E Se Eu Também Quiser?
8 E Se Eu Preferir Acreditar?
Notas iniciais
Beta: Constantin Rousseau (Consty, você simplesmente arrasa!)
Já faz um tempo, mas mesmo assim, como dito na antiga nota, dedico esse capítulo a Alexys Creedence, uma amiga muito querida. Espero que volte em um dia desses Alex.
Boa Leitura.
Novosibirsk, Russia — 03h47min
Abriu seus olhos e deparou-se com o que parecia ser um grande quarto escuro, e até um tanto espaçoso. O ritmo tênue e relaxante que as gotas da chuva que caía faziam contra o telhado, contrastando os persistentes e ensurdecedores trovões que anunciavam sua volta, acalmou seus batimentos cardíacos um pouco acelerados devido à viagem turbulenta. Já se passara muito tempo... Mas, mesmo assim, conseguia se lembrar com clareza, até porque não poderia, tão menos queria esquecer-se de algo.
Levantou seu braço até o único brilho fraco vindo da janela de vidro atrás de si, analisando atentamente a pele alva, bonita e uniforme. Sorriu de canto ao perceber que, desta vez, viera bem mais jovem que antes. Dezoito anos, no mínimo; e esse era seu novo recorde. Sentiu-se vitoriosa enquanto pulava da cama e caminhava em direção à porta que liberava um brilho intenso pela fresta da fechadura. A luminosidade gritante do cômodo que agora adentrava fez com que seus olhos se fechassem abruptamente, e ela precisou soltar um grito agonizante em seguida. Era provável que se sentisse assim, com essa sensibilidade excessiva, por um bom tempo. Afinal, não estava acostumada com demasiada claridade, até porque onde residia não havia luz, exatamente.
Quebrou as lâmpadas fluorescentes do local no simples ato de olhá-las de relance, e isso provocou certa histeria entre as pessoas que ali se encontravam; as que estavam prontas para servi-la independentemente do que fosse pedido. Escravos seria uma palavra um tanto inapropriada, uma vez que todos eles aceitaram o “serviço” de bom grado após receberem uma quantia surpreendentemente farta em suas contas bancárias.
Suas pupilas dilatadas avistaram com incrível facilidade cada movimento incerto de quem mais parecia estar amedrontado. Um rapaz jovem, na faixa de quinze anos, tinha os lábios trêmulos enquanto avançava em passos receosos para recebê-la formalmente.
— Se-seja bem-vinda... — os olhos do garoto vaguearam pelo espaço vazio na falha tentativa de avistá-la. — Co-Como a senhora se sente? — e a pergunta foi tão baixa que chegou a achar que foi o único a ouvir.
A garota, então, sorriu de maneira deturpada, avançando contra o jovem e agarrando-lhe pelo pescoço com uma força indescritível enquanto o prensava contra a parede.
— Vocês tentaram fritar meus olhos com essas coisas que brilham! — referia-se às lâmpadas, não deixando de apreciar demoradamente seu tom de voz melodioso, ao ouvir-se pela primeira vez. — Como acha que devo me sentir?
— E-Eu não sabia... — disse com a voz um tanto embargada, os olhos quase transbordando contra sua vontade.
— Por favor, não o mate! — a moça virou-se na defensiva para avistar quem havia tido audácia o suficiente para dizer aquilo, logo deparando-se com uma mulher de meia idade, um pouco acima do peso. — Ele é o seu... Ele é o irmão da Gwen. — falou compassadamente.
— Ah... Então você é o irmão dela. — voltou-se para o garoto e passou a analisá-lo detalhadamente. Ele até que era bonito, com uma pele clara e aparentemente macia que tentou seu autocontrole, fazendo com que precisasse se conter para não acariciá-la; os cabelos eram de um castanho intenso, e a boca delineada era avermelhada demais, convidativa, até. — Espero que tenhamos alguma semelhança, então... — disse desfazendo o olhar desumano e abrindo um sorriso maldoso. Thomas foi liberto das mãos hábeis da garota, e então correu em direção ao grupo.
