ENTRE A CERCA E O CORAÇÃO
2 A chegada
A caminhonete de Ana engasga. Ela bate no volante.
— Não. Não. Não faz isso comigo agora. — O motor morre. Silêncio. Ela fecha os olhos por alguns segundos. O banco tinha ligado naquela manhã. O fornecedor tinha ligado à tarde. E agora aquilo.
— Ótimo. Maravilhoso. — Ela desce. Abre o capô. Olha para o motor. Como se aquilo fosse resolver alguma coisa.
— Eu nem sei por que estou olhando. — Uma nuvem de poeira surge na estrada. Uma caminhonete preta. Ela coloca a mão na cintura. Desconfiada. O veículo para atrás dela. A porta abre. Botas tocam o chão. Ana observa. Boné. Óculos escuros. Camisa xadrez. O homem se aproxima.
— Problemas?
— Não. — Ele olha para o carro parado. Depois para ela.
— Então você costuma estacionar no meio da estrada? — Ana cruza os braços.
— E você costuma incomodar desconhecidos? — O canto da boca dele sobe.
— Só os mal-educados.
— Então está no lugar certo.
"Nossa, ela é brava." pensa zé
Ele tira os óculos. Ana reconhece imediatamente. O coração falha uma batida. Mas ela esconde.
— Ah...
— O quê?
— Nada.
— Você me conhece.
— O Brasil inteiro conhece.
— Isso é um sim.
— Não se ache tanto.
Pela primeira vez em dias, Zé ri de verdade. Não aquela risada ensaiada de entrevistas. Uma risada espontânea. Ele se aproxima do motor. Ana fica observando. Sem perceber. Observando demais.
— Posso olhar?
— Você entende disso?
— Meu avô me fazia consertar trator.
— Você?
— Surpresa?
— Bastante.
— Isso doeu.
Ele começa a verificar o motor. Ana observa as mãos dele. As mangas dobradas. A concentração. Nada parecido com o personagem que a internet mostrava.
"Pelo menos não parece tão idiota quanto eu imaginava." pensa Ana.
— Acho que encontrei.
— Sério?
— Mangueira.
— Só isso?
— Só isso. — Ana solta o ar. Nem percebe que estava prendendo a respiração.
Ele encontra uma abraçadeira improvisada na carroceria. Faz um reparo provisório. Fecha o capô. Liga o motor. A caminhonete pega de primeira. Ana sorri. Sem querer. Um sorriso verdadeiro. Pequeno. Rápido. Mas ele vê. E por algum motivo… Aquilo vale mais do que qualquer elogio que recebeu naquela semana.
— Obrigada. — Ela fala baixo. Como se a palavra doesse. Zé leva a mão ao peito.
— Espera.
— O quê?
— Você agradeceu.
— Não se acostume.
— Já estou me acostumando. — Ela revira os olhos. Mas dessa vez quase ri.
Os dois ficam alguns segundos em silêncio. O vento passa pelo campo. O som distante de um berrante ecoa. Pela primeira vez, nenhum deles parece com pressa. Então Ana entra na caminhonete.
— Tchau.
— Só isso?
— O que mais você queria?
— Sei lá. Um autógrafo. — Ela finalmente ri. De verdade.
Zé fica parado vendo ela ir embora. A poeira sobe atrás da caminhonete. Ele continua olhando mesmo depois dela desaparecer na curva.
"Qual é o problema dessa mulher?" pensa zé.
Mas o sorriso continua em seu rosto. Porque, pela primeira vez em muito tempo, alguém o tratou como uma pessoa comum. E ele gostou disso mais do que deveria.
*****
O sol já havia desaparecido quando Ana estacionou a caminhonete em frente à casa principal da Fazenda Castela. As luzes da varanda estavam acesas. Rosa apareceu na porta antes mesmo que ela desligasse o motor.
— Demorou. — Ana soltou um suspiro cansado.
— O carro quebrou.
— O quê?
— Relaxa. Já está resolvido. — Rosa caminhou até a janela.
— Quem ajudou? — Ana abriu a porta.
— Ninguém importante. — Rosa estreitou os olhos.
— Esse "ninguém importante" tem nome? — Ana pegou a bolsa.
— Tem.
— E qual é?
— Zé Felipe. — Rosa ficou imóvel.
— O cantor?
— Sim.
— O cantor famoso?
— Existe outro? — Rosa abriu um sorriso enorme.
— Você está brincando.
— Queria estar.
— E ele é bonito pessoalmente? — Ana começou a caminhar.
— Rosa...
— Estou só perguntando.
— E eu estou só ignorando. — Rosa correu atrás dela, divertida.
— Então ele é bonito. — Ana não respondeu. O silêncio foi suficiente.
— Ah, meu Deus, ele é bonito!
*****
Na cozinha, Seu Joaquim tomava café. As mãos enrugadas envolviam a caneca quente. Quando Ana entrou, ele abriu um sorriso sincero.
— A menina voltou. — Ana imediatamente relaxou. Havia algo naquele velho que sempre fazia a fazenda parecer casa. Ela o abraçou.
— Como o senhor está?
— Melhor agora. — Os olhos dele ficaram úmidos. Por um segundo. Só um segundo. Antes que escondesse.
— Seu pai ficaria feliz de ver você aqui. — Ana desviou o olhar. Aquela ainda era uma ferida aberta.
— Espero que sim. — Seu Joaquim percebeu. Não insistiu. Mudou de assunto.
— Amanhã vamos olhar os pastos.
— Certo.
— E as cercas.
— Certo.
— E os tratores.
— Certo.
— E os problemas. — Ana sorriu.
— Esses eu já conheço. — Mas por dentro sabia que estava mentindo. Nem metade dos problemas tinha aparecido ainda.
*****
Na mesma noite… Do outro lado da cidade. Uma caminhonete preta estacionou em frente a uma pousada simples. Nada de hotéis luxuosos. Nada de seguranças. Nada de fãs. Exatamente como Zé queria. Ele desceu observando o movimento da praça. Algumas pessoas conversavam em bancos. Crianças brincavam. Um cachorro dormia perto da igreja. Tudo parecia tão distante da vida que conhecia. A dona da pousada apareceu.
— Boa noite.
— Boa noite.
— Quarto reservado no nome Felipe?
— Isso. — Ela entregou a chave.
— Veio para a festa agropecuária?
— Não.
— Negócios?
— Também não.
— Então veio fazer o quê? — Zé ficou alguns segundos pensando. Era uma boa pergunta. O que exatamente ele estava fazendo ali?
— Ainda estou tentando descobrir.
*****
Mais tarde. Diego ligou. Pela terceira vez. Zé atendeu.
— O quê?
— Você desapareceu.
— Não desapareci.
— Você está numa cidade de quatro ruas.
— Cinco.
— Como sabe?
— Contei. — Diego respirou fundo.
— Precisamos conversar.
— Não.
— Sua carreira...
— Vai sobreviver.
— E se não sobreviver? — Zé olhou pela janela. A lua iluminava os campos ao longe.
— Então talvez ela não merecesse sobreviver. — O silêncio tomou conta da ligação. Nem Diego esperava aquela resposta.
*****
Enquanto isso… No escritório da cidade. Augusto Monteiro observava documentos. Uma foto da Fazenda Castela estava sobre a mesa. Seu advogado entrou.
— Ela voltou. — Augusto não demonstrou surpresa.
— Eu sabia que voltaria.
— Acha que consegue salvar aquilo? — Augusto deu um sorriso pequeno. Confiante. Perigoso.
— Não.
— Nem um pouco?
— O orgulho dela vai impedir. — Ele fechou a pasta.
— Pessoas desesperadas cometem erros.
— E se ela pedir ajuda?
— Não vai.
— Como sabe? — Augusto levantou.
— Porque ela é filha do pai dela.
*****
Na manhã seguinte… O galo cantou antes do amanhecer. Zé acordou assustado. Sentou na cama. Confuso. Outro canto. Mais alto.
— Que inferno é esse? — A porta do quarto foi atingida por uma batida.
— Café da manhã! — gritou a dona da pousada.
— São cinco da manhã!
— Exatamente! — Zé caiu novamente no travesseiro.
— Eu vou morrer aqui.
*****
Na Fazenda Castela. Ana já estava de pé. Botas. Calça jeans. Camisa xadrez. Prancheta nas mãos. O rosto sério. O olhar determinado. Ela observava os campos enquanto o sol nascia. Seu Joaquim se aproximou.
— Dormiu?
— Mais ou menos.
— Preocupada?
— Muito. — Ele assentiu. Como quem entendia perfeitamente. Porque entendia. Ana observou a imensidão da propriedade. Aquelas terras haviam sustentado gerações. Agora pareciam depender apenas dela. Seu coração apertou. Mas ela ergueu o queixo. Não recuaria. Nem um passo. Mesmo sem saber que, naquele exato momento, vários caminhos estavam começando a se cruzar. E que um deles a levaria novamente ao homem que conheceu na estrada.Muito antes do que imaginava.
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