E se eu for o Próximo?
2 A Noite da Festa - Parte I
Notas iniciais
A ECP-RS (Escola de Cursos Profissionalizantes do Rio Grande do Sul) disponibiliza cursos técnicos na área de administração, agropecuária, enfermagem, gestão ambiental e radiologia. O campus fica situado no interior do estado, em uma área rural próxima a cidade de Caçapava do Sul, com um terreno extenso, que abrange vários hectares. Possui um prédio para cada um dos cursos, dois alojamentos dormitórios (feminino e masculino) e outros prédios que servem para a administração da escola. Os cursos variam de um a três anos e a cada ano, novas turmas ingressam nos cursos. Os valores se adaptam a cada modalidade e a ECP-RS também cede bolsas de estudos aos alunos que melhor se destacarem.
E foi graças a uma das bolsas de estudos que consegui ingressar no curso de radiologia e a oportunidade de morar no campus garantiu que eu pudesse sair cedo da casa de meus pais. Poucos são os gastos que tenho na escola e consigo cobri-los trabalhando como garçom aos finais de semana (sexta, sábado e domingo) conseguido lucrar até cem reais por noite, mais gorjetas.
Meu quarto no alojamento masculino é o B12, que divido com outros cinco rapazes Caio, veterano do curso de enfermagem, Lucas, veterano em agropecuária e Felipe, Breno e Tiago que são da minha turma. No quarto temos apenas três beliches e seis armários de metal, um para cada um de nós e nada mais. O B12 fica no segundo andar do prédio de três andares, no mesmo bloco existem outros cinco quartos, do mesmo tamanho que o meu, dois banheiros e uma sala de entretenimento.
As aulas são durante os turnos da manhã e da tarde, de segunda a sexta-feira, e nos finais de semana os alunos podem voltar para suas casas, mas caso decidam permanecer na escola devem garantir que a mesma permaneça em ordem, tendo de alimentar e supervisionar os animais da área de agropecuária. Evito ao máximo ficar na escola nos fins de semana, exceto se sou convocado por um dos supervisores, o que não me deixa escolha a não ser ficar. Também temos um toque de recolher as vinte e três horas, onde todos temos de estar em nossos quartos e caso desrespeitarmos essa regra recebemos uma advertência e depois de três dessas, somos expulsos. É proibido o porte e uso de drogas ilícitas e bebidas alcoólicas, assim como os de armas, tanto de fogo quanto brancas (como em qualquer escola comum).
Mesmo sendo uma escola rigorosa, sempre se consegue burlar as regras, é impossível estudar aqui e permanecer inabalável, em algum momento, qualquer pessoa acaba cedendo, seja por um maço de cigarros, ou por uma garrafa de destilado barata, as vezes até por preservativos e tudo tem um preço, quase sempre, alto.
...
Acendi um cigarro enquanto observava os outros garotos da minha turma jogarem futebol, no campo abandonado, com o gramado malcuidado, nos fundos do dormitório masculino. O sol estava se pondo e o clima estava começando a esfriar. Andei para perto de um ipê amarelo, no topo de um leve declive e me sentei lá, recostando minhas costas no tronco da árvore, de lá minha visão era privilegiada, conseguia observar cada um dos jogadores, inclusive Ferdinan, o rapaz por quem eu era apaixonado desde o início do ano letivo, mas o qual nunca poderei ter, pelo simples fato de que ele é um rapaz hétero. Suspiro ao ter um leve devaneio e logo dou outra tragada no cigarro. Essa era a minha rotina na maioria dos dias após as aulas, sentar sob o ipê, fumar, observar e esperar a janta.
O jogo termina e todos vão para o vestiário e se preparam para alguma festinha secreta a qual eu nunca sou convidado, por motivos que desconheço, então eles chamam as garotas, esperam os monitores irem para os seus aposentos, burlam o toque de recolher das vinte e três horas e fogem para uma construção abandonada, nos limites do território do campus. E lá eles bebem, se pegam e se divertem e eu fico de tocaia no dormitório, caso alguém apareça procurando por eles e então eu os avisos com uma mensagem de texto e a farra termina. Graças a mim eles nunca são pegos e como pagamento por minha ação de confiança, Matias, o gênio da turma, faz a maioria de meus trabalhos didáticos. Eu não me importo de não ser convidado, prefiro ficar conhecido como o rapaz confiável do que o cara que enche a cara e faz fiasco, não sei lidar muito bem com bebidas alcoólicas.
Mas, por alguma ação do destino, naquele dia foi diferente, enquanto os rapazes seguiam para o vestiário, ao longe Ferdinan me cumprimentou com um aceno, e eu respondi tão rapidamente que ficou evidente o meu total interesse, ele sorriu e eu senti como se o solo estivesse me engolindo, talvez eu quisesse realmente ser engolido. E Caio, meu melhor amigo e um dos veteranos do curso de enfermagem, veio em minha direção, ele sabia sobre minha paixão secreta, mas de nenhuma forma ele poderia me ajudar, na maioria das vezes ele era mal visto por ser amigo de um rapaz homossexual.