“Bando de medrosos” foi o que pensou um tanto decepcionada. Não era como se, naturalmente, não botasse medos nos outros, mas, em comparação com a outra, ela chegava a ser adorável. A jovem, então, virou-se de modo a encarar todos, e fez uma pergunta um tanto inesperada em meio ao silêncio que havia se formado:
— Onde está a minha irmã? — mais silêncio, mais tensão. Todos se entreolharam por alguns instantes em um pedido mudo para que alguém se manifestasse e contasse o que a moça queria saber antes que algo acontecesse.
— Fomos avisados que ela ainda não foi encontrada. Ainda. — um homem alto e um tanto elegante, usando terno e sapatos que brilhavam de tão negros, finalmente se pronunciou. A moça se prontificou em fuzilá-lo com o olhar, mesmo sabendo que ele não conseguiria ver tal ação.
— Como assim não foi encontrada? — perguntou pausadamente, avançando alguns passos em direção a ele.
— Eu não sei... Ela... Ela só não veio. — a jovem parou por um segundo, tentando entender o que diabos poderia ter ocorrido, pois não era algo típico da outra se atrasar. — Talvez tenha se perdido, ou... — completou suando frio, e em seguida gritou em agonia ao sentir uma dor exorbitante que podia muito bem ser comparada à sensação de facas afiadas o dilacerando por dentro, repetidas vezes. Caiu no chão, se contorcendo violentamente. As demais pessoas fizeram menção em socorrê-lo, mas foram refreados.
— Ninguém se mexe! — ajoelhou-se ao chão, fitando a face distorcida do homem com um semblante sereno. — Não se preocupe, Joseph, não vou te machucar... — sorriu, e a expressão não entrava em consenso com a postura tensa.
— O que você quer de mim? — conseguiu perguntar quando sentiu a dor esvair-se de suas entranhas bem lentamente. Não havia sangue, não havia marcas. A mente humana era maleável demais.
— Preciso encontrar Ruby.
Lawrence, Kansas — 04h13min
— Eles agiram rápidos demais. — Seth dizia enquanto gesticulava para Dean, explicando a situação. — E também, ninguém esperava que aqueles demônios fossem tão inteligentes... Com certeza a Ruby deu uma boa surra neles. Tenho que admitir que às vezes ela me dá medo, de verdade...
O loiro permanecia calado, e apertava cada vez mais as mãos contra o volante quando as informações lhe eram jogadas pelo moreno, que realmente não parecia poupá-lo. Alternava os olhares entre a estrada vazia e o rapaz tagarela ao seu lado. A verdade é que Winchester estava incrédulo, talvez até um tanto assustado com aquela situação insana. Seria tolice não se deixar abalar por uma maré de explicações para tudo o que julgava ser um monte de bobagens.
— E o que, exatamente, você tem a ver com tudo isso? — o loiro perguntou curioso, recriminando-se mentalmente por sua voz ter soado um tanto hostil.
O rapaz o fitou surpreso, e só então Dean percebeu que aquela era a primeira vez que abrira a boca para falar algo desde o momento em que entrara no carro.
— Olha só... Você fala. — Seth disse parecendo genuinamente surpreso, e então sorriu de canto ao receber um revirar de olhos como resposta. — Bem, senhor Simpatia, eu sou o que pode se chamar de caçador: eu procuro essas coisas, e as mato. Simples não é? Quase sempre a Ruby me ajuda, mas, enfim... Somos meio que parceiros de crime, entende?
Dean franziu o cenho, um pouco confuso com aquela nova informação. A lembrança da jovem loira jogando todas aquelas pessoas contra a parede, sem praticamente mover-se do lugar, embaralhou um pouco sua linha de raciocínio.
— Se você mata essas coisas, por que é que anda junto com a garçonete?
