Notas iniciais
Quanto tempo... Muito tempo. Mais de dois meses. Desculpem-me. Não pensem que eu abandonei vocês, ora, isso nunca vai ocorrer, enquanto um comentar, essa história vai viver. O computador precisou formatar três vezes, o teclado quebrou a barra de espaço, a minha internet foi desligada, depois desconfigurou, meu computador ficou completamente na UTI dos computadores, tudo que eu tinha boa parte sumiu, se perdeu, apagou; mas, a internet chegou e estou aqui, torcendo para não haver mais problemas. Senti saudades... Senti saudades de vocês, de escrever, de sentir-me em Paris. ~Enjoy♥

Victor

“Eu amo cantar,
Não porque fui feita pra isso
Mas porque você diz que gostar de minha voz
Então eu fico feliz quando canto.”

Bonjour pra mim!

Era dela!

Eu tenho certeza que era dela!

Com toda a certeza.

Letra delicada, expressão amável. Era dela.

Mikaele.

Monitora.

Uma doce pétala de rosa que floriu no inverno em meio á neve, ela nasceu e brilhou onde só restava neve.

Ela sabia surpreender. Ela sabia-me surpreender. Ela nem sabia como aquilo me fazia feliz, ela sabia que eu a amava? Eu encontrei um bilhete embaixo da minha porta na manhã seguinte depois do meu tour exclusivo por Paris. E eu estava mais do que encantado. Lógico que eu gosto de sua voz. Ela não acha que eu não presto atenção nela? Estava mil vezes enganada. Eu ia escrever algo e deixar na porta dela, mais não agora. Estava em choque de ter tocado na cintura dela. Ela não é magrela, ela tem carne, e eu acho isso, perfeito. Ok; Deus é perfeito; mas, ela é perfeita.

E com aquele passeio, eu passei o dia relembrando tudo o que passei cada sorriso, cada olhar. E que assim comece nosso relacionamento; engraçado eu pensar assim, mas foi fantástico e ela nem, sabe como fez o meu dia feliz.
Leo veio se gabar como Paris é uma cidade maravilhosa, porém, eu não prestei atenção em uma vírgula que ele falou, desde a hora da chegada da turma, no jantar, até a hora de dormir. Eu estava vidrado em uma bela dama. Que sorriu para mim, que me levou á um tour exclusivo que disse que eu sou como um filme, que eu pareço como uma canção. Mais depois eu não a vi no jantar. Ela foi buscar o exótico; porém, ele, eu vi na hora do jantar. Tudo bem, ela deveria estar cansada.

Ela disse que eu sou como um filme... Eu sou como uma canção. Embora a bela dama parisiense brasileira de belos e brilhantes olhos castanhos tenha me dito vários filmes, ela não disse com qual canção eu fazia soar.

—Victor? – Leo me chamava fazia um tempo, com certeza.

—Que?

—Está no mundo da lua? – Ri e abaixei a cabeça.

—Não.

—Não está mesmo prestando atenção no que eu estou falando? – Respirei fundo e apoiei a cabeça com as mãos colocando os cotovelos na mesa. Um erro.

—Estou claro que estou. – Marjorie passou as mãos por traz dos meus cotovelos quase me fazendo cair de cara no café da manhã. Que era cereal com iogurte e frutas. – Uou. Calma!

—Isso é falta de educação.

—Desculpe. – Falei me recompondo. – Eu esqueci. Nem percebi. Eu...

—Tá, tá... Então descemos a Avenida dos Campos Elíseos...

—Você já contou essa parte.

—Já? Tem certeza?

—Sim; duas vezes... Conta depois que vocês atravessaram a Praça da Concorde e... – Fiz o gesto de “continue” com a mão.

—Ah sim; Notre Dame... – Ele respirou fundo como se tivesse sentido alguma coisa. – A igreja em estilo gótica, bela, com muitos vitrais, Joanna D’ Arc; e “O Corcunda de Notre Dame foi escrito apenas, porque a igreja estava desmoronando, e como era uma bela igreja, um lindo monumento, ele queria a atenção para que a igreja fosse reformada. – Ele respirou e continuou. – Ela é uma das mais antigas catedrais francesas em estilo gótico. A igreja foi erguida no local da primeira igreja cristã de Paris, tipo a Basílica d Saint- Étienne, que por sua vez foi erguida sobre um antigo templo anglo-romano dedicado á Júpiter... – E ele continuou.

