E Eu sou o Amor da Sua Vida?
29 Um Pesadelo Exótico
Notas iniciais
Victor
“Três pessoas podem guardar um segredo; desde que duas delas estejam mortas. ”
A resposta certa era ter sempre dito sim para o Luco Seward. Independente do jeito que ele age, fala, pensa e de tudo não sei porque o pessoal mais antigo na escola tem tanto medo dele. Eles o olham como se ele fosse os devorar vivos.
Mas, ele não se importa nem nada. Marjorie não é da época em que ele estudou, mas, desde que ele chegou algumas coisas ficaram estranhas.
Como por exemplo faz uns dias que eu não vejo nem a gaúcha e nem o exótico. Katherynne nunca deixava de dar o ar da sua graça no refeitório, no meu quarto, nos corredores, e de repente some. Por hora me deixava preocupado, curioso, não sei; sentia falta das informações que ela me trazia, e também porque sempre que eu ia procurar ela no seu quarto tinha outra pessoa lá. Mas pessoas diferentes.
E o exótico, sua “falta” foi ofuscada.
Até porque tem um novo exótico no dormitório.
Luco sendo estranho e tal, antigo aluno e tudo isso e aquilo, arrumava os melhores lugares no refeitório, para o então novo grupo dele: eu, Leonardo e Marjorie. Já que ninguém mais queria sentar conosco muito menos se aproximar da gente, e o interessante era que com as aulas acontecendo, muita gente comia ou muito cedo ou muito tarde por conta do alvoroço que ele causava. Uma mesa de até dez lugares ocupado por apenas quatro pessoas era um estrondo. E a gaúcha não estava lá para reclamar. Mas, os Monitore estavam. E eles não faziam nada.
Tirando o grandão que ficava olhando de cara feia para nós. Virgula, não exatamente para todos nós... Mas, era mais para Luco; como se jogasse uma praga nele toda vez que tinha que ir no refeitório ou ficar no mesmo lugar que ele.
E Luco o encarava com uma cara de deboche diário, e olhava de volta como se o grandão tivesse que aturar ele o resto da vida.
Não foi que eu me tornei amigo de Luco; na verdade era tipo uma obrigação. Ou seja lá o que fosse... Era algo maior que eu. Que qualquer um de nós, era como um jeito de dominar.
Naquela manhã por exemplo já fazia alguns dias, uns dez, onze; coisa assim... Eu já nem tinha mais certeza; eu já estava nervoso e contando o tempo errado. Mas, já era tempo suficiente sem a presença dela. Era tempo demais em que eu não tinha notícias concretas ou positivas de Mika; da minha Monitora. O meu amor.
Eu estava disposto a visita-la no hospital, fazer uma surpresa, mas, soube aleatoriamente que o professor Guilherme sempre ficava com ela; e se eu quisesse fazer, dizer algo não daria. Então eu estava esperando a sua alta para poder visita-la tranquilamente, no seu quarto, ocar em seu rosto; entregar a carta que eu escrevi, olhar nos olhos dela e agradecer por ela estar viva. Que era o que realmente importava.
Niedja, a substituta vivia dizendo que estava tudo bem, que logo ela teria alta, que tudo estaria certo e ela voltaria não só a monitorar, como a estudar e a trabalhar também. Mas, ela não dava datas, eu estava ficando nervoso e Leo me olhava com aquele ar de “não demonstre de se importar tanto”, “disfarce”, “não mencione o nome dela” .
E chore no seu quarto a cada final do dia. A falta dela me deixava estranho, não vê-la, não senti-la, olhar naqueles olhos era o um dos meus melhores sonhos que foi realizado. Seu perfume, sua voz, seu jeito; sua beleza. E eu tinha medo de algo muito ruim estar acontecendo com ela. Mas, eu sentia falta dela. Queria falar com ela e dizer o quanto ela era luz para mim.
—Hey Young! ♪Novatooo! Bonjoour♪ – Luco deu um grito quando eu e Leo entramos no refeitório para tomar nosso petit déjeuner. – Oh! Não! Não finja que você não consegue me ver. – Era todo o dia a mesma coisa, chamando a atenção para si, e sempre todo mundo que estava no refeitório no momento virava pra mim e quem quer que estava comigo, e acompanhava o que aquele “centro das atenções de olhos bicolores” queria que nós fizéssemos. Como sempre, queria companhia.
