EVIL DEAD: ROAD

1 O círculo se abre


A única coisa pior que uma sala cheia de adolescentes, era um ônibus cheio de adolescentes.

Luke sentiu o sacolejar do veículo empurrar o café da manhã que engolira de qualquer forma para o fundo do estômago. Não conseguira mastigar tranquilamente, da forma como o nutricionista lhe dissera, porque na segunda colherada notou que um aluno tentava, inadvertidamente, comprar duas latas de cerveja – e mal passava das oito e meia. Mahoney era do tipo engraçadinho: estava sempre sorrindo, falava de um jeito simpático e conseguiria enrolar quem quisesse com seu estranho charme imberbe. Jogava uma conversa fiada para cima da garçonete que parecia irritada mas, ainda assim, com um ar divertido. Ele segurava o engradado de cerveja e falava alguma coisa sobre o clima seco dos últimos dias e sobre como era tão diferente na Flórida, de onde viera, quando Luke parou atrás dele e cruzou os braços daquele jeito que eles já haviam aprendido a reconhecer: fora um vacilo, e dos grandes.

O olhar da garçonete deslizou para o rosto de Luke e Mahoney demorou um momento para deduzir que alguma coisa acontecia atrás de suas costas. Virou-se lentamente, encolhendo os ombros e apertando os olhos em antecipação ao sermão que provavelmente ouviria.

“Você só pode estar de brincadeira”, disse Luke ao tirar a cerveja de suas mãos.

“Eu posso explicar”, Mahoney começou, ao que Luke dispensou com um aceno de mãos porque sabia que ele com certeza poderia explicar, já testemunhara suas habilidades comunicativas em outras ocasiões e alguma desculpa muito criativa sairia de seus lábios com a mesma facilidade com que conseguia desejar bom dia a algum desconhecido. Despachou Mahoney para o grupo e voltou para o prato de ovos que, àquela altura, já estavam mornos e pegajosos.

Agora, com o ônibus balançando sem parar pela estrada esburacada, arrependia-se com veemência por ter insistido em consumir todo o conteúdo do prato. Um calor áspero subia pelo seu peito e tornava cada movimento um sacrilégio; o ar espesso dentro do ônibus deixava a respiração difícil e, mesmo com as janelas abertas, a circulação continuava precária. Podia sentir a camiseta empapada às suas costas e a pele dos braços encontrava-se colada ao corino do banco cujas bordas descosturadas arranhavam-no de tempos em tempos.

Luke pensou que, se o fim do mundo fosse um lugar, com certeza seria aquele onde estavam. Campos de capim amarelado e fustigado pelo sol de junho estendiam-se até onde a vista podia alcançar, rodeados por cercas de arame farpado que, assim como tudo por ali, davam sinais de degaste. Árvores esparsas apareciam de vez em quando, mas mesmo o verde de suas copas parecia doentio à luz amarelada e febril de um céu sem qualquer resquício de nuvens. A poeira subia, espiralada, conforme o ônibus avançava, embora a sensação de Luke fosse a de que permaneciam no mesmo lugar há muito, muito tempo.

Que excelente ideia essa de uma excursão, pensou.

A intenção fora boa, é verdade, uma visita de campo a um parque arqueológico para estudar formações rochosas e pinturas rupestres que poderiam ou não ser legítimas. Os alunos compraram a ideia, não porque estivessem interessados nas pinturas, mas porque qualquer oportunidade de sair da escola era uma boa oportunidade. Luke também se animara, porém, a sujeira viscosa da estrada que insistia em invadir sua garganta e o café da manhã que parecia prestes a ser expelido freavam qualquer possibilidade de conforto e transformavam a decisão em um ponto de inflexão sobre suas escolhas recentes.

Ao fundo do ônibus, o caos era completo. Alguns alunos gritavam, outros jogavam cartas, e havia ainda os que gritavam e jogavam cartas. Embalagens de salgadinhos estavam abandonadas sobre os acentos e eventualmente alguns deles espirravam jatos de desodorante em si mesmos, na esperança de frear o suor que escorria por seus pescoços e braços. Luke observava-os e em cada gesto tentava encontrar algo que justificasse a estranha pulsão que o impelia a permanecer ali. Já analisara outras possibilidades profissionais, outros caminhos possíveis, mas sempre voltava ao mesmo ponto e acabava por escolher a permanência, sempre a permanência.