Seth pareceu um tanto desconfortável com aquela pergunta. Ele mesmo já se pegou perdido nesse impasse várias vezes, mas não podia ignorar o que Ruby havia feito por ele há um tempo; ele tinha várias dívidas com a moça e, no fundo, sabia que a própria loira também tinha algumas pendentes consigo. Grande parte do autocontrole que ela havia adquirido foi graças à Seth.
— Com ela é diferente. — foi o que disse. Não queria dar tantos detalhes, até porque sabia que se perderia vergonhosamente na explicação dos fatos. Além do mais, também não queria deixar o jovem Winchester ainda mais confuso do que já estava.
— Você gosta dela. — afirmou ao perceber o olhar distante que o rapaz passou a ter.
— O quê? Não! — apressou-se em dizer, atraindo o olhar acusador do loiro. — Quero dizer, não. Eu não gosto de... Mulheres... Magras demais. — mentiu. De onde tirara aquilo, afinal, era o que se perguntava mentalmente, quase revirando os olhos.
— Oh. — suspirou resignado — Ok, então. Se você diz...
Dean agora voltara a olhar para frente, para a longa estrada completamente deserta; talvez devido o horário demasiado tarde, já que a maioria das casas pelas quais passavam em frente possuía seu interior mergulhado na total escuridão. As árvores com galhos finos e poucas folhas eram algo peculiar que deixava a parte sul da cidade com um aspecto um tanto sombrio que apenas o deixava mais desconfortável.
— É essa aqui. — de repente, o moreno apontou para uma casa branca, pela janela de Dean. O loiro fez a curva e estacionou em frente ao lugar, retirando o cinto e se inclinando para frente. Ergueu as sobrancelhas ao olhar para a inusitada residência.
— Lugarzinho maneiro, esse em que você vive, uh? — comentou irônico, porém sem soar grosseiro. Por mais abalado que estivesse, não iria descontar seus conflitos internos naquele rapaz. Seth não merecia; o ajudara até aquele momento, até explicara algumas coisas, ainda que muitas delas continuassem como grandes incógnitas para o Winchester.
— A vista é melhor de dia, vai por mim... — disse após uma gargalhada baixa e gutural, pulando do veículo em seguida.
O outro resolveu imitá-lo e também saiu, ficando parado junto à porta enquanto observava Seth passar quase animadamente pela calçada e atravessar o pequeno gramado.
— O que você está esperando? Um convite especial? — disse, e em seguida Dean deu de ombros, andando em sua direção com mãos no bolso e demonstrando certo desconforto; apenas uma pequena parte do verdadeiro caos que se encontrava em seu interior. Uma expressão um tanto engraçada, pelo menos para Seth, que tentava ao máximo disfarçar seus olhares duvidosos em direção ao loiro.
— Onde estão seus pais? — perguntou enquanto o jovem agachava e retirava algo debaixo de um vaso vazio.
O moreno enrijeceu durante um pequeno momento, antes de, rispidamente, dar sua resposta:
— Não estão mais aqui.
Winchester bufou, um tanto sem graça pelas palavras que recebera à pergunta. Seth então inseriu a chave na fechadura e girou a maçaneta. Ainda do lado de fora, fez menção para que Dean adentrasse. O loiro deu alguns passos receosos, livrando-se parcialmente da expressão carrancuda no rosto. Por fim, passou pelo caçador e entrou na casa, desconfiado e ainda mais inquieto. O moreno veio logo atrás de si, acendendo as luzes e trancando rapidamente a porta pela qual passaram, derramando uma quantidade generosa de sal em linha reta. Virou-se para ver a reação de Dean, e logo depois que seus olhares se encontraram.
— O que foi? — perguntou com o cenho franzido.
— Vamos ter uma conversinha sobre monstros.