Falou muito, disse quase tudo. Repetiu, disse como a comida e o café é magnífico, disse muito. E eu, não ouvi nada. Estava no refeitório analisando ele, de cima á baixo. Eu vi o grandão, vi o exótico... Mais, eu não a vi. Não a vi no colégio; sim, eu estudava durante a manhã, das 8hrs até as 15hrs; almoçávamos e lanchávamos no colégio; melhor do que ir até o dormitório e voltar; mas o cronograma era horrível, eu estudava tudo o que deveria ser ensinado em um ano antes que o ano letivo terminasse no meio de maio. Então tínhamos entre 30 á 45 minutos para irmos para o curso de francês com o entre aspas; “queridinho” G. S. Ás 19hrs estávamos livres, leves, soltos... E então tinha o jantar. Era um dia duro, mas valia a pena, eu me sentia leve na França, podia ser pesado na escola, mas, eu construía o meu futuro.
E eu esperava que esse futuro fosse me fazer feliz; que fosse fazer ela feliz. Que fizesse nós dois felizes. Eu era meio errado, era meio bobo; era um bobo apaixonado. Sei que é errado alimentar sentimentos por alguém que nem deveria por ela ter um namorado; mas; poxa; ela saiu comigo, no dia em que ela devia sair com a turma. Não sei por que ela fez aquilo, não sei porque comigo. Mikaele é amável, todos no dormitório gostam dela, há garotas que brigam por ela; e porque não gostariam dela? Ela é inteligente, linda, educada, bela, carinhosa, sensível e me atrai de uma maneira inacreditável. A voz dela me encanta e me deixa nas nuvens, ela falando aquele francês perfeito, ela tem um sorriso magnífico. Aqueles cabelos soltos, a animação dela que me deixava feliz. Porque gostar e admirar-la? Porque estar á fim dela? Ela me deixa sem jeito, faz meu corpo se arrepiar todo, cada fibra e pelo do meu corpo entram em choque e loucura. Como é possível uma garota como ela existir?

*

A mesma cena, ou quase a mesa cena se repetiu na hora do jantar. Estavam todos na mesa da Elite; estava todos os amigos dela, o exótico estava lá, o grandão estava lá, a gaúcha e a Niedja. Por incrível que pareça até o G. S. Menos ela. Estreitei os olhos e a varri os olhos pelo salão.

—Você vai Victor? – Voltei para a minha realidade olhando para Marjorie e Leo abraçados. Eles têm ficado muito desse jeito ultimamente. – Victor? – Marjorie puxa o “tor” sempre que fala o meu nome.

—Vou? (...) Vou? Ir pra onde?

—O passeio...

—Passeio?

—Dias dos namorados... – Leo começou. – Vamos com um grande grupo para fazermos uma gincana, e nos espalhamos por Paris; vemos as luzes e depois? – Ele olhou para a sua namorada.

—Depois o casal tira uma foto em um local inesperado, no fim do ano, basicamente no natal, ou na primavera; bem comum na primavera, já que alguns casais não ficam juntos tanto tempo. – Ela riu. – Mas é só no verão que poderemos levar as fotos para o Palácio de Versalhes; — ela suspirou profundamente dando um sorriso. – Sempre há um baile, colocamos em uma caixa e damos á um ex aluno que trabalha lá. Ele guarda tira outra foto e se o casal ainda estiver junto ganha uma viagem.

—Pra onde?

—Pra onde você gostaria de levar sua “pessoa especial”? – Parei um minuto.

—Para qualquer lugar?

—Qualquer lugar...

—Qualquer lugar? – Ela acenou positivamente. Que lugar eu a levaria? Para o único lugar que eu me sentiria confortável em levá-la. – Para o Rio de Janeiro? – Marjorie e Leo riram. – O que foi?

—Na Europa, seu bocó. – Leo era histérico.

-Não sei... Não tive tempo de analisar bem... Exatamente... Roma.

—Porque Roma?

—Veneza é linda. Mas; é sempre assim?