—Bonjour Luco. – Disse depois de pegar o meu cereal e ir sentar com ele.
—Então Victor... – Disse Leo no meu ouvido. – Eu não vou sentar hoje com vocês dois. Marjorie não gosta dele e... – Ele me encarou. Você também não precisa sentar com ele. O Cainan vai te odiar por andar com esse esquisitão aí; aparentemente ele já não gosta dele e vai te odiar. Tô tentado te deixar longe de confusão... – O olhei frustrado, mas eu já estou no meio de uma confusão.
-Mas...
—É melhor evitar.
—Ei; — Chamou Luco. – Vem cá Victor; tem uma pessoa que eu quero te apresentar.... – Ele me olhava como se suplicasse. – Vamos, pega logo o seu amigo e sentem aqui...
—Eu não quero brigar contigo. – Falou Leo me encarando parecendo frustrado. – Não precisamos ir, de fato.
—Nem eu quero brigar com você. Mas; só hoje, só mais uma vez; por favor...— Leonardo revirou os olhos. – Sil vous plaît... – Leonardo arfou. – Disse que ia me proteger. Mesmo não precisando de proteção. Ele só quer companhia...— Cochichei.
—Tá bom; só mais uma vez. E a última vez. – Acenei concordando. – última vez Vict... – Assim que sentamos, não só demos de cara com o Luco, mas, com uma jovem que também estava com ele.
—Calouro, amigo do calouro...
—Leonardo. – Leonardo respondeu, mas, Luco sorriu.
—Calouro e amigo do calouro... – Leo fez um bico, mas, ele também não chamava o meu nome; então tava tudo certo. Em seguida Luco colocou uma mão no peito e depois com a outra mostrou uma garota que estava do seu lado (?), como uma apresentação bem elaborada. – Essa é a Pan... Pan... Minha amiga... a; mais linda... a mais especial... – E nós olhamos para a tal garota chamada: Pan.
Ela tinha os olhos claros, como se fossem castanhos, porém, muito mais claros; seus cabelos eram loiros desbotados e assim como Luco tinha algumas olheiras, bem poucas, mas tinha. A maquiagem cobria uma parte, mas, não o suficiente. Seus lábios pareciam estarem cortados, pelo frio. Ou por uma lamina. A garota nos encarou e fechou a cara para Luco; como se estivesse ou xingando ele mentalmente, ou nos xingando, ou estivesse com raiva do que ele falou.
—A mais linda? Assim? A mais especial? Assim? Entre pausas? – Ela parecia intimida-lo.
—Sem pausas...
—Parece que você nunca esquece aquela outra criatura.... – Luco riu. – Pausas... Erros... nunca se dá uma pausa demorada. Olha o seu erro... – E ela revirou os olhos. – Pelos Deuses; Seward. Ainda pensa nela?
—Não... Não penso naquela criatura.
—Está mentindo que está mentindo para mim? – Ela passou uma mecha do cabelo para trás. Mas, não funcionou, e ela fez um coque. Ela parecia nervosa.
E eu e Leonardo continuamos comendo o nosso café. Briga?! Como dizem? D’accord!
—Não é verdade. Não estou mentindo. E outra; não é desse jeito que você é. Nem de longe te vejo assim... – Ela se voltou com tudo para ele e apontou o dedo no peito dele. – Você é calma, tranquila, dóc.
—Você não me conhece! Você só vê o que você quer!
—Ora Pan; — Ela deu ombros e fez um gesto para ele se afastar, como um “xô”, e foi abanando a mão. – Tá bom... Tá tudo bem, então. – Ele se afastou sorrindo.
Ela esticou o braço para nós e parecia perfurar nossas almas com seu olhar; seguramos em sua mão e a cumprimentamos, ela estava demonstrando uma postura diferente e estava com um meio sorriso na boca.
