Notas iniciais
Mais um capítulo pronto. Retomando o subplot de Saril, a vulcaniana, e continuando a narrativa iniciada no Capítulo 1...

"A democracia imposta do exterior é a mais severa forma de tirania."

Lloyd Biggle Jr. — Trombetas da Revolução

Finda a pausa para meditação, Saril levantou-se e caminhou até o banheiro; despiu-se e tomou uma ducha sônica. A enorme tela de ponto quântico do videorama, que ocupava toda uma parede do banheiro, estava vazia; não havia recados gravados para serem exibidos em 3-V, mas afinal Saril não tinha sequer esperado por um. Não tão cedo.

Saindo do chuveiro sônico, ela vestiu um quimono curto de seda verde iridescente — seda pura denebiana, que Sabrath havia comprado para ela no planeta Anat e lhe dado de presente. Para os bêlitas e os dannan, povos das Plêiades de origem rewgarkiana, um presente dado a alguém representava 1/60 da força vital de quem presenteava. Não era computadorizado — um raro anacronismo nesta era de wearables ou computadores embutidos nas roupas -, apesar de ter sido feito sob medida para ela por um computador usando um processo antigo e artesanal conhecido como "impressão em 3-D". Saril se perguntava se a amiga bêlita conhecia o complexo simbolismo atribuído à cor verde — valentia, nobreza, honra, alegria, ousaria, paixão, perigo e vitória sangrenta — na cultura vulcaniana e em outras, aparentadas, como a romulana e a Bressin. Tinha a ver com o fato de o pigmento transportador de oxigênio no sangue dessas raças humanoides ser verde — clorocruorina -, à base de cobre, e com a reação à visão de sangue (algo análogo ao significado que se atribuía, na cultura humana, à cor vermelha, em virtude de o sangue humano ser vermelho).

A agradável voz sintetizada do computador anunciou: — Comandante Saril. Queira, por obséquio, apresentar-se à Capitão Smith a bordo do cruzador U.F.S. Simurgh NKK-7712.

— De quanto tempo disponho?

— Cerca de dez centiciclos, comandante.

— Serão suficientes.

Se dissesse "Obrigada", conforme o costume humano, o computador responderia automaticamente "Não há de quê, comandante". Sendo vulcaniana, Saril não via lógica em agradecer a uma máquina serviçal que tão somente desempenhara a sua função, para a qual havia sido programada.

Se lhe fosse permitido, por sua raça e educação, sentir-se aliviada, então Saril, filha de Shahhak, do clã Kam, teria admitido para si própria que estava não só extremamente aliviada, mas também satisfeita diante da perspectiva de deixar o planeta e o Sistema. A civilização dos humanoides de pele cinza-azulada e físico opulento que evoluíra em todos os Sistemas Hogla, conquanto autodisciplinada a ponto de merecer a admiração de uma vulcaniana como Saril, era igualmente autocentrada, brutal e terrivelmente repressiva, isolada atrás dos muros de uma pseudomodéstia formalizada, ritualizada, em que uma linguagem impessoal, toda cheia de meandros impunha uma rígida obliteração do ego, do "eu", e desaprovava o uso da 1ª pessoa do singular, substituída por circunlóquios e eufemismos do tipo u mom-u ("este aqui"), ainn-û ("este ser"), marminn-u ("este corpo"), geeda sal ("uma pessoa") ou mëgwë ("alguém"). Uma cultura antiquíssima em que os segredos eram os bens pessoais mais caros de cada homem ou mulher, e as cores de suas roupas, seus ornamentos e outros simbolismos, uma forma sutil de comunicação social. Cada mente, cada alma era um castelo fechado. A consequência lógica é que, numa tal sociedade, a telepatia era vista como uma maldição, e telepatas como Saril e Sabrath eram estigmatizados como abominações que sequer deveriam ter permissão para entrar nas cidades hoglaneshes. A palavra hoglaneshe para "leitor de mentes", ou telepata, significava também "invasor de mentes", "invasor que invade as mentes".

Quase uma espécie de estuprador.

"De qualquer modo", ponderou Saril, "não me cabe julgar uma cultura alienígena, mesmo que aliada da Federação."

