E o jogo começa.
4 Uma descoberta inesperada.
Assim que chegamos ao NCIS no dia seguinte, contamos a todos a novidade, e Abby disse que levaria algumas horas para quebrar os sistemas e achar o nome dele, mas mesmo assim, todos estavam muito animados. Agora eu passava a maioria do tempo conversando com o Ducky, pois todos estavam ocupadíssimos e Abby, com quem eu sempre passava horas conversando, estava mais atolada de serviço do que qualquer um. Ducky me disse que fez um curso de psicologia, e falar com ele era quase como ser analisada. Eu também gostava de ficar lá, porque isso me mantinha longe do Gibbs, e evitava brigas.
– Gibbs sofreu muito na vida – disse Ducky, quando mencionei nossa discussão – ele é super protetor as vezes, mas é porque ele já perdeu muito.
– Mas o que eu tenho a ver com isso? – perguntei, com um pingo de raiva.
Ele virou de costas, e eu tive quase certeza que o ouvi dizer “você se parece com ela”, mas não comentei nada, tinha que ir logo para a casa com Kate, e já estava morrendo de fome. Então eu subi, e fomos embora. Quando chegamos lá, fomos as duas pra cama, estávamos totalmente exaustas. Eu estava dormindo tranquilamente, quando a Kate entrou correndo no meu quarto, e jogando uma blusa correndo numa bolsa pequena que ela estava carregando, e depois se atirou no chão, puxando o assoalho.
– Kate, o que houve? – perguntei meio sonolenta.
– Jessy, abaixa agora! – ela jogou a bolsa pra mim, e continuou puxando o assoalho.
– Kate! O que você está fazendo? – eu perguntei, agora realmente assustada.
– Ari. O nome dele é Ari – ela falou, e finalmente conseguiu cavar um buraco no meio do chão – Ele está aqui Jess, aqui fora, ele descobriu que você está aqui em casa, eu tenho que tirar você daqui.
Ela tirou uma caixinha de dentro do buraco, e de dentro da caixa tirou uma arma e pediu para que eu a seguisse, eu obedeci e ela falou tão baixo que só eu pude ouvir:
– Jessy, vamos tentar chegar até o carro, mas se algo acontecer comigo, quero que você pegue isso – ela apontou a arma pra mim – e use. Ok, não tenha medo.
– Kate, eu não sei atirar! – eu disse, ficando desesperada por um momento.
– Na hora, você aprende. Agora venha – ela disse, puxando minha mão.
Assim que chegamos ao lado de fora, ela me deu uma arma, eu a peguei com a ponta dos dedos e tirei a trava, e corremos para o carro. Chegando ao carro, ela nem bem fechou a porta e arrancou, e chegamos ao NCIS em alguns minutos. Chegando lá, assim que a porta do elevador abriu, Abby pulou em cima de nós duas, e quando nos desvencilhamos dela, Jenny pediu pra eu subir, e eu obviamente neguei. Então ela resolveu falar mesmo na minha frente, e pelo visto, de toda a NCIS, porque havia muito mais gente lá do que o normal:
– Pessoal, o nome deste terrorista é Ari Haswari, e ele é extremamente perigoso. Pertence ao Mossad, e o pai é o diretor da agência em Israel, ele é praticamente intocável. Então o que temos a fazer agora é nos proteger. Jessy – ela olhou pra mim – claro que não poderá voltar à casa da Kate, então ficará na minha casa. Kate, arrumaremos uma boa casa segura pra você, não recomendamos que volte lá. Ele provavelmente já foi embora, mas pode muito bem voltar. Só temos que descobrir como eles conseguiram se infiltrar aqui, então, sem relatórios. Nosso sistema não está seguro no momento, então, nada de por nada lá, combinado? Jéssica, comigo, por favor.