— Pan não. Não me chamem por essa modificação e junção das três primeiras letras que formam esse apelido. Meu nome é Pandora Hackbart! Nascida na cidade de Karlovac; então, meus costumes são diferentes dos seus. Completamente diferente desse entusiasmo de vocês. É um (...) curto prazer os conhecer. – Erla me pareceu esnobe.
—Curto? – Perguntou Leonardo. Luco fez uma cara de “não”— como assim não sabe o que é curto? Isso é sério? Você é b. – Ela foi interrompida.
—Oooopaaa!!♪– Gritou Luco chamando a atenção para ele, novamente; dessa vez fazendo também Pandora para de falar e o encara-lo de forma horrorizada. Ele deu aquele sorriso assustador para ela e para nós. –Então; a Pandora é meio alemã, meio croata nascida... Em...?
—Na Croácia! – Ela revirou os olhos.
—Nós nos conhecemos á muito tempo. E eu achei justo apresenta-la á vocês dois. Igual a nós; além de todos estarmos em Paris, ela voltou para o Curso de Cênicas; igual a mim. – Ela revirou os olhos parecendo irritada. – “Pan, você não pode xingar os amiguinhos…”
—Não são meus amigos! Não me chame de Pan! Para com isso!
—Ei; Hey... – Luco então chamou a atenção dela segurando seus ombros, ela era alguns centímetros mais alta que ele. Mas, ambos estávamos sentados, parecia o mesmo tamanho. – Il est l'ami de “Vert est l'ennemi.”
—Ami?
—Un. – Eles começaram a cochichar como se nenhum de nós dois estivéssemos ali. E como se nós não estivéssemos aprendendo francês; e na conversa dizia que éramos amigos de alguém.
—Qui?
— De première année... – Ela balançou os cabelos e bebeu suco. – Se acalme, vamos nos conhecer. Se conectar. – Eles me encararam e Leo me deu um cutucão.
—“Acho melhor sairmos agora...” – Mas, estávamos presos com dois estranhos. Um bizarro e uma garota irritada, muito nada a ver. Hoje é quinta-feira, e tinha curso de francês, com o Guilherme depois das aulas normais. Então, quanto mais tempo perdíamos ali, mais tempo perdíamos em aula.
—Se acalmem... Nós acabamos de nos sentar.
De fato, verdade.
Mas, me pergunto exatamente porque Luco saiu da França e voltou agora. Ele tinha uma cara de que iria armar alguma coisa á qualquer momento.
—E onde vocês se conheceram? –Pandora perguntou para Luco se referindo á nós; ele que deu um sorriso.
—Em um esbarrão no meio da rua. – Ela pareceu surpresa. – A Monitora do meu andar deu um empurrão nele, ele poderia ter se espatifado no chão... Poderia; mas, quem o salvou?
—Não foi um empurrão, ou um esbarrão; nos trombamos. – Ela me observava.
—Você o salvou? – Ela me ignorou e voltou para Luco.
—Não. A própria Monitora. – Ele pegou uma colher. – Então, a partir daí se provou que amor é uma tela em estática... – Ele falava em devagar passando seu olhar pelo refeitório. – É passo em falso... Não há definição em certo; e para mim, se não há definição, me é inútil. – Luco estava com um olhar cansado. Como se estivesse com sono, ou drogado. – Inutilidades... Mas, aqueles olhares... Me encontrei com ele segundos depois. Depois de olhares apaixonados, quase se beijando... Mas, se desejando. – E ele elevava a voz.
—Você não me contou isso. – Murmurou Leo para mim.
—Eu nem lembrava disso...
—Os olhos deles dois estavam fixos um no outro. Bem cena de filme romântico clichê. Queria ver se iriam se beijar; mas, ela correu. Com o coração dela deixado na mão dele.
—Que coisa... – Ela iria falar alguma coisa, mas, ficou sem palavras. – Clichê.
—Ela acabou danificando o uniforme dele; mas; pasme... – Ele elevou a voz um pouco. – Fez o melhor nó de gravata que eu já vi na minha vida; eu imaginei que aconteceria um beijo; eles se conheciam ao se tocarem.
—Luco...— Chamei a sua atenção baixinho. – Não...
—Ah! Agora lembrou né? – Resmungou Leo.
