Notas iniciais
Essa história se passa após os acontevimentos da primeira temporada e não levará em conta a segunda.

Depois do Armagedon-que-não-aconteceu, e de todo o esquema para despistar a perseguição do céu e do inferno, o demônio Crowley dormiu por cerca de sete dias. No que se tratava de seus cochilos, aquilo nem era muito digno de nota. Afinal, ele dormira pela maior parte do século XIX, e Preguiça era mesmo um de seus pecados capitais favoritos, se parasse para pensar. Ainda assim, foi uma soneca bastante revigorante, realmente agradável. Talvez porque dessa vez ele estivesse verdadeiramente bem cansado depois da agitação dos últimos dias. Últimos dias, inclusive, que quase tinham sido realmente os *últimos* dias, o que era uma coisa muito estressante, mesmo para um ser infernal.

Alguém poderia, com razão, apontar que Crowley tinha aproveitado o que comumente se refere como 'sono dos justos'. Essa mesma pessoa provavelmente sumiria no ar ao estalar de dedos do irritável demônio, caso essas palavras chegassem aos seus ouvidos.

Assim, Crowley acordou bem descansado e de relativo bom-humor (para um demônio) e só depois de algumas horas percebeu o problema. Ele já tinha passado algum tempo percorrendo distraidamente os canais da tv e regando suas plantas (que receberam um sermão particularmente inspirado naquela tarde), quando parou para pensar sobre o que fazer em seguida e notou que não fazia a menor ideia.

Durante sua longa existência, Crowley tinha se tornado muito bom em fazer o que lhe desse na telha. Para ser mais específico, ele era bom em fazer o que lhe dava na telha enquanto fingia para os seus superiores que estava fazendo o que eles tinham ordenado. Muitas vezes, inclusive, o que lhe dava na telha era justamente fazer o oposto do que lhe tinha sido ordenado.

Era quase uma arte, aquilo de encontrar o equilíbrio entre desviar suas tarefas o suficiente para atender suas vontades e ainda assim manter os chefões satisfeitos com sua atuação aqui na Terra. Só que agora já não havia mais chefões. Nenhum que estivesse vigiando, pelo menos. E Crowley se viu de repente sem saber como agir em seguida.

Ele bem sabia o que *queria* fazer, na verdade. Assim que acordara, tinha desejado ver Aziraphale novamente. Aquilo não era nem uma surpresa, tendo em vista que o anjo era uma constante em seus pensamentos há muitos séculos. Se fosse sincero consigo mesmo, conseguiria até mesmo entender *porque* desejava tanto vê-lo. Porém 'ser sincero consigo mesmo' era uma coisa que o demônio evitava com veemência quando se tratava de alguns assuntos.

Agora que era livre, por assim dizer, sem ter obrigações infernais a cumprir, podia agir por conta própria. Inclusive, podia ir visitar o anjo, argumentou consigo mesmo, andando de um lado para outro na sala, em passos inquietos. Ninguém se importaria. Bom, o *anjo*, se importaria, presumivelmente. Com sorte, se importaria no bom sentido.

Ao mesmo tempo, e aqui estava o xis da questão, Crowley não tinha *motivo* para ir ver o anjo. Nunca, ao longo dos 6000 anos de convivência, ele tinha procurado o anjo sem algum tipo motivo, ou, no mínimo, algum tipo de desculpa. Ainda que a desculpa, quando ele estava pouco inspirado, fosse uma 'coincidência'. 'Oh, que surpresa, você por aqui. Que mundo pequeno.'

Crowley começou a se sentir levemente ridículo, em meio àquelas divagações, embora nunca fosse admitir isso (entrava na gama de assuntos sobre os quais ele se recusava veementemente a ser sincero consigo mesmo). Fazia poucos dias desde que ele tinha estado com o anjo. E, afinal, já tinha acontecido de ficarem séculos inteiros sem se ver.

No início, quando mal se conheciam, Crowley nem notava muito o tempo que passava entre os encontros ocasionais com o anjo. Era agradável ver um rosto conhecido em meio aos mutáveis e efêmeros humanos, e, verdade seja dita, ele sempre sentira uma simpatia nada demoníaca em relação ao anjo, mas era o suficiente deixar que o acaso cuidasse de reuni-los.

