E L D A R Y A — Anos Sombrios
3 Capítulo 2: A Ala Proibida
Notas iniciais
Desde que Lysandre não havia se lembrado de mim, as coisas desandaram. Fazia uma semana que ele havia voltando para Sweet Amoris. Vez ou outra ele me lançava olhares, como quem queria se lembrar, mas segundos depois desviava de maneira frustada.
Meus pais, por incrível que pareça, foram compreensíveis com tudo. Eles não sabiam sobre meu namoro com Lysandre, pretendia contar depois da Feira, mas nada deu certo. A única da minha família que sabia era minha tia, lembro que ela deu um grito, me abraçou e abraçou Lysandre, que ficou meio desajustado.
Parece que tudo isso se foi. Ele voltara a ser o antigo Lysandre, quieto, reservado, ao contrário de Castiel, que a cada dia sempre tentava me reanimar, do jeito dele, é claro. Meus amigos estavam constantemente ao meu lado, mas eu sentia um vazio tão grande no meu peito que nada me fazia feliz de verdade.
— Se quiser retonar aquela história de namoro falso, eu juro que dessa vez me controlo.
Alexy estava sempre tentando me reanimar. Fazia planos falíveis sobre namoro e ciúmes e vivia tagarelando no meu ouvido, não que eu reclamasse, mas não estava com sanidade suficiente para as ideias que vinham na cabeça do meu amigo azulado.
— Alexy, já disse mil vezes: não precisa disso. — falei, tirando meu olhar da revista onde tinha na primeira capa uma entrevista com uma estilista qualquer. — E eu creio que se lembre do acontecimento. Na teoria, eu fui trocada por um homem, no jogo de basquete.
— Eu não havia resistido! Foi a alegria do ponto marcado! — ele argumentou. Rolei os olhos.
— O ponto era do time rival! — inqueri e Alexy cruzou as pernas, o rosto extremamente chateado, mas seu simbolico sorriso surgiu nos lábios.
— Bom, sabe que hoje em dia a minha fase de "piranha do amor" passou. Só tenho olhos para uma pessoa agora.
Eu o encarei curiosa. Alexy sabia fazer mistério quando queria. Meus olhos cintilavam de curiosidade e meu rosto se esquentava de ódio ao ver o sorriso satisfeito tomar os lábios do meu amigo.
— Quem é? — não aguentei, fechando a revista que foi dada por Rosa e o fitando ainda mais. Ele olhou para os lados e depois se esticou, sussurrando seu segredo.
— Kentin.
— Alexy! Você sabe que...!
— Eu sei!
Kentin era um dos nossos amigos. Tinha os cabelos castanhos, usava roupas no estilo militar e um óculos rendodo. Geralmente vivia andando com os gêmeos. Kentin já até teve uma paixão por mim, mas logo ele notou que tudo era apenas uma ilusão feita pela amizade fortalecida. Não havia problemas com essa paixão repentina de Alexy por ele, ou melhor, havia.
Kentin é heterossexual. E eu não faço a mínima ideia de como Alexy vai resolver isso. Eu olhei com certa pena para meu amigo sonhador que agora brincava com a comida em seu prato.
— Enquanto eu não acho ninguém, — ele começou. — me deixa sonhar um pouco.
— Somos um desastre quando o tema é vida amorosa. — disse com certo rancor. Alexy sorriu, entendendo o que eu sentia.
— Está com saudades dele. — concluiu.
— É um fato. — falei, pegando uma batata do seu prato e comendo.
De repente, fui abraçada por Armin, que surgiu do meu lado com um PSP na mão. O encanador virtual chamado Mário agora passeava em seu dinossauro com a princesa de vestido rosa na garupa. Pelo sorriso de Armin, ele finalmente havia zerado Super Mário e se sentia realizado com isso.
— De onde você surgiu? Aprendeu a aparatar agora? — Alexy caçoou. Armin rolou os olhos para o irmão, eu continuei a observar a conversa.
— Pode me chamar de Armin Potter se quiser. — falou. — Andy, fez o dever de Biologia? Eu não tive tempo...
— Na verdade ele teve, mas preferiu embarcar em uma aventura com Mário e seus amigos. — Alexy explicou, apontando para o PSP. Eu o olhei feio, ele levantou as mãos em sinal de redenção.
