Notas iniciais
Para amoras e amores parisienses que residem no Brasil. Por favor, prestem atenção, caso verem algum erro, estou livre e disposta para receber mensagens.♪♫ ~Enjoy

Victor

Hoje não tinha curso de francês. Mas, tinha aula. Que ia até ás 15horas. E eu ficaria na sala sozinho, porque eu briguei com o Leonardo. E não ia voltar á falar com ele enquanto ele não me pedisse desculpas. Ele não pediria desculpas, então eu teria que arrumar outro amigo ou no caso ficar sozinho. Assim eu aprenderia mais, eu estaria em um tipo de aprendizado; ótimo, estaria feliz. Não preciso de um amigo assim. Aliás, depois que ele conheceu Marjorie, ele ficou mais chato. Quase que insuportável. Qual era o problema?

Naquela manhã eu sentia a falta do Leonardo. Sem querer ser exigente, mas, mesmo que ele desse mais atenção à Marjorie, eles dois estavam ali, e eu os conhecia. Eu também conhecia a gaúcha; mas, ela não era caloura, ela tinha um grupo grande de amigos, eu estava perdido de verdade dessa vez. Como na primeira vez que eu descobri que fui sorteado para vir à França e quando viu meu medo e pavor, Leonardo disse que viria junto comigo. Então não me senti mais tão sozinho, eu tinha uma companhia. Mas, tinha e tenho são palavras diferentes e tinha é passado. Eu podia pedir auxílio à Katherynne, podia chamar outra pessoa do meu curso de português; mas, eu não iria á outros andares. Eu não me dava tanta fé que teria essa coragem e falaria normalmente, então fui sozinho para o refeitório ainda repleto de folhas românticas de um “cupido misterioso, uma admiradora secreta”. Comi iogurte com granola, croissant e suco de laranja. Uma fruta: maçã. O café da manhã devia nos manter acordados e espertos até meio dia. Então, estava tudo bem. Fiquei admirando as folhas poéticas enquanto comia e sentei em qualquer lugar, não no mesmo que eu me sentava com o Leonardo, mas, qualquer um, longe da mesa da Elite, em um canto normal. Sei lá. O refeitório estava cheio, todos lendo as folhas. Imagine; se foi Mikaele que escreveu para mim. Depois do café peguei minha mochila para ir para escola. Em mais um dia. Um grande dia, em que além, de estar nevando um pouco, não tinha muito que se ver. Eu podia chamar assunto com algum aluno? Podia; mais eu queria? Somos alunos não notáveis. Aqueles que são notáveis têm seus grupos, parceiros, trios, os que não são, andam sozinhos entre uma multidão.

Paris é linda mesmo quando ela parece estar triste, eu não entendo o que eles falam, pois por mais incrível que se pareça, duas pessoas de idiomas completamente diferentes conversavam entre si; era interessante.

O cabelo dele era castanho claro e macio, a pele era clara, os olhos mais brilhantes do que tudo o que eu já vi, eles iluminavam mais que a Torre Eiffel, tem um sorriso encantador… E uma voz que prende a atenção. Mas eu estraguei nosso futuro.” – Aquele poema invadiu meu ser como se eu não tivesse mais nada para fazer. Era lindo, tudo perfeitamente como se fosse para mim, como se fosse ela escrevendo para mim. Embora eu não soubesse se era literalmente para mim; se foi realmente ela que escreveu para mim. Se foi Mikaele que escreveu para mim. Se não foi; eu estava apaixonado de verdade, porque onde eu olhava a via com amor. Entendia que aquelas frases, inúmeras espelhadas pelo refeitório, era um marketing de dia dos namorados ou uma indireta atingida com sucesso.

—Oi Victor... – Marjorie se aproximou de mim a caminho da escola. – Eu lamento pelo que houve com você e com o Leonardo. – Seu sotaque estava mais parecido com um português de Portugal naquele dia. Estava mais fácil de entender.

—Tudo bem, ele é um babaca. Não preciso de ninguém para... – Fiquei em silêncio.

—Todos precisam. Pode andar comigo se (...)

—Você é a companhia de Leonardo. Deixa; eu vou ficar bem. Ótimo. Não se preocupe. – Na verdade eu estava bravo com o Leonardo, bravo por ele ter falado o que falou, ter feito como fez, Ele é tão grosso como eu, se eu não falasse ele também não falaria e ambos não nos falamos ficaríamos de costas viradas um para o outro, de mau. Cara invocada.

