E O Resto Rio Afora
1 Capítulo 1
Notas iniciais

Adelia Sharpe poderia se considerar uma garota de sorte. Não por ter tudo que muitos possuíam, mas por ter o necessário. Estaria mentindo se dissesse que não gostaria de ter mais do que a vida lhe oferecia, contudo sentir-se grata pelas pernas e pelos braços também era uma forma de sorte. Pernas essas não muito longas, mas que a levavam todos os dias até o rio Patapsco para buscar água e braços finos que suportavam o peso do balde.
Vivia em um bairro em Chesapeake onde o chão tinha buracos e era de terra, onde casas eram pequenas e muitas já perderam o vidro das janelas, mesmo assim o via como benção. Era uma menina simples, que apreciava os raios do sol e contava as estrelas à noite ao lado de Billy, seu melhor amigo, ao som do cricri dos grilos e vaga-lumes. Ela não sabia como era o céu da cidade, mas imaginou que talvez não fosse tão bonito como ali.
Às vezes Billy lhe contava sobre os filmes, narrando com mais emoção do que realmente tinha, e Adelia sorria por gentileza. Ela não gostava da forma violenta dos filmes, nem dos romances fracos e simbólicos que inevitavelmente aconteciam. Ela gostava da vida real, do contato que levava, consequentemente, a um estreitamento dos laços. Talvez a sua atenção estivesse voltada as cenas de sua imaginação, quando estava prestes a dormir e se via como atriz principal em qualquer aventura que quisesse. Não contava isso a Billy, ele caçoaria dela e com razão. Ela mesma admitia que devesse parar de viver naquele mundo que não existia e acompanhar o ritmo do real, aonde nada vinha de fadas madrinhas e agito de varinhas.
Sorriu com tal pensamento, descendo o morro atrás de sua casa. O céu ainda estava escuro devido à hora recente, e os seus ouvidos já captavam o som da correnteza do rio. O mato ressecado roçava suas canelas a mostras enquanto os dedos de pés descalços amassavam a terra, deixando suas pegadas. Apreciava a hora em que todos estavam dormindo, permitindo que ela ficasse sozinha com aquele lugar, ouvindo suas músicas que poucos entendiam, o vento ameno que balançava seus cabelos ruivos e cacheados e arrepiavam-lhe a pele. Era um bom lugar para se viver, talvez o único que conheceria.
Uma ave cruzou o céu, suas asas negras e grandes planando em um vôo suave. Deveria ser bom alçar vôo, indo aonde o destino o levasse, procurando por um sentido do dia. Adelia já tinha um sentido e destino, e desceu com cuidado a arrebentação do morro. As águas contornavam as pedras, que as mulheres usavam para lavar as roupas e crianças brincavam de pulá-las, formando ondulações. A terra molhada grudou na sola de seus pés e a barra de seu vestido umedeceu quando se abaixou, mergulhando o balde no rio. Bolhas se formaram, fazendo sons engraçados, juntamente com um gemido de dor. Aquele era um som que Adelia não escutava com frequência.
Depositando o balde cheio na margem, seus olhos castanho-claros se puseram a procurar o dono do gemido. Não era surpresa encontrar pessoas bêbedas, reclamando que não deveriam acordá-la e que continuasse com a própria vida. Adelia não encontrou nada em seu campo de visão, mas o gemido perturbou a calmaria mais uma vez. Caminhando cautelosa à esquerda, ela contornou o morro, seguindo a direção contrária a correnteza, deparando-se com pernas longas cobertas por calças de bom corte.
Acostumando-se a presença, Adelia contemplou um homem mais velho do que ela, bonito e alto, e coberto de sangue. A camisa que antes fora branca, agora atingira um tom rubro. Havia cortes em seu peito, rosto e coxa, marcando a pele morena. Os cabelos se colavam na cabeça, e Adelia temeu que já o tivesse perdido. Aproximando-se devagar, ela teve uma rápida percepção de respiração, acompanhada de tosse. Um coágulo de sangue foi cuspido, manchando os lábios finos do homem. Ele não se parecia com alguém do bairro e das redondezas, levando-a a questionar como ele havia parado ali daquele jeito.
