E Eu sou o Amor da Sua Vida?
17 Tour exclusivo
Notas iniciais
Victor
“Alô. Sou eu... Eu fiz uma música pra você”
“Mas só de ouvir a tua voz eu já me sinto bem.”
“Não estou dizendo que será fácil, estou dizendo que valerá a pena.”
“Eu só quero ficar ao seu lado para sempre.”
“Mais uma noite e você consegue me encantar cada vez mais.”
Eu estava sorrindo igual um idiota. Um trouxa? Sim; digamos que sim. Mas é tão gostosa essa sensação, a sensação de você passar um tempinho com quem você gosta, conversando, se olhando; no meu caso primeiramente só observando de longe. Não me atreveria á me aproximar, um cara já fez isso...
Quando aquele exótico beijou a “minha” garota, eu fiquei desnorteado, eu saí do refeitório e fui direto para qualquer outro lugar, corri direto para o meu andar, porém, não queria ficar no meu quarto, pois na hora em que eu entrei nele, me debrucei na mesa e me senti sufocado, peguei um caderno, uma caneta e fui para a varanda do quarto andar, não era o suficiente para o meu sufoco passar, então tentei outro lugar, o terraço. Juro que até pensei em pular dali, olhei para as luzes de Paris, olhei para cada luz daquela cidade e imaginei um mundo só meu. Como se aquela cidade fosse minha; Agora, eu iria caminhar para o futuro incerto. Eu não conseguiria viver neste agora em que ela não estivesse comigo, ela não tinha como estar comigo, a idade não é apenas um número, as pessoas mais velhas são estranhas por dentro, tem mais oportunidades, mais quereres, mais loucuras e tem aquele por cento de felicidade que os mais novos não tem por não poderem... Não importa o quando eu cante palavras bonitas, com certeza nenhuma delas iria a alcançar. Não importe o quanto eu pense nela, o quanto eu a procure, ela só iria se afastar. Existem vários motivos para eu desistir dessa idéia de pular; um; se eu pular e na minha queda desse lugar machucar alguém lá embaixo? Mas, esses motivos não vencem um único sentimento que é "eu gosto dela". E outra se eu o fizer eu não terei outra chance mesmo. Porque então tudo acabaria, não existiria um depois, iria acabar ali mesmo. Quando eu pensei nisso, me afastei do muro e antes de raciocinar o que eu ia fazer ela apareceu do nada, e tudo o que eu podia fazer era me esconder.
Independente do que foi que conversarmos, ela estava lá no terraço e usou o plural “nós estávamos”, isso sem ela me ver, apenas eu podendo vê-la, foi mais do que um sonho, uma realidade que eu estava esperando á muito tempo. Olhar naqueles olhos era o um dos meus maiores sonhos que foi realizado. E eu entrei no quarto dela, eu não dormi, mas exclamei que ela fica sexy quando escreve o que não é mentira. Ela remexe os meus pensamentos, meu coração minha razão, ela remexe tudo em mim, no meu emocional, psicológico, físico. Na minha vida inteira, como eu nunca havia me sentido antes com nenhuma outra garota. Só de segurar ela nos meus braços quase fez meu coração sair pela boca. O sorriso, a respiração dela, ela em si.
Quando me levantei e fui lavar o rosto, percebi que eu era novo demais. Ou talvez não; eu nem pareço ter 13 anos. Porém, eu era muito tímido. E estar no mesmo quarto que ela, gostando da companhia me deu aquele clima de sorte. Eu sei que sou e fui um pouco imaturo; eu queria falar tantas coisas, mas no momento nada me vinha á mente. Eu estava nervoso, era a pressão, por culpa da fome, talvez ou era outra coisa, do mesmo jeito eu falhei outra vez.