—Não é isso... É que. – Antes que eu pudesse falar alguma coisa, uma outra garota da mesa da Elite se virou para a nossa mesa. As vezes ela ficava no nosso andar, Andreia.
—Quem é sua Monitora magrelo? –Luco ergueu o peito e formou um sorriso divertido e monstruoso para poder responder.
—Não!
—É a namorada do. – Sua boca foi tampada.
—Luco; para... – Pediu Pandora que parou imediatamente. –Não crie caso. Acabamos de voltar.
—Mikaele? –Perguntou Andreia. Meu corpo gelou, eu paralisei, Luco inclinou o rosto para o lado, e iria começar a abrir outro sorriso. – Você é do andar da Mikaele?
—Mikaele? Vocês são do andar dela? Como assim? – Pandora parecia tão surpresa quanto qualquer um ali. – Mas, ela é Monitora desse comboio?
—Comboio? Está se referindo ao dormitório como uma: “coisa ruim” porque você não é Monitora? – O tal de Shin também virou para eles curioso. – Sabia que você está comprando briga com a gente?
—Cala a tua boca, chinês que eu não falei contigo, o meu assunto é com ele aqui...
Posso dizer que nessa hora começou a maior confusão da minha vida; acho que a maior que eu presenciei. Talvez maior do que quando o exótico beijou a Mika e o grandão e ele brigaram por causa disso.
Leonardo me puxou da mesa para nos afastarmos, e de fato, foi tudo muito rápido, até depois que ignoraram a Andreia e gritaram com o Shin; as coisas só fora piorar e ficar mais confusas. O grandão só perguntou porque o nome da “namorada dele” foi mencionando, e porque estava no meio de uma conversa, sendo que ela nem estava ali para se defender. Então um foi ofendendo o outro... Mas, eu tenho para mim que eles estavam brigando sozinhos, pois, o assunto com Pandora era Luco.
Daí então quem estava na mesa de Elite veio reclamar com eles dois, e Pandora sabia dar uma respostas e Luco com a cara de assustador já era o suficiente. Ele falava umas coisas nada com nada ao que perguntavam á ele. Eis, quando tomamos uma distância razoável deu para ouvi-lo falando. Aliás, berrando.
—Calouro! Volta aqui! – Eu basicamente entrei em pânico e Leo me deu uma cotovelada. – Vem aqui! – Ele gritava comigo enquanto eu e Leo nos afastávamos. E ele me chamava e também reclamava com os Monitores que já tinha se levantado da sua mesa e foram em direção á eles.
Parando para analisar a confusão, até a Éponine estava no meio. Mas, só observando de longe porque como eu imaginei; a garota era arisca.
—Eu falei o que? – Começou Leo. – Que você ia se meter em confusão. Eu disse!
—Mas...
—Ela nem precisou estar presente para começar um alvoroço desses... – Ele abaixou a cabeça para raciocinar. – Nem eu entendi exatamente o que ocorreu...
Assim que saímos do refeitório, havia uma briga instalada ali. E dessa vez, ela começou por causa da “mesa de Elite”; antes de nos aproximarmos do hall de entrada, Marjorie encontrou conosco.
—Mas, o que foi aquilo? – Ela falou alguma coisa em outro idioma rápido demais e ofegante demais, parecia assustada. –O que vocês fizeram? O que você falou?
—Calma... – Eu disse. – Nós não vamos mais sentar com eles. – Pausei. – Leonardo não vai mais sentar com eles. É uma promessa. – Ela nos encarou mesmo assim. – Eu que insistir... Não vou mais insistir.
—Porque insistiu? Ele parece perturbador.
—Ele é! – Falou Leonardo.
—Então... – Marjorie queria mais informações, mas, na verdade, eu não tinha nenhuma para dar do porquê. Era como um magnetismo, algo que me atraia para junto dele. Agora “eles”.
—Não vai ocorrer novamente.
Porém, não era possível que apenas eu sentia uma energia diferente vindo deles... Era como se eu ficasse com eles eu estava sendo legal, notado.
Não que Mikaele não havia me notado antes, mas, era como um poder.
O mesmo poder que o exótico usou para beija-la na frente do Cainan.