Ao longo do tempo, sem parar muito para refletir sobre o assunto, Crowley tinha começado a lançar mão de uma ou duas artimanhas para fazer seus caminhos se cruzarem com mais frequência. Ainda assim, um punhado de décadas era perfeitamente aceitável e um tempo ínfimo na existência geral de um demônio.

'Essa última década me deixou mal acostumado.' — Concluiu, jogando-se no sofá numa pose artificialmente relaxada e esticando a mão para o celular. Certamente poderia se distrair, fazer valer seu tempo livre em coisas mais proveitosas. Ou, com sorte, em coisas *menos* proveitosas, o que seria melhor ainda.

Destilar ódio e desinformação pelas redes sociais sempre era uma atividade agradável e poderia ocupar sua mente. Ele até recebera uma condecoração pela nova onda de ideias terraplanistas que tinha ajudado a espalhar através da internet. Verdade seja dita, tudo tinha começado como uma brincadeira e ele nunca tinha pensado que alguém fosse *mesmo* levar aquilo a sério. A condecoração também incluía o movimento anti-vacinas, mas isso já não tinha sido trabalho dele. Ele tinha limites.

Havia sido, de fato, uma década incomum. Enquanto tinham trabalhado na missão de acompanhar o pequeno Warlock, os encontros com Aziraphale tinham sido bem mais frequentes que o costumeiro. Uma vez por mês, nos primeiros anos, e depois semanalmente a medida que o fatídico aniversário de 11 anos do menino se aproximava. Além dos encontros não oficiais na propriedade dos Dowlings.

Os últimos dias antes do (não) Armagedom, então, haviam sido particularmente agitados, e a figura do anjo tinha sido frequente ao seu lado. Era notável a quantidade de lembranças agradáveis que conseguira formar no meio daquele pandemônio, e a constante em todas elas era a presença de Aziraphale.

Antes que notasse, a tela do seu celular estava aberta nos contatos, e o nome de Aziraphale brilhava à sua frente. Quase mandou tudo pelos ares e apertou o botão para completar a ligação, mas na última hora desistiu, bloqueando o aparelho com um movimento brusco e levantando-se do sofá em um pulo.

Não era tanto que não soubesse que queria ver Aziraphale, mesmo sem um motivo específico. Há muitos séculos tinha passado da fase de negar que o anjo era importante para si, e tinha passado à fase de se recusara refletir sobre as razões para isso. A questão era se o anjo também queria vê-lo, sem motivo específico.

Mais do que uma visita informal, seus pensamentos vagaram para o futuro de uma forma geral, por todos os anos ou séculos pela frente, quando, afinal, estariam livres das amarras prévias dos seus empregos na Terra. Seus caminhos não estavam mais conectados por suas posições como emissários celestiais (ou infernais), inimigos ou relutantes aliados. Todos os protocolos e fachadas do relacionamento tinham se despedaçado quando tinham decidido 'se demitir' de seus cargos.

Se quisesse mesmo manter contato com Aziraphale, não teria desculpas além de sua própria vontade. E, afinal, o que será que o anjo queria?

O pensamento lhe trazia mais agitação do que gostaria de admitir. Tal estado de reflexão ansiosa não era muito natural a um demônio. O que precisava, decidiu em um impulso, era ficar terrivelmente bêbado. Com alguns passos largos, alcançou a porta, saindo à procura de um bar de seu agrado.

Lá, ele passaria as próximas duas semanas em um torpor inebriado.


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Cerca de vinte minutos depois, o celular de Crowley tocou, esquecido sobre a mesa de cabeceira. Após algum tempo sem resposta, a ligação foi abandonada, apenas para dar lugar ao telefone fixo, que tocou até cair na caixa postal.

"Ei! Oi! Crowley! Sou eu... ahn... Aziraphale..."

Poderia ser considerada uma brincadeira do destino que, após sete dias de silêncio, o anjo tivesse decidido entrar em contato logo após a saída de Crowley. Se alguém acreditasse em destino.

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Nos primeiros dias de volta à sua livraria recentemente des-incendiada, Aziraphale estava em estado de graça. Vagava entre as estantes, a pura felicidade percorrendo seu corpo enquanto passava os dedos pelas lombadas de seus amados livros.