É por causa da minha idade? É a minha falta de prática? Eu tenho que me esforçar mais; dessa eu sei. O que é que eu faço? Porque se eu não demonstro parece que eu não me interesso; mas se ela imaginasse como eu a admirei ontem, meu coração bateu tão depressa que ameaçou sair do meu peito, porque não há alguém que me chama mais atenção do que ela está chamando. Eu não sei exatamente como as coisas começaram á ficar tão intimas assim; no primeiro dia em que eu a vi jamais imaginei que ela me convidaria para comer algo que ela mesma fez em seu quarto. Até parecia que a gentileza estava se transformando em afeto. Eu ri para o espelho, que idiota. Sou muito bobo; eu estou tão bobo. Então de repente ouvi Leonardo batendo desesperadamente na minha porta, como sempre, como um louco, me lembrei daquele dia engraçado quando Mikaele dormiu no meu quarto e ele estava desesperado para entrar e ela ansiosa para sair. Abri a porta sendo recebida com um sorriso, agitação.
—Nosso tour é hoje! – Pisquei sem entender. – Vamos conhecer Paris!
—Como assim hoje? A monitora disse semana que vem coisa assim... – Ele entrou no meu quarto dando uma gargalhada e se jogando na minha cama.
—É; mais aconteceu alguma coisa, liberaram para nós, e vamos dar uma bela volta em Paris. – Mordi os lábios, parecia-me confuso. – Talvez a briga de ontem; somos a única turma que ainda não fomos.
—Tem certeza disso Leo?
—Lógico. Arruma-se; você não tem muito tempo. – Ergui uma sobrancelha. – Estourando oito horas temos que sair daqui. Apesar de que acho que aqui na França não usamos esse tipo de gíria.
Eu estava confuso. Respirei fundo, ela disse que faríamos a tour semana que vem. Ok; agora o tour é hoje. Me livrei de uma aula de francês com o tal de Guilherme, pensei o seguinte; se o grandão não sabe que eu gosta da “possível” namorada dele, vai saber o que houve depois de ontem á noite; talvez o Guilherme não vá com a minha cara pelo irmão dele. Eu me arrumei com o meu agasalho, cachecol, luvas e touca que comprei especialmente para a França. E fui para o hall de entrada, onde estavam todos os calouros do 4º andar. Não éramos muitos, mas estávamos animados, íamos passear em Paris com...
—Bonjour! Je suis Niedja, Prazer; eu sou a Niedja. – Ela se apresentou formalmente em quatro línguas diferentes, francês, inglês, espanhol e português, sem gaguejar ou se tremer. – A Mikaele não pode vir hoje. Então ela pediu para que eu pudesse conduzir vocês por um passeio em Paris. Não se preocupem Pierre também e estaremos completamente seguros e... – Levantei a mão. – Sim?
—Onde a Monitora está? – Niedja tem os cabelos cacheados castanhos, te sotaque. Brasileira com certeza. Têm lábios bem desenhados e um rosto oval, sua pele é dourada, e seu sotaque é diferente do da Kathy é mais puxado, é mais do nordeste. Ela tem um olhar doe e calmo, como da Mika, e uma voz que transmite segurança.
—Primeiro; você pede “com licença” e dá “bom dia” e então faz a pergunta, nunca; nunca vá perguntando logo de cara. Isso é falta de educação, se fizesse isso com um francês ele lhe daria as costas. – Fiquei quieto enquanto todos me olhavam. Abaixei a cabeça com vergonha, recebendo um cutucão de Leo e retribuindo. – Mas, respondendo sua pergunta; ela ia ao hospital, depois para o trabalho tinha um problema para resolver e pediu para eu fazer isso.
—Obrigado. – Meu rosto estava queimando com todos aqueles olharem em minha direção.
—Leo... – Era Marjorie, ela deu um beijo na bochecha dele em seguida um selinho. – Victor... Vão á tour? – Leo acenou positivamente e recebendo um beijo de verdade, eu virei para o lado, não queria ver aquilo. – Queria tanto ir com você; ir pra escola será tão entediante. – Ela passou a mão pelos cabelos dele. – 14 de fevereiro eu quero que saia comigo.
—Porque dia 14? – Leo a encarou. –O que tem dia 14?
—Dia dos namorados... – Respondi invadindo a conversa.
—Mais é em... – Com certeza ele diria dia 12 de junho.
—Na França. Na Europa. – Fui curto.
—Mas...
—Não diz nada, você vai. Aproveite o passeio, não perca a chance de fotografar tudo. E lembre sempre de mim. – Ele sorriu.