Ela caminhou até um dos quartos. Então despiu o quimono e contemplou com um olhar crítico a imagem refletida com precisão tridimensional, meio metro à frente, pelo espelho de radiações de corpo inteiro que se formara na porta do armário embutido na parede. Uma mulher vulcaniana extremamente jovem, na faixa etária dos trinta anos, o que em sua raça correspondia a cerca de dezessete em razão do período de vida de mais de 350 anos terranos, ou 400 stanrevs. Uma adolescente que só há nove stanrevs atingira sua maturidade sexual. Ela, entretanto, tinha consciência de quão atraente era mesmo pelos limitados padrões solarianos, com suas curvas generosas bem distribuídas por um corpo escultural de 1,80m — as pernas longas, bem proporcionadas, as coxas roliças (ladeando o púbis ornado de pelos sedosos acastanhados à volta da estreita fenda vaginal), as nádegas firmes e arredondadas, os seios amplos, cheios e empinados, com auréolas esverdeadas e mamilos pontudos. Sua pele possuía pigmentação clara, tal qual a de Sabrath, mas onde a da pleiadiana era rosada, a de Saril tinha tonalidade levemente esverdeada. Seus cabelos castanho-claros lisos caíam sobre os ombros e chegavam até o meio das costas, emoldurando como um véu de monja o rosto de feições caucásico-mongoloides, com os grandes olhos cinzentos amendoados de sobrancelhas enviesadas e as orelhas pontiagudas, típicas dos vulcanianos e de outras raças do grande grupo racial Shaygorean.

Ninguém poderia supor que se tratava de um ciborgue — um híbrido ultra-tech entre ser vivente e máquina, reconstruído bionicamente — , por baixo das camadas de tecido vivo. Uma mulher biônica, melhor e mais forte do que suas congêneres "naturais" inalteradas. E não era a única: no século VI d.V. os ciborgues abrangiam uma limitada minoria de 8% da população total dos mundos federados. Alguns eram metade orgânicos, uns mais, outros menos; alguns usavam sensipele, tecido sintético indistinguível da carne e da pele humanoides, ou até mesmo uma armadura quitinosa, escamas, penas ou peliça, devido à variedade de raças de milhares de mundos. Alguns ainda exibiam o metal cromado ou plastificado e escondiam a carne viva. Eram criaturas exóticas entre os coirmãos de suas respectivas raças, mas o I.D.I.C. — o pensamento galáctico — repudiava qualquer tipo de discriminação. A mais, "o espírito suplanta a forma", rezava o velhíssimo aforismo pleiadiano.

A jovem Saril ainda era de carne e osso em sua maior parte, só que mais difícil de ser morta. Ela atingira a "ciborguização" aos 28 anos (terranos) de idade, quando ainda era oficial tático a bordo da U.F.S. Albireo, antes de ser promovida a primeiro-oficial na U.F.S. Crux. A cirurgia ultra-avançada substituíra seu coração, pulmões, rins e outros órgãos vitais por partes biônicas multifuncionais ou redundantes; os ossos foram fortalecidos com plasteel laminado; sistemas internos de biorreparação incluíam esquadrões de nanossondas autorreplicáveis e redes neurais protegidas com microligações de fibra óptica; e implantes de neurotecnologia molecular permitiam contato mental instantâneo com sistemas computadorizados maiores. Para Saril, foi uma decisão lógica, tomada logicamente. Afinal, nada podia ser mais eficaz em missões arriscadas, a serviço da Inteligência da Frota, do que um operativo ciborgue quase indestrutível. Sem suas partes biônicas, teria perecido já em Bóreas, o planeta gelado da Trífide de Sagitário. Ou em Gilgamesh. Ou em Muran.

— Computador, uniforme padrão 1 — informou ela mirando-se no espelho eletrônico. — Patente de serviço: comandante.

Sua imagem em esplêndida nudez foi substituída por outra vestida impecavelmente com o uniforme padrão da Frota Estelar: botas e calças negras e uma jaqueta vermelho-carmim com o broche redondo da Frota no lado esquerdo do peito, sobre uma blusa de gola rolê branca, e três pequenos discos dourados designativos de seu posto de oficial comandante. O cabelo castanho lustroso estava preso num coque, deixando à mostra as orelhas afiadas.

— Executar.

O espelho eletrônico desapareceu e uma gaveta metálica abriu-se sem ruído na porta luzidia do armário. Dentro, cuidadosamente dobrado, estava um uniforme padrão 1 completo (composto de bilhões de nanocircuitos integrados moleculares), com as botas flexíveis embaladas separadamente no interior de um saco plástico translúcido. Tudo sintetizado pelo subsistema de conversão de matéria, servindo-se dos suprimentos de matéria-prima da base estelar. Saril removeu o conteúdo e guardou o quimono de seda verde dentro do compartimento.