—O que?

—Se distribuir e tirar fotos e tal?

—Não... Ano retrasado do passado – WTF? – saímos como pessoas normais; só vamos em um grande número porque, as ruas são perigosas, somos estudantes intercambistas, e como vamos comemorar o mesmo feriado saímos juntos e temos que chegar na mesma hora. Fica fácil notar se alguém sumir. Ano passado fizemos uma gincana com as fotos, na primavera colocamos as fotos em um mural. Então esse ano, resolvemos fazer algo mais fofo.

—Ah... – Abaixei a cabeça para o meu papel; estava escrevendo a carta para a Mikaele. Não uma carta, um bilhete, como ele fez para mim.

—Você vai? – Voltaram á me perguntar.

—Não tenho ninguém para ir comigo...

—Éponine?

—Não. – Ergui uma sobrancelha e encarei-o. – Éponine não.

—Tem alguém em mente? – Marjorie me olhou profundamente. – Não pode convidar ninguém?

—Eu não quero ir. – Não posso convidar quem eu quero, então não posso nem quero ir.

—Oh. Por favor... Você vai gostar, alguns vão ao cinema... Há cinemas com legendas. – Ela sorriu. – Vamos...

—Porque querem que eu vá? Vocês tem um ao outro. – Leo bufou.

—Não vou te deixar no dormitório sozinho de novo. Já te deixei sozinho hoje e vai ser chato.

—Tem razão; não quero ouvir você repetindo a mesma coisa sempre, sempre e sempre. Eu só não tenho ninguém para levar.

—Leve Éponine. – Pediu Leo novamente.

—Leva você Éponine. – Disse nervoso.

—Opa; calma Victor, calma rapaz. Estou tentando te animar.

—Não está conseguindo. – A falta dela me deixa chateado, me deixa nervoso. Que coisa estranha.

—Desculpa.

Nesse momento arrisco olhar para a entrada do refeitório sem desviar o olhar para Leo concordando com as desculpas. E lá estava ela. De repente, do nada, assim; mas ela surgiu como um pássaro ou um... Animalzinho assustado; ela estava encolhida em um agasalho grande, parecia masculino, pois era grande para ela. Ela olhou em volta, estava sozinha até Niedja e Katherynne se aproximarem dela; ela deu uma boa olhada no salão e parou. Respirou fundo e, passou a mão nos braços, acenou negativamente a cabeça, estava aparentemente com medo e então; saiu correndo voltando aos dormitórios. As garotas não tentaram segui-la, apenas olharam uma para outra e depois para alguém que estava sentando em algum outro lugar do dormitório; não posso dizer quem era. Mas, pelo fato do grandão ter se levantado, era com ele. Passei a mão no rosto e respirei fundo.

E me desliguei. Tremi e senti enjoo. Mas, não sairia do refeitório agora, estava com fome, e nem tinha escrito nada para ela. Nada elegante á altura do que ela havia escrito. Mas, porque ela escreveu para mim? Não havia pensando nisso, nem o porquê, nem o motivo.

—Mika está estranha... – Marjorie diz após seguir o meu olhar. Volto ao meu eu quando ouço o apelido dela.

—Estranha? – Leo começa. – Ela não é estranha?

Não ela não é estranha! — Eu e Marjorie dissemos a frase ao mesmo tempo e no mesmo tom de discordância de voz.

...

—Ok. O que foi isso?

—Ela não é estranha... – Falei novamente.

—Ah, por favor, ela mal aparece, some, não nos levou no tour, não te deixou ir, some e agora; fugiu como uma ratinha assustado. – Mantive a calma. – Concorda comigo? Ter uma relação com dois caras ao mesmo tempo e...