—Temos um roteiro de tour que durará cerca de oito horas, feito pela Monitora; vamos para a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo e desceremos a Avenida dos Campos Elíseos e atravessaremos a Praça da Concorde, iremos á Notre Dame, almoçaremos, depois iremos ao Louvre, ao Opera Garnier de Paris, ao Moulin Rouge, depois ao Sacré Couer e encerraremos no Place Tetre; Montmatre...
—E conseguiremos ir a todos esses lugares? – Perguntou uma morena alta que estava na minha frente, não era algo inteligente á se perguntar... Lógico teve eu e minha vergonha; mas, enfim, tranquilo.
—Sim. – Ela ergueu uma sobrancelha não aceitando que discordassem dela. – Vou entregar o crachá de vocês e já podemos ir. – Foi aí que ela apareceu. Meu coração foi á milhão; ela estava linda, como sempre, e eu estava surpreso de vê-la, um sorriso cresceu em meus lábios. Niedja disse que ela estava ocupada, e ela estava linda. Ela já é linda, mais estava muito mais linda, estava admirável, fazendo meu coração pular no peito. Como alguém podia fazer isso com outra pessoa?
—Nih... – Mika a chamou, ou cumprimentou?
A presença dela me deixou surpreso e Niedja também pareceu surpresa. Ela cruzou os braços se aproximando de Niedja e lhe disse algo, que á fez olhar para nós, para o grupo. – Victor; Azevedo se encontra no meio? – Niedja me chamou e eu levantei o braço, mas Mikaele com sua mão fez um gesto para que eu me aproximasse.
— Você vem comigo. – Ela falou apenas para que eu pudesse ouvir, me causando um arrepio por todo o meu corpo. – Pela ordem que você desobedeceu ontem. – Ela deu um sorriso enquanto suas bochechas ficavam com um rubor; ela se corou. – Nós. – Disse sem fazer som. Ela fica linda corada, ficada linda sorrindo, fica linda de braços cruzados, ela é simplesmente a pessoa mais linda que eu já vi. Eu na verdade fiz um esforço para não focar nos lábios dela; mesmo eu sendo o mais novo, cinco malditos anos, eu era alguns centímetros mais alto que ela o que dava um par perfeito de “o mais alto e a mais baixa”. Em minha opinião uma mais alta e um mais baixo era estranho, tipo Leo e Marjorie. Segura o coração e faz o sorriso de que ficou decepcionado de que não ia a tour com seu amigo para sair com ela.
—Ir com você? –Victor; você sabe disfarçar bem. – Por quê?
—Sim. – Niedja se aproximou de nós dois.
—Ele desobedeceu no que? – Mika apontou para cima; ok; o que ela estava fazendo? Me dedurando?
—Poxa, como... O melhor; eu não. Vai ligar pros pais?
—Não. Só não vai sair do dormitório. Apenas. – Niedja riu.
—Cão chupando limão. – Mika fechou a cara.
—Merci.
—E os garotos? Silva e Rowell? Noticias?
—Tenho que passar na biblioteca; saber o que houve com o Armin, como tudo está.
Então eu parei um instante. Isso não estava acontecendo; sério? Todo mundo vai conhecer Paris menos eu?
— Vamos formem uma filha intercalando menino e menina. – Ela deu tchau para Mika e voltou ao grupo.
—Niedja; não. – Pierre a alertou. – Uma fila de meninos e uma fila de meninas.
—Victor? Você não vem? – Leo me chamou, eu o olhei para ele em seguida olhando para ela e acenei negativamente. Daí eu comecei á pensar, ela estava encantadora, mas, porque não me deixou ir a tour; como ela pode fazer isso? Eu quero ficar com raiva, mais eu não consigo, nem tem como, simplesmente porque é ela. Ela sabia onde eu estava ontem, talvez... Não consigo reclamar, eu queria ficar com ela, mas ela ia sair; então, qual é o propósito disso tudo? Não sei se alguém jogou uma praga em mim. Eu perdi o tour, perdi a chance de conhecer o lar da garota que eu queria ao meu lado. Mas; naquele momento ela estava do meu lado. Bom ou ruim? Ela encostou-se em mim dando um empurrãozinho. Congelei.