St. Louis, Missouri — 07h22mim
Sabia que sua paciência se tornava escassa quando não conseguia descansar a mente o bastante, mas resolveu investir um pouco mais, pois era o mínimo que poderia fazer. Jessica havia contado o suficiente para caçula ter tido aquela reação. Porém não havia tido escolha, havia? Ele não podia ficar no escuro, sem ciência dos fatos. Não depois do que acontecera no quarto, enquanto ele dormia.
Normalmente os escolhidos, quando a par da verdade, chamavam-na de coisas terríveis no primeiro instante. Mas com ele... Com o Sam havia sido diferente. O moreno apenas olhou no fundo de seus olhos e disse “Eu confiei em você, Jess”. A loira sabia que o rapaz deveria estar se sentindo traído, inseguro... No entanto sua reação foi um tanto infantil.
— Fique longe de mim, seu demônio! — o jovem gritava e corria, já quase sem fôlego, pelas calçadas das casas vizinhas. Olhava para trás vez ou outra, surpreendendo-se com a rapidez admirável com que a loira se aproximava.
— Droga de vadia escandalosa... — Jess reclamou, percebendo que ambos estavam atraindo os olhares de algumas pessoas que provavelmente faziam uma caminhada matinal. Mas, por Deus, era domingo! A jovem, já exausta com aquela inútil perseguição, resolveu apelar para o jogo baixo; para a única coisa que pudesse controlar a situação, naquele momento.
— Mas que Diabos...? — Sam passou de atônico à descrente quando parou de correr e continuou encarando a sua sombra no chão que mudava rápida e constantemente de ângulo, como se a luz incidente estivesse se alternando, de alguma maneira impossível.
Ergueu seu olhar ao céu, entreabrindo a boca em um cômico e previsível “o” que denotava sua surpresa. O sol, outrora já alto, regredia-se de encontro ao horizonte no qual anteriormente havia surgido. Rápida e incessantemente, o frio e a escuridão tomaram conta daquela manhã, acompanhados pela ascensão de uma lua que surgia radiante do lado oposto, lançando seu brilho sobre as poucas nuvens em tons de cinza que a cobriam singelamente, dando delicadeza à paisagem.
Ainda permanecia estático e sua voz interior gritava, dizendo que aquilo nada mais era do que um mero truque, fruto da imensa criatividade de Jess. Pensando nisso, voltou seu olhar em direção à loira, deparando-se com a rua completamente vazia e um tanto familiar.
“Ela não fez isso” dizia a si mesmo. Porém, quanto mais reparava na perfeição com que aquele lugar foi reproduzido, quanto mais admirava todos os detalhes daquela ilusão e tentava a todo custo não acreditar, mais se rendia à nostalgia gritante que sentia; mais se dava conta de que a realidade nada mais era do que uma simples alternativa cada vez mais gritante. Pelo menos era isso que pensava ao estar ali, em casa. E contra a sua vontade, aquilo lhe trouxera as lembranças mais doces e, ao mesmo tempo, mais amargas possíveis.
Sua casa nada mais era que um lugar seguro e até um tanto calmo, onde podia encontrar o ombro do irmão, jogar tudo pra fora e esvaziar-se quando a insegurança o invadia por completo. “Por que não tentar mais uma vez?” arriscava-se a pensar. Pelo pouco que Moore havia contado sobre suas habilidades, ela podia, sim, fazer com que o loiro estivesse ali, há poucos metros de distância.
Os passos que o levavam a se aproximar da casa conhecida foram um tanto involuntários, mas quando finalmente estava prestes a subir os três degraus que o levariam à varanda, parou se súbito, encarando a antiga espingarda recostada sob uma cadeira ao lado da porta. John. O caçula então deu um passo curto e receoso para trás, se afastando vagarosamente do lugar convidativo.
— Sam? — transparecendo um misto entre fúria e incredulidade, John o chamou uma única vez. O mais novo, porém, não respondeu. — Por onde você se meteu, moleque? — silêncio. — O Dean... Ele... — suspirou incapaz de descrever em palavras a aflição que tomara conta do loiro após a partida do irmão. — Só não... Não faça mais isso com ele, tá bem?
