Já eram quase 15h e eu esperava impacientemente pelos dois ogros que chamo de primos. Consegui evitar falar com James o resto da semana e Timothée continuou agindo normal comigo, mesmo que estivesse cada vez mais próximo.

Cheguei a conclusão que não tenho nada a perder deixando ele se aproximar. Somos amigos há anos, o que pode dar errado?

Quem sabe assim Rose finalmente entende que eu e Scorpius não temos nada e Alisson para de correr atrás de Tim na tentativa desesperada de chamar a atenção de James.

Pensando nele… Assim que olhei pra frente lá estava, andando bravo em minha direção e o pior de tudo: sozinho.

— Fred não vem. — ele disse, empurrando a porta e falando comigo pela primeira vez na semana. — Roxanne está passando mal. Pode ir embora, eu termino sozinho. — ele já entrava apressado na biblioteca, me deixando para fora.

— Como assim? O que aconteceu com ela? — perguntei, preocupada. Roxanne era uma das únicas Weasley que não era da Grifinória, então não tenho contato com ela.

— Provavelmente nada. — ele disse, pegando um monte de livros e colocando em cima de uma mesa com raiva, fazendo um barulho alto demais para aquela hora da manhã. — Ele sempre usa essa desculpa quando não quer fazer alguma coisa. Ontem Hugo e Lílian brigaram e Fred ficou bravo que fui atrás dela ao invés de ir para o treino, então ele está me punindo por isso.

— Deixa eu adivinhar, eu sou o castigo? — falei já começando a me irritar. James não se deu ao trabalho de me responder, pegando alguns pergaminhos e começando a escrever.

Continuamos ali, terminando o trabalho até o final da tarde. Ele fazia a parte dele e eu a minha, e assim que terminei comecei a fazer a parte do Fred. Não falamos mais nada até a hora que Madame Pince passou pelos corredores, já apagando as luzes e expulsando os alunos que ainda estavam ali.

— Acho que até ela quer curtir o sábado. — comentei, mais para mim do que pra ela. James deu um risinho abafado pelo nariz, me ajudando a recolher os materiais e separando os artigos que já estavam prontos.

— Pode ir embora. Vou levar os pergaminhos para o meu quarto e termino tudo lá.

— O trabalho é meu também, James. Vamos para o salão e terminamos lá, juntos.

Ele não retrucou.

Andamos silenciosamente em direção ao salão da Grifinória. Tudo estava quieto e calmo no caminho. Quieto demais para um sábado a noite...

— Merda, eu esqueci que dia é hoje. — ele disse, batendo uma das mãos na testa enquanto carregava o livro com as outras.

Não entendi muito bem o que ele quis dizer até a Mulher Gorda abrir espaço para a gente passar: Uma música alta tocava no salão e vários alunos dançavam e conversavam animadamente. Vi Rose, Lucy e até mesmo Louis comemorando o que eu imagino ser o aniversário de Godric Gryffindor, pelas placas que decoravam o salão.

James tentou falar algo, mas eu não entendi pelo volume da música.

— O que????

— Eu disse. — ele puxou meu braço, abaixando a cabeça e falando no meu ouvido. — que não tem condições de fazer nada aqui. Vamos para o meu dormitório.

Assim como ele se aproximou, ele saiu. Ele começou a abrir caminho pelo mar de pessoas e eu aproveitei para ir atrás, ficando presa algumas vezes. James viu que estava difícil passar e pegou minha mão, abrindo o caminho com o próprio corpo e me deixando passar na sua frente.

— Ai sim, hein, James? — ouvi um garoto gritar maliciosamente enquanto eu subia a escada do dormitório masculino. — Manda a ver garoto!

Revirei os olhos, agradecendo a todos os deuses quando o silêncio preencheu meus ouvidos. James foi indo na frente, arrumando os livros nos braços e tentando abrir a porta do quarto.

— Mas que merda… FRED, VOCÊ TÁ BRINCANDO COMIGO? — ele puxou a maçaneta várias vezes, com raiva. — Espero que ela valha a pena já que você vai REPROVAR EM HERBOLOGIA POR ISSO! — ele gritou por fim, batendo os punhos na porta e fazendo um barulho de dor abafado.

— Eu posso derrubar a porta se quiser. — eu disse quando ele finalmente desistiu de bater e escorou as costas na superfície. A essa altura todos os pergaminhos já estavam espalhados pelo chão e ele , que estava com os olhos fechados, soltou um suspiro quase rindo.

— É, eu aposto que você pode. Mas confia em mim, você não quer ver o Fred pelado.

— Podemos ir para o meu quarto. Eu acho que consigo soltar algum feitiço para você conseguir subir as escadas se quiser.

— Vamos. — ele não lutou, só abriu os olhos começando a recolher os papéis e entregando todos em minhas mãos. — Eu só quero terminar esse trabalho logo.

Desci as escadas, tentando não chamar atenção novamente e comecei a me encaminhar para o lado das escadas femininas. Olhei para trás, procurando por James, mas ele não estava ali. Olhei para todos os lados, tentando achar o garoto até ouvir um "psiu" vindo do topo das escadas femininas. Acho que ele já deve ter prática no caminho.

Abri lentamente a porta do quarto, tomando muito cuidado para ninguém ver James entrar. A última coisa que eu queria eram fofocas sobre eu e ele, ainda mais agora com Tim na escola.