— Armazenar, sem reciclar — ela ordenou. (O presente de Sabrath não seria reconvertido em átomos.)

A gaveta fechou-se, automática e em silêncio, e a porta do armário retomou sua aparência corriqueira.

Saril vestiu-se com a rapidez ditada pelo hábito e reflexos condicionados. Faltava executar a missão secreta do dia.

Simples conferência de rotina. Recebera do Serviço de Inteligência a incumbência de monitorar a situação reinante naquele mundo e recolher para o Departamento da Frota Estelar todas as informações de interesse da defesa e contra-espionagem. E por uma razão muito boa: vez por outra, em cada uma das bases que a F.E.U. mantinha nos Sistemas Hogla II, IX e XIII, robôs de trabalho das séries mais avançadas enlouqueciam e a instalação praticamente entrava em colapso. Suspeitava-se que sedops desconhecidos — ou mesmo, grupos terroristas hoglaneshes, inimigos declarados dos "ímpios e despudorados" alienígenas que se referiam a si próprios na 1ª pessoa e empregavam telepatas — estavam adulterando remotamente a programação dos robôs, apesar de que os melhores especialistas em robótica dos Sistemas Hogla não conseguissem entender como isso poderia ser feito sem ser detectado. Puderam ignotos terroristas siderais criar um novo tipo de "infecção" biotrônica ou nanobótica, capaz de atacar redes neurais positrônicas? Ainda por cima, sem despertar a atenção de todos os trilhões de nanobombas autorreplicantes que, sob a forma de "poeira inteligente" digital, pairavam no ar, formando um sistema de defesa praticamente inexpugnável a fim de destruir microsseres, reprojetados ou não, causadores de doenças, inclusive vetores nanotec de "doenças robóticas"?

Saril discordava. Seus colaboradores psiônicos, que formavam um destacamento de elite de telepatas — parte dele eram erthusinos, capazes de rastrear atividade cerebral e psíquica num raio de centenas de milhares de quilômetros — , voltaram sem terem conseguido localizar esses supostos sabotadores. A menos que os terroristas fossem, eles próprios, sintenórios e robotch: robôs ou androides "renegados", cujos pensamentos não podiam ser escaneados por telepatas porquanto seus processos mentais desenvolviam-se numa faixa de frequência completamente diversa dos dos seres sencientes orgânicos.

Por intermédio de seu implante de interface neural, ela conectou-se à I.A. gerenciadora das redes de comunicação cujos tentáculos imateriais de feixes de dados quânticos percorriam não só todo o planeta Lahthi, mas chegavam aos satélites em órbita, e, por intermédio das subespaciais ondas sness, às colônias espaciais, unindo o Sistema Hogla IX numa teia telemática invisível e quase sempre imperceptível para os não-plugados. A mente de Saril passeava pelos corredores virtuais do ciberespaço, enquanto o corpo permanecia nos aposentos da jovem vulcaniana, sem sair do seu lugar. Seus pensamentos percorriam os circuitos de luz dos computadores quânticos hoglanianos, onde os dados moviam-se a milhões de MIPS, dados que seriam interpretados por Saril e armazenados na memória molecular de estado sólido do micrompo que trazia no cérebro.

Seus olhos cinzentos, de formato oblíquo, sequer piscaram. Tudo isso aconteceu num estonteante boom de velocidade, compreendendo uma mera fração de microciclo. Para um ciborgue como Saril, uma verdadeira tecnauta sênior, era até prosaico valer-se de seus implantes biopositrônicos para acessar todos os sistemas locais de armazenagem de dados, interceptar as radiocomunicações e mover-se pelas cadeias computadorizadas de um planeta qualquer (Se os hoglaneshes odiavam telepatas e congêneres, sua opinião acerca de hackers era ainda mais desfavorável...).

Apesar disso, o resultado da varredura deu negativo. No Sistema Hogla IX não havia ciberterroristas, nem sedops hostis pertencentes a raças estranhas.

