recentemente?
— Por que não se livra deles?
A voz soara distante, e eu escutava apenas seu eco repetindo-se até qualquer sinal de som além da música sumisse completamente. Olhei ao redor, não havia mais ninguém no quarto.
— Serio Lice? Peste malignas? Cadê o cara com as câmeras eu vou querer o dinheiro pelos direitos de imagem antes de botarem isso no ar.
— Você sabe que será mais simples se eles simplesmente morressem... — A voz era doce e persuasiva, olhei novamente para todos os cantos. Ainda não haviam desistido de brincar de esconde-esconde? Pois bem eu seria obrigada a brincar também e eu não estou disposta a perder. — Suas faces sem cor e contorcidas de pavor... imagine que bela cena, digna até mesmo de estampar as telas dos melhores artistas do mundo.
— Quem diabos está aí? Serio eu vou ligar para a polícia se você, ou vocês, sei lá, não mostrar sua cara agora mesmo.
Puxei um objeto aleatório da minha cômoda. Um estilete, sorri minimamente por ter comprado ele hoje. Apontei para todo lado numa pose ridícula. Serio eu acho que se alguém estiver filmando isso eu vou matar o filme sem pensar duas vezes. Vergonha demais para ir aos públicos.
— Vamos, juntas podemos acabar com todas essas vidas inúteis...
Arfei isso estava começando a me assustar e me irritar. Eu conhecia aquela voz, disso eu tinha certeza, mas de onde e de quem era? Continuei andando até para em frente ao espelho. Um raio cortou o céu, cegando-me por instantes e logo que o barulho estrondoso do trovão que o acompanhou se foi meus olhos voltaram-se para a superfície refletiva. Eu estava lá, mas haviam manchas de um vermelho vivo em minha face, meus cabelos estavam quase inteiramente brancos e havia algo de macabro no sorriso que havia ali. Dei dois passos para trás, mais um raio seguido por um trovão, olhei novamente para o espelho eu estava normal de novo.
— Ótimo agora eu estou enlouquecendo. Obrigada universo, seu divo.
— Você tem a arma. Você pode convencer a todos que sua irmã fez isso, você pode matar as testemunhas e os que forem contra tal ideia... você pode tudo basta querer, e você sabe que quer, Louise. — Aquele eco rouco, frio e distante parecia prender-se a mim. Não conseguia livrar-me da sensação de estar sendo observada, de que aquilo começava a aproximar-se mais do que eu queria.
Medo. Pavor. Temor. Foi tudo que se apossou de meu corpo quando eu me lembrei de onde conhecia aquela voz, afinal como eu não reconhecera minha própria voz antes.
Apertei o estilete contra minha mão, percebendo tarde demais que o sangue já efluía livremente para fora de meu organismo, o chão perfeitamente branco começava a manchar-se com aquele vermelho doentio. E aquilo lembrou-me da minha face refletida no espelho anteriormente, a pele clara manchada pelo vermelho. Só que o sangue naquela figura não parecia ser meu.
E quando despertei de meus devaneios foi que percebi onde estava, em minas mãos um curativo cobria o machucado e eu já não segurava o estilete, eu segurava uma faca de cortar carne, meu corpo movia-se contra minha vontade, e o modo como eu segurava o objeto me fazia pensar em coo eu estava parecida com o ser fantasiado do filme. Soltei o objeto, o que eu estava fazendo? Para onde eu iria com aquela faca? O que eu faria com aquela faca?
Segurei meus cabelos com força, chegando a puxar alguns fios negros... brancos? Olhei com atenção, correndo para onde a prataria estava. E refletindo-se lá eu via meus cabelos quase inteiramente pintados daquele branco puro que agora parecia-me doentio. Resisti ao instinto de vomitar, quando percebi que até mesmo uma cama de maquiagem estava sobre minha pele, e aquilo não era somente uma fantasia ou alucinação... muito menos parecia ser uma pegadinha.
— Socorro.
— Sabe que não importa o quanto grite, apenas eu escutarei. Não importa o quanto suplique ninguém lhe dará atenção. Estamos só eu e você aqui, só que dessa vez eu vou assumir o controle e você será apenas uma observadora impotente a tudo.
— Porque?
— Porque eu vou fazer com que você experimente, mesmo que por pouco tempo, toda a dor que eu passei. Eu te reformarei com todas as mentiras que contarei, eu te farei viver num inferno, tal como você fez comigo, Louisa.
— Meu nome é Louise.
— Você realmente esqueceu Louisa? Que morreu em nosso nascimento? Que se negando a partir mesclou sua alma a minha? Que tomou meu próprio corpo de mim?
— Pare com isso.
— Não. Você merece. Você me manteve calada por tempo demais, eu me mantive escondida de mim mesma por tempo demais. Nós duas somos uma agora, nós duas dividiremos tudo agora. E nada nos impedira, não é mesmo irmãzinha?
— Cale-se. Cale-se. Cale-se. Cale-se.
E o eco de minha própria voz atormentava-me. O quão fria, rouca e longínqua ela soava me assustava. Tudo rodava e tudo acontecia rápido demais, o modo como eu me dirigira calma e sorrateiramente para a sala, como cravara a faca na barriga de ambos e assistira lentamente o modo como suas roupas tingiam-se de vermelho e negro e como a vida abandonava seus corpos.
— Talvez você devesse parar de subestimar o eco em sua mente.
— Talvez eu devesse parar de acreditar nas suas palavras
— O que?
Puxei a faca do corpo falecido do gêmeo, depositei um beijo leve na testa de cada um, antes de fincar a faca em minha própria barriga. Repeti o ato várias vezes, antes de sentir que a dor já não era mais aguentável, que simplesmente não haviam mais chances. Quando comecei a tossir sangue e aos poucos ver tudo apagando e perdendo o sentido eu soube que aquele pesadelo acabaria. Nada mais me perturbaria.
Acordei, abrindo meus olhos rapidamente, apalpei minha barriga nada. Olhei-me no espelho, sem maquiagem ou cabelo branco, desci as escadas, o filme ainda passava embora os gêmeos estivessem adormecido no sofá.
Tudo não passou de um pesadelo. Um pesadelo horrível que esperava que nunca mais retornasse. A Sra. Lewis e minha irmã chegaram rapidamente, e mesmo me sentindo tão criança quanto possível eu pedi para dormir com ela até que o papai e a mamãe chegassem, daqui a dois dias.
Adormeci lentamente, esperando não ter pesadelos, nem mesmo sonhos. Temendo até que meus pensamentos ecoassem em minha mente, por que caso isso acontecesse eu sabia que sentiria novamente aquela presença impregnando-me. Sentir-me-ia novamente um fantoche que poderia ser controlado facilmente pelas mãos insanas de meu próprio reflexo.
— Pensei que tivesse entendido que não sou seu reflexo, que não sou só um eco distante. Que estou mais perto que espera, e cada vez mais pronta para atacar novamente, dessa vez de modo mortal.
Prepare-se Louisa, Louise, seu demônio interior está pronto para tomar o controle.
Fale com o autor