Eu me afastei da Kate com uma dor no coração, era estranho depois de tanto tempo ir pra casa sem ela, ou então só vê-la na manhã seguinte, era muito estranho. Enfim, chegamos à casa da Jenny e, antes de subir, ela estendeu o braço na minha direção e ficou me encarando, só então percebi que ainda estava segurando a arma. Ela estava travada, claro, mas mesmo assim era estranho me imaginar segurando aquilo, atirando em alguém, ou matando. Ela pegou a arma e a pôs na estante, do lado de uma foto de um homem fardado, que se parecia tanto com ela que eu poderia dizer que era seu pai, ou tio, ou algum parente próximo. Ela me levou até a sala, e disse que era melhor que dormíssemos ali juntas. Havia um segurança em cada canto da casa. Ficamos conversando por horas, e eu percebi que era ela muito diferente do que eu imaginava. No trabalho ela era gentil, mas quando precisava ela se torvava severa, e em casa ela era uma palhaça; fazia de tudo para me distrair. Por mais que ela tentasse, eu tinha uma imagem em minha cabeça; Enquanto eu estava ali dentro, ele estava lá fora, em algum lugar perto, esperando que alguém se descuidasse, para que pudesse enfim cumprir o que estava tentando. Me matar.
Eu passei uma semana na casa da Jenny, ela era um amor, mas estava realmente estranha. Parecia distante, preocupada, ou talvez só cansada. Gibbs estava diferente, um pouco menos zangado que o normal, ainda não falava comigo, mas de vez em quando eu o pegava olhando para min furtivamente, e ele rapidamente desviava. Kate, Tony e Mcgee pareciam exaustos, Mcgee um pouco mais, pois ele alternava entre o trabalho de agente e o trabalho de ajudar a Abby de vez em quando. E eu me sentia inútil por não poder ajudar em nada. Em um desses devaneios, Jenny disse para que, se eu quisesse, subisse até seu escritório para falar com a minha mãe. Eu estava realmente sentindo mais falta dela do que qualquer outra coisa, então aceitei. Assim que entrei, dei de cara com aquele envelope branco, que Palmer me entregara no dia da minha briga com Gibbs. Mas se ela havia me dito que era urgente, porque não tinha aberto até agora? Contrariada, fui até lá e li o remetente, e não era o nome dela. Então eu, ainda não sei bem porque, peguei o telefone e liguei para o Ducky, mas quem atendeu foi o Palmer:
– Autopsia.
– Oi Jimmy, escuta, eu tenho uma pergunta pra você – eu disse.
– Fala Jessy, o que foi?
– Acho que você entregou o exame errado para a Jenny.
– Por quê? – ele perguntou, parecendo confuso.
– Tem outro nome no envelope.
– Ah sim, é dela mesmo. Digo, não dela, e sim da irmã dela.
– Irmã? Não, ela não tem irmã, não tem família nenhuma. – eu disse, confusa.
– Bom, ela me disse que o sangue era da irmã, porque mentiria?
– Tem razão, é besteira, desculpe te incomodar, até mais – eu disse e desliguei.
Porque Jenny mentiria? Ela disse na casa da Kate que não tinha nenhum irmão ou irmã. Porque fazer um teste no nome de outra pessoa? Talvez, ela tivesse medo do resultado... Eu tinha o envelope em mãos, abrir ou não, eis a questão. Eu sabia que se eu abrisse, poderia descobrir que Jenny tinha sérios problemas, mas se não abrisse, eu ficaria com aquilo na cabeça. Resolvi abrir, e em cima do papel, estava escrito o nome da doença, um nome bem difícil, por sinal. Liguei para Abby, para que ela me ajudasse, talvez, a descobrir o que estava acontecendo de errado.
– Abby Sciuto.
– Abby, sou eu, Jess. – eu disse rapidamente.
– Oi Jess, tudo bem?
– Não muito, Abs, o que é Lúpus Eritematoso Sistêmico?
– Uau, é uma doença grave Jess. É uma doença crônica autoimune que pode afetar vários órgãos do corpo, e eles vão parando gradualmente até que a pessoa morre. – ela disse, parecendo curiosa – porque perguntou sobre isso?
– Não é nada — respondi com a voz embargada – quanto tempo normalmente à pessoa tem?
– Não muito, dependendo da idade, e do estagio da doença.
– Ok, obrigada – eu respondi com lagrimas nos olhos, porque no momento em que ela me disse aquilo, eu vi um grande POSITIVO, afirmando o que eu já temia.