Sam então, finalmente se virou para encará-lo. John parecia um tanto abatido e também possuía algumas olheiras profundas, mas nada com que pudesse se preocupar, afinal, ele era um homem de ferro, congelado até a alma pelo tormento que passara após a morte da esposa. Atrás de si, a sala continuava a mesma que sempre se lembrara; com o sofá avermelhado repleto de coisas inúteis, assim como a mesinha de centro, lotada com papéis, mapas, diários... Tudo o que agora fazia sentido para Sam.
— Pai, eu não... — Dean havia surgido atrás de John e parara de falar no momento em que avistara Sam do lado de fora. O caçador havia percebido isso. Então deu uma última olhada para o filho caçula e adentrou a casa, passando pelo loiro que ainda estava parado, apenas observando-o. — Sammy. — disse baixo, como se apenas houvesse confirmado algo.
O mais novo sentiu seu coração acelerar consideravelmente quando viu Dean andando em sua direção. Não sabia o que esperar, embora tivesse quase certeza de que levaria um bom murro na face. O loiro aumentou os passos quando chegou à varanda, descendo os degraus com uma velocidade admirável, e, para o espanto de Sam, quando o mais velho chegou perto o suficiente, foi recebido com um caloroso e apertado abraço. Os braços musculosos o rodearam pela cintura, enquanto o queixo estava escorado contra o ombro do mais novo. O moreno demorou alguns segundos para retribuir o gesto, passando seus braços trêmulos e relutantes pelas costas do irmão, massageando-a cautelosamente, ainda esperando pelo soco. Ousou fechar os olhos, baixando a cabeça até poder sentir o cheiro másculo e familiar que Dean exalava. Naquele momento, ambos não poderiam estar mais felizes.
— Você voltou. — ainda junto ao irmão, o primogênito falou com a voz embargada, seus olhos ardendo e prestes a transbordar.
— É — sussurrou. — Eu acho que sim.
— Por onde foi que você andou, seu idiota?! Eu te procurei pelo país inteiro! — disse exaltado, se separando do abraço e olhando fixamente para os olhos do irmão. — Sabe quão difícil foi fazer o seu enterro, sendo que sequer tínhamos um corpo para colocar no caixão?!
— Dean, do que você está falando? Eu fui embora ontem... E que história é essa de...
—Você foi embora há dois anos, Sam! — o mais velho ralhou, e o jovem Winchester passou a sentir sua cabeça rodar, tamanha era sua confusão. — Sabe o que foi que me levou a concluir que você estava morto?! Foi você não ter cumprido aquela sua maldita promessa, sobre manter contato!
Droga. Jess havia colocado o seu dedo sujo naquilo e agora mal sabia o que estava acontecendo diante dos seus olhos. Aquilo seria alguma espécie de previsão do futuro, ou aquilo de fato era o futuro? Porque, se parasse para pensar, como aquilo poderia ser uma ilusão? Tudo tão perfeito... Tão real que chegava a ser palpável... Era loucura!
Mas uma coisa o moreno tinha certeza: as chances de aquilo acontecer eram totalmente nulas. Sam jamais deixaria de manter contato com o irmão, independente do que fosse. Dean não tinha culpa de nada, e não merecia ser abandonado por ninguém, principalmente pelo caçula. Estando ali, vendo o loiro com aquela expressão tão preocupada, não conseguia enxergá-lo de outra forma que se não de vítima.
— Por que não entramos para eu te contar tudo? — Sam disse um tanto nervoso. A verdade era que não tinha nada para contar, até porque ainda não havia vivenciado nada relevante que pudesse ser dito ao loiro. Bem... Havia a verdade, pelo menos, e ela deveria ser o suficiente.
— Ok... Mas que fique claro; eu vou te dar uma surra depois. — falou irredutível, e era possível ver o esforço que o rapaz fazia para não desabar ali mesmo.