—Me desculpe por fazer você perder esse tour. Mas, antes queria dizer que ontem... – Ela respirou fundo. – Sua companhia foi tranqüilizante. – Eu olhei para ela sério, eu não sabia o que dizer. Olhar para aqueles olhos brilhantes e castanhos escuros me deixava tonto, com vergonha, mas me impedia de desviar o olhar. Eu virava refém daquele olhar, sem mais, nem menos. Apenas de olhar. – Não sabe como foi um bom companheiro. Eu precisava de algo que me acalmasse. Foi muito autoritário o que eu fiz agora, mas, sabe quando você precisa de algo e alguém dá? Pois então, obrigada. – Eu estava petrificado a observando. – Deixa eu te recompensar; eu sei vai ser um tédio quando seus amigos chegarem vão estar falando tanto de Paris, mas, você também pode falar de Paris. Então pra não ficar sem ter o que falar. Você também tem que conhecer essa cidade. Nós precisamos dar um passeio. – Ela falou se aproximando muito de mim, mordi os lábios e ergui uma sobrancelha. Controlando as minhas emoções, me afastei um pouco.
—Vamos? – Eu estava ficando nervoso, ela se reaproximou mais. – Eu e você? Só nós dois. – Ela disse na maior calma do mundo.
—Sim. – Meu Deus, isso está acontecendo? Ela sabia como a proximidade dela me colocaria em uma situação tensa á qualquer momento?
—Por quê? – Meus sonhos estão se realizando?
—Porque ambos nós dois desobedecemos a uma ordem; e seria bom passear com a pessoa que também desobedeceu às ordens comigo.
...
—Mas... – Eu fiquei um bom tempo sem responder nada. – Aonde? – Engulo secamente.
—Por onde mais Azevedo? – Ela sorriu. – Por Paris. – Seus olhos brilharam e eu pude me ver refletido neles, ela era tudo o que faltava na minha vida. – Vamos?
Porra Victor. Acorda, não vá desmaiar. Você está tão feliz e não vai pagar nenhum mico, por favor. Eu nem conseguia pensar direito, ela estava tão perto de mim, não frente á frente, mais lateralmente, era o suficiente para mim. Responde infeliz!
—E se eu falar não? – Ela me olhou assustada.
—Fica no dormitório. – Ela então me respondeu com um sorriso.
—Sério?
—Não. Azevedo; não te deixaria aqui; estou te chamando para dar um passeio. Se não quiser ir comigo, eu ligo para Pierre ou Niedja e digo que está tudo bem. Mas, há algo errado em eu querer que você saia comigo? – Seu olhar estava cintilante.
—Quer mesmo? Digo... Eu... Não. Não há nada de errado.
—Parece que há.
—Não tem nada de errado; não para mim. Mas, e pra você?
—Pra mim, está tudo bem; desde que ninguém descubra. N]ao seria a primeira vez que ficamos apenas na companhia um do outro.
—Verdade. – Eu sorri. – Então; como seria esse passeio?
—Olha; não é um tour elaborado, e seus amigos não estar com você.
—Entendi. Tudo bem. – Ela me observava com um rubor no rosto.
—Então; vá pegar um agasalho, uma roupa que não seja da escola, o seu cartão de estudante e a chave do quarto...
—Claro.
Pode dar um grito e fazer a dançinha da vitória, você estava com ela. Eu iria passear com ela, era uma coisa que eu ansiava. Conhecer ela...
Dez minutos depois, estávamos nas ruas de Paris, com menos de 45 cm de distância. Eu estava do lado da calçada e ela do lado da rua; e o tempo estava para intercalar entre neve e chuva, mas estava tão belo e eu parecia estar andando nas nuvens. Eles iriam visitar a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, a Notre Dame; como eu queria tanto visitar a Catedral de Notre Dame... Eles vão também ao Louvre, ao Moulin Rouge e outros lugares que eu queria ir... Mas mesmo que eu não vá lá com eles, eu estava com a monitora. Minha monitora dos sonhos, minha monitora encantada, no país mais romântico do mundo.
Mikaele estava alegre, entusiasmada; andávamos com uma bolsa guardando um guarda-chuva, luvas, toucas, e caso algo saísse do controle um caderno. Ela estava contando sobre uma música que ouviu á um tempo e estava contando a história dela. Seus olhos brilhavam junto com o seu sorriso.