Devíamos atravessar a rua para chegar ao colégio. Uma parte do grupo de alunos atravessou a rua, porém vinha um carro uma parte atravessou e eu fiquei pra trás com outra parte. Quando o carro passou e o grupo foi atravessar alguém veio correndo na contra mão, os alunos desviavam da figura corredora, quando eu ia verificar a rua se havia carros vindo e me concentrar no que havia á frente, o corredor me atingiu. Meu corpo se chocou contra o do corredor e bati o cóccix no chão com força, choquei o cotovelo no chão, eu teria batido a cabeça se não tivessem me puxado pela gravata. Bendito uniforme novo.

Mas, mesmo assim, um atropelamento doeria menos. Eu ia atravessar e após verificar a movimentação do transito, assim que dei uns oito passos ou menos; eu me choquei com alguém, cai no chão só não bati a cabeça porque me puxaram pela gravata, porém, quase me enforquei.

—Pardon. – Era a Mika me ajudando á levantar. – Eu não vi você. – Eu me recompus, estava em pé, ela me empurrou para a calçada e ia voltar á sei lá o que pelo que corria. Ela respirou fundo quando olhou em meus olhos. – Victor? – Ela puxou o C e sorriu sem se mexer, aparentemente esperando uma resposta, talvez preocupada. – Você está bem? Machucou?

—Bonjour. – Ela parou antes de voltar á correr. Ela me olhou séria. Respirando rapidamente, me observando de cima á baixo. Observando alguma coisa, a paralisando. Ela sorriu. E que sorriso lindo ela tinha. Ela tem! – Está tudo bem. Não machucou. – Mentiroso; estava com um pouco de dor.

—Bonjour pour vous aussi. – Ela puxou ar. – Ninguém me deu bom dia hoje. Não exatamente um bom dia. – Ela começou á falar rápido. – O meu dia começou péssimo, e quando eu consegui dormir, já era hora de levantar; e eu tomei o café mais rápido da minha vida... – E então ela completamente jogou a mochila no chão e começou á arrumar a gola da minha camiseta, — Talvez aquilo nem tenha sido um café, eu enfiei algo na boca e fui pra enfermaria. Minha saturação estava irregular. – Ela tirou minha gravata, esticou com as mãos e colocou em volta do meu pescoço. – Mas é porque não me alimentei direito, mas tudo bem. Não fiquei nem dois minutos lá e tive que vir pra cá. Mas ligaram para mim assim que cheguei... – Ela falava rápido, mas os seus movimentos eram lentos, calmos, ela levantava minha gola, a dobrava e dava um jeito de que nada ficasse amassado. – E então tem trabalho para entregar, tenho livros para ser revisados pelas bibliotecárias no meu serviço e eu esqueci completamente de ambos... – Ela deu o nó e arrumou a gravata azul sobre o meu suéter, passou a minha sobre a minha camiseta, arrumou minha blusa passando a mão sobre o meu corpo.

Ela parou quando chegou perto do meu umbigo e olhou para mim. Olhou-me nos olhos, por um breve momento e eu jurei, que ela iria me beijar, eu a senti tremer e respirar fundo. Eu queria morder os lábios na frente dela, pois, não parava de olhar para os seus lábios e ela parou ali, sobre o meu corpo, em meu peito, uma mão estava em meu ombro e o outro no meu peito. Sentia todos os meus músculos se contraírem com aquele toque quente, ela não se mexia, ela me encarava, eu não aguentava olhar para ela sem desejá-la ter em meus braços e os meus lábios tocando os lábios dela, eu não aguentava olha-la sem sentir um incomodo na minha calça. Meu coração disparou e ela com certeza sentiu, pois, aos poucos foi retirando as mãos de mim. Ela arfou e desviou o olhar rindo. Eu também ri, igual á um bobo.

—Desculpa ter te derrubado. – Ela falou pegando a mochila e olhando para o relógio. – Desculpa. Pardon. – Antes de ela sair correndo eu segurei no pulso dela com força e ela se voltou para mim, novamente frente á frente. Me deixando ansioso, com um sentimento de nervosismo.

—Eu te desculpo. – Sorri pra ela. – Se...

—Se?

Comecei á ficar assustado e nervoso, minhas pernas começaram á tremer. Com certeza eu estava suando frio e minhas mãos suavam.

—Se... – Gaguejei.