Sam sorriu e acompanhou o loiro até a entrada da casa. Então, não soube dizer se o que o havia feito parar no meio da sala, com uma expressão abobalhada, foi ver seu pai utilizando um computador, ou se foi encontrar Jessica Moore sentada confortavelmente no sofá, tragando lentamente um cigarro.
— Jessica. — fez uma careta azeda para a jovem.
— Vai ter que fazer melhor pra se livrar de mim, Sam. — sorriu abertamente enquanto enrolava algumas mexas de seu cabelo amarelo entre os dedos, o reluzente esmalte vermelho contrastando com a pele clara. Apagou o cigarro no cinzeiro e levantou-se, ficando em frente ao jovem.
— Dean, eu preciso que você... — mais uma vez foi surpreso ao virar-se para trás e não encontrar ninguém, e a sua frente, John também havia desaparecido.
— Eles não são reais. — disse a loira. — Esse seria o seu futuro, se seu irmão não tivesse se intrometido enquanto eu conversava com seu pai. Acredite quando digo que isso desencadeou uma série de imprevistos.
— Não estou entendendo... — diz confuso, e por um segundo se sentiu culpado.
— Eu não quero ver você sofrendo, Sam... Não foi pra isso que a gente se mudou, lembra? — arqueou as sobrancelhas — Por isso preciso que confie em mim.
— E qual escolha eu tenho? — perguntou.
— Não muitas. — Dean disse, reaparecendo atrás do irmão. — Apenas fique com a sua família, onde é o seu lugar. Não vá embora outra vez.
— Você não é real. Não é. — falou por cima dos ombros, olhando-o de relance.
— E isso importa? — revidou. — Fique!... Por favor. Por mim.
— Não pode dizer não ao seu irmão, não é, Sam? — Jessica o olhava com expectativa. — Olhe para ele e diga que não é real. Consegue?
Dean se aproximou perigosamente de Sam, pegando a mão do moreno e a repousando sobre seu peito. As batidas aceleradas, o calor convidativo, e até mesmo os incômodos arrepios que sentiu após tocá-lo fizeram com que ficasse repentinamente mudo, todas as palavras fugindo-lhe dos lábios. Em todos os aspectos humanamente possíveis, e talvez até os impossíveis, aquele à sua frente era seu irmão.
— Eu posso ser real, Sammy. Você só precisa acreditar.
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— Cara, isso é... Isso é loucura! — Dean explodiu, pressionando as pontas dos dedos contra a têmpora.
— Não, não é. — levantando-se de sua cadeira e indo de encontro à cozinha, Seth falou convicto: — Sabe... Meu pai me contou tudo isso quando eu tinha dez anos. Eu pirei legal na época, e morria de medo de olhar debaixo da cama quando estava sozinho no quarto. Estou surpreso por você, filho de um dos melhores caçadores, não saber de nada.
— O que disse? — o loiro rapidamente o fuzilou com os olhos.
— Você nem desconfiava? — perguntou ao rapaz que se encontrava um tanto aéreo no momento, fitando o nada. Seth suspirou, resignado e Dean apenas meneou a cabeça, ainda com o olhar sem rumo, perdido em pensamentos. — Acho que é demais por uma noite, não acha?
A resposta foi um tanto vaga:
— Eu vou sobreviver.
Ficaram em silêncio, e Seth se viu mais uma vez encantado com o loiro. Seus traços definidos e másculos, assim como o maxilar um tanto saliente lhe eram convidativos. E, claro, havia aqueles lábios obscenos. Imaginou como seria o gosto deles quando Dean os umedeceu involuntariamente. E, droga, não deveria estar pensando naquilo.
Dean ainda não sabia, certo?
— Eu vou subir e ver como o meu irmão está. Me espere aqui, eu... — começara o moreno, mas fora interrompido por alguém que batia à porta. — Eu vou ver quem é primeiro. — completou a contragosto.