—Gosto em particular dessa música porque o toque dela vicia, é contagiante. E a história é até mesmo engraçada. Ou só o toque, porque ela é em japonês, você precisa saber a tradução para entender que não é apenas uma música.
—Você também fala japonês? – Ela me olhou com meio sorriso.
—Está mesmo prestando atenção no que eu estou falando?
—Sim. Porque eu não estaria a escutando? – Você me fascina. — Ela respirou fundo.
—Por; nada... – Ela disfarçou. – Então; conta a história de uma costureira muito conhecida pelo seu talento e ela era apaixonada por um homem;que de tanto que o amava o chamava, denominava e dizia para si mesma que era o marido dela, sendo que ele nem a conhecia. Então, ao decorrer da música, ela conta que ao ver ele com a uma integrante da sua família, que no caso acho que são sua irmã, sua filha e sua esposa, ela fica com ciúmes. Eu não sei se ela se enganou e achou que elas fossem amantes dele ou coisa do tipo, com certeza seja isso, ela começa á matar essas garotas, em seguida ela passa á usar o 'charme' que, segundo ela, as garotas que andavam com ele tinham. Então ela usou a fita da primeira garota, o acessório que a segunda usava, e o quimono que a terceira usava, para ficar atraente para ele. Reformulando, indo até ele com as coisas das falecidas; no final, ela vai falar com ele, que fala normalmente com ela, porque não a conhecia; daí ela se tocou de que era tudo fantasia o fato de que ele era casado com ela e com raiva, ela matou o homem.
—O que? Qual é o nome dessa música? Porque ela o matou? O que? – Ela começou á rir e segurou na minha mão para atravessarmos a rua. Sua mão estava tão fria. E meu coração disparou.
—Eu a escrevo para você; se eu pronunciar eu vou errar. – Ela soltou a minha mão com delicadeza. – Porque ela o matou eu não sei; mas a música é muito boa. E ás vezes...
-Ás vezes?
—Falo um pouco de japonês.
—Porque ás vezes?
—Eu costumo juntar vários idiomas. – Eu ri.
—Eu sei que não quer saber; ou já sabe; mas o seu francês é muito mais que perfeito.
—Muito mais que perfeito? – Ela se aproximou de mim.
—Sim. – Ela sorri como se nunca tivessem dito aquilo á ela; um agradecimento.
—Ora; muito obrigado. – Nós sorrimos um para o outro, meu coração dispara e eu vou bem além da altura da Torre Eiffel enquanto ela me conduz pelas ruas de Paris. Não era confortante, era estranho, mas era perfeito; estranho porque ela devia estar no hospital com o namorado, ou no tour; não comigo. – Merci beau garçon.
—Como? Eu não entendi... Disse obrigado e? – Ela sorriu.
—Obrigada garoto bonito. – Ela disse e continuamos á andar. Ela me chamou de lindo. Nós continuamos andando e entramos em um parque; eu não sei onde ela quer me levar, mas ela parecia ter elaborado muito bem nosso tour. – Estamos no Parc de Bercy; como não tomou café cortamos caminho para um restaurante.
—Eu não tenho dinheiro! – Exclamei assustado.
—Você tem o cartão de estudante. – Ela sorriu, cara; como ela fica linda quando sorri. E ela estava diferente.
Mikaele não estava de coque, ela estava com os cabelos soltos, ela possuía belas mechas pretas, brilhantes, sobre uma boina azul, sorridente, alegre estava linda, nunca a vi além do coque e o uniforme obrigatório e sério; mesmo que estivesse frio para irmos ao parque ela não desanimava e aquilo me deixava feliz, ela estava sobre o céu de Paris comigo; então eu estava especulando uma coisa... Mas; mesmo que fosse cedo demais para especular, era o mais aceitável. Ela estava á fim de mim. Cedo demais para dizer isso? Mais o que mais eu acharia?
Nós tomamos um café reforçado, enquanto ela fazia e eu respondia perguntas bem estruturadas. Como “O que eu almejo, como anda a minha sorte, se sou um líder ou seguidor, o que faz de alguém um bom amigo...”