—Victor? – Ela passou a mão no meu cabelo. – Se o que? – Fechei os olhos, mordi os lábios. – Está tudo bem? Se? Está me deixando nervosa.

—Se você aceitar a ir comigo nesse negócio de namorados que eu não faço idéia do que seja. – Eu ia sair correndo quando ela suspirou aliviada. Ela juntou as mãos em forma de oração de colocou sobre o queixo. Encarou-me e me deu um sorriso singelo, seus olhos brilharam. Ela ia com o grandão. Você é um idiota Victor Azevedo. Porque você foi chamá-la? Porque foi convidá-la para algo que você já tem companhia e ela também? Ser estúpido e outros 500. Fiquei em silencio enquanto ela segurava na sua própria gravata e ficava passando a mão sobre ela por várias vezes, nervosa. Aparentemente nervosa.

—Eu iria com você. – Mas, não vai! Eu quebrei a cara.

—Tudo bem eu vou com Éponine e...

—Espera; você vai com Éponine? – Ela ergueu a sobrancelha. – Com Éponine?

—É (...)

—Você voltou com ela?

—Não é que (...)

—Com a Éponine?

—Monitora (...)

—Você voltou com Éponine?

—Pra mim como (...)

—Com a Éponine?

—Sim, mas;

—Com a Éponine? – Pensei em ver uma lágrima solitária escapar dos olhos de Mikaele, aquilo me machucou, mas o que eu poderia fazer? O que ela queria que fizesse?

—Monitora (...)

—Justo com Éponine, logo com... – Ela estremeceu.

—Não... Por favor. Eu não quero brigar com você. – Ela ficou em silêncio.

—Nem eu. – Ela respirou fundo. – Entenda que eu iria contigo para que pudéssemos fazer uma bela bagunça. Mas o caso é namorado. E... – Ela iria voltar à correr quando se voltou para mim. – E com certeza eu não vou ligar tanto para o Cainan assim. – Ela inclinou a cabeça para o lado. – Eu iria ficar muito entediada. – Ela parou um minuto olhando para o nada e então se voltou para mim. – Só não se destrua com a Éponine... Por favor. Não vai na dela.

—Eu não vou. – Disse sério e ela acenou com a cabeça.

—Eu iria contigo só pra você não ir com Éponine; mas... Não quero que Cainan acabe com esse seu rosto bonito. – Ela sorriu...

Enquanto cariciava o meu rosto, que com certeza começou á ficar vermelho.

Ela deu um beijo na minha testa e saiu correndo de volta para o dormitório enquanto eu fiquei paralisado do outro lado da rua. Ofegante, amando aquela sensação. Eu fiquei com medo, eu quase chorei também, quase falei que eu a amava, mas; por um instante, eu me controlei e pensei em uma coisa boa. Ela era magnífica, ela era tão responsável quanto carinho. Eu fiquei observando ela sumir na rua e suspirei com um sorriso. Passei a mão onde ela acariciou e depois toquei onde ela beijou. Ri é o melhor remédio; e esperar ela olhar para trás é tudo.

Enquanto eu esperava ela sumir no horizonte... Alguém bateu na minha nuca com tudo, me assustando, me acordando daquele momento.

—Eih. Doeu. – Procurei a pessoa, me voltei para trás irritado, mas ela já estava na minha frente rindo.

—Claro que doeu. – Era um garoto, peculiarmente diferente de mim, como todos óbvio, com um olho de cada cor, cabelos castanhos, mancha escura no pescoço. – Você estava dormindo no meio da rua. – Fiquei em silêncio o encarando. – Bonjour.

—Bonjoue. – Falei rapidamente atravessando a rua junto com ele, que começou a rir. – Que foi?

—Você não fez o biquinho. É bonjour; não bonjoue. – Parei e o encarei antes de entrar na escola.

—Desculpe. – Ele me deu um tapa nas minhas costas, eu o encarei, mas, ele nem parecia estar ligando.

—Que isso novato. – Ele sorriu para mim de um jeito assustador, muito assustador. Não tem como eu explicar, seu rosto não era feio, mas algo me incomodava, era aquele sorriso, parecia de um boneco. – Você está bem? – Acenei positivamente o olhando assustadoramente, estava perto do colégio, qualquer coisa era só gritar. – É aluno de Artes Cênicas? – Sua voz é como uma nota quebrada, um acorde de violino; diferente. Não poderia decifrar o sotaque.

