E Se Fosse Verdade? 3 - A Batalha do Labirinto
20 Um psicopata nos ataca
Eu o segui de longe, querendo saber o que ele pretendia fazer ali.
Percy seguia andando lentamente olhando para as arvores, as folhas pelo o chão e etc. Parecia não perceber que estava adentrando mais e mais para o fundo do Campo-santo. Será que ele queria ver o cemitério? Tentei não fazer muito barulho enquanto o seguia. Pisava sobre as folhas secas no chão levemente.
Finalmente ele havia chegado ao pequeno córrego onde eu enfrentara a mulher-cobra. Relembrar aquilo me deu arrepios. Eu estava voltando ao lugar onde por pouco não havia morrido. Será que era seguro?
Percy pulou sobre o córrego, aterrissando do outro lado, e só então notou o cemitério do lado direito, os vários túmulos marcados por cruzes de madeiras em cima. No entanto, em vez de andar até lá, ele ficou parado, olhando para algo que não pude ver.
— Hã... olá? — disse ele.
Ouvi o som de alguém sendo pego de surpresa. Alguém que também estava no cemitério.
— Hã... oi. — disse a voz, e pude notar que estava um pouco assustada. — Desculpa, eu só estava vendo o cemitério. Não fiz nada demais.
Percy franziu a testa e deu um sorriso torto.
— Okay. — ele pigarreou. — Sou Percy. Sou um dos novos calouros que vieram pela Caixa.
— Ah. — uma pausa. — Meu nome é Thomas. Também sou um dos novatos por aqui.
Percy avançou para frente, entrando no cemitério.
— E o que veio fazer aqui? — perguntou Thomas.
— Nada. Apenas estava cansado de ficar recebendo olhares estranhos dos outros garotos, como se eu fosse um dos Verdugos do Labirinto.
Eu andei para o lado, tentando obter uma melhor visão dos dois conversando.
— Espera. — disse Thomas, olhando para Percy. — Você é o cara que entrou no Labirinto junto com outros dois?
Alguns segundos de silêncio.
— Sim. — afirmou Percy, em um sussurro. — E foi a pior coisa que já fiz.
— Conseguiram sobreviver uma noite lá? — indagou Thomas impressionado. — Chuck me disse que ninguém sobrevive uma noite fora da Clareira.
Ele já conhece o Chuck? Me perguntei.
— É, bem... a gente quase que não ia mesmo sobrevivendo. Mas no final deu tudo certo.
Eu estava vendo e ouvindo a conversa de longe, mas para o meu azar, me assustei com um besouro mecânico que subiu em meu sapato. Seus olhos vermelhos brilhantes, como mini faróis, brilharam bem nos meus olhos, o que me deixou incapaz de enxergar por alguns segundos.
— aaaahhh! — agitei a perna onde o besouro estava, fazendo-o cair, depois recuei.
Percy e Thomas olharam para mim.
— Hã... olá. — acenei, timidamente. — Como estão?
— O que está fazendo aqui? — perguntou Percy.
— Eu? Nada. — menti. — Só estava passeando, vendo as arvores e tal...
— Estava espionando a nossa conversa?
Olhei para ele, pasmado.
— Cara, o que é isso? Você acha que eu seria capaz de uma coisa dessas? — e acrescentei num murmúrio baixo. — Talvez um pouco. Mas... — elevei a voz. — Isso não importa.
Andei até eles, e quando vi o cemitério, tive uma sensação ruim. O ambiente ao nosso redor estava úmido e com pouca claridade. Estava com um pressentimento ruim sobre algo.
— Esse lugar me dá arrepios. — murmurei.
— Deve ser por que é um cemitério. — disse Thomas. — Ah, a propósito... — ele esticou a mão. — meu nome é Thomas.
— Raphael. — apertei a sua mão. Viu só? Eu disse que mais cedo ou mais tarde iria acabar conhecendo ele. — Então, o que estava fazendo aqui?
— Nada demais. — disse ele. — Na verdade, vim só ver uma coisa. Chuck me contou que há algum tempo atrás, um garoto tentou descer pelo fosso da Caixa em uma corda.
— É, ele me contou também. — disse eu.
— Ele disse que quando o garoto estava a três metros abaixo, uma coisa passou voando e partiu-o no meio.
— Uou! — disse Percy. — Isso é sério?
Fiz que sim.
Andei por entre os túmulos (com um pouco de receio de que uma mão saísse de dentro da terra e agarrasse meu calcanhar) até achar a sepultura que eu vira antes do corpo cortado ao meio. Estava coberta com uma folha de plástico escura ou um vidro sombrio, com as bordas sujas de lodo.
— Ele está aqui. — murmurei.
Percy e Thomas se aproximaram, olhando receosos para os outros túmulos.
— Tanta gente morta. — sussurrou Thomas.
— Como você sabia disso? — perguntou Percy para mim. Só agora havia notado que ele não estava mais usando aquela camisa laranja do “Acampamento Meio-Sangue”, o que, aliás, era outro assunto que tinha de resolver.
— Eu já tinha vindo aqui antes. Se quiserem olhar, é melhor estarem preparados.
Percy se ajoelhou diante da sepultura e aproximou o rosto, a mão em concha sobre os olhos. Quando conseguiu ver, recuou.
— Meus deuses! — ele me olhou, atônito.