Não tendo muita predisposição a dormir, empregou horas seguidas fazendo um inventário preciso de seu acervo. Confirmou, com imensa satisfação, que Adam tinha conservado tudo praticamente igual, cada valioso tomo em seu lugar de origem, os autógrafos e dedicatórias nas páginas iniciais dos devidos livros e até mesmo as margens puídas e manchas de desgaste onde era esperado.

Mal podia conter um gritinho excitado (nada muito angélico) cada vez que descobria um novo título adicionado à sua coleção pelo jovem anti-Cristo. Não se sentia particularmente empolgado por '101 coisas que um garoto pode fazer', mas fora ao delírio ao encontrar um box de luxo das principais obras de Júlio Verne, edições lindíssimas encadernados em couro, e uma primeira edição autografada de Huckleberry Finn. Fez uma nota mental para lembrar de enviar um cartão de agradecimento ao menino.

Gastou longas horas decidindo onde deveria colocar esses novos livros, tentando seguir os critérios de organização aos quais estava habituado. Ou, melhor dizendo, os critérios de desorganização. Há muito tempo o anjo havia percebido que uma ótima forma de afastar os possíveis clientes da sua loja era deixá-los confusos e frustrados com a absoluta falta de critério lógico no posicionamento de suas obras.

Os livros do mesmo autor eram obrigatoriamente espalhados por diferentes estantes, as prateleiras não seguiam ordem clara quanto a ano de edição ou, de forma alguma, alfabética! Quando possível, livros de idiomas diferentes encontravam-se lado a lado.

Era um trabalho detalhado conseguir encaixar os livros seguindo todos os critérios de exclusão firmemente estabelecidos pelo anjo. Assim, suas prateleiras contavam com combinações interessantes, como uma antologia de haiku em japonês ao lado de um livro sobre botânica, ou um tratado medieval sobre anatomia humana ao lado de uma edição antiquíssima de Frankeinstein (o que carregava certa lógica poética, se alguém prestasse atenção).

O longo e meticuloso inventário era feito com as portas da loja trancadas, obviamente. Não podia arriscar que algum cliente viesse tentando *comprar* um livro e estragasse seu humor.

Aziraphale encontrava-se em tal estado de satisfação que apenas lá pelo quinto dia começou a perceber a inquietude esgueirando-se para dentro da sua bolha de alegria. O relógio de pêndulo mostrava as horas se arrastando enquanto a tarde chegava a um fim e Aziraphale tamborilava nervosamente os dedos na capa do livro em seu colo. Soltou um suspiro exasperado. Onde o demônio tinha se enfiado, afinal?

Ele tinha esperado que, cedo ou tarde, Crowley aparecesse pela loja. O sinal de 'fechado' na porta com certeza não se dirigia a ele. E, de qualquer forma, uma porta trancada nunca era obstáculo para Crowley entrar onde bem entendesse.

É claro, Aziraphale argumentou consigo mesmo, não é como se ele tivesse *combinado* nada sobre aparecer na loja ou coisa assim. Mas, depois de tudo que tinham passado juntos para impedir o Armagedom, e agora que eles não tinham que esconder sua amizade das forças celestiais e infernais, o anjo tinha pensado...

'Anjo bobo.' Sussurrou para si mesmo.

Provavelmente Crowley estaria aproveitando sua liberdade. Ele, assim como Aziraphale, tinha aprendido a apreciar as coisas boas da existência terrena. O anjo não podia culpá-lo, os humanos eram muito engenhoso em tornar sua breve estadia neste mundo tão prazerosa quanto possível. Era notável como eles também conseguiam tornar a sua própria existência absolutamente insuportável às vezes, mas enfim...

Literatura, teatro, e, por Deus, a culinária! Só de pensar em todos os pratos delicioso inventados pelos humanos, Aziraphale já sentia que todo o esforço que tinha feito para deter o Armagedom tinha sido justificado. Embora, no fundo, seu apreço pelo mundo humano não tivesse sido sua única motivação (nem mesmo a principal, na verdade).

Ele só esperava que o demônio não se distraísse muito e demorasse um século para dar as caras de novo. Um arrepio de mal estar percorreu seu corpo, e ele resolveu fazer um chocolate quente para espantar o desânimo. Mais tarde, sentado em sua confortável poltrona, com a caneca fumegante nas mãos, ele concluiu que era melhor não incomodar Crowley. Ele abriu um pesado livro à sua frente, decidido a tirar o assunto da cabeça e com a férrea resolução de esperar pacientemente que o demônio aparecesse por conta própria.