—Aan... Estou no programa. Ainda nem... – Antes de eu terminar de falar ele me interrompeu.

—E então conhece Armin? Armin Rowell? – Acenei positivamente. – Ele está bem? – Fiz uma careta. – O que houve? Ele não está bem? Ele não está mais no programa? – Acenei positivamente. – E o que houve?

—Ele deslocou o queixo. – Falei me lembrando da cena, não foi exatamente um deslocamento, foi uma briga. Ah; foi sim.

—Como? – Ele se aproximou de mim enquanto eu tentava atravessar a rua.

—Bateram nele. – O garoto arregalou os olhos e pareceu feliz. Ou confuso. Foi incógnito.

—Quem? – Eu o encarei. Fiquei em silêncio, acho que ele percebeu que eu não iria falar nada do que ocorreu porque simplesmente eu não o conhecia. – Oh; pardon, Je m’ appelle Luco Seward. Minha heterocromia... – Ele apontou para os olhos dele. – Incomodam você? – Neguei. – Então porque parece incomodado?

—É porque eu tenho certeza que estou atrasado... E não te conheço.

— Ah; claro. – Luco olhou em volta. – Aula... Mas, eu já me apresentei. O desconhecido é você.

—Victor. Azevedo. – Respondi tenso. – Ele estreitou os olhos.

— Você fala um português muito bom. – Fiquei em silêncio me sentindo muito idiota. Que situação estranha. – Primeiro ano na França? (...)

—Eu tenho aula. – Pulei a resposta e já disse o que me incomodava, o quanto eu estava atrasado. Ele olhou na direção de onde Mikaele tinha ido e apontou pra lá.

—Ela foi ágil em evitar que você se machucasse mais feio. – E em seguida apontou para meu cotovelo. – Precisa trocar o uniforme. – Quando olhei para meu cotovelo, vi que ele tinha dado uma rasgada e sujou. Rangi os dentes e fiquei me perguntando quando aquilo ocorreu. – Não deu tempo de salvar...

—Nossa... – Murmurei.

—Vão dar um jeito. Ou não. – Ele deu um sorriso. Apontei para o portão igual ele aponta. – Eu vou para a aula; estou atrasado.

— Você tem quantos anos?

—Eu... Cara... Nem te conheço. Nunca te vi. Eu... nem devia estar falando contigo...

—Não mesmo. Ninguém fala comigo. Só você. – Dei um passo pra trás. – Não precisa ficar com medo. Nem deve. Eu não vou te morder. –(...)

—Eu tenho mesmo que ir pra aula... Foi um prazer; antes de eu me aproximar do pátio que dá ao portão principal, que me coloca dentro da escola, Luco deu um assobio.

—Só pra saber... Faz muito tempo que eu sai do programa de Artes Cênicas... Como está a mesa da “Elite”? O grupo está maior?

—Aan... Que eu saiba; desde que eu cheguei; o grupo vem diminuindo. – Ele ficou em silêncio. – Alguém em especial?

—Com certeza... – Mikaele não, Mikaele não, Mikaele não...

—Eih. – Levei um grito de uma inspetora que estava atrás de mim. – Entrer ou partir.

Luco deu aquele olhar de “sarcasmo” e eu acenei com a cabeça para inspetora de que ia entrar, e então o garoto sumiu. Era isso; eu vou ficar nessa dúvida para sempre. O portão principal, foi fechado e só abriria de novo no meio da primeira aula para alunos entrarem na segunda aula. Já eu me apresso para entrar na sala de aula. Dou sorte que o professor de história não chegou; então estava mais tranquilo. Já cheguei, sentei, respirei fundo e descansei. Passei a mão no rosto e mantive a expressão de Luco na minha mente.

Era diferente. Era... Quem era a menina que ele estava a fim? Mikaele não... Por que... Meu; já tem o grandão, tem eu e o exótico... Ok; eu não conto totalmente porque pegar na cintura e dar um beijo no rosto não é nada de extraordinário, os dois já deviam ter feito melhor.

—Bonjour. – Disse o professor de história entrando na sala e já escrevendo no quadro “Jazz” e se sentando. Ele era um professor brasileiro chamado pelo “Depardieu” para lecionar aos novos alunos. Ou seja, ele será meu professor pelos próximos anos ou meses; não prestei atenção no momento. Na verdade não era apenas a sétima e oitava série que tinha brasileiros. Da sexta até a sétima. Por isso a sala não ficava vazia. Muitos alunos chegavam do Brasil e ainda mais; eles ainda não tinha pegado a manha do francês.
O professor Fernando é um dos poucos que é brasileiro e ensina para brasileiros. Afinal, os outros se esforçam para que nós já aprendamos em francês; por isso, tem o Guilherme.

