E se eu não lembrar?
9 A melhor garota
O ar gelado me fez ter calafrios, a biblioteca parecia ser a mesma de sempre e isso pareceu me dar mais medo ainda. Eu fechei a porta e coloquei uma cadeira na maçaneta.
–Isso deve me dar algum tempo. -Digo
Eu respiro profundamente enquanto o frio toma conta de mim e me pergunto como um lugar fechado poderia ser tão gelado.Eu passo os olhos por todo o lugar vendo somente estantes cobertas por lençóis e janelas tão empoeiradas que o sol quase não as penetrava.
Eu ando para frente cruzando os braços ao redor de meu corpo.
–Foi aqui. — Ouço um sussurro
Eu me viro assustada procurando a voz.
–Quem tá ai? — pergunto
Nada me responde e eu prendo meus pés no chão para não correr porta a fora.
–Eu nunca vou te perdoar. — Outro sussurro.
Meu coração acelera em um constante desespero.
–Raquel? — pergunto mesmo sabendo que posso estar louca
–Posso te contar um segredo?
Meu coração acelera novamente enquanto ouço a voz de minha irmã conversando comigo e pedindo para brincar com ela.
–Sim. — Respondo
Minha situação estava cada vez mais irônica, beirando a tragédia iminente eu estava mesma falando com alguém morto?
–Você ainda não aprendeu a jogar direito. — Sussurra a voz de Raquel
Eu me viro assustada procurando em todos o cantos por ela.
–Eu não sei do que você está falando Raquel! eu não lembro. — Digo desesperada
Uma risada morbida e sombria ecoa por todos os cantos da biblioteca me fazendo estremecer, algo me empurra pra frente fazendo eu bater um dos joelhos no chão e ficar ofegante.
–O que você quer? — Grito
Nenhuma resposta é ouvida por mim, as janelas se abrem sozinhas e um vento forte entra por elas e tudo parece estar mais escuro, o sol já se foi e no lugar dele nuvens negras e carregadas com uma chuva pesada mostram que um dia lindo de primavera se tornará um dia tenebroso de chuva.
–Você tem algo que eu quero. — Ouço
Eu me levanto olhando para os lados procurando a voz irreconhecivel por mim mas tudo o que acho é o vazio.
–Raquel é você? -
–Sua irmã já partiu desse mundo faz muito tempo.
Meu sangue parece gelar nas minhas veias quando finalmente reconheço a voz e junto dele um fleshback morbido de uma das piores noites da minha vida.
–Raquel o que está acontecendo? — Eu grito
O barulho das janelas quebrando me assusta e eu pulo na direção de Raquel a protegendo dos cacos de vidro, sinto quando alguns fazem pequenos machucados na minha pele, no entanto, nenhum caco de vidro chegou a toca-la.
–Por que você fez isso? — Pergunta ela se soltando de meus braços
Minhas mãos estão tremendo e eu posso sentir em todas as fibras de minha pele o terror que aquela escuridão me causa, Raquel sempre foi a irmã mais nova perfeita, sempre a melhor, a que parecia nunca ter medo de nada e quanto eu, a encrenqueira da familia, a lutadora, foi assim que sempre me vi mas agora tudo isso me deixava mais assustada que tudo.
–Você precisa entender que é a minha vez agora. — Diz Raquel
Uma gargalhada é ouvida e eu me encolho diante dos barulhos ameaçadores.
–Raquel vamos chamar a policia! -Digo
–Você está com o medalhão? — Ela pergunta
Eu balanço a cabeça afirmando.
–Dá pra mim. — Ela diz
Eu nego com a cabeça.
–Eu não posso. — Respondo
O rosto de Raquel se transforma em algo parecido a nojo.
–Quando eu traze-lo de volta, eu mesma vou te matar. — Ela diz
No entanto não identifico nenhum traço de humor em sua voz.
–Do que você está falando? — Pergunto dando alguns passos para trás
Eu abro os olhos e estou em um quarto completamente branco deitada em uma cama pouco confortável. Alguém toca meu braço levemente.
–Hey, você está bem?
Demoro alguns segundos para reconhecer o rosto preocupado de Dimitri que agora segura a minha mão, meu coração pula no meu peito quando digo as próximas palavras:
–Eu sou a próxima.
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