Alguns de seus colegas do tempo de escola tratavam sua escolha como um caminho menor, alegando que ele era tão inteligente e que poderia fazer qualquer coisa, então não precisava se sujeitar àquilo, lidar com jovens adolescentes dispostos a encarar todas as pessoas do mundo como seus inimigos íntimos e exclusivos. Porém, Luke gostava de estar com eles, de vê-los crescer, observar seu amadurecimento com a certeza de que auxiliara, em alguma medida, nesse processo. Em momentos como o que vivia agora, quando tudo parecia muito desalinhado e quando as coisas pareciam quase fora de controle, colocava-as sob perspectiva: a verdade é que ele seguiria outro caminho se isso fosse possível, mas não sem sentir saudade do que deixaria para trás porque essa era uma verdade, alguma coisa sempre ficaria para trás.

“Você está roubando”, Moon gritou ao fundo do ônibus, ao que uma voz masculina respondeu. Luke levantou-se lentamente, sentindo o sacolejar do veículo e ouvindo a gritaria aumentar gradativamente à medida que novas acusações pipocavam contra o jogador desonesto.

“Sr. Cavanaugh”, Moon continuou, tirando o cabelo do rosto e gesticulando com o monte de cartas de Uno que trazia nas mãos, “Simon está roubando”.

Simon contestou e outros vieram à sua defesa. Kieran e Nico eram como os fiéis escudeiros do garoto e os três formavam uma versão distorcida e muito menos nobre dos três mosqueteiros. Luke ouviu-os falar, o tom de voz sobrepondo-se à qualidade dos argumentos, e segurou o riso que brotou em seus lábios. Alternou o olhar entre Moon e Simon, lados opostos de uma mesma folha de papel. Ambos sentiam-se importantes, ambos viam-se como os únicos no mundo, ambos desejavam ser tratados de igual para igual por pessoas mais velhas, no entanto, ambos chamavam por ele para que os ajudasse a resolver as picuinhas que criavam em torno de si mesmos.

“Eu não tenho nada a ver com isso”, disse Luke, “mas preciso evitar uma possível agressão”. Ele esticou a mão para recolher o baralho engordurado quando o veículo se moveu de um jeito diferente: um solavanco fez as cartas voarem pelos ares e Luke sentiu sua costela ficar dolorida ao atingir a lateral do banco. Os alunos que estavam em pé estatelaram-se no corredor enquanto outros bateram as cabeças contra o vidro. Por fim, o ônibus pareceu deslizar pela estrada de terra, serpenteando de um lado para o outro por alguns metros antes de parar completamente.

“O que aconteceu, Miguel?”

O motorista acionou a alavanca que abria a porta e respondeu enquanto saltava do banco.

“O pneu, pelo que parece”.

Luke ergueu-se e ajudou os alunos e se recomporem antes de perceber o sangue que jorrava dos vãos de dedos de Lou. Ela, que estava mais à frente, teve o corpo arremessado para o lado e esmagou o nariz contra o encosto de um banco. Resmungava alguma coisa ao mesmo tempo em que tentava, sem sucesso, estancar o sangramento.

O tempo pareceu parar por um ínfimo momento e Luke encontrou-se diante de sua maior preocupação. Correu para a parte dianteira do veículo, onde deixara a maleta de primeiros socorros, a qual trouxera por puro protocolo, pois não imaginava ter de usá-la. O nariz da menina era agora uma massa disforme e arroxeada da qual o sangue jorrava grudento, impossivelmente inclinado para o lado direito.

“Deve ter quebrado”, Luke ouviu Kieran sussurrando e lançou-lhe um olhar pouco amigável.

Miguel desceu do ônibus e teve sua certeza confirmada: o pneu furara. Correu para a frente do veículo e sacou tudo de que precisaria, o macaco, a chave de rodas e o estepe.

Aos poucos, os ocupantes desceram, ainda atordoados.

Algumas gazes e uma garrafa de água depois, Luke conseguiu estancar o sangramento do nariz de Lou, mas a aparência não era nada boa. Se estivessem na escola, nada daquilo teria acontecido ou, quem sabe, algo pior que aquilo tivesse acontecido. Sabia que precisaria ensaiar uma boa desculpa para seus superiores e sabia, também, que os pais da garota provavelmente ficariam uma fera com o que acontecera, mas no presente momento, tudo o que queria era que o ônibus voltasse a rodar para que pudessem dar meia volta e esquecer os fragmentos daquela manhã entre o capim ressecado.

Assim que saiu do ônibus, foi abordado por um Miguel corado e ansioso. As pontas de seus dedos estavam sujas de graxa, embora a remoção do pneu avariado ainda não tivesse começado.