—Ser fiel, e estar disponível quando você precisar dele. É algo que se deve ter como uma obrigação. Ou não uma obrigação, um simples prazer que você não vive sem. Sabe?
—Sei. E para você?
—Guardar segredos. Que tipo de amigos não guardam segredos?
—Os piores.
Pegamos um ônibus para ela me levar em mais alguns lugares. Mas ela parou.
—Eu não sei se posso te levar em mais algum lugar.
—Por quê? – Ela respirou fundo, com receio.
—Paris é enorme, tem tantos lugares que eu adoraria te mostrar, mais...
—Mais... ?
-Estaria certo? Eu estou te levando para passear, eu fui levada pela emoção eu...
—Estou gostando. – Ela pareceu desconfortável. – Então para onde vamos? – Fiquei entusiasmado e dei um sorriso torto para ela que sorriu em seguida me abraçando.
Meu coração quase saiu pela boca, comecei á respirar forte; meus impulsos elétricos do coração não estavam funcionando corretamente, uma vibração tomava conta do meu peito e eu ofegava. O abraço era quente, apertado, gostoso, era uma realização. Quando ela me soltou, olhou no fundo dos meus olhos e deu um largo sorriso, por um instante achei que iria receber um beijo, mas aquele abraço, aquele abraço e que abraço. A sensação era que não havia ninguém ao nosso redor, mas, Paris vive lotada de pessoas, e algo que não foi mais do que um minuto, pareceu ser uma hora.
—Obrigada pela motivação calouro... Não irei dizer, perderá a graça.
E quando me dou por mim, estávamos na Praça da Bastilha. Posso dizer que é linda, e explicando o local é mais bela ainda.
—Bastille ou Bastilha é essa praça que ao mesmo tempo faz referência à uma grande região parisiense que engloba várias sub-regiões. É símbolo da esquerda francesa. Na Praça da Bastilha, começou a ser construída uma prisão popular homônima, edificação da qual hoje só restam alguns vestígios de muro. Antes de transformar-se em uma prisão, a Bastilha era uma das fortalezas erguidas para defender a cidade. No centro da praça, a Coluna de Julho relembra aqueles que morreram durante a revolução liberal de 1830. – Ela olhou para o céu porque começou á chover. – Oh... – Ela abriu a mochila pegando seu guarda-chuva e abrindo-o, em fiz o mesmo e olhei para ela. – Tinha uma coisa que eu queria te mostrar...
—Mostre.
—São muitos lugares para se ver em um dia só. – Ela sorriu; dessa vez foi para mim, eu sei por que, ela me olhou no canto dos olhos.
—Eu lhe levaria para Lyon; mais... Não tenho permissão para sair do estado contigo. – Ela fez um bico olhando para o nada. – Apesar de que eu nem tenho permissão para estar aqui contigo; só eu e você. Calouro e monitora é algo tão... Responsável.
—Não se sente ameaçada?
—Eu estou feliz, porque me sentiria ameaçada?
—Porque é errado? Você devia estar na tour.
—Estou no tour.
—Não está não.
—Contigo. Em um tour como eu diria? – Ela pensou um pouco. Ela fica tão linda quando pensa. De todo jeito ela fica linda. – Em um tour exclusivo.
—Eu não sou exclusivo! – Ela sorriu abaixando a cabeça, aparentemente sem graça. – Sou?
—Quer sorvete?
Nós pegamos um metrô.
—Eu sou exclusivo?
—Você chama a atenção. – Agora eu ri sem graça; impossível. Então, significa por um mero momento que eu chamo a atenção dela?
Ela olhou para o seu celular, e contou algo com os dedos.
—Algum problema?
—Há tantos lugares que eu gostaria que você visitasse...
—Tipo?
— Tipo, Le Jardin du Luxembourg... – O francês dela é mais do que perfeito. Não canso de me lembrar disso quando ela fala algo. – Panthéon, Las Catacombes de Paris... – Ela ficou em silêncio. – E na Maison de Victor Hugo.
—É sério isso? Na maizon de Victor Hugo?
—Você já foi lá?
—Não. Mas...