Bonjour Professeur.

—A história da França com o jazz começou ainda durante a Primeira Guerra Mundial, quando chegou aos ouvidos da Europa e marcou a cultura com uma nova sonoridade, que teve berço na musicalidade dos afro-americanos. – Começamos á ouvir, ele poderia fazer uma pergunta á qualquer momento. – Costurado por referências interculturais, o gênero vem ampliando cada vez mais suas vozes e trejeitos. É fácil ver as pessoas dizendo que a França é o país da arte, do charme, da boemia; que não a fama nem quando os nazistas ocuparam.

Quando desembarcou no país, durante a primeira guerra, o jazz era jovem e sedutor. Em décadas sucessivas, esteve presente na vida do francês como a baguete e o vinho. Então hoje é muito comum ouvir esse estilo de música em casas noturnas que se dedicam á esse ritmo até o final da noite. Tratamos assim de canções de amor. – Ele respirou fundo e apagou a palavra no quadro escrevendo outra “Marie Antoniette”. – Falemos dessa amável figura. – Quanta ironia. – Marie Antoniette Joséphe Jeanne de Habsbourg-Lorraine ou Maria Antônia Josefa de Habsburgo-Lorena, assumiu a aristocracia ainda quando era uma adolescente; porém, acabou dando seus últimos suspiros na guilhotina, durante a Revolução Francesa. Antes de ser decapitada, a rainha passou algumas semanas na Conciergerie. – Ele escreveu o nome. – Prisão francesa que serviu de antecâmara para muitos prisioneiros da revolução. Hoje é um ponto turístico. Detestada pela corte francesa onde era chamada de nomes que não posso dizer em sala de aula... Ganhou a antipatia do povo, que a acusava de perdulária e promiscua e de influenciar o marido a favor dos interesses austríacos. – Ele respirou fundo. – Jazz e Maria Antonieta são de épocas diferentes, mas tem algo em comum... – Ele varreu a sala com o olhar e parou em mim; justo em mim. – O que eles têm em comum, Senhor – Ele olhou na agenda, sentávamos em ordem alfabética. – Sr. Azevedo?

-Em comum? – Toda a sala me encarou. Odeio. – São parte da história da França e ainda permanecem mais vivas que nunca. – Ele deu um sorriso.

—Você está certo; mas não respondeu do jeito que eu queria. – Ele me faz sentir-me muito idiota, aliás, eu não sou o único. Ele faz isso com todo mundo. – Trabalho de casa: Escrevam mínimo de cinco folhas sobre cada assunto e depois em um mínimo de três folhas deem um jeito de juntar os dois temas em uma história só. Á seu critério. Letra legível, à mão, parágrafo, vírgulas, pontos, travessões. Principalmente, procure em livros e coloque fontes. Não aceitarei trabalhos que não tenha sido pesquisado em amenos um livro.

O que?

—Professor isso é impossível. – Resmungou uma menina.

—Isso é inapropriado...

—Isso é ridículo!

—Porque não voltamos á falar da Guerra da Bastilha que me parece mais apropriado á... – Começou o garoto na fileira da frente.

—Ora, o que é isso? Em que universo vocês estão? Roteiristas malucos ganham Oscar’ s por terem ideias absurdas que diretores loucos compram. Estamos em um programa de Artes Cênicas, isso inclui “Histórias Inventadas”. – Muito lógico. – Não tenho mais o que me explicar. Depois voltamos para a Revolução Inglesa.

—É por causa do Dia dos namorados? – Um perguntou.

—Isso é coisa de artes. – Outro murmurou.

—Vai mais para português... – Disse outro.

—Vocês estão achando ruim isso é? – A sala ficou em silêncio. – Eu não acharia ruim falar sobre revoluções com quinze folhas de trabalho... – A sala se arrependeu e a única coisa que me importava era “Mikaele não.”