—Leonardo... – Comecei deixando minha comida de lado e o encarando. – Eu sempre fui e sou seu amigo desde que eu me lembro. E eu me lembro de muitas coisas; e nossa amizade não tem poucos momentos não. Têm vários e muitos. Agradeço pelo que você fez em vir pra França comigo, mas; nós a meu ver, nós temos uma Monitora exemplo. Ela trabalha numa biblioteca enorme, ela faz faculdade, ela monitora ao máximo, ela teve que buscar um colega; — pausei. – O que beijou ela; porque ninguém mais queria nem podia. Eu desobedeci às regras e tive muita sorte de não terem ligado para os meus pais. E se ela correu, teve um motivo. Eu teria medo daquele brutamonte depois do que ele fez com o outro. Ela não é estranha, ela é tão normal quanto qualquer um. Antes de zombar dela, pensa só um pouquinho nos mínimos esforços que ela pode estar fazendo para nos monitorar e cuidar de nós para não pularmos de sacadas e nos espatifarmos em plena avenida francesa. Bonne nuit Leonardo.

Com o coração batendo estrondosamente e fulminando de raiva me levanto, pegando minha mochila e minhas anotações deixando a mesa, com a cara mais irada que já fiz para ele. Odeio brigar com o Leonardo, mais, às vezes ele pede tipo “vamos brigar hoje?”. Quando estava me retirando o ouvi fazer um “hurun” e soltar uma risadinha baixa.

—Você tá gostando dela Azevedo? Ela não é meio indecente e velha pra você?

...

Virei-me para ele com uma veia pulsando na testa. Eu devia me segurar, me controlar, não queria soltar um murro na fuça dele. Não queria que o grandão viesse deslocar meu maxilar. E não queria que o exótico se metesse também, por um motivo á parte dele. Coloquei a mochila no ombro e o olhei com frieza

—Tenha respeito para falar dela. Seja um cavalheiro. Assim como não posso pôr os cotovelos na mesa, você não pode zombar de uma dama. – Ele se levantou e veio em minha direção, me peitando. Eu não ia aguentar. Meu emocional ia acabar comigo.

—Leo... – Marjorie o chamou. – Leonardo...

—Você tá gostando dela? De alguém que fica com dois caras ao mesmo tempo? Azevedo; acorda! Você sabe o que é isso? Como se chama? Você tá á fim dela? – Eu odeio aquela risada de deboche e insinuações que ele faz.

—Eu disse Bonne nuit.

—Você gosta! Se a defende, é porque gosta. E pelo visto; gosta muito... E...

—Cala a boca Leonardo. Ela foi legal pra mim no primeiro dia. Tá? Eu...

—Dormiu com ela? Faz parte de um “quadrado amoroso”?

—Leonardo... – Marjorie murmurou olhando para mim.

Eu não ia me controlar mais. Por diversos motivos. As insinuações, o jeito dele, o deboche. Querendo ou não... Eu a via como; minha. A minha garota, minha monitora, minha parisiense brasileira paulista.
Sorri de volta. Não sabia o que dizer, qualquer coisa que eu dissesse á mais iria me entregar, e porque ele estava fazendo isso? O que ele queria com isso? O que ele ganharia com isso?

—Não. Não. Não. – Respondi pausadamente. Se todas que eu defender significa que eu gosto; sabe aquela loirinha ali? – Apontei para Katherynne. – Ela foi a primeira que eu defendi. Eu só acho que a Monitora Sales, merece respeito. Não estamos no Brasil Leonardo. Estamos em Paris, na França. Completamente fora da nossa educação costumeira. Em respeito á Marjorie não vou usar palavras d baixo clarão. Bonne nuit Marjorie; Bons rêves.

—Ouh. Merci beuacoup. Á vous aussi, Victor.

Eu estava ofegante, estava nervoso, estava irritado, estava bravo, estava apaixonado e com o coração com uma sensação estranha; eu neguei que gostava da Mikaele; mas era preciso.
Fui para o meu quarto, me joguei na minha cama e entre tudo o que eu poderia imaginar e negar; eu chorei. Porque emocionalmente eu queria chorar, queria chegar na Mikaele e dizer; “hey; estarei aqui para te defender de tudo e de todos. Mesmo que ninguém mais quiser ser seu amigo. Eu serei teu único amigo.” Mas, eu fiquei com medo, eu fiquei nervoso, eu sou um fraco. Mas, o que me doeu foi o fato de eu não ter como defendê-la; e outra; ele estava certo, entre partes. Ela estava ficando com dois... Hah, se ela fosse cinco anos mais nova; ou melhor se eu fosse cinco anos mais velho. Ela não estava bem. Eu me senti doente algo como doente, digamos assim; fragilizado, tudo doía, eu estava magoado com o clima, com as coisas, com tudo, mais não tinha idéia no que podia ser.