Adelia abaixou-se, colocando um dedo no pescoço do homem. O pulso era constante, embora sereno. Sorriu satisfeita por pouco tempo. Analisando o tamanho dele para o seu, seria impossível sustentá-lo até a sua casa sozinha, entretanto não parecia certo deixá-lo sozinho para buscar por Billy. E se ele acordasse? Decidida, Adelia sentou-se ao lado do homem, tirando a franja agarrada ao olho esquerdo; com a barra do vestido úmida ela fez o que pode para limpar o rosto dele, atenta as feições perante o seu toque, mas sequer uma sobrancelha se mexeu. Tons arroxeados no olho e perto da boca apareceram, evidenciando que ele se envolvera em uma briga.
O dia amanhecia, trazendo o sol em esplendor. A água resplandecia os raios, fazendo-a desviar os olhos. Até quando Billy demoraria a vir procurá-la? Ele deveria saber que estava precisando de sua ajuda, afinal, alegava conhecê-la melhor do que qualquer pessoa. Até mais que a si própria. Esperou paciente pela voz irritada e gritante, os passos que corriam em sua direção como se dependesse daquilo. Billy era sempre impaciente e mal humorado, raramente dava-lhe um sorriso ou se mostrava contente por algo. Adelia pensava que o motivo fosse a vida naquele bairro carente tanto de pessoas quanto de vida, e ela não o culpava. Havia dias em que ela se arrependida por não se sentir feliz.
— Que bosta, Adelia, por que tá demorando tanto? É difícil encher um balde de água? — Billy seguiu o cheiro característico de pele suave e queimava pelo sol, encontrando Adelia do outro lado do morro. — Não tenho tempo de ficar cuidando de você, não, caramba!
— Bom dia, Billy! — Ela o saudou sorridente, sequer incomodada com o modo que ele o tratava. Acostumara-se com ele.
— Bom dia o cacete! — As sobrancelhas grossas e franzidas lhe davam um ar de rebeldia, a regata branca grudada ao corpo forte que ele se empenhava em ter. — Vamos logo, Adelia, eu tenho mais o que fazer e...
— Ele precisa de ajuda. — Adelia se levantou, apresentando o homem desmaiado a beira do rio. Billy o olhou com desdém, soltando o ar ruidosamente pela boca. — Não consigo carregá-lo sozinha.
— Ele não é daqui, então pra que se preocupar? — Billy fez menção em voltar, em nada lhe interessava ajudar pessoas que não fossem conhecidas ou próximas, ele já lidava com problemas demais, todavia sentir a mão de Adelia em seu braço, pedindo por ele, o fez parar. Ele a sondou, mirando os olhos castanhos e vendo-se neles. Aquela garota era a beleza e alma daquele bairro e seria capaz de qualquer coisa por ela. — Cacete, você só me arruma trabalho, viu?
— Obrigada, Billy. — Adelia o beijou de leve no rosto, dando espaço para ele.
Enquanto Billy amparava o homem alto e sujo de sangue, Adelia agarrou o balde e juntos subiram o morro. O telhado de sua casa aos poucos despontavam e ela correu para abrir a porta. O rosto de Billy estava vermelho e suado pelo esforço, e ela o ajudou a ajeitá-lo no sofá. A casa simples e de poucos móveis pareceu acolhê-lo muito bem. Carregando o balde para a cozinha, ela pegou uma bacia embaixo da pia e um pano limpo e voltou para a sala, ignorando os olhares recriminativos de Billy.
— Feche a porta. — Adelia pediu gentil, ajoelhando-se ao lado do sofá como fizera às margens do rio. — O que será que aconteceu com ele?