“Como ela está?”

“Quebrou. Com certeza”. Luke tomou um gole da água morna que ainda restava em sua garrafa. “O senhor acha que vai demorar muito?”

“Eu não sei. Quem sabe fosse bom tirá-los do sol”, Miguel apontou para as árvores à beira da rua. Não eram muitas e não formavam uma sombra extensa, ainda assim, poderiam oferecer algum alívio.

“Professor”.

Jenna segurava o celular e tentava conseguir algum ponto de sinal.

“Os meninos viram uma casa pra lá”.

Kieran, Nico, Simon e Mahoney estavam a alguns metros do ônibus e olhavam para o lado oposto, em direção às árvores. Luke aproximou-se, esticando o pescoço para tentar enxergar o que eles viam. De fato, há cerca de um quilômetro de onde estavam, era possível identificar um telhado por entre as árvores, no entanto, não havia qualquer certeza de que fosse uma casa, tampouco de que haveria alguém por lá.

“Podemos ir até lá, se o senhor quiser”, Simon sugeriu.

Luke ponderou por longos segundos. Miguel recomeçava a mexer na roda do veículo enquanto os outros alunos se aglomeravam sob a sombra rala de uma árvore que, como tudo ali, parecia fustigada pelo calor.

“Eu vou até lá”, disse, por fim. “Kieran e Nico vêm comigo. Lou, venha também”, ele chamou pela garota, que continuava com a cabeça inclinada embora o sangramento tivesse diminuído, “pode ser que encontremos algum medicamento. Quanto aos demais, fiquem aqui e ajudem Miguel no que for necessário”.

O grupo iniciou a caminhada e os outros os observaram se afastando. O som de seus pés esmagando os pedregulhos da estrada quente soava tão desanimados quanto a expiração que escapava de suas gargantas de tempos em tempos. Os meninos iam à frente, as calças dobradas até os joelhos e as camisas do uniforme manchadas de suor. A escolha de Luke não havia sido aleatória: de todos os meninos da classe que vieram à excursão, Kieran e Nico eram os mais encorpados e poderiam ser de grande valia caso surgisse algum problema. O primeiro era do time de rugby enquanto o outro investia muito tempo e energia na musculação. Ainda que a vantagem física não se refletisse em seu intelecto, era uma vantagem contar com músculos fortes em um momento como aquele.

Assim que chegaram à casa, a certeza que Luke se esforçara para manter no fundo do cérebro se ergueu como um mourão na costa da praia: estava abandonada. A cabana não via qualquer visitante há muito tempo e o que indicava isso eram as janelas quebradas, a madeira apodrecida das paredes e das portas e a vegetação que crescera descontrolada por entre os vãos das tábuas do assoalho da varanda. Pichações cobriam as paredes em toda a sua extensão e o zinco do telhado já se mostrava carcomido pelo efeito das intempéries. Há alguns metros da edificação, havia um galpão igualmente decrépito.

Kieran forçou a porta, mas esta permanecia trancada. Então tateou o batente em busca da chave e não demorou a encontrar o pedaço de metal preso a um molho com outras duas chaves. Assim que a porta se abriu e a luz do dia iluminou o interior da construção, Luke foi acometido por uma estranha sensação de que algo estava errado, mais ainda, algo estava terrivelmente errado. Encarou a escuridão à sua frente que parecia repeli-lo tal como um visitante que não é bem-vindo. Os pelos de seus braços e de sua nuca se eriçaram e permaneceu parado enquanto os meninos entravam na cabana e começavam a vasculhar os armários e prateleiras.

Luke entrou, finalmente, ainda assombrado por algo que não sabia nomear, e descobriu que, apesar de tudo, a expedição não fora bem-sucedida. O grupo não encontrou nada além de frascos de remédio já vencido, um tubo de creme dental ressecado e produtos de limpeza fora do prazo de validade. Naquilo que deduziram ser a cozinha, uma pilha de pratos empoeirados estava sobre a pia, as superfícies manchadas de um marrom muito escuro que outrora deveria ter sido molho de churrasco ou

(sangue)

outra coisa que se parecesse muito com molho de churrasco, Luke pensou, porque a possibilidade de a mancha não ser molho de churrasco abriria brechas para uma intepretação muito mais sombria com a qual ele gostaria de não ter de lidar. Foi então que, distraidamente, seus olhos começaram a percorrer os detalhes da sala, das teias de aranha penduradas na janela ao verniz opaco das tábuas sobre a parede. Percebeu as lombadas dos livros desgastadas sobre uma prateleira torta, os talheres enferrujados sobre a mesinha cuja perna estava quebrada e o copo trincado e vazio repousando sobre o tampo. Analisou os móveis esquecidos – um sofá de dois lugares, uma poltrona e uma televisão de tubo acoplada a um videocassete – e o tapete espesso no meio da sala e, no assoalho, escapando por debaixo dele, uma mancha semelhante à que estava sobre os pratos.