O mesmo poder que Luco tinha para se sentar na mesa de Elite, sem se importar com palavra alguma.
O mesmo poder que aquela garota tinha para mandar um Monitor calar a boca ou falar algum palavrão em outro idioma.
Eles tinham esse poder. Eu queria ter esse poder para dizer á Mikaele o quanto eu a amo; o quanto eu quero ficar com ela. Isso me daria poder para enfrentar o grandão, de ignorar os que acharem ruim, e mandassem quem fosse contra a merda.
Ter o poder para protegê-la e não deixar ela se preocupar. Era só isso que faltava. Poder para me tornar corajoso.
E eles, emanavam isso.
E Luco simplesmente simpatizou comigo. E já era meia-metade, de um caminho andado. Talvez a nervosinha não gostou, mas, não dá para agradar todo mundo.
*
Naquela noite, depois da aula e do curso, eu e o Leo evitamos nos lembrar da confusão da manhã. Apesar de que ela foi muito rápida, eles tiveram coragem para peitar os outros sem medo.
Como eu disse; poder para fazer essas coisas. Eu não estava querendo jantar, mesmo que Marjorie oferendo que nós três fossemos do outro lado do Rio Sena para jantar, ou que ela fizesse algo para nós comermos; só queria me deitar. Talvez pegar algo para comer e ir para cama. Estava bem cansado, pensativo; porque o simples nome dela deu um alarde? Quem começou?
Digo...
Na biblioteca Luco parecia conhecer Mika e ela o conhecia. Então, a nervosinha a conhecia também. Ambos se conheciam. Não faz sentido nenhum; mas, quando encontrei com Luco naquela primeira vez, ele parecia querer ver alguém, estava interessado em alguém. Enquanto me questionava nessas coisas, vi Kathy.
Mas, não uma Kathy alegre, saltitante e exagerada em palavras e gestos. Ela não me viu, veio da rua, atravessou o hall de entrada como um carro sem freio, subiu as escadas em olhar o que estava ou não a sua frente e continuou subindo. Sem olhar para os lados, desesperada e eu pensei em segui-la. Essa foi a minha primeira ideia. Mas, ela correu rápido demais, e mesmo que eu fosse atrás dela, da distância em que ela já estava não daria mesmo.
(...)
Daria?
—Gaúcha! Espera! – Subi as escadas tão rápido quanto pude. Mas, mesmo que eu gritasse a plenos pulmões, ela não me ouvia, ou fingia que ouvia e só não respondia. Ela subiu o 1º andar, 2º, 3º, passou o 4º andar direto, e foi andando até o 6º quando parou de correr e se virou com tudo para mim.
—O que você quer? – Ela parou e olhou para os lados. – O que é guri?
—O que você tem? – Ela respirou fundo. – Sumiu, eu te vi hoje porquê...
—Hoje não dá para conversar.
—Então, amanhã? Você está bem?
—Talvez nem amanhã!
—Só que...
—Deixa que EU falo contigo... Não me segue, pelo amor de Cristo! Bonne nuit! – De repente notei e percebi que gostava do falatório dela, e que poucas palavras eram insuficientes.
*
É horrível estar em um lugar em que ela não está.
Eu pressiono minha mão contra a porta do frente, e em seguida a minha testa vem descansar contra ela, também. É entediante. Chato.
Vazio.
Não ouço os seus passos passando de um lado para o ouro, ou as batidas diferenciadas que ela dá nas portas ao amanhecer e ao anoitecer. Ás vezes eles eram lentos de manhã, ou fazendo um toque musical. Essas batidas eram as melhores. As vezes seus passos eram lentos, sem demonstrar pressa mesmo estando atrasada; e conseguia fazer tudo sem se atrasar. E mesmo que ás vezes fosse difícil ficarmos sozinhos por longos períodos, ela é magnifica, linda, criativa e inteligente.