— E eu lá ligo?! — A rabugentice de Billy preencheu a sala. — Você também não precisa se importar, sabia?
Sem dizer nada, ela molhou o pano e começou a limpar o sangue seco do rosto do homem. A barba por fazer capturava algumas linhas do tecido, e Adelia repetiu o processo até que conseguisse distingui-lo como humano de novo. O corte na lateral do rosto era profundo e por sorte não mais sangrava, necessitando apenas de pontos. Com cuidado e tendo a ajuda contrariada do amigo, ela lavou os cabelos curtos, retirando a sujeira. Os fios eram loiro-escuros, quase castanhos. Fez o melhor que pôde no resto do corpo; Billy retirou a camisa pegajosa do homem, exibindo o peito de pelos escuros. Observou Adelia, vendo se ela esboçaria alguma reação vendo um homem daquele jeito, mas para seu alívio ela continuou a limpeza como antes.
Ela o tocava com respeito, evitando ao máximo olhá-lo por mais tempo do que deveria. Não era a mesma coisa de ver Billy sem camisa, aquele era um homem mais velho e atraente, embora jamais devesse deixar Billy saber disso ou poderia esquecer a ajuda dele. Pôs-se de costas enquanto o amigo retirava a calça do homem, e distraiu-se com a desculpa que iria ao banheiro buscar toalhas. Voltou com um roupão comprido e puído, mas que serviria nele.
Ao final, Adelia tinha os cabelos grudados de suor na nuca e os prendeu frouxamente no alto da cabeça. Lavou os pulsos e o rosto, ofereceu água a Billy e lhe sorriu agradecida. Não era necessário que ele dissesse o quanto ela estava sendo imprudente em trazer um homem desconhecido para a sua casa, contudo ela não poderia negar ajuda a ninguém. Aprendera várias coisas em seus vinte e dois anos e uma delas era jamais dar as costas a alguém, mesmo que não o conhecesse. Deveria sempre fazer o bem e seria recompensada. Contudo, Billy achava aquela filosofia uma bobagem e mostrava isso em cada palavra e entonação. Para ele, Adelia teria que tê-lo deixado onde o encontrou, fingindo que não o vira e seguir com a vida.
— Não sou como você, Billy. — Ela o rebateu, preparando um café forte para ambos. — No fundo você também está preocupado, apenas não sabe como demonstrar. Está curioso tanto quanto eu para saber quem ele é.
— Sua bunda que tô, Adelia! Para de falar abobrinhas, eu hein! — Emburrado, ele aceitou a xícara, vendo-a se sentar a sua frente. — Prometa que assim que ele acordar vai despachá-lo.
— Isso é inevitável, certo? Ele provavelmente tem família, alguém que está desesperado em encontrá-lo. Ele não vai ficar aqui por mais tempo que necessite.
— Que idéia é essa?! — Billy gritou, batendo os punhos na mesa. A garrafa térmica de café balançou, ameaçando ir para o chão. Adelia a segurou antes que realmente fosse. — Isso não é certo! Sabe o que deveria fazer? Ir na polícia e denunciar ele.
— Sabe o que a polícia pensa de nós, Billy. — Adelia o contradisse séria, uma sombra de tristeza perpassando seus olhos. — Nos acusariam de tê-lo sequestrado. Temos que andar na linha ou ficaremos encrencados. O melhor é deixá-lo aqui e quando ele estiver recuperado irá embora sozinho, sem a gente mandar. Vai ser bom para todo mundo.
— Então eu vou ficar aqui. — Billy sentou-se mais calmo, sorrindo por cima da xícara ante a expressão de incredulidade de Adelia. O coque que ela havia feito desmanchou, cobrindo-lhe os ombros, como se também mostrasse sua surpresa. — Até parece que uma garota pode ficar sozinha com um homem na mesma casa.
— Você também é um homem e não vejo problema nisso.