— Desculpa! Mas é Super Mário! — falou o moreno.
— Isso não é uma desculpa convincente. Toma. — arrastei a pasta onde estava o exercício. Ele pegou com certo desespero e logo tratou de copiar o que estava escrito.
— Alerta Vitorianismo. Lys-Fofo está vindo. — Alexy murmurou, sem tira os olhos da comida. Eu engasguei, olhei para trás e dei de cara com Lysandre, que estava meio... perdido.
— Oi... eu... vocês por um acaso viram um...
— Bloco de notas? — deduzi. Aquele era o meu Lysandre. Senti vontade de rir ao ver ele assenti positivamente. — Procure no banco do pátio, geralmente você esquecia lá.
— Como sabe disso? — perguntou meio curioso. Eu apenas mandei um sorriso e dei os ombros. — Sabe, eu sei que conheço você. Eu vou...
— Tudo bem Lysandre. — respondi tentando ser gentil, mas minha voz saiu meia amarga. Ele franziu o cenho, mas assentiu, saindo logo em seguida.
Me virei para ver dois pares de olhos indênticos me encararem, como se esperasse eu começar a chorar ali mesmo. Eu senti meus olhos marejarem, mas voltei a ler a revista sem dar atenção para meus amigos. Eu não queria falar sobre aquilo. Álias, eu nem ao menos poderia, pois foi uma recomendação médica. Ele deveria descobrir por si só, caso contrário, seria um desastre.
As aulas se passaram rapidamente. Foi a mesma coisa de sempre: fiz dupla com Rosalya, que tagarelava algumas coisas para tentar me fazer ficar bem, Lysandre me lançava olhares vez ou outra e cochichava algo com Castiel, Armin estava jogando outro tipo de jogo, pelo som, parecia ser Resident Evil, Nathaniel e Kentin estavam a minha frente se dando muito bem no exercício, o que fazia Alexy, que estava com o irmão, segurar a caneta com mais força do que necessário. Tudo parecia normal entre os meus amigos, menos comigo.
Assim que bateu o sinal, tratei de guardar meus pertences, mas senti falta de uma coisa em particular. Virei para Alexy, que passou praticamente o dia comigo e perguntei:
— Alexy, viu um caderno de capa lilás? Aquele que eu geralmente anoto meu... dia-a-dia? — perguntei. Armin levantou os olhos, interessado.
— Um diário Andy? — perguntou o gêmeo meio venenoso. Lancei um olhar ameaçador, mas que só fez o sorriso de Armin aumentar. Ignorei as implicâncias dele e me virei para Alexy, que ainda observava o "casal de mentira" na frente dele.
— Alexy. Alexy! — chamei. Ele se virou para mim como quem saia de um transe. — Alexy, isso que está formando em sua mente, saiba que é impossível.
— Andy, o que é? Fala logo, me ocupe com algo. — ele inqueriu entredentes.
— Meu caderno com capa lilás...
— Você perdeu seu diário?! — ele berrou, esquecendo-se de repente de Kentin e Nath. Rosalya se virou para trás um tanto chocada também. Ótimo, era tudo que eu queria, mais atenção.
— Eu só quero saber se sabe onde eu poderia ter deixado. — falei com as bochechas avermelhadas. Alexy pareceu pensar, mas quem respondeu fora Rosa.
— Geralmente você gosta de escrever nele na biblioteca. — falou. É claro! Assenti, agradecendo aos meus amigos e saindo as pressas para a biblioteca. Não poderia dar um mole e fazer com que Ambre encontre, ou qualquer outra pessoa.
A biblioteca era grande e espaçosa, com algumas quinzes mesas para leitura e alguns dois sofás. As prateleiras eram cheias e haviam muitas. A biblioteca de Sweet Amoris foi o que me fez ser apaixonada pela escola e era o motivo de orgulho para o corpo docente dela. Eu andei pela biblioteca a procura do meu caderno.
— Aqui está você. — falei, pegando ele em cima de décima mesa, uma das mais escondidas e onde eu geralmente gostava de ficar.
— Então esse caderno é seu?
A voz de Lysandre perfurou meus ouvidos. Paralizei. Me virei, ele estava com seu típico traje vitoriano e um sorriso calmo no rosto. Na mão, segurava um bloco de notas e sua bolsa. Como sempre acontecia, me sentia uma anã perto dele, já que era muito alto.