E aí, H? — era assim que ele me chamava, já que H era obviamente a inicial de Hector, meu primeiro nome — Me arruma um? — Caio apontou para o maço de cigarros ao meu lado.
— Claro, eu sinceramente quero contribuir para a sua morte — entreguei o maço e o isqueiro a ele — Não acho que é uma boa um enfermeiro renomado ser fumante, você deveria parar.
— Agradeço sua preocupação, mas ainda sou um estudante e você é hipócrita — ele sorriu antes de acender o cigarro.
— Bom, faça o que eu digo, não faça o que eu faço — rebati.
Caio sentou ao meu lado, ainda sem camisa e com o peitoral suado, tentei desviar o olhar, mas era tarde demais.
— Você gosta do que vê? — ele questionou enquanto passava a mão por seu abdômen trincado.
— Não vou negar, mas sei o que não gosto — balanço a mão em frente ao meu nariz — não gosto de seu cheiro! Você deveria ir tomar um banho!
— Quer vir comigo? — perguntou Caio, dando o seu sorriso mais sacana.
— Pare com isso, eu posso acabar aceitando — brinquei.
— Não convidarei de novo — nós rimos por um momento e então o silêncio reinou e Caio deitou ao meu lado, sem se importar com as gramas que pinicariam suas costas.
Ele coçou a cabeça e ficou com a mão parada ali, enquanto seus dedos estavam emaranhados em seus cabelos negros. Caio fechou os olhos e por um momento pensei que ele pegaria no sono.
— Olha, nós faremos outra festa hoje — começou ele, olhando diretamente em meus olhos, como se estivesse contando algo realmente importante — algo mais reservado, apenas para os alunos de enfermagem.
— E vocês querem que eu fique de tocaia de novo?
— Não exatamente, nós queremos que você vá. Eu sei que você não gosta de festas, mas o pessoal quer te conhecer melhor.
— Nós quem? Que pessoal? — questionei, não queria ficar em algum lugar que eu pudesse sofrer algum tipo de preconceito.
— Todo mundo, mas as garotas principalmente — Caio deu um soco em meu ombro e eu ri — Vamos, vai ser legal. E, além do mais, Ferdinan estará lá, essa é sua chance de consumar o seu amor.
— Não seja idiota, isso é perda de tempo. Mas vou pensar em seu caso.
— Pense com carinho — Caio levantou-se — vou tomar uma ducha — ele deu alguns passos e parou — olha, você poderia convidar a Fabiola? Talvez assim, eu possa consumar o meu amor.
— Ela não está afim de você!
— Meu querido, todas estão afim de mim e você também! — Caio deu uma piscadela.
— Sai daqui — falei, tentando ao máximo não o encarar.
Caio deu um aceno e se afastou e eu fiquei parado onde estava, peguei meu celular e liguei para minha melhor amiga, convidando-a para a tal festa e Fabiola aceitou, ela estava acostumada com essas ocasiões. Enquanto conversávamos ouvi o sinal que anunciava que a janta estava servida, desliguei o telefone e segui para o refeitório, sem muita pressa, não gosto do alvoroço na fila, prefiro ficar no final dela.
Esperando na fila observei as mesas, procurando pela mais afastada, que normalmente ficava vazia e era onde eu gostava de sentar e comer sozinho, sem ter que me importar com assuntos supérfluos e degustar o arroz com feijão e um pequeno bife de frango, que eram preparados com tanta maestria por funcionários que não se importavam com os alunos da instituição. Mas todos os dias eu me pegava fitando a mesa dos veteranos, era lá que eu realmente queria me sentar e desfrutar dos míseros quinze minutos de popularidade, porém, meu subconsciente sabia que eu não pertencia aquela mesa.
Nessa mesa, a primeira do refeitório, se sentavam os melhores alunos, os mais bonitos, ricos e inteligentes, de todos os cursos, podendo-se destacar: Valéria Orloff, caloura do curso de administração e filha do prefeito da cidade, uma jovem de personalidade forte, porém esnobe, que consegue tudo o que quer, sem muito esforço. As gêmeas Mônica e Monique Casagrande, veteranas do curso de enfermagem, ambas são extremamente inteligentes, se destacando em todas as provas, mas ninguém sabe se realmente conseguem por mérito próprio, ou se ainda continuam tendo casos com seus professores, boatos antigos as vezes permanecem bem vivos. E Ícaro Chechi, a personificação do mal em pessoa, possui tantas advertências que é quase certo que continua estudando graças as doações feitas por seus pais milionários. O restante dos alunos na mesa, Caio, Ferdinan e Matias, se tornaram populares por eventualidades da vida estudantil.
Servi meu prato e andei para a mesa vazia, passando por Fabiola, que estava sentada com algumas outras garotas, e sorri para ela. Fabiola não discutia sobre o fato de eu preferir ficar sozinho em minhas refeições, nenhum argumento que usasse me faria mudar de ideia. E, antes que eu pudesse me sentar, ouvi alguém chamar meu nome, olhei primeiramente para a mesa de Fabiola, mas ela estava rindo de alguma coisa qualquer, fui chamado novamente e meu olhar percorreu pelo refeitório, até chegar em Ícaro, de pé ao lado da mesa dos veteranos, acenando em minha direção.
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