— Eu sou diferente, Adelia. — Um leve rubor coloriu as bochechas de Billy, e ele logo fez questão em virar o rosto para que ela não visse. Seria humilhante. — Você me conhece, crescemos juntos, somos como irmãos. Ele não é nada seu.
Adelia pesou a teoria de Billy, não vendo tanta lógica quanto ele gostaria que visse. Billy se auto-intitulara seu guardião e zelava por ela de um jeito grosseiro, mas que Adelia sabia ser sincero. Desde a morte de sua mãe, aos dez anos, Billy era a única figura que sempre esteve presente nos momentos ruins e bons de sua vida. Seria errado não avaliar a proposta dele, contudo ela não gostaria de tê-lo a vigiando mais do que vinte e quatro horas por dia.
— Você tem o seu emprego, Billy, e sabe como foi difícil consegui-lo. — Adelia disse com cuidado, sem parecer que o rejeitava. — E você mora a vinte passos de distância. — A última frase foi dita divertida, com uma risada de deboche. — Vou ficar bem, certo? Prometo que vou me cuidar enquanto você estiver fora.
Billy O’Brian bufou contrariado, era difícil converter os pensamentos de Adelia quando ela cismava com alguma coisa. Sorveu o resto do café, queimando-lhe a garganta, roubou um pedaço de pão e o enfiou na boca. Por hora tinha que se dar por satisfeito e confiar que Adelia não seria boba a ponto de confiar naquele estranho se ele acordasse. Inclinou-se na cadeira, jogando o olhar para o homem no sofá, e ele nem sequer demonstrava reação.
— Tá bem, Adelia, tá bem! — Exclamou de súbito, pegando-a de susto. Foi divertido vê-la tremer e derrubar café na tolha desfiada da mesa. Ela o olhou feio, como se a qualquer momento o agarraria pelo pescoço, mas Adelia seria incapaz de uma atitude rude como aquela. Ela era a pessoa mais pura que ele conhecia e, um dia, ambos viveriam em outro lugar, longe de toda pobreza e solidão daquele lugar. — Você venceu, que cú! Mas eu vou ficar de olho, ouviu?
— Obrigada, Billy. — A feição dela amansou e ele sabia o que viria a seguir.
Adelia se levantou e colocou-se atrás de Billy, rodeando o pescoço dele com os braços. O cheiro dela o intoxicava e, se isso não a magoasse, a beijaria como em seus sonhos. Contudo, ele não o fez, apenas permitiu que o rosto dela se encostasse ao seu, logo recebendo o segundo beijo na bochecha aquele dia. Seu coração palpitava esquisito, envergonhando-o.
— Chega de melação, tá um calor do inferno e você tá suada! — Ele a afastou, caindo em si. Ele sabia o que aquelas reações que Adelia provocava nele significava, mas era teimoso demais para admitir em voz alta. — Vou trabalhar, qualquer coisa chama o Keith que ele te dá uma força.
— Claro, papai, mais alguma instrução para sua filhinha de cinco anos? — Ela debochou, recebendo o olhar mais feio e duro de Billy. Não levava as preocupações dele como poucas ou pequenas, mas às vezes queria que ele a visse como uma garota crescida e que sabia se virar. Talvez a culpa disso fosse o passado, que o obrigou a cuidar dela até que tivesse capacidade para fazer isso. — Vá trabalhar e, se quiser, pode vir jantar aqui.
— Não sei, algo me diz que você quer ficar a sós com seu convidado.
— Billy, o que é isso? — Adelia caminhou até ele, tentando um contato visual que ele lhe negava. Os olhos azuis não queriam conversar com os seus. — Pare com isso, por favor. Não gosto nem um pouco quando me trata desse jeito.
— Então não fica me dando motivo, merda!
Adelia o viu andar a passos rápidos e pesados, e quando passou perto do homem no sofá fez uma careta. Não o chamou de volta, apenas deixou as coisas como estavam.
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