Não era sobre ser estranho; era não estar bem. É diferente e aquilo estava me torturando. Mas, eu a defendi. Eu a defendi. Ele me peitou de frente, eu a defendi como se ela fosse minha namorada; não apenas minha garota, como a minha namorada. Era isso que ela precisava saber.

Se for para te proteger
Eu me tornarei mal por você.
Mesmo que todos no mundo
Se tornem seu inimigo
Eu ainda irei te proteger
Então só continue a sorrir como sempre
.”

O sorriso dela era a coisa mais magnífica que eu já vi. Aquecendo meu coração, acalmando meus sentidos. E estava pronto tudo o que eu preciso dizer. E por hora eu deveria aproveitar que o grandão estava no refeitório e devia ir passar esse bilhete por baixo da porta dela. Sem saber no que ia dar, sem uma garantia de que depois eu receberia outra. Essa não tinha muito sentido, mas eu ia mesmo assim. Respirei fundo, coloquei minha melhor blusa de frio e sai. Havia um grito interno dizendo “talvez ela não goste”, mas não era gostar, era para ela saber o que eu era capaz de fazer. Quando abri a porta e bati os meus dentes uns contra os outros, nervoso, ansioso. Como ela podia fazer isso comigo? Ela penetrou na minha mente, em meus sonhos, chegando a um ponto que nada mais passava por minha cabeça além da idéia de tê-la ao meu lado, para sempre. Eu fechei a porta e caminhei em direção ao quarto dela, eu pensei em bater na porta, vê-la, perguntar se ela está bem, porque não foi jantar, se ela queria comer algo ou se ela já tinha comido algo. Com certeza sim, mas, podia ser que não. Dobrei o bilhete novamente, dei duas batidas na porta e passei o bilhete por baixo dela. Esperei um pouco. Algum sinal de que ela o recebera, mas não saberia qual seria o sinal. Então fiquei ali parado igual á um idiota, o que eu estava fazendo muito bem. Eu ia chamá-la; mas não queria intimidar ela. Fiquei em silêncio, pensando no que fazer; respirar? Bater na porta novamente? E eu me perguntava novamente; se seria: Sorte, destino ou azar?

Ela bateu três vezes na porta.

É Amor.

Eu sorri para mim mesmo, abaixando a cabeça, ela era magnífica e nem sabia disso. Nem sabia que eu achava disso dela. E um pedaço de papel voou por baixo da porta. Literalmente, ele voou.

Parece que alguém convocou a esperança.
As ruas são jardins, e eu danço nas calçadas.
Parece que meus braços se transformaram em asas
Que a cada instante que passa eu posso tocar o céu

Eu queria falar alguma coisa, mais eu não sei o que falar. Ás vezes eu deveria ficar quieto. Algumas palavras são interpretadas de má forma. Eu sou bem capaz de fazer isso. O dia dos namorados... Mas, ela iria com o grandão. Isso é se ainda estivessem juntos; SE; senão ela estaria com o exótico. Perguntar ou não perguntar sobre o dia dos namorados? Convidar ou não?

—Arh... – A frase ficou sufocada na minha garganta, ficou impedida de sair. Eu fiquei nervoso á ponto de sentir tontura, mas; eu não queria mostrar isso á ela. Bati mais duas vezes bem devagar e fui para o meu quarto. Mais feliz do que nunca, mais apaixonado do que da primeira vez que o vi, desde sempre, desde que a vi, eu sempre senti que ela tinha algo de especial, se for mais especial que isso... (...) Não. Rsrs. Não tem como estragar. Eu me sentia em um perfeito paraíso, só precisava dela nos meus braços, ou deitada no meu colo, com o meu casaco a aquecendo, admirando a lua na beira de uma praia. Mas, se fosse impossível mesmo, poderia ser na beira do Rio... Sena.