Esticou o pescoço, olhando pelo olho mágico, e então suspirou aliviado. Já não era sem tempo, foi o que sussurrou antes de abrir a porta de modo com que o pequeno espaço apenas o permitisse sair. Winchester saiu de onde estava e se sentou no sofá, repousando os braços no encosto e tentando relaxar antes que sua cabeça explodisse. Fechou os olhos, e por mais que tentasse se lembrar de algo agradável, as imagens dos últimos momentos que vivenciara invadiam sua mente com uma nitidez única, fazendo com que um incômodo latejar surgisse. Maldita foi a hora em que saíra de casa. Agora estava ali, descansando em um sofá fedendo a mofo, incerto do que fazer e se sentindo como uma criança na ausência dos pais. Poderia piorar?
Minutos mais tarde, ainda consciente, ouviu a porta sendo aberta e passos alternados em sua direção. Não abriu os olhos, mas sentia como se estivesse sendo observado. Deu um pulo quando sentiu a leve pressão sobre suas coxas. Uma perna estava sendo colocada estrategicamente ao seu lado direito, enquanto a outra subia para o esquerdo, tornando-o imóvel.
— O que você acha que tá fazendo? — perguntou assustado, arregalando os olhos em choque.
— Me divertindo — disse em seu ouvido, mordiscando o lóbulo da orelha o mais baixo. — Você deveria fazer o mesmo... Está tão tenso... — passava suas mãos hábeis pelo peitoral do loiro, por cima de sua camiseta. Então o beijou. Seus lábios finalmente se uniram ao do loiro, movendo-se curiosos enquanto sua língua tentava achar uma brecha para adentrar na boca dele.
Dean Winchester o agarrou firmemente pela cintura, e Seth abriu um sorriso vitorioso, pois pensara que o mais velho o estava retribuindo.
Porém, no instante seguinte o moreno se via sendo arremessado violentamente contra o chão, as costas chocando-se contra o piso e trazendo uma dor incômoda. O loiro se aproximou e acertou-lhe um soco na barriga, fazendo o caçador se contrair em agonia. Então repetiu os golpes, alternando entre o dorso e o rosto do outro, até que suas próprias mãos se tornassem doloridas pela atitude. Sangue escorria pelo canto da boca do moreno e o inchaço de seu nariz, assim como os hematomas em seus olhos, era mais que perceptível. Mas nada disso fazia Dean sequer cogitar a hipótese de parar o que estava fazendo.
Não sabia explicar de onde tirara aquilo, e se parasse para pensar parecia um tanto possuído. Mas, levando em consideração tudo o que passara nas últimas doze horas, não precisava daquele tipo de distração; era informação o suficiente para qualquer um surtar com a primeira chance que tivesse. Entenderia se fosse uma mulher, e a despacharia sem muitos rodeios. Mas um homem? Isso estava muito além do que poderia aceitar. Não fazia o tipo preconceituoso, tanto é que respeitava o quanto podia, mas aquilo? Pisar justo naquele calo? Não. O que diabos deu no caçador para assediá-lo assim, sem explicações? Aquele filho da puta definitivamente encontrou o que não estava procurando!
Winchester parou quando viu Seth relaxar seu corpo, baixando os olhos. Certamente já se encontrava desacordado.
Mas isso pareceu não surtir efeito algum em Dean. Muito pelo contrário: o loiro se levantou rapidamente e foi em direção à cozinha, parando em frente ao armário de madeira. Passou a abrir as gavetas freneticamente, e só parou quando finalmente encontrou o que tanto procurava: uma faca cuja lâmina reluzente e pontiaguda refletia seu reflexo sujo de sangue que parecia não o pertencer.
Seria como se aquilo nunca houvesse existido, era o que pensava enquanto caminhava em direção ao corpo largado na sala, banhado no viscoso líquido escarlate.
Continua...
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