Thomas olhou para Percy, achando estranho o que ele havia dito, mas curvou-se no chão também e olhou para dentro do vidro escuro, depois levantou-se abruptamente.
— Isso é horrível e nojento ao mesmo tempo. — ele apontou para a sepultura. — Há algo escrito na base.
Franzi a testa.
— O quê?
Ajoelhei-me, e vi que ele tinha razão. Havia palavras escritas ali, mas quando tentei ler, não consegui. De novo, as letras começavam a flutuar, como se estivessem andando na Lua.
Balancei a cabeça, totalmente confuso.
— O que está acontecendo comigo? — sussurrei para mim mesmo.
— E aí? Conseguiu ler? — perguntou Percy.
Levantei-me, me sentindo frustrado.
— Não.
— Deixa comigo. — Thomas ajoelhou-se e fitou a base do vidro por algum tempo. Depois levantou-se.
— E então? — exigi.
— Estava escrito:
"Que esse meio-trolho sirva de advertência a todos: Não se pode escapar pelo o fosso da Caixa. "
Nesse momento, um graveto se partiu, bem ao nosso lado, atrás das arvores.
Nós três nos levantamos de uma vez, em estado de alerta.
Meu coração começou a acelerar. Lembrei-me de quando eu estava aqui sozinho, e gravetos começaram a se quebrar, logo após dando início a uma luta contra uma mulher-cobra.
— Quem está aí? — perguntou Percy.
Um minuto de silêncio. A pouca claridade que antes havia, agora parecia se esvair aos poucos, deixando o ambiente escuro e sombrio.
— Isso não está me cheirando bem. — murmurou Thomas, olhando para as arvores ao longe.
— Deve ser o fedor dos mortos em decomposição. — disse eu, os olhos varrendo a floresta inteira.
— Vamos sair daqui. — falou Percy.
Quando começamos a andar, outro estalido foi ouvido, e outro, e mais outro. Aproximava-se a cada instante. Meus pelos se arrepiaram. Meu estômago gelou. Será que outra mulher-cobra iria sair das sombras e nos atacar?
— Não adianta tentar nos assustar. — Percy elevou a voz. Provavelmente achava que se tratava de algum Clareano. — Chega de gracinhas por hoje. Sabemos que...
Um vulto saiu de detrás das arvores a nossa frente e começou a correr ao redor do cemitério, nos cercando.
Thomas recuou, os olhos arregalados. Percy destampou sua caneta rapidamente e ficou em guarda. E eu... fiquei paralisado, olhando para o vulto negro que corria ao redor do cemitério e que se aproximava a cada segundo. Quando o nosso visitante estava a poucos metros, pude visualizar a forma de um garoto esquelético que mancava enquanto corria.
Um pequeno alívio me encheu. Não era nenhum monstro afinal. Nenhuma mulher-cobra. Apenas um garoto.
No entanto, o pequeno alívio se desfez imediatamente quando notei a aparência dele. A pele era branca como leite, os olhos grandes e injetados de sangue — parecia a imagem de uma assombração.
Nós três gritamos e tentamos correr, mas o garoto saltou sobre Thomas, fazendo-o cair no chão perto da cruz de madeira que, por pouco, não o atingiu na cabeça.
— Aaaahhhh! — Thomas gritava enquanto se debatia para se livrar.
Percy tentou golpeá-lo com sua espada, mas incrivelmente a lâmina passou por ele inofensivamente, como se o corpo do garoto fosse feito de fumaça.
— Aaaarrrrggghhhh! — urrava o agressor.
Thomas colocou as duas mãos sobre o peito dele e esticou os braços com toda a força, empurrando-o para longe. Ele caiu no chão, se remexendo todo, como se estivesse sendo eletrocutado. Dessa vez, o lunático avançou em minha direção. Minhas pernas pareciam chumbo. Não pude me mexer. Ele trombou comigo de frente, agarrando meus braços, e eu caí de costas no chão. Senti uma placa de sepultura cravar-se em minhas costas, para depois se partir ao meio com um estalo. Mesmo assim, senti que ela havia feito um profundo arranhão em minha pele (como se a garra de três dedos do Verdugo não tivesse sido o suficiente.).
— AAAAHHH! Sai de cima de mim! — eu gritava, tentando me livrar, mas o cara tinha mão fortes. E, de perto, pude ver que o sujeito era pior do que eu imaginava. Parecia um monstro. A boca se abria e fechava num horroroso claque, claque, claque. Saliva escorria pelos cantos como um cão raivoso. A pele era pálida e cheio de veias verdes e saltadas, como teias de aranha sobre o corpo. Os olhos revelavam pura insanidade.
Com toda minha força, consegui desprender uma de minhas mãos e dar-lhe um soco no rosto. Isso o enfureceu ainda mais. Deu um grito pavoroso e mordeu meu braço fortemente. Um jorro de Adrenalina percorreu meu corpo nessa hora. Me debati feito um louco, agitando as pernas e dando socos e murros para todo o lado.
Finalmente, Thomas o pegou pelos os ombros e o puxou violentamente para trás, fazendo-o sair de cima de mim.
Recuei, aterrorizado, e me pondo de pé rapidamente, ofegando muito. O garoto psicopata se erguia novamente do chão, nos olhando com selvageria.
Quando olhei mais atentamente para o rosto do sujeito psicótico, um calafrio desceu pelas minhas costas.
Era o garoto doente. Era Ben. O que estava passando pela Transformação assim que cheguei na Clareira.
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