Sua 'férrea resolução' durou menos de 48 horas.

Mas então, quando resolveu ligar para ele, a chamada acabou na secretária eletrônica.

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Quando Crowley voltou para seu apartamento, depois de duas semanas de intensa bebedeira, Aziraphale estava parado nervosamente à sua porta.


As pessoas que originalmente questionaram a existência de destino quando a primeira ligação do anjo aconteceu poucos minutos após Crowley ter saído de casa poderiam, agora, retomar a discussão sobre o assunto com aquelas que defendiam fortementemente a hipótese de coincidência. A discussão provavelmente começaria (pseudo)filosófica, tratando de livre-arbítrio e predestinação, para depois desviar-se para ofensas pessoais e falácias, como é de praxe nas discussões humanas.


Seria importante apontar, à critério de informação e para enriquecer o diálogo, que na verdade Aziraphale tinha estado em frente à porta de Crowley pelo menos sete vezes nos últimos dois dias. Mas, a essa altura, as pessoas já estariam se xingando nas redes sociais e a resolução da discussão já não teria nada a ver com a apuração da verdade.

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Quando os dias viraram semanas e os recados na secretária eletrônica de Crowley se acumularam sem resposta, Aziraphale começou a ficar preocupado. Passou pela sua cabeça a possibilidade aterradora de que o inferno poderia ter resolvido persegui-lo novamente e ele estivesse em apuros.


Infelizmente, o anjo tinha muito mais escrúpulos que Crowley quanto a invadir um apartamento, e acabou barrado à porta trancada. Ficou feliz ao constatar que não conseguia detectar nenhum sinal de presenças infernais na área, ao menos.


Bom, nada além dos sinais da presença recente do próprio Crowley, que, enfim, era infernal também. Mas ele não cheirava à putrefação ou chorume, como outros demônios que Aziraphale conhecera. Ele cheirava a mogno, couro, loção pós-barba (embora nunca precisasse se barbear) e, talvez, só um pouco de enxofre, bem de leve. O cheiro ficava um pouco mais forte após suas visitas ocasionais ao inferno. Seria pecado um anjo se sentir tão confortado por um leve cheiro de enxofre?


De qualquer forma, essa inspeção odorífica era o máximo de invasão a que o anjo se permitia ao apartamento trancado de Crowley e não era o suficiente para acalmá-lo totalmente. Ele acabava sempre voltando para sua porta , se perguntando nervosamente se deveria, afinal, entrar para procurar alguma pista do paradeiro do demônio


Até que um belo dia o próprio apareceu, saindo do elevador com uma garrafa de uísque em mãos.


"Aziraphaaale!" Ele levantou a bebida em uma saudação, bambeando para fora do elevador.


O rosto do anjo se iluminou ao ouvir sua voz. "Crowley! Você está..." – a palavra 'bem' morreu antes de chegar aos lábios de Aziraphale quando ele passou os olhos de cima a baixo por Crowley. –"bêbado! Você está completamente bêbado!"


"Oh, yeah." Ele passou em direção à porta fazendo um sinal de vitória com a mão para Aziraphale, serpenteando em um passo levemente mais lânguido que o habitual.


O anjo pensou que ele andava de forma ainda mais encantadoramente devassa quando estava bêbado do que sóbrio, e que aquilo deveria ser pecado. Depois pensou que talvez fosse mesmo, e que Crowley ficaria muito satisfeito em praticá-lo.


"Você está bem? Eu estava preocupado... eu te liguei, mas só caía na secretária, e..."


"Você me ligou, anjo?" Crowley abriu um sorriso satisfeito, recostando-se ao batente da porta, fazendo um esforço consciente para parecer despreocupadamente descolado (que era como em geral agia em frente à Aziraphale).


"Bem, sim!" Respondeu o anjo, um pouco afetado. "Eu estava preocupado! Cheguei a pensar que talvez o pessoal lá de baixo tivesse vindo atrás de você! Ainda não podemos ter certeza se eles nos deixaram realmente em paz!"


"Ah." Então era *por isso* que o anjo estava ali. Preocupação com possíveis represálias contra eles. Claro. Crowley virou-se para a porta, chave em mãos, repentinamente mal-humorado. "Relaxe, anjo. Ninguém vem atrás da gente. Estou perfret... perfeite...mente bem."


"Ah, estou vendo!" Aziraphale sentiu-se um pouco ofendido, contra sua própria vontade. Como tinha pensado, Crowley estava apenas aproveitando a vida. Nada a se preocupar. Tinha sido besteira ficar tão ansioso com o 'sumiço' do demônio. E tinha sido só algumas semanas, afinal de contas... "Você estava... ahn... só curtindo um pouco, hm?"


Crowley, que ainda não tinha conseguido acertar a mira da chave na fechadura devido à embriaguez, apenas virou-se para o anjo, fazendo um gesto com as mãos para si mesmo. "Obviamente."


"Bom, eu, hm..." Aziraphale apontou vagamente em direção ao elevador. "Vou deixar você curar sua bebedeira." Ele forçou um sorriso, apertando nervosamente uma mão na outra. "Ou beber mais! Sempre bom, também..."


Crowley tinha esperado que o anjo fosse entrar com ele no apartamento... talvez beber juntos, bater um papo... Sentiu seu mal-humor piorar e, agindo de acordo, permaneceu com um sorriso cuidadosamente desinteressado e levantou a mão em um leve aceno.


"Então... ok... " Aziraphale deu um último sorriso rápido enquanto saía.


O demônio pensou que Aziraphale agora poderia ficar em paz, satisfeito que nenhuma perseguição iminente dos seus superiores os ameaçava. O anjo pensou que Crowley poderia curtir satisfeito mais um pouco de álcool sozinho.


Nenhum dos dois estava lá muito satisfeito.

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O celular de Crowley, como via de regra, permanecia sempre com a bateria completa, independente de nunca ter sido carregado (Crowley não esperava menos de seus aparelhos eletrônicos). Ainda assim, após ser abandonado na mesa de centro da sala do demônio por duas semanas, sem sinal do seu dono, o cansado aparelho acabou entregando-se à indulgência de descarregar.


Crowley ficou muito descontente com esse lapso e deixou isso bem claro para o pobre celular, que logo tratou de voltar a funcionar diante do olhar zangado do demônio.


Sentado em seu sofá, tomando pequenos goles da garrafa de uísque, Crowley percorreu a tela com os dedos, surpreso. Vinte e sete chamadas não atendidas do anjo. Provavelmente outras chamadas não registradas desde que o celular tinha descarregado.


A irritação que sentira começou a dar lugar a um leve sentimento de culpa. Aziraphale tinha ficado *mesmo* bastante preocupado. Talvez ele devesse ter deixado um recado antes de sumir por algumas semanas.


Imaginou se o anjo teria tentado entrar em contato pelo telefone fixo e, em seu passo ébrio, foi até a secretária. Escutou, espantado, todas as mensagens. Depois, escutou de novo.


Por fim, refletiu que seria melhor avaliar a situação sem estar completamente bêbado e, com um pequeno milagre (e um gosto desagradável na boca), se livrou de todo o álcool no seu sangue. Depois, escutou as mensagens de Aziraphale mais algumas vezes.

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"Ei! Oi! Crowley! Sou eu... ahn... Aziraphale... Como andam as coisas depois do não-fim-do-mundo? Por aqui, tudo ótimo. Magnífico! Muito supimpa! Tudo... hm... nos trinques! Minha loja está novinha em folha! Não gosto nem de imaginar isso tudo em chamas! Ainda bem que não tive que ver nada daquilo... Enfim, todos os livros estão no lugar, além de umas adições inesperadas feitas por Adam. Quem diria que eu receberia conselhos literários do anti-Cristo? Agora sou o proprietário de uma vasta coleção de quadrinhos!" Ele riu, meio nervoso, e Crowley conseguia visualizar claramente o jeito afobado em que o anjo ficava às vezes. Tudo "supimpa", é claro. Ele sorriu com carinho, sem nem perceber.

"Enfim, enquanto verificava tudo por aqui, acabei achando uma preciosidade que nem lembrava que tinha! Uma garrafa de um carbenet sauvignon de Bordeax de 1890! Oh, querido, eu sei que você estava meio... 'fora do circuito' naquele século, mas que safra magnífica! Franceses são muito bons com vinhos! Quase tão bons quanto em cortar cabeças!" Ele riu novamente, mas depois o silêncio se prolongou por algum tempo, antes que ele continuasse. "Enfim, vou guardar essa garrafa para provarmos juntos. Quando você aparecer por aqui. Então... é isso! Até mais!" Clic.