Naquele dia ainda tivemos aulas que teríamos no Brasil; como Ciências, matemática, língua inglesa, geografia, artes, transferência do português para o francês; que é tipo uma aula de português no Brasil e uma aula de francês na França e são duas aulas; é complicado, mas não substituía o francês que é obrigatório. Eu só preciso passar nas matérias que eu passaria no Brasil; eu estaria no começo da sétima série e no meio do ano eu estarei na oitava. Confuso.

Quando eu saí da escola naquela tarde, minha cabeça doía, havia mais trabalhos do que eu imaginava ter no Brasil, afinal, eu estava aprendendo matérias de um ano letivo em menos de seis meses. Eu não vou correr, eu vou me transformar no “flash” para dar conta de tudo.
No caso eu estou atolado mesmo em matemática; e com o trabalho de história que o povo reclamou até a morte, tenho apenas uma semana para fazer tudo. “Arfa”. Eu e Leonardo ainda não estamos nos falando; então serão os primeiros trabalhos que não faremos juntos. Nenhum vai comentar com o outro sobre o que fez ou fará. E eu estava ali sozinho e...

Trabalhos...

Livros...

Biblioteca... A mais perto? (...)

Biblioteca Nacional...

É lá onde Mikaele está para a minha felicidade.

Eu a vi de manhã e já estou com saudades. É um nó na garganta que dá, é uma sensação de ansiedade, é uma coisa boa e ao mesmo tempo nova. Eu fiquei completamente feliz porque em um dia em que tinha tudo para dar errado, mesmo dando no final, teve aquele raio de sol que me iluminou. O meu raio de sol foi ela. Mesmo que esse raio de sol, de alegria e felicidade deu um esbarrão em mim, me fez sentir uma dor; mas, aquele sorriso, é tão belo; faz meu coração bater de um modo mágico. Ela é um milagre, mexe comigo de algum jeito.

E eu gosto tanto dela, amo tanto ela; e não podia contar nada desse meu sentimento com ninguém. Eu não posso contar á ninguém porque, ela tem namorado, tem outro cara louco que gosta dela, a menina que eu devo ficar ficaria muito mal, contaria ao dormitório inteiro. É errado? Sim, com certeza; mas, o que eu posso fazer? Nada vai fazer se extinguir o que eu sinto por ela; pois á cada vez que penso nela é capaz do meu coração explodir. Fui comer algo antes de ir à biblioteca; arrependi-me amargamente de não ter feito isso no dormitório. Porque eu até tentei usar as novas expressões que aprendi na aula de TPF; “transferência do português para o francês”. Mas, eu fiquei confuso e não me lembrei de nenhuma expressão que a professora disse que servia. Quando eu estava olhando o cardápio antes de pedir lembrei-me apenas da expressão:

Je prendrai um gâteau, sil vous plaît e um café. C’ est pour moi.” Eu gostaria de um bolo, por favor; e uma água com gás. Eu pagarei tudo. Essa é a tradução. Mas; havia tantas coisas no quadro; e eu acabei comendo bolo e café; tudo bem. Café é bom. Meu francês é péssimo. A atendente riu de mim durante todo o atendimento, tentou me auxiliar e até me acalmou. Quando eu terminei dei uma gorjeta e fui para a biblioteca.

Quando eu entrei lá respirei fundo sentindo o cheiro dos livros. Eu amo livros. Trouxe quatro comigo; minha mãe disse que depois eu poderia comprar mais. Então digamos que quando eu entrei naquela biblioteca eu quase surtei. Só pra começar a fachada é linda, maravilhosa, um prédio antigo e luxuoso, dentro parece uma cena desses filmes antigos que ganham o Oscar por melhor cenário. (Se é que tem essa categoria) Parece um palácio, há livros, livros é um elogio e tanto; e para mim; a biblioteca é um local maravilhoso, principalmente essa. Como posso descrever? É uma mansão; cadeiras, mesas, luzes, beleza em si; em vou falar muito e ao mesmo tempo não falar nada. Só uma coisa; é uma arquitetura única.

Para se entrar nela é preciso ter de 16 anos pra cima; mas. Eu sou estudante tenho um cartão anual, todos do dormitório tem um. Mas, nas exposições; estudantes pagam sete euros; já menores; como eu. São de graça.

Então eu entrei.