—É linda. E não é porque o Guilherme te zoa de Victor Hugo que tem que pegar raiva dele. Nem do Guilherme... Estamos chegando em Notre Dame.
—Vamos a Notre Dame?
—Poderíamos ir; com o perigo de encontrar toda turma... Mas, não hoje. É que a sorveteria Berthillon é perto de Notre Dame. É a melhor sorveteria de Paris... Ou do mundo... – Quando estávamos saindo ela se virou pra mim da forma mais sensual que eu poderia ver naquele dia. – É Maison; não maizon.
*
Eu achei estranho ter tantas pessoas em uma sorveteria em pleno inverno, mais, Mikaele me ensinou que no verão aquela sorveteria em especial fecha suas portas e toda a produção vai para os clientes profissionais, hotéis e restaurantes. Assim a qualidade do produto é respeitada. E que é normal na Europa tomar sorvete no frio.
Tomamos sorvete olhando um para o outro e ela sorriu para mim. Deus; como eu amo Paris, como eu gosto da companhia dessa garota. O que ela pensaria se eu dissesse isso á ela? Que eu gosto dela? Não apenas isso, que sinto algo á mais por ela, mesmo que seja impossível; não é impossível. Eu sei que sinto isso disparando em meu peito de uma forma anormal. Pedimos nosso sorvete e nos sentamos em uma mesa longe da entrada, não é um estabelecimento enorme, mas é aconchegante.
—Porque você veio para França? – Estreitei os olhos.
—Uma oportunidade nova.
—Você não veio por causa da faculdade de Artes Cênicas né? – Fiz um bico sem graça.
—Não. Não exatamente. Francês não estava no meu planejamento.
—Não?
—Eu fazia curso de espanhol e inglês. No máximo do máximo; eu devia ter ido para Madri ou...
—Londres. – Ela completou.
—Isso.
—Mas, então o que aconteceu?
—Foi como uma rota de escape; eu não estava muito bem no Brasil; eu estava decepcionado e...
—Por quê?
—Não é por mau, eu não quero falar. Se eu falar eu iria começar á chorar, e eu vou ficar triste e eu queria mesmo era aproveitar o dia.
—Então aproveite seu sorvete em forma de flor.
Sim. Era em forma de rosa mesmo.
—É magnífico. Mas... Só por pura curiosidade; sabe que não é um tour né? Eu estou classificando como passeio.
—É um passeio mesmo.
—Isso não te soa estranho? Não que pra mim soe... Na verdade...
—Ora, ora, ora; Sales!
Sua feição muda rapidamente, ela congela e fica em silêncio olhando para a figura que chamou pelo seu sobrenome. É um rapaz; com certeza mais alto que eu, seu estilo era tão exótico quanto ao do cara do dormitório sem queixo. Seu cabelo era estilizado e prateado; não platinado como o do exótico, era prata. Ele usava uma touca e uma parte do seu cabelo ficava para fora. Estava com um agasalho vermelho brilhante; na verdade ele estava todo vestido de vermelho, parecendo uma cereja humana. Ele tinha os olhos claros, olheiras e os lábios roxos, não sei se era por causa do frio ou o que.
—Rosseau? – Ela olhou para ele assustada. E eu não sei o que fazer, estou sem graça. Não... Outro admirador não.
—Finalmente se livrou daquela montanha que você chamava de namorado. – Ele riu e se junto á nós, sem convite nenhum. – Por um momento eu achei que literalmente iam se casar. Sair da França juntando os trapos. – Ele ria. Ele pigarreou. – Pardon. Dégel Rosseau. – Ele esticou a mão para mim, eu a peguei desorientado, como é que é? – Como se chama? – Sua voz é entre rouca e assustadora; intimidadora.
—Victor. Azevedo.
—Ele é bem magrelo, né? Fraco. – Ela colocou as mãos na boca e ficou ali, olhando para mim. Após um tempo em silêncio, eu tirei uma conclusão; não gostei dele. Foi como se ela não o tivesse esperando. Pega de surpresa.
—O que você está fazendo aqui?
—Isso é jeito de tratar um amigo?
—Dégel; isso é impossível; você foi fazer música na Rússia. Á quase.
—O que? Sim; faz tempo que eu sai da França; mas eu estou de volta.