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"... então ela se virou para mim e, eu juro, querido, ela era a cara da Joana! Você se lembra da Joana D'Arc, é claro... gente bonissima, ela, e tão engraçada! Uma pena toda aquela história com a fogueira... Enfim, eu levei um susto, porque, nossa, ela era *realmente* igualzinha, e eu acabei chamando ela de Joana! E, você não vai acreditar... o nome dela era mesmo Joana!" A risada do anjo encheu o apartamento de Crowley, e ele sentiu algo quente e agradável no seu peito, algo que só sentia quando estava com o anjo e, desconfiava, nenhum demônio deveria sentir.

"Que mundo curioso, não?!"

De fato.

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"Crowley..." Aziraphale parecia completamente devastado, e o demônio ficou genuinamente alarmado da primeira vez que ouviu a mensagem. Depois, só conseguiu rir. "Eu vendi um livro hoje! Oh, querido... um lindo livro, capa dura, magníficas letras douradas no título..."

Crowley conseguia imaginar perfeitamente o semblante desolado do anjo. Mais de uma vez tinha sugerido ao anjo simplesmente admitir que seus livros eram uma coleção, em vez de manter aquela dita 'loja', que, afinal, apenas muito raramente era palco de uma compra de verdade (e com grande resistência da parte do suposto vendedor). 'Bobagem', respondia o anjo, entrando em um discurso mecânico sobre sua missão celestial de espalhar conhecimento e alegria através da literatura.

O demônio imaginava que o 'pessoal lá de cima' não deveria aprovar o acúmulo de bens materiais, e usar o papel de dono de livraria para se misturar entre os humanos tinha sido uma saída bastante engenhosa para manter seus preciosos livros.

"Mas a moça ficou tão feliz ao encontrá-lo!" — Continuou a voz na secretária eletrônica. "Disse que seu falecido pai tinha um exemplar igualzinho quando ela era criança! E, oh, a pobre moça estava tão desanimada, com problemas conjugais e tudo. Passamos algumas horas conversando, pensei que um bom chá e alguns biscoitos poderiam distraí-la, mas, oh, querido... depois de tudo, ela ainda queria o livro!"

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"Horrível! Simplesmente horrível!" Aziraphale parecia verdadeiramente revoltado. "Como alguém pode abrir uma padaria com doces tão ruins! A panna cotta, a torta de chocolate, o red velvet... o tiramisu! Um absurdo!" Claro que o anjo tinha provado pelo menos uma dúzia de pratos antes de 'desistir' do estabelecimento. "Isso deveria ser crime. Deveria ser pecado. Isso é pecado? Imagino que você saberia me dizer..." O silêncio se estendeu por alguns segundos, e Crowley conseguiu ouvir um leve suspiro. "Sim... suponho que você saberia dizer..." E depois, com uma animação um pouco forçada: "Mas tem outro lugar que quero visitar. Muito promissor, lindos doces em exposição! Acho que eles tem crepes! Devo ir lá amanhã ou depois... acho que você iria gostar..."

Crowley gostaria que 'amanhã ou depois' não tivesse sido muitos dias atrás.

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"... não sei porque ainda estou ligando. Acho que você não vai ouvir estas mensagens..."


Um longo silêncio.


"Oh, querido..."


Suspiro.


Clic.

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*Silêncio*

*Silêncio*

*Um longo suspiro*

*Silêncio*

*Clic*

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"Crowley! Ei!" Agora o anjo parecia preocupado. "Escute, eu sei que não deve ser nada, e eu não deveria te perturbar, mas agora seu celular está dando desligado e... você não o perdeu por aí, não é? Enfim, eu só preciso saber se está tudo bem... Nenhuma notícia do pessoal lá de baixo? Por favor, mande notícias..."

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"Ok, Crowley, você não está em casa também... Por favor, *por favor*... só... só mande notícias, ok?"

Crowley passou a mão pelo rosto, aborrecido.

Levantou-se em um pulo, pegando as chaves do Bentley. Ele tinha um anjo para visitar.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.