Mal podia esperar para respirar cada página de cada um, daqueles livros. Comecei á andar e explorar aquela obra e fui tomado de surpresa pela quantidade de pessoas nas cadeiras, com diversos livros, estudando e pesquisando, na maior concentração. E para todos os lugares que me viro eu vejo livros, livros e mais livros. É como uma corrente, tudo extremamente organizado. Sim; todos os livros são em francês, poucos em outros idiomas eu imagino; e não sou tão bom assim em francês ainda. Eu nunca me senti tão seguro assim. Sair do Brasil é um medo; e onde eu fui nesses últimos dias, eu tinha um acompanhante; mas, desde que briguei com Leonardo eu tenho saído por ai, sozinho, sem me sentir seguro e completamente desacompanhado. Mas, hoje; era como se cada página, se cada capa me protegesse. E isso me entusiasmava e me alegrava e me deixava tonto o tanto de vezes que me volto para saber se vou ficar ou não perdido. Continuo caminhando e me deparo em uma sala de leitura. Há vários departamentos e salas de leitura e já me vejo meio perdido. Entra em um corredor, vira esquerda, sai direita, segue reto, vira direta; para descansar. E entro em uma sala de leitura. Parei pra pensar. Eu não sabia exatamente o que estava procurando, tudo estava escrito em francês e eu não era tão excelente assim; então não fazia idéia de nada. Foi então que eu a vi.

Não...

Sim.

Com um belo coque, caderno, livros de um lado, do outro, na frente, escrevendo e conferindo o que escrevia com o livro; ela estava com livros ao seu redor na mesa. Toda a sua atenção estava ali. E assim, ela estava linda. Corrigindo; ela é linda. Aproximei-me dela devagar, respirei fundo, dei um sorriso e me sentei do lado dela que aparentemente não me notou.

—Você fica sexy quando escreve. – Ela se surpreendeu e olhou assustada pra mim, e já me arrependo, pois, ela escreveu fora da linha. Ela me olha, paralisa e sorri.

—Sexy?

—Sim. Você fica muito linda quando está escrevendo.

—Obrigada. – Ela aparentemente ficou sem graça. – Você veio com quem?

—Sozinho.

—Que surpresa ver você aqui.

—Está de folga?

—Na verdade; não... – Me aproximei mais dela que não pareceu se importar. – Estou na minha pausa. Eu tenho... – Ela olhou no seu celular. –... Apenas vinte e três minutos para tentar fazer a lição de literatura clássica e voltar ao trabalho; e se eu não terminar tenho que voltar do mesmo jeito. – Ela sorriu. – No que eu posso te ajudar? Ela ergueu uma sobrancelha.

—Você está estudando. – Ela apoiou a cabeça nas mãos e me deu um sorriso.

—Mas, você está perdido. E eu suponho que nem faz ideia de onde está. – Não consigo esconder meu nervosismo, mas não queria atrapalhar ela na lição.

—É...

—Bom... – Ela fechou e cadernos e os livros, em seguida os colocou um em cima do outro. – O que está procurando?

—Não... Termina...

—Já terminei.

—Verdade?

—Não.

—Então continua...

—O que você está procurando? No que posso te ajudar? – Engulo em seco.

—Jazz com Maria Antonieta. – Ela ri.

—Diz; Jazz e Maria Antonieta né?

—Não; dois em um. – Ela me olha de uma maneira indecifrável. – Na verdade eu preciso estudar ambos e depois fazer uma história com esses dois temas. – Ela riu, a melhor risada que já ouvi. – É péssimo, eu sei...

—Criatividade e imaginação. – Ela falou. – Tem a biblioteca de estudo e a biblioteca de pesquisa. Estamos na biblioteca de estudo; sobre Maria Antonieta vamos ao departamento de pesquisa; e vamos para a sala de pesquisa biográfica. Quanto ao Jazz, no departamento de história deve ter em algum lugar na sala de história falando sobre isso... – Rapidamente ela colocou o caderno na mochila e segurou os livros nos braços para colocar cada um em uma estante. – Ah sim; e temos que falar baixo. – Respirei fundo e devagar, sem saber se devia continuar. – Bom; por onde podemos começar? Jazz ou Maria Antonieta?

Aqueles lábios convidativos, aquele ambiente romântico; como ela tem olhos bonitos.

Eu não sei.— Falei baixinho, cochichando.

Não sabe? Como não sabe? – Ela se aproximou. – Jazz ou Maria Antonieta? Só escolher um e começamos por este. — Fiquei em silêncio, o que eu queria?

Você quer escolher? Pode escolher pra mim?— Ela sorriu.

