ENTRE DIAMANTES E DESTINOS
9 Capítulo 9 – Ciúmes Mal Disfarçados
A primeira semana na cobertura de Lucca Palezo foi como uma mistura de contraste e conforto para Hana.
Durante o dia, a rotina de trabalho seguia — formal, focada. Mas em casa, entre o silêncio dos corredores e os jantares tranquilos à luz da cozinha, algo diferente começou a florescer.
Hana assumiu, sem que ninguém pedisse, a função de preparar as refeições.
— Eu gosto de cozinhar. Me dá paz. — ela disse na primeira noite.
Desde então, todos os dias, havia café da manhã com pão quentinho, almoço leve e jantares improvisados, mas sempre com um toque pessoal que Lucca aprendeu a apreciar em silêncio.
Na terceira noite, ele a encontrou no sofá, enrolada em um cobertor, os olhos fixos na TV. Ele ia passar reto... mas parou.
— O que é isso?
— Dorama. — respondeu ela, sorrindo. — Drama coreano. Com muito choro, reviravoltas e protagonistas que demoram vinte episódios pra se beijar.
Lucca franziu o cenho.
— Parece cansativo.
— E é maravilhoso.
Na noite seguinte, ele sentou do outro lado do sofá. Só por acaso. Só pra “descansar”.
Mas assistiu inteiro. E fingiu que não estava envolvido.
Nos dias livres, ela desenhava.
No terraço, no sofá, até mesmo na cozinha, com o caderno no colo e os fones no ouvido.
E ele... observava.
Em contrapartida, ela descobriu os hábitos dele.
Lucca lia. Muito. Tinha uma biblioteca pessoal que misturava economia, filosofia e alguns romances clássicos escondidos entre os volumes — ela fez questão de não comentar quando viu Orgulho e Preconceito na prateleira.
E ele treinava.
Toda manhã, no ginásio da cobertura, suando, focado… sem camisa.
Hana dizia pra si mesma que não olhava.
Mentira descarada.
Ela olhava sim. E com gosto.
Mas o primeiro sinal de ciúmes veio inesperadamente.
Era sábado. Hana estava na cozinha fazendo um bolo, o celular apoiado na bancada com a chamada em viva-voz.
— Está sendo bem tratada aí? — perguntou a voz doce e preocupada da avó.
Lucca estava na sala, lendo, mas fingiu não ouvir.
Hana sorriu enquanto mexia a massa.
— Sim, vó. Muito bem tratada. Na verdade... ninguém nunca cuidou de mim assim antes.
Lucca virou a página… mas não leu uma palavra.
Uma satisfação silenciosa se espalhou por dentro dele. Aquilo... tinha mais valor do que qualquer contrato fechado.
— Ah, então quer dizer que o “misterioso chefe” é gentil?
Hana riu, com as bochechas coradas.
— Às vezes. Outras vezes é só teimoso mesmo.
Lucca ergueu uma sobrancelha sem desviar os olhos do livro.
Foi quando a avó completou:
— Ah, e falando em teimosia... aquele seu ex apareceu aqui perguntando por você.
Hana parou de mexer a massa.
— Vó… eu não quero saber dele. Por favor, não diga onde estou.
Elas se despediram de forma carinhosa. Do outro lado da sala, Lucca fechou o livro devagar.
Algo em seu maxilar se contraiu.
Ele se levantou em silêncio e foi até a cozinha.
— Está tudo bem? — perguntou, como quem só passou por ali casualmente.
Hana travou por um segundo, surpresa por ele estar tão perto.
— Sim... só... conversa com a minha avó.
Lucca assentiu e foi até o armário.
Mas por dentro?
O nome desse “ex” não importava.
A simples menção de outro homem já era o suficiente para Lucca saber que ele não dividiria Hana com ninguém.
Nunca.
~*~
A manhã começou com espirros altos ecoando pelos corredores da empresa.
Harry estava encostado na cadeira da recepção, olhos lacrimejando e uma caneca fumegante entre as mãos.
— Isso… isso é o fim. — murmurava. — Me enterrem com meu blazer favorito.
— Harry… é só uma gripe. — Hana disse, entregando-lhe um lenço.
— Só uma gripe? Eu tô vendo o túmulo de longe, Hana. E ele não tem wi-fi.
Lucca apareceu logo em seguida, impecável como sempre, mas com os olhos já marcando o caos.
— A reunião com os executivos da Luxe&Gold é hoje. Harry, você não vai sair assim.
— Graças ao céu. Eu achei que você me forçaria a morrer em campo.
Lucca ignorou o drama e se virou para Hana.
— Você vem comigo. Hoje será minha assistente.
Ela ficou surpresa, mas assentiu.
— Tudo bem.
O prédio da Luxe&Gold era imponente, com painéis dourados e ar-condicionado cruel.
Hana seguiu Lucca pelos corredores como uma sombra eficiente — pranchetas, dados, anotações. Ela o ajudava em cada ponto, e ele sabia disso. Confiava nela.
Mas nada preparou Hana para o que veria ao entrar na sala de reuniões.
— Hana?
A voz veio como um soco no estômago.
Ela travou.
Na cabeceira da mesa, em posição de destaque, estava Dylan — seu ex. Vestido num terno que não escondia a arrogância, com um sorriso que ela conhecia bem demais.
— Que surpresa maravilhosa. Você aqui… — ele se levantou. — Ainda mais linda do que eu lembrava.
Hana se encolheu instintivamente, mas tentou manter a postura.
— Estou aqui a trabalho, Dylan.
Ele riu, ignorando.
— E que trabalho, hein? Assistente do Palezo em pessoa. Quase não dá pra acreditar. — então, se aproximou devagar. — A gente devia conversar depois, colocar o papo em dia. Quem sabe jantar?
Foi quando ele tentou tocá-la. Uma mão no braço.
Mas não chegou a encostar.
— A mão. — Lucca disse com frieza.
Dylan parou, confuso.
— Perdão?
— A mão. — repetiu Lucca. — Se você levantar esse dedo mais uma vez em direção a ela… vai estar com ele quebrado.
O ar ficou pesado.
Lucca encarou Dylan como quem analisa um inseto irritante.
— Faça a apresentação. Seja útil. Ou sairemos.
Dylan engoliu seco. A reunião foi um desastre — para ele.
Horas depois, já em casa, Hana sentou no sofá com uma xícara de chá. Ainda tremia um pouco.
Lucca apareceu logo em seguida, sem terno, camisa aberta no pescoço, o cabelo desalinhado de quem passou a raiva com silêncio mortal.
— Obrigada por me defender hoje. — ela disse, olhando para a xícara.
— Não foi defesa. Foi o mínimo.
— Mesmo assim… obrigada.
Houve um momento de silêncio. Então ele se sentou ao lado dela.
— Quem era ele?
— Meu ex. — respondeu com calma. — Estávamos juntos há quase um ano quando eu descobri… que ele me traía. Com a Kim.
Lucca ficou imóvel.
— Sua irmã?
— Meia-irmã. Mas sim.
Ela suspirou, com os olhos fixos no chá.
— E o pior é que… ele tentou jogar a culpa em mim. Disse que só procurou outra pessoa porque eu… não tinha cedido ainda. Que eu era fria. Que ele precisava “de calor”. E por isso, eu era responsável por ele ter me traído.
Lucca fechou os olhos por um instante.
Mas foi a frase seguinte que o atingiu como um raio:
— Eu nunca estive com ninguém. E ele sabia disso.
O mundo parou.
Lucca sentiu o corpo esquentar.
Não por luxúria.
Mas por algo mais intenso. Mais perigoso. Mais primitivo.
Ninguém havia tocado nela. E ninguém mais iria.
Ela era dele. Mesmo que ela ainda não soubesse disso.
Lucca se levantou, caminhou até a janela como quem precisava respirar.
Mas dentro dele, a decisão já estava tomada:
Quem machucou Hana... pagaria. E quem ousasse se aproximar... descobriria que a posse de um Palezo não era leve. Era instinto. Era lei.
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