Depois de eu ter defendido ela do Leonardo, eu me sentia diferente. Ela não estava lá, não ouvi as ofensas, mas, era como se ela estivesse ali, e eu fosse o escudo dela, como se cada palavra fosse um tiro para acerta-la e eu sem colete á proba de balas estivesse sobre o corpo dela, calculando cada palavra para que o atirador não me matasse e acabasse com ela. E quando ela me respondeu; eu percebi de verdade que eu não poderia viver sem aquela garota tão dócil e dançante, em calçadas-jardins com asas de anjo tocando o céu.

—Magrelo? – Magrelo? Virei rapidamente assustado com alguém tocando meu ombro. Era a loira gaúcha.

—Kathy? – Escondi minha cara de susto e mostrei a de minha cara de surpresa. Cortando meus amores com ela, por ela, que nem estava ali. – Magrelo?

—Você não é gordo.

—Não.

—Ok então; — ela pausou. – Guri.

—Guri? – Ergui uma sobrancelha.

—Pare de reclamar. – Ela tinha um belo sotaque.

—Guri parece uma gíria de “garoto mimado”.

—Guri é “menino” de onde eu venho. – Ela fez uma careta. – Ignore-me.

—Ignoro.

—É o novato que não foi com a cara do Cainan né?

—Que? Não; não é nada disso. É que...

—Eu vivo te procurando... Você me parece interessante. Mas; não é isso...

—E o que é?

—Estava no quarto da Mih? – Meu rosto queimou, fiquei nervoso.

—Não. Eu não. Não. Calma. Eu. – Ela começou á gargalhar.

—Estava né? Tudo bem pode contar, sou um amorzinho... Guardo tudo, não precisa se preocupar com represarias, minha boca é um tumulo e minha alma é um recipiente de segredos. – Respirei fundo e ergui uma sobrancelha.

—Não. Eu não estava no quarto da monitora. Isso seria errado. Isso é errado e vai contra as regras e...

—Não há problema. – Ela me falou com calma. – Até que seria bom se você ao menos estivesse com ela... Qualquer um... – Ela murmurou e me encarou voltando ao nosso mundo. – É que você saiu do refeitório sem comer.

—Seria o que?

—Você saiu do refeitório sem comer.

—Seria bom eu o que?

— É que você saiu do refeitório sem tocar na comida. – Ela desviava o assunto.

—Katherynne, o que seria bom? – Ela desviou o olhar para todos os lados e respirou fundo, irritada pelo momento, pelo que ela havia dito.

—É que... Até você saiu do refeitório sem comer e alvoroçado.

—Tá me vigiando? – Entrei no jogo dela, seja lá o que for, ela vai dar com a língua nos dentes logo... – Espionando os meus passos e atitudes?

—Ei. Estou sendo legal contigo e você vem me dizendo essas barbaridades loucas? – Ela passou uma mecha do cabelo pra trás da orelha e fez um bico, se sentiu indignada. Aparentemente foi o que pareceu. – Porém, estou sim. – Estreitei os olhos.

—O que? Por quê?

—Sei lá. Meu namorado está fora da cidade e eu não tenho o que fazer. Vou ficar te vigiando porque não tenho nada para fazer. – Ela disse com sarcasmo. – Affs guri. Acha que eu não vi quando você apontou pra mim lá no refeitório? – Fiquei imóvel. – O que estava falando de mim e o porquê estava apontando para mim? Tem menos de um minuto... Não, tem trinta segundos para me dizer; aliás, quero saber. Vai diga! Agora!

Paralisei. Eu congelei. Ela havia me visto? Não parecia, nem tinha capacidade o suficiente, estava ocupada conversando. Claro que não. Ela sabia e podia fazer várias coisas ao mesmo tempo. Ela é brasileira, o que eu poderia fazer dessa raça louca em qual eu pertenço?

—Estava defendendo...

—Defendendo? – Ela me empurrou contra a parede, me jogou na verdade e segurou no meu peito me empurrando contra a parede ao lado da porta do meu quarto. Ela parecia nervosa. – Porque estava me defendendo? O que eu fiz? Quem estava me ameaçando? Quem deve morrer? Me fala que eu...

—Não era você. – Disse abaixando a cabeça com o coração batendo desregulamente e afundando no peito, engolindo seco, nervoso. – Eu te defendi uma vez... – Lembrei a ela com a pior voz que estava saindo da minha boca. – E... Era um exemplo. Eu... Deixa isso pra lá? Por favor? – Ela me soltou.