Ouvi James soltar um feitiço em direção a porta e levantei uma sobrancelha, tentando entender o que ele fez.

— A última coisa que eu preciso hoje é alguém entrando aqui e entendendo tudo errado.

— Tudo bem.

Ele tirou a capa de frio, pendurando perto da porta e começou a seguir em direção a cama de Rose, para se sentar.

— NÃO! — gritei antes que ele sentasse. Ele quase caiu no chão com o susto, me fazendo rir. — Se você bagunçar o lado da Rose eu vou ouvir pelo resto da minha vida. Outro dia a Lucy deixou um pacote de biscoitos na cabeceira dela e tivemos que ouvir sermão por uma hora.

Ele fez que sim com a cabeça, vindo para o meu lado do quarto e sentando na beirada da cama. Ele examinou com calma as fotos da cabeceira:

Na primeira, eu e Olívia com 16 anos, sorrindo na entrada do baile de final de ano, que era com o tema “doré et noir”, ou “dourado e preto”. Eu usava um vestido dourado enquanto Olivia balançava seu vestido preto esvoaçante.

Na segunda, eu, Olívia, Tim e Charles pulando em frente a Torre Eiffel e rindo, no final do quinto ano.

E na terceira, uma foto minha com Timothée, quando tínhamos 13 anos, que Olivia tirou enquanto tentávamos nos equilibrar em cima das vassouras.

Vi sua boca abrir e fechar, como se pensasse em fazer algum comentário mas por fim ele resolver se manter calado.

— Por onde começamos, então? — perguntei enquanto prendia meu cabelo e tirava o pesado suéter que estava usando. Encostei as costas na parede, sentando ao seu lado.

— Acho que temos que ver até onde você fez a parte do Fred. — ele começou a revirar os papéis. — Você já escreveu sobre as plantas mutantes, já colocou sobre o solo queimado… — ele se aproximou um pouco mais — acho que temos que colocar sobre os casos que aconteceram nos EUA e fazer a conclusão.

— Na verdade… — eu ri, me curvando e pegando o pergaminho que estava do lado direito dele. — Eu já escrevi sobre os casos. Olha aqui.

Apontei a parte onde estava escrito o último caso, uma planta carnívora que perdeu o controle nos Estados Unidos e foi apreendida pelo Ministério de lá. Ele se aproximou mais, pegando o pergaminho que estava na minha mão.

— Você escreveu tudo isso? — ele parecia genuinamente surpreso.

— Eu disse que já fiz um trabalho sobre isso. — ele olhava de mim para o papel, como se ainda não acreditasse.

— Só faltou colocar o…

— Impacto disso nas novas leis internacionais? Tá aqui, olha. — eu coloquei minha mão em cima da dele, guiando até a parte do pergaminho que tinha as informações.

Ele começou a ler, completamente concentrado no papel. A gente estava tão perto um do outro que nenhum dos dois ousava olhar para o lado.

— Era verdade? — perguntei, quebrando o silêncio. O que eu estou fazendo?

Seu rosto estava a alguns centímetros do meu e eu sentia que meu coração ia sair do peito. Seus olhos brilharam enquanto ele me encarava daquele jeito estranho e profundo que só ele fazia.

— O quê?

— Que se você pudesse beijar qualquer garota na sala seria eu. — eu estava tão perto dele que não conseguia mais controlar minha respiração. A mão dele ainda estava embaixo da minha e eu sentia o cheiro de perfume que preenchia o ambiente.

— Você sabe que é. Eu tomei a poção e…

Antes que ele terminasse de falar eu fiz a maior loucura que podia fazer.

Quando senti seus lábios sobre os meus, não conseguia mais pensar em nada. Nada que eu tinha feito até agora se comparava com a sensação de ter James ali, beijando a boca que só falava coisas maldosas em minha direção.

Quando me dei conta do que tinha feito já era tarde demais. A boca dele ainda estava colada com a minha, mas agora suas mãos passeavam pelo meu corpo, procurando um lugar para ficar. Elas pararam em cima da minha cintura, me puxando para cima do seu colo. Era como se nossos corpos estivessem em sintonia e eu soubesse exatamente o que fazer.

Me separei dele, tentando respirar e digerir tudo aquilo que estava acontecendo. Fiquei parada, ainda em cima dele, tentando controlar minha respiração. As mãos dele ainda seguravam os dois lados do meu corpo e em algum momento as minhas mãos prenderam o pescoço dele.

Eu sou maluca de fazer uma coisa dessas… mas a respiração descompassada dele na minha nuca não me deixava pensar direito.

Só quando senti a respiração virar beijos no meu pescoço que percebi o que estava acontecendo.

Não, não, não. Eu não ia ser mais uma na lista de James Sirius Potter de conquistas em Hogwarts.

Olhei para a cabeceira da cama, vendo as fotos com os meus amigos na França e senti um calafrio na espinha quando uma das mãos dele começou a acariciar minha cintura por baixo da blusa.

Juntando todas as forças que eu tinha me afastei, sem olhar no rosto dele. Ele só pareceu perceber a gravidade do que aconteceu quando me viu chacoalhar a maçaneta da porta algumas vezes, lançando um feitiço silencioso e quebrando a tranca que estava na porta.