Poderia; mas... — Ela mantinha um sorriso nos lábios. – Jovem, é seu trabalho.— Aceno com a cabeça e a vejo continuar a sorrir. – Se quiser silêncio para pensar; uma sala de leitura não é lá tão...— Ela mordeu os lábios e pareceu aflita. – Vamos te ajudar.— Ela passou a mão nos meus cabelos, nem os arrumando, nem os bagunçando, nem um nem outro. Apenas passou e meu coração disparou.

Mas, o clima silencioso é bom para pensar...— Ela se virou de costas.

Mas, não apropriado para outras coisas. – Houve um tom de malicia?

Outras coisas?— Ela estralou os dedos.

Vamos pesquisar sobre Jazz primeiro.— Ela pegou na minha mão delicadamente, as entrelaçando me puxando pela biblioteca.

Sabe o que é sorrir bobo? Sabe o que é se sentir feliz? E ao mesmo tempo tímido? Ela nos movia graciosamente e ao mesmo tempo rapidamente pela biblioteca, olhando de um lado para o outro, como uma espiã, sem soltar minha mão, sem parar de aperta-la. Não sei se foi proposital ou se foi para podermos andar melhor e mais rápido, ela não tinha muito tempo até ter que voltar ao trabalho. Havia muitas salas de leitura, cada uma com um tema. Chegamos a uma sala, a que queríamos era a de História. Antes de entrarmos lá, ela voltou pra trás e entrou com tudo em outra sala se escondendo naquela.

—O que foi? – Ela suspirou.

—Meu supervisor está naquela sala. – Ela se sentou, estava nervosa. – Quase... Ele quase me viu. Ele quase me pegou com você. – Eu observo seu rosto, ela levou um enorme susto e pelo jeito parecia arrependida. Como eu me odeio. Eu achei que isso daria certo? Eu achei que íamos longe com isso?

—Desculpe... – Eu disse me afastando dela. – Me desculpa Mih... Monitora... Eu... – Ela abre a boca para dizer alguma coisa, mas, me vê com lágrimas caindo sobre minhas bochechas e eu me afastando dela. Não vai dar certo. Nunca deu, nunca dará. Eu e ela não podemos ocupar o mesmo espaço, eu e ela nunca podemos ser felizes juntos. Apenas na minha mente. Talvez.

—Não; Victor... Calouro... Não. Me desculpa.

—Eu quem me desculpo; você não devia estar comigo.

—Não é culpa sua. – Ela diz baixinho segurando na minha mão e me sentando na cadeira, e ela sentou na outra. – Você não tem culpa dessas coisas acontecerem... Eu que me culpo por ser boba e me alarmar por nada.

—Fui eu quem disse que você fica sexy quando escreve. – Ela sorriu.

—E eu fico?

—Muito além de sexy... – Ela mordeu os lábios e sorriu; e daquele jeito estava muito mais do que sexy, estava sensual.

—Você é muito fofo. Fofo até demais... – Ela segurou no meu queixo igual essas mulheres fazem quando veem bebês, seguram em suas bochechas ou no seu queixo e o aperta. Eu sorri.

—Obrigado.

—Aparentemente tem uma boa arcada dentaria.

—Uma; o que? – Ela puxou meu queixo em direção a sua boca e me deu um selinho rápido. Ela se afastou e me olhou. Eu fui pego de surpresa.

Foi um selinho roubado. Por Deus!

—Dentes. Dentes perfeitos. Boa arcada dentaria; belos dentes. – Então ela passou o dedo em meus lábios. – Lábios macios.

Eu não conseguia falar nada. Então fiquei quieto.

Estava tudo quieto. Estávamos apenas nós dois. Não tinha ninguém ao nosso redor. Era como se o mundo fosse só nosso e apenas eu e ela existíssemos. Ninguém para nos interromper, ninguém para nos ver. Olhando um para o outro. Depois daquele momento, ela segurou em minhas mãos e olhava para os meus lábios. Não sei quanto tempo ficamos ali nos olhando, eu tremendo, ela tremendo, nós sorrindo. Nós somos loucos.

Ai meu Deus eu amo essa loucura!

Notas finais
Obrigado por lerem esse capítulo, tenho que dizer que demorei horas para fazê-lo, eu cheguei até a querer colocar em Hiatus; mas, resistir, Paris falou mais alto e aqui está. E agradeço ao seu tempo :3 Obrigada pela leitura. J'adore vous tous. ~♥~Um Beijo da Autora. ~♥~