Por isso, eu não quero que ela fique longe mais tempo do que está. Parece que tudo está é uma bagunça; é quase março e deixou o meu mundo cinza. De novo. Mas é claro que eu não quero outro coração partido, igual quando eu vim do Brasil. De coração partido, porém, pronto para amar. Ou no nosso caso; por ironia e jogo do destino. Ou algo que a vida combinou que fizéssemos novamente como á anos atrás quando nos conhecemos pela primeira vez; não dá para acreditar nesse negócio de reencarnação; mas... Como podemos nos conhecer a tão pouco tempo e ainda sim, sentir que a conheço a tanto tempo? É uma sensação que me intriga todos os dias.
.
Desde o dia em que conheci Pandora, e a discussão entre eles e os Monitores se espalhou pelo refeitório; como prometido á Marjorie comecei a comer com eles, e alguns alunos que ainda tinham coragem de se alimentar no refeitório; era mais rápido, mais ágil, comia e ia para o colégio. Mais rápido do que sair daqui, ir em uma padaria, e ir para o colégio.
Mesmo que todos os dias Luco me chamasse todos os dias, eu tinha que recusar.
Sem contar que dia após dia, aquela mesa ia sendo preenchida por mais gente. E mesmo que até Pandora me chamou uma vez; e eu não podia fazê-lo, prometi que não. Mesmo querendo muito.
Naquele dia tinha basicamente seis pessoas na mesa com eles e eles tentavam manter a calma, mas, como se não bastasse, Luco era o mais chamativo daquele meio todo, embora, ele não ligasse para o alvoroço que fazia. Posso dizer que senti falta das perguntas e assuntos completamente constrangedores naquela manhã. “Eu te procuro”, porque ela sabe onde me achar; mas, eu não faço ideia para onde ela foi naquela noite. Então eu não poderia procurá-la.
Não posso visitar a minha querida Mika.
Não posso sentar com os estranhos dos amigos do Luco.
Poder eu posso; mas, a mesa está cheia e onde eu estou sempre tem problemas.
Antes de pegar o meu jantar naquele mesmo dia; agora sendo noite, do lado de Leo e Marjorie conversávamos sobre aas próximas festividades.
Haverá um baile de primavera e eles querem ir. Infelizmente, eu não tenho um par; desde que Mikaele foi para o hospital; ela estava bem e logo receberá alta; Éponine tem ficado muito tempo com o Cainan, então para mim não fede nem cheira. Parece que ninguém aceita; mas, não é da conta deles.
—Mas, será divino Vic... – Falou Marjorie. – Eu arrumo uma companheira para vous. – Ela apertou o meu braço. – Será divertido. Sempre é divino!
—Todo ano você vai? – Leo perguntou.
—Quando sou sorteada,
—Como assim sorteada?
—Tem um sorteio... não dá para ir muita gente. Então tendo uma certa quantidade há um sorteio.
De repente um braço passou por volta do meu pescoço e me puxou para longe dos meus amigos. Dignamente eu evitei o escândalo e o pânico; mas, não conseguia ver quem era porque a rapidez que me puxou e me arrastou, foi anormal. Meu pescoço estralou e eu soltei um “ai”. Eu olhei para Leo e Marjorie e dei um sinal de joia. Estava tudo ok. Éponine sempre faz isso. Aliás estava tudo ok né?
Não!
—Bonsoir mon’ami... – Aah! – Quanto tempo; quase uma semana... Se não fosse assim, não seria de jeito nenhum porque você abandonou a mesa legal hein!
—Luco? Eih! Para Por favor! – Ele parou e ficou. – Me solta? Dá pra me largar? – Ele continuou parado com o meu braço em volta do meu pescoço. – O que foi? –Imagino que ele me olhou. Na verdade desse jeito não dava para ver o rosto dele, ele é mais alto que eu.
—Calouro! – Ele exclamou dando um sorriso e me apertando. – Então Calouro... Existem três coisas que não são legais de se fazer... 1ª Encerrar uma amizade do nada... 2ª Contar mentiras paras se safar de uma punição e a 3ª Ignorar os amigos... e você está fazendo a terceira. – Refleti por um momento.
-Mas, nós não somos tão.
—Somos sim! Pela minha lei!
—Sua lei?
—Ah! Somos amigos ou não?
—Bem... quase isso. Não?
—Quasee... – E ele voltou a me arrastar para algum lugar perto do hall de entrada e longe do refeitório. – Quase não existe. Ou é, ou não é. Você é ou não é? – Ele apertou o meu pescoço só mais um pouco; não para me sufocar(...) creio que não.