Luke parou abruptamente e olhou para os lados, tentando disfarçar seu desconforto ao mesmo tempo que se certificava de que nenhum aluno percebesse o que ele percebeu. A agulhada no fundo de sua mente ficou mais forte e de repente ele teve certeza de que algo estava fora do lugar e de que precisavam sair dali o mais rápido possível. Mais tarde, quando toda a loucura do mundo o olhasse nos olhos, pensaria que fora intuição o que sentiu dentro da cabana, um sopro ancestral direto em seus ouvidos que, no entanto, não fora capaz de poupá-lo de conhecer o inferno.

Assim que chamou os meninos e disse para que voltassem ao ônibus, como que por ironia, tropeçou na ponta do tapete e acabou tirando-o do lugar. O movimento revelou a grande mancha acobreada que desaparecia na portinhola de um alçapão.

“É sangue?”, Nico agachou-se e tocou a madeira com as pontas dos dedos.

“Deixem isso aí, vamos voltar ao ônibus”.

“Mas, Sr. Cavanaugh, pode ser alguma coisa séria”.

“Mesmo que seja, precisamos voltar ao ônibus”.

Luke deu as costas, com a certeza de que seria seguido, mas apenas uma inquieta Lou e um contrariado Kieran começaram a caminhar. Nico permaneceu abaixado e então, com um único movimento, puxou a aldrava e abriu o alçapão.

“Porra, Nico”, Luke resmungou e Lou esbugalhou os olhos. Luke deu-se conta: a situação era atípica, estava diante de um cenário aterrador, havia feridos e não sabiam como voltar para casa, mas ele ainda era seu professor. De um modo ou de outro, seria a ele que recorreriam e as reações que ele esboçasse determinariam a calma ou o pânico a ser manifestado.

Voltou para dentro com pressa e com raiva, considerou agarrar o colarinho de Nico e arrastá-lo para fora mesmo diante de protestos, contudo, atenuou seus movimentos quando percebeu a expressão de assombro que tomava conta do rosto do menino e esforçou-se para não demonstrar seu próprio desconcerto. A porta do alçapão dava acesso a uma escada de madeira quebrada que, por sua vez, levava a um porão. Dentro do buraco, cerca de sete corpos mumificados amontoavam-se uns sobre os outros. Os rostos eram retratos puros de um terror inimaginável e as mãos estavam esticadas sobre a escada, como se tentassem voltar para cima antes que algo ou alguém os alcançasse.

Antes que pudesse tirar os meninos dali, Lou olhou para o alçapão por sobre seus ombros e saiu correndo, segurando o vômito. Ele correu atrás dela e segurou seu cabelo enquanto devolvia o café da manhã ao mundo. Ali, sentindo o cheiro azedo do vômito e a pele pinicando em virtude do calor, Luke pensou que o passeio não tinha como piorar. O que ele ainda não sabia era que, dali para frente, nenhum sinal de melhoria os alcançaria naquela estrada.

***

Enquanto Luke socorria a pobre Lou, Nico e Kieran continuavam olhando para os corpos no porão. Em que outra situação teriam uma oportunidade como aquela? Tudo era muito perturbador, com certeza, mas ao mesmo tempo, eram movidos por certa fascinação diante de uma realidade tão grotesca. O conteúdo abaixo do alçapão seria o assunto de todos os intervalos entre aulas que ainda teriam no ensino médio. Com toda certeza, adquiririam um tipo mórbido de popularidade e saberiam como tirar proveito disso.

“O que você acha que aconteceu?”, Kieran questionou.

“Sei lá. Doença, talvez?”

“Eles parecem estar fugindo. Uma doença não teria esse efeito”.

“Quem sabe, quisessem fugir de alguém infectado”.

“Não sei”.

Nico deu de ombros e continuou observando a composição macabra de membros e rostos, mas Kieran desistiu do porão e voltou sua atenção ao redor mais uma vez. Agora que sabia o que existia sob seus pés, o lugar parecia muito mais sufocante e ameaçador. Sentia-se quase observado pelas paredes e por cada quinquilharia que ali estava abandonada.