Desci correndo do escritório, não parei pra falar com ninguém. Eu não sabia ao menos dizer o que estava sentindo. Entrei no elevador, e por sorte estava vazio, então eu chorei, e fiquei imaginando o que fazer, quando você sabe que perderá uma pessoa que você gosta, não é uma possibilidade, e sim uma certeza. Eu iria perdê-la, ela iria morrer em poucos meses, e eu estava ali, incapaz de fazer nada, como sempre. Quando a porta do elevador abriu, eu corri para fora, e acabei trombando com a ultima pessoa que gostaria de ver naquele momento; Gibbs. E vi que tinha derrubado seu café. Eu simplesmente murmurei um “desculpe” e sai andando, quando ele me impediu.
– Hey! Aonde você pensa que vai? – ele disse, me segurando pelo braço.
– Eu quero ficar sozinha, por favor! – eu disse, quase soluçando.
– O que houve? – ele disse, tirando a mão do meu braço e me encarando.
– Nada, não. Eu estou bem – disse, gaguejando – pode subir, eu vou em seguida.
– Tem um terrorista atrás de você, lembra? Não pode ficar sozinha.
– Posso sim, por favor, vá embora – eu pedi praticamente suplicante.
– Não, eu não... Veja, Jenny está vindo, acho que ela esta te procurando para ir embora, vou chama-la. – ele disse, virando as costas, e eu agarrei sua mão, agora chorando ainda mais.
– Não, por favor, não posso falar com ela agora – eu disse, e em seguida soltei suas mãos e cruzei os braços – por favor.
– Ok, entre no carro – ele disse, se afastando.
Eu entrei em seu carro e fiquei observando, ela estava com o casaco nos ombros, e eu não tinha percebido antes, como ela parecia magra e frágil, agora que eu sabia o que estava acontecendo. O motivo da preocupação. Assim que ele virou as costas para o carro, eu fingi que não estava olhando. Estava no banco de trás, então dobrei as pernas e controlei meu choro. Tentei pelo menos. Eu estava chorando silenciosamente quando ele entrou no carro e me olhou pelo retrovisor:
– Ela te desejou boa noite. Tem certeza que não quer me dizer o que houve?
– Eu não posso, não sei se posso. – eu disse, ficando em duvida se ela gostaria que alguém soubesse.
– Ok então, ela me perguntou se eu fui até o escritório dela – e virou para olhar pra mim, eu me encolhi.
– Podemos ir embora? Você deve estar muito cansado – eu disse, olhando para baixo.
Então ele não disse mais nada todo o trajeto, eu já estava me arrependendo de ter ido para a casa dele, afinal, eu poderia ir para a casa do Tony ou do Mcgee, e estaria tudo bem, mas não aguentaria olhar para a Jenny nem mais um minuto, depois de descobrir o que iria acontecer. Gibbs parou em um posto de gasolina, e outro carro estacionou do lado. Dois caras abriram a janela:
– Olá gracinha, como vai? – eles se apoiaram na janela, acho que para me ver melhor.
– Por favor. – eu disse, e quando fui fechar a minha janela, um deles pôs uma mão em cima, impedindo – a de subir.
– Olhe só Joey, ela quer se livrar da gente, que coisa. Porque você não sai deste carro pra gente conversar?
E antes que eu dissesse ou fizesse qualquer coisa, Gibbs deu ré no carro, de modo que ficou cara a cara com os dois.
– Porque vocês não dão o fora, antes que EU desça do carro, pra ter uma conversinha?
– Olhe só cara, o papai dela esta bravinho, porque não mostramos umas coisas pra ele? – ele disse isso, e fez a menção de abrir a porta do carro, quando Gibbs falou:
– Eu quero te mostrar uma coisinha – ele tirou a arma do coldre e mostrou parte dela pela janela – então, deixem a em paz, ou eu vou ter que pedir duas vezes?
– Ele é tira! – os dois gritaram ao mesmo tempo e arrancaram com o carro, e eu, por incrível que pareça, ri.
– Obrigada, de verdade – eu disse, e sorri.
– Não foi nada, já estamos quase em casa. – ele disse, sorrindo pela primeira vez, pra mim.
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