Repetiu a operação. Desta vez utilizou alguns códigos de acesso que adquirira dos contatos para, conectada à TRT do continente Shkumbrich, e a todos os sistemas de comunicação e de computador cobertos por seu código de área, cruzar os respectivos N.A.S. com o Nível de Segurança Azul-4 (um dos mais seguros da Matriz hoglaneshe), driblando as contramedidas de intrusão do tipo G.E.L.O. e, afinal, acessar o computador pessoal de um alto oficial planetário para obter a evidência incriminadora há tanto buscada. Seu programa de persona — seu alter ego virtual — incursionou em algumas seções sinistras, decrépitas e particularmente mal-afamadas da Matriz planetária, indistinguíveis do mundo real, onde alienígenas "desnudadores de almas" não eram bem-vindos. Derrotou G.E.L.O.s assassinos capazes de adquirirem múltiplas e terrificantes formas — um tórrido vento em torvelinho, que misturava e dispersava todos os dados; uma massa gelatinosa repugnante que ergueu-se, formando um demônio-serpente gigante quadricéfala, amarela e negra, que devorava centenas de dados de uma só vez com as quatro bocas escancaradas; um guerreiro korrdî de olhos-laser chamejantes, revestido de aço-cromo e armado de um par de facas energéticas, que tentou esquartejá-la; e um medonho poço de chamas que abriu-se traiçoeiramente, tal qual a boca do imaginário Inferno cristão, e que, por um triz, não sugou-a para as profundezas da perdição e do horror absoluto — , e finalmente invadiu a CPU que supostamente continha aquele fragmento de dados que incriminaria o sukkal do governo na mira dos serviços de Inteligência hoglaneshes. Em apenas dois microciclos!

(Naturalmente, ela sabia que "hackear" bancos de dados era considerado um crime hediondo — punido com lobotomia, ou morte por decapitação e exposição pública da cabeça do executado — perante as leis de ferro que agrilhoavam e empederniam a sociedade hoglaneshe desde que um avatar de Ul Chugun, para acabar com as intrigas e invejas, viera a esta dimensão para ensinar a doutrina do segredo àqueles humanoides de pele azul-acinzentada e sangue azul baseado em césio. Todavia, na condição de base da F.E.U., a Estação Terminus gozava de privilégios extraterritoriais; para o governo planetário, que solicitara o auxílio dos federais, era simplesmente uma questão de olhar em outra direção.)

Mais uma vez, a operação de devassa no sistema não produziu o menor resultado. A informação, se é que existia, não estava lá. Ou, quiçá nem existia. Paciência. Telespias-psi também podiam cometer erros.

Já desconectada, Saril tocou o broche-comunicador no lado esquerdo do peito de sua jaqueta. Ouviu-se um bip e ela disse: — U.F.S. Simurgh, aqui é a Comandante Saril na Estação Terminus. Estou pronta. Iniciar processo de teletransporte.

E a resposta foi transmitida diretamente para o ouvido interno através de uma conexão neuroelétrica A.I.A.; uma voz feminina respondeu: — Simurgh para Saril. Acionando teletransporte!

O ar ao redor de Saril começou a tremeluzir subitamente, e cintilou num turbilhão de luzes coloridas. Ela observou, impassível, o efeito do processo de teletransporte envolver seu corpo, e então a luminescência cobriu-a completamente — e ela se foi.

Quando o raio de teletransporte quântico desapareceu, o apartamento estava vazio. Era como se nunca tivesse existido uma Comandante Saril de Vulcano.

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Escuridão... nas bordas do Universo. A quintessência do horror.

Uma monstruosidade tenebrosa de mil braços enormes, imensamente compridos e curvos, de asas membranosas esvoaçantes, obliterando as pálidas estrelas e douradas nebulosas, parecendo engolfar com seu negrume os grandes aglomerados galácticos.

Os asquerosos tentáculos da Sombra Negra, distendidos por incomensuráveis abismos de megaparsecs, já roçavam a própria fímbria da Galáxia. Suas asas de morcego desmedidas e imateriais abarcavam inteiras constelações.

Uma terrífica entidade de energia negativa gerada a partir das locas dos Primordiais, uma coisa negra e monstruosa destinada a extinguir de uma vez para sempre a Luz Astral e, juntamente com ela, toda a vida biológica, do nosso Universo.

Trazendo de volta os antivivos, tal como fora no início. Antes que a vida inteligente biológica tomasse conta da Via Láctea, antes dos seres biológicos "produtores de metaplasma" que indiretamente barravam o caminho de evolução rumo ao despertar da Suprema Inteligência Universal.