O ranger de uma tábua despertou sua atenção. Lou ainda lutava contra suas náuseas do lado de fora de casa e Sr. Cavanaugh parecia muito desconfortável com a situação. Kieran avistou um objeto estranho sobre o sofá e se aproximou. O formato retangular lembrava o de um controle remoto e os botões em sua lateral tinham pequenos pontos marrom avermelhados, a mesma substância que manchara o chão.

“Aí”, disse ele a Nico, “sabe o que é isso?”

Nico se levantou e caminhou até ele.

“É um gravador. Eu acho. Meu pai tem um desse”.

“Será que funciona?”

Nico retirou o aparelho das mãos do amigo para analisá-lo. Havia um fita em seu compartimento e duas pilhas preenchiam a parte de trás. O menino deu de ombro novamente e apertou o play. Contra todas as probabilidades, um chiado indistinto foi ouvido e, então, uma voz grave começou a falar.

Hoje é dia dezessete de abril. Estamos aqui há menos de 24 horas. Pude constatar que tudo o que já foi registrado sobre o Necronomicon, o Livro dos Mortos, é verdade. Alicia está trancada no porão, fora de si. Sua aparência não é a mesma, seus trejeitos não são os mesmos, sua voz e sua força não são iguais às que tinha quando chegou aqui. Temo que algo tenha sido libertado no momento em que li as palavras destacadas...

Nico interrompeu a gravação e olhou para um Kieran muito assustado.

“Cara, vamos deixar isso aí”, Kieran ponderou, alternando seus olhares entre o amigo e o porão. Qual daqueles corpos seria o de Alicia?, ele pensou, e seu corpo estremeceu.

Nico ignorou completamente a sugestão e voltou sua atenção à prateleira de livros.

“Será que o livro do qual ele falou é um desses?”

Kieran continuou protestando, mas Nico não declinaria de sua busca porque era teimoso e inconsequente. O garoto arrependeu-se por provocá-lo diante de uma conjuntura tão atípica e aguçar sua curiosidade ainda mais. Os dedos longos e ossudos de Nico deslizavam entre as lombadas dos livros e, a cada título que tirava da estante, Kieran prendia a respiração sem nem saber o porquê.

“Nico, deixa isso aí. Vamos voltar”.

“Calma”.

“Cara, é sério. O Sr. Cavanaugh vai ficar puto com a gente.”

“Calma, cara”.

“Vamos fechar a porta do porão e voltar. Não tem nada que possamos usar aqui.”

“Achei”.

Nico retirou um volume da estante, embrulhado em plástico preto. Ao remover a embalagem, encontrou um volume que aparentava ser muito velho, de páginas amareladas e capa de couro grosso. Em seu interior, havia gravuras horrendas e coisas escritas em uma língua que não conheciam, mesmo assim, todo o conteúdo lhes parecia absurdamente profano.

“Nico”.

“Cara, olha isso. Parece algum tipo de ritual”.

“Eu acho melhor não mexermos com essa coisa”.

“As letras”, Nico disse, fascinado, “as letras parecem ter sido escritas com sangue”. Aqui”, o menino aproximou o livro dos olhos. “As palavras que ele citou. Eu acho que são essas. O que acha?”

Ele sorriu de forma divertida e afetada e, antes que Kieran pudesse formular uma resposta, começou a ler, em alto e bom som.

Kunda”.

“Nico...”

Ele proferiu as sílabas lentamente.

Estratta”.

“Cara, é melhor parar”.

Montossé”.

Do lado de fora, Lou ainda vomitava.

“Peloamordedeus, Nico”.

Kan...”

Kieran arrancou o livro das mãos do outro e o jogou sobre o sofá. Fechou a porta do porão com um chute e dirigiu-se para fora.

“Nem fodendo você vai terminar de ler isso”.

“Você é um cagão”, Nico debochou. “Tanto faz. Nada iria acontecer depois da última palavra que, a propósito, era Kanda”.

E então tudo aconteceu muito rápido.

Alguma coisa trepidou por entre as folhas. Luke ouviu os meninos discutindo e virou-se para eles, deixando Lou sozinha por um momento, um ínfimo momento em que ela ergueu a cabeça em busca de ar, indefesa e incapaz de correr, e a coisa que se esgueirava entre as árvores cambaleou em direção a ela, o primeiro ser humano que viu, esgueirando-se como a poeira da estrada, enrolando seu corpo como a serpente do paraíso, poluindo sua alma como a fumaça de um incêndio.

Eles não sabiam, mas o círculo acabava de ser aberto.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.