—Como assim de volta?
—Pras Artes Cênicas.
—Não.
—O correto seria Non. Mas; eu tenho que ir; seu namorado é bem...
—Ele não é meu namorado.
—Não?
—Eu sou um...
—Ele é o primo da Katherynne.
—Aan? – Fiquei quieto depois disso.
—Primo? Da Katherynne?
—Na verdade... É complicado. – Ela riu sem fazer idéia no que fazia ou falava. – Não gosto de...
—Problema de saúde? – Ela acenou rapidamente. – O que você tem magrelo? –Fiquei completamente sem ter o que falar e comecei á suar frio e meu coração disparou, e eu senti que ia morrer. Aquilo doía me senti tonto e não agüentaria responder nada.
—Dégel... Chega. – Ele ficou em silêncio. – Eu te vejo no dormitório. Bem vindo novamente ao curso de Artes Cênicas.
– Não será agora...
—Quando for então. – Ela sorriu e se despediu dele. Foi um desenrolar estranho, constrangedor e algo que incomodava.
—Au revoir.
Ele se despediu e saiu da sorveteria me encarando. Mordi os lábios.
—Está tudo bem. – Ela apertou minha mão e me deu um sorriso. Ela me tranqüilizou. – Nosso tour só tem que acabar por aqui... Tenho que te levar para o dormitório.
—É necessário?
—Não. Mais é preciso. – Porque querer uma pessoa que cuida de mim como se fosse um irmão? De repente o celular dela tocou. Ela soltou minha mão devagar, como se doesse fazer isso; ou porque não queria me assustar, até parece. Doer. – Salut? Qui est-ce? Ah. Kathy. – Ela sorriu e segurou na minha mão novamente respirando fundo. – Diga. O que? Buscar, como assim buscar? – Ela apertou minha mão forte. –Posso. Claro. Mas, tá tudo bem com ele? ... Você está brincando. E porque Guilherme não tira ele? Tá; eu tiro. Espera... Quanto tempo para sair de lá? Ok. Bisous. a bientôt.
— Está tudo bem com o... Seu namorado? – Ela me encarou.
—Deve estar. Kathy ligou para eu poder tirar o Armin do hospital. Não. Eu...
—Aan?
—Não querem tirar ele. Não conseguiram falar com mais ninguém; sou a estepe. – Ela respirou fundo e soltou minha mão com delicadeza. – Vamos ter que pegar um táxi.
—Esse passeio, – Comecei. – Tinha algum objetivo?
—Talvez.
—Talvez?
—Talvez sim.
—Talvez o que?
—É complexo. Com certeza agora, você não entenderia. Nem eu entendi o que eu fiz, nem porque o fiz. Mas, tem um objetivo e um porque.
—Que seria?
—Azevedo; Se eu falar tudo para você agora, eu não poderia mais sair contigo, perderia toda a graça e todo o mistério. – Ela riu.
—Tem algum mistério?
—É um mistério eu fazer um tour exclusivo contigo? – Rimos.
Ela imaginaria que eu gostava dela? Ela imaginaria que eu estava ali, sem vontade de ir embora?Esse seria o mistério? Ela faria nós nos encontrarmos várias e várias vezes até eu falasse que estava perdidamente apaixonado por ela, de um jeito que estava virando amor, que eu já sabia que era amor, mesmo que fosse muito rápido, que aconteceu tão rápido que ninguém diria que era amor. Porque ninguém acredita em amor á primeira vista. Se não acredita é porque não conheceu a pessoa certa. É porque não é tão sensível. Talvez eu esteja enganado; talvez eu esteja jogando certo, com uma pitada de medo. Mas, vou com medo mesmo.
Ninguém é perfeito, e o bom disso tudo é que ela está aqui comigo e não com o namorado dela; então no caso, isso é magnífico. Se ela quer que eu confesse que gosto dela de uma forma além do gostar, além da paixão; eu poderia fazê-la se apaixonar por mim. Seria um jogo que eu não vou cansar de jogar.
Ao menos fazê-la se apaixonar por mim.
Porque eu sou exclusivo.
Ela disse que eu chamo a atenção dela.
E dizendo isso, ela não faz ideia de como me deixou imensamente feliz.
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