—Sou! Eu sou! – Falei quase sufocado. – Sou sim! – Então ele me soltou e no mesmo instante me virou para ficar frente a frente com ele.
—Você conversa com ela?
—Ela? Ela quem? – Meu Deus! Com ela quem que eu converso?
—Uma garota alta; magra; de cabelos loiros; silhueta perfeitamente musical – Silhueta musical? – Olhos tão lindos quanto o breu da noite e o sorriso tão magico e reluzente quanto todas as estrelas da galáxia.
—Uau! Ela deve ser muito bonita... – Luco sorriu.
—Ela é maravilhosa! – E de repente eu o vi “feliz” não com o ar alegre. Mas, realmente feliz em falar da tal garota. Seu sorriso era enorme e seus olhos brilhavam.
Então, o sorriso era assustador; mas, era um sorriso. –E ela estuda aqui. – Quando eu o conheci, sua voz parecia uma nota quebrada de um acorde de violino. E agora, a nota tinha sido afinada e até poderia uma bela música... Mas, ainda soava estranho. – E eu quero ver ela de novo. Você fala com ela?
—Luco!
—Eu?!
—Ela quem? De quem falamos? Quem?
—Aah! Ah! O nome dela é Kurz. Katherynne Kurz.
Céus! A gaúcha! Ele conhece a gaúcha! Les se conhecem? Conhecem! Então; eu fiquei preocupado desde quando eu o conheci achando que ele gostava da Mikaele; quando na verdade, ele gostava da gaúcha!
—Como?
—O nome dela é Katherynne Kurz... Sim; parece alemã, mas, ela é brasileira. E tipo...
—Eu sou brasileiro? Isso? – Ele bateu palmas sorrindo, como se fosse dar uma gargalhada.
—Completou a minha linha de raciocínio. Deve ter falado com ela em algum segundo. Então, você vai jantar comigo hoje.
—Mas, eu estou atolado de trabalho. Tenho muita coisa para estudar e sinceramente estou atrasado na lição e...
—Você está andando com o cara certo.
Poder. Isso é poder Victor Azevedo. Isso é poder.
(...)
—Então; gente, ignore todos os que estão na mesa e conheçam esse ser humano que. – Falou Luco com o braço envolto do meu pescoço. Eu tentava olhar para trás para procurar Leo e Marjorie; mas, já era. Eu queria poder....
Acho que se eu fosse para Hogwarts e colocassem o Chapéu Seletor em mim, só por querer poder eu iria para a Sonserina.
Eu queria mesmo ficar com a Mikaele, queria ter coragem para conquista-la, só para ter o sentimento e a sensação de olhar nos olhos dela e dizer “Você foi difícil; mas, valeu a pena cada sacrifício. ”
Ter a sensação dela nos meus braços. Coragem para dizer que cada dia que eu passei com ela foram mágicos e especiais para mim, e sem ela foram os dias mais sufocantes e insuportáveis sem ela.
Na mesa em que ele e a nervosinha estavam tinha mais quatro pessoas; e eles estavam tão(...) apagados quanto Luco e a nervosinha. Mas, pareciam alegres. Aquele mesmo sarcasmo que Luco sempre teve. Desde que me conheceu; aquela loucura dele, aquele jeito escandaloso dele.
—A Mikaele deixou o coração dela nas mãos dele. – Completou a nervosinha.
E o meu coração travou então.
Todos que estavam na mesa vibraram. Ou seja, o dormitório inteiro nos encarou; claro que encarou, eu senti as minhas costas queimarem de olharem curiosos e furiosos. Marjorie e Leo devia estar irados. Claro que eles estavam, mas; não tinha como me desgrudar do braço de Luco e eu nem queria na verdade. Podia ser uma péssima ideia, mas, era por pouco tempo. Até eu ter coragem para falar com a Mikaele.
Era uma péssima ideia, lógico que era.
E eu já devia imaginar isso pelo modo que todo o refeitório os encaravam. Formula a frase; da maneira que o dormitório inteiro nos encarava de cara feia e em dúovida.
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