—E porque isso parece ruim?

—Porque quando insulta alguém que você respeita, o seu dever é defender.

—Quem me insultou?

—Ninguém... Eu te usei como exemplo que sempre defendo os outros. – Ela me olhou de cima á baixo.

— Está tudo bem?

— Estou com sono. E cansado. O dia foi longo e eu não queria falar sobre isso. – Ela piscou, torceu a boca e passou a mão nos cabelos.

—Você vai ao encontro do dia dos namorados?

—Até você? – Respirei fundo, ela sorriu.

—Você vai? – Ela sorri.

—Eu não tenho namorada.

—Não precisa ser namorada... Embora haja aquela ordem de ser dia dos namorados e tal... E Éponine? – Ia resmungar sobre Éponine novamente, mais não havia o porquê.

—É melhor eu ficar aqui. Acredite, não me vejo acompanhado... – Mentiroso. – E... Não estou com ela, faz um tempo... Faz um tempo que não a vejo. Um bom tempo.

—Eu vejo aquela demônia todo o dia. – Cocei a cabeça, não sabia o que fazer.

—Quer entrar?

—Não. Obrigada. – Ela abaixou a cabeça. – Obrigada por defender quem quer que esteja precisando. – E me deu um sorriso. – Mais vai também ao encontro do dia dos namorados. – Ela disse em tom neutro, sorridente dando tchau e indo em direção ao quarto de Mika. E entrando nele.

Seria melhor se eu estivesse nele? No quarto dela? Com ela? Por quê? Porque ela me disse aquilo de forma tão normal e natural? Pareceu esperançosa e decepcionada por eu não ter feito aquilo. Então Marjorie estava certa, Mikaele não estava bem. Mas, porque ela não estava bem? Exatamente qual era o motivo?
Eu queria saber, mas não poderia perguntar, oras, eu não sei o que fazer além de ficar olhando para o teto do meu quarto e matutando o que ela queria me dizer. O que ela poderia ter dito. Falasse, dissesse. Ela estava doente? Não. Ela fugiu do refeitório, ela estava com medo. Ou talvez não fosse medo, pavor, não interessa o quanto eu pense, não faço idéia de nada. E isso me incomoda. Eu havia acabado de brigar com o meu irmão de consideração e pelo visto não íamos voltar á nos falar do nada, eu ao menos não voltaria se ele não pedisse desculpas por ter sido ignorando e agido como um animal. Mas, foi mais por ela. Sentei-me na cama e pensei.

Eu poderia me ver só com ela novamente.

Se Mikaele fosse á esse encontro dos namorados; ela iria com o grandão... Ou o exótico; mas, estou pensando positivamente no grandão. Por apenas dois motivos. Um; Éponine gosta dele. Dois. Ela poderia ir comigo só pra roubar ele da Mikaele, e eu a roubaria dele. Seria um plano magnificamente perfeito.

O problema seria se ela estivesse com o exótico. Mas não. Ela não seria assim. Ela não é esse tipo de garota como o Leonardo falou, estou me deitando levar pelas ideias idiotas dele. Naquela noite, foi tudo sem ela saber, ela não parecia interessada em ter um contato com ele, ela estava completamente e infelizmente fixada no grandão. Aquilo foi um beijo roubado. Qualquer um pode dar um beijo roubado e sair correndo. Foi isso que ele tentou fazer, mas pelo visto não deu certo. Estralei os dedos das mãos e dos pés. Estava com fome, mas não iria descer até lá embaixo. Mas, eu devia achar Éponine. E torcer por duas coisas.

Um. Por Éponine ainda ser gamada no grandão. E dois. Pra ela querer sair comigo.

Dei-me por vencido, fui jantar.

Basicamente, eu estava mais exausto do que faminto. Mas, eu tinha certeza de que naquela noite eu não teria alguma coisa gostosa da minha Monitora. Não sobrou muita coisa. O macarrão havia acabado, tinha apenas sopa, sim, sopa, uma sopa alaranjada, cheirosa, mais alaranjada. Tinha pão e pêra, suco de uva e estava bom pra mim.
Leonardo e Marjorie não estavam mais no refeitório, eