Ebriedade sóbria, abismo e fragmentos

9 Manifesto de repulsa à 1ª pessoa e Bobo da corte


Manifesto de repulsa à 1ª pessoa

O desejo simplório do gesto

Custa-me caro demais,

Ao ponto da repulsa.

Não do gesto.

Mas da morbidade minha

A inércia constrangedora do medo

A imobilidade ridícula da expectativa do fracasso

Preso na mediocridade da prisão que é si mesmo.

Enquanto a alteridade espera por respostas

Ademais prontas.

Por isso, minha paixão é uma hemorragia vaga onde me afogo.

Dilacerado pelo desejo

Pela imprecisão do afeto indeterminado

Nutro,

Num jardim arrasado, as flores natimortas do amor meu.

Que ele não passa agora de uma palavra vazia jogada ao vento

Aguardando significado.

Bobo da corte

Desperdiço meu tempo como um bobo da corte desperdiça

Suas graças inutilmente com a realeza.

Certo de que na manhã seguinte, todo vão esforço se repetirá.

Mero elemento efêmero etéreo sobre os pés de vossa alteza

Cuja graça marca um ponto na história dos súditos.

E apenas as areias vagarosas do tempo limpam suas memórias.

Enquanto palaciana, sequer terá a reminiscência da plebe consumida nas tapeçarias imperiais.

Perco-me sobre eu mesmo na busca do agrado alheio,

A ser sempre o corpo substituível dentro da mesma roupa aclamada

Cujos passos nunca acenderiam as escadas do trono

Para beijar vossas mãos.