— Fiquei me perguntando de quem era. Eu não abri. — se apressou a dizer. Era claro que ele não iria abrir. Não queria que fizessem isso com seu bloco. Assenti, abaixando a cabeça e tentando sair dali, mas ele me prendeu. — Andrômeda, né?
— É. — respondi. Ele sorriu, feliz por ter se lembrado de algo. Pegou seu bloco de notas e folheou ele, parando em uma página em específico.
Eu senti meu coração acelerar ao ver que ali havia um desenho meu. Nele eu lia um livro, inerte sobre o mundo. Me lembrava daquele dia. Eu e Lysandre fomos para uma praça e nos sentamos embaixo de uma árvore. Abri um livro e ele ficou me observando em silêncio como sempre fazia.
— Eu...
— Por favor, me fale a verdade. — pediu um tanto angustiado. — O que você é minha?
Eu arregalei os olhos, balancei a cabeça em negação. Não podia. Eu não poderia abrir a boca. Ele me olhou ansioso, como uma criança.
— Eu não posso, me desculpe. — falei, sentindo minhas lágrimas cairem. Ele abriu a boca meio confuso, mas em um movimento rápido, enlaçou-me em seu abraço. Senti uma nostalgia imensa ao sentir seu cheiro tão perto de minhas narinas, ele apertava-me como se quissese fazer eu parar de chorar.
— Eu sei que você é especial. — ele disse, sua voz meio embaçada. — Eu só quero saber o que. Não aguento mais a sensação de que esqueci de alguém tão importante.
Eu solucei. Ele me soltou e olhou para mim. Os olhos bicolores pousaram nos meus. Ele tentava enchergar algo em mim. Seus olhos estavam em um tom meio desesperado.
Me soltei dele, peguei minha bolsa e meu caderno. Não poderia ficar daquela forma. Ele não me impediu, apenas me deixou ir. Eu caminhei para o lado direito da biblioteca, as lágrimas caiam sem parar. Foi quando vi pela minha visão perifélica, penas vermelhas sobrevoando entre os livros.
Parei, olhei para o lado. Ouvi um canto muito bonito em meus ouvidos. Eu estava enlouquecendo, só poderia ser isso. Limpei minhas lágrimas com as costas do braço e segui o canto.
Foi ai que vi o que parecia ser a asa de um pássaro muito grande, vermelha como sangue, adentrar em uma porta semi-aberta. O canto parecia me chamar e foi o que fiz, o segui.
Entrei ao que parecia ser uma sala de arquivos. O canto parou, todavia, minha curiosidade se acendeu como nunca antes. Caminhei pela sala que estava sendo clareada apenas pela janela meio aberta. Passei a mão pelos livros que era separados em anos de lançamentos e senti algo cair em cima de mim.
Era um livro de capa marrom, nele, em dourado, estava escrito a palavra "Eldarya". Um título curioso e esquisito. Peguei o livro do chão e dei uma boa olhada para ele. Não havia nada mais do que o título em dourado.
Abri o livro e na primeira página estava escrito disseres interessantes:
"A garota da lenda abriu as portas que dão para outro mundo."
Franzi o cenho em certa curiosidade. Folhei a segunda página. A introdução estava lá, as letras douradas como as da capa. Parecia ser um livro interessante, todavia, muito suspeito para estar guardado em uma sala escondida. Mordi os lábios, minha curiosidade sempre falando mais alto que minha razão.
"Este conto narra a história de uma garota que adentrou ao mundo mágico de Eldarya e recebeu o poder da sétima estrela. Esta história é como um feitiço, quando se acaba de ler, ganhas o domínio do poder e da capacidade de conceder os desejos ao protagonista, isto porque, o que lemos, transforma-se em realidade."
De repente senti uma tontura. Apoei-me na prateleira, enquanto largava o livro, que caiu ao chão na página aberta. Ouvi o canto do pássaro mais alto em meus ouvidos, tão alto, que fui obrigada a colocar a mão sobre minha cabeça com um rosto angustiado. Fechei os olhos assim que senti uma luz dominar o lugar. A sala rodopiava sem parar, ouvia o canto do pássaro mais perto, até que não consegui resistir e cai desacordada no chão.
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