Notas iniciais
Ás vezes eu me pergunto porque eu. Ás vezes eu me pergunto porque tantas coisas giraram ao redor desse acontecimento. Nunca percebi o quão importante alguns poucos fatores foram para me compor. Para eu ser quem eu sou hoje, como eu sou hoje.
Nunca acreditei que as pessoas eram feitas de memórias. Pra mim era carne, osso e alguns órgãos aqui e ali. Não que eu fosse uma pessoa fã de ciências, mas eu era muito menos de poesia.
Hoje em dia? Não é tão difícil de acreditar que cada pedacinho de mim só está lá, do jeito que está, porque pequenos e grandes acontecimentos moldaram eles. Ou talvez eu esteja ficando maluca. Tanto faz.
Eu sei que se não fosse um maluco psicopata, um restaurante infantil, um valentão e um grupo de amigos, eu nunca estaria onde estou agora. Com os olhos cobertos por mãos grandes e brancas, sendo carregada pelo dono delas enquanto escuto sua pulsação atrás de mim.
Era nessa situação em que eu me encontrava. Atrás de mim estava Claw. Ele era uma vítima mais recente do assassino em série que havia matado todos nós e nos enfiado dentro de robôs que faziam shows para crianças. Claw estava com suas mãos tapando o meu rosto, me impossibilitando de enxergar para onde ele estava me levando vagarosamente, enquanto caçoava de mim.
—É só seguir minha voz...
—Você está atrás de mim.
Pude sentir um sorriso malicioso em seu rosto. Ele me virou e ficamos cara a cara, porém meus olhos ainda estavam tapados. Ele se aproximou de mim, se abaixando para conseguir ficar na minha altura. Conseguia sentir sua respiração junta a minha.
—Abra os olhos. –Ele disse.
—Estão abertos. Caso não tenha percebido, estou tentando ver alguma coisa desde que você me cegou na cozinha.
Ele riu e tirou suas mãos de mim.
Pude vê-lo pela primeira vez depois de que fui avisada de certa ¨surpresa¨. Devo confessar que fiquei nervosa, mais ainda de imaginar que ele fazia parte daquilo. Não sei porque, mas olhar aquele rosto tenso e envergonhado como se escondesse algo, me deixou ainda mais ansiosa.
—Então? Cadê? – Falei, sorrindo desafiadora.
Ele sorriu de volta e fez sinal com o dedo para eu olhar para trás. E quando fiz isso, realmente não sabia se ficava feliz ou triste.
O que eu achava que seria um momento íntimo acabou reunindo não só os animatronics, quanto também os magos. Todos lá. Sorrindo, acenando. Mas, no meio deles, algo a mais me surpreendeu. As portas do restaurante estavam abertas. Em cima delas, uma faixa de feliz aniversário. Atrás da porta, no meio da rua, um táxi amarelo estava estacionado, e como piloto estava Bill. Uma mala estava em cima do teto.
No começo, fiquei meio confusa. Olhei para Claw, buscando uma solução, e quando percebi que ele estava com um sorriso caloroso no rosto, aguardando minha reação, fiquei um pouco corada. Mas quando expressei minha total confusão com uma careta muito estranha, ele me entregou um panfleto.
¨Programação da viagem de aniversário
Primeira parada – Orlando
Segunda parada – Gramado
Terceira parada – Tokyo
Informações sobre os pacotes de viagem no interior do planfeto¨
Eu nem olhei o interior do panfleto. Eu simplesmente pulei abracei Claw. Como ele era alto, fiquei suspensa do chão me segurando nos ombros dele. Ele parecia surpreso e um pouco corado, mas principalmente feliz.
—Eu não acredito! Mas pera? O que? Como? E... e... – Me soltei dos braços de Claw e balbuciei, tão rápido que foi impossível de compreender.
Antes que eu pudesse continuar a perguntar, ele levou o dedo aos meus lábios e me calou, o que me deixou um tanto... constrangida. Ele se abaixou um pouco para ficar cara a cara comigo, afinal, ele era meia cabeça mais alto que eu.
—Não se preocupe com nada. Você é a aniversariante. Eu sou o organizador. – Disse ele, tirando o dedo da minha frente e sorrindo, enquanto eu permanecia vermelha. Mas aos poucos, o rosto confuso foi se tornando um grande sorriso, além da vontade de fazer algo muito maior com aqueles lábios do calá-los...
—CHICLAW! – Gritaram as vozes atrás de mim, me fazendo lembrar que não estávamos sozinhos.
Olhei para trás envergonhada e Claw fez o mesmo. Todos riram e nós começamos a rir também.
Depois de algumas gargalhadas, Sofia me falou que eu devia arrumar minhas malas e eu falei que não tinha nada para arrumar. Ela acenou com a cabeça e entrou no táxi. Por um momento, estranhei.
—Como vamos caber todos dentro desse táxi? – Perguntei enquanto Claw me empurrava pra dentro com um sorriso bobo no rosto.
—Você nunca leu Harry Potter? – Disse Sofia, sarcástica.
Okay, devo confessar que estava bem surpresa. Por fora, o táxi era amarelo e pequeno, até mesmo um pouco velho. Mas por dentro era como um interior de uma limusine gigante. Sofás brancos de um lado e do outro uma quantidade de doces e refrigerantes que poderiam causar diabetes em qualquer ser vivo. Uma música tocava tão alta que eu não conseguia ouvir meus próprios pensamentos.
—JUST PUT UP A MIDDLE FINGER TO THE SKY
LET THEM KNOW WE’RE STILL ROCK ‘N ROLL! – Cantou Gritando Sofia, ainda mais alta e desafinada que a música.
Boquiaberta, me sentei no sofá. Os animatronics eram muitos e os magos também, e mesmo assim, cada um tinha espaço pra se deitar. A limusine era realmente enorme. Estava sentada perto da ponta, então pude ver Leitora batendo em uma janela pequena de vidro preto, que foi imediatamente aberta por Bill, que ainda estava dirigindo.
Sofia estava do meu lado, então puxei ela e falei no seu ouvido:
—Mas e nossas partes animais?
Ela não me respondeu porque estava chupando um pirulito, mas olhou para mim com um olhar como que diz para que eu me acalmasse, mas pude perceber algo por trás de seu olhar. O que ela estava planejando que os outros também não sabiam? Afinal, até que ponto os outros sabiam? Até que ponto poderíamos confiar nos magos?
Olhei para Sofia. Ela comia os doces e pulava com a música, assim como Bibi. Bill e Leitora conversavam alegremente pela janela aberta. Lira e Rifa jogavam baralho apostando doces. Juh Juh, FofaCeleste e Iris conversavam com todo mundo e incentivavam eles a dançarem com elas, como se precisassem. Todos pareciam animados e felizes, tanto magos quanto animatronics. E foi naquele momento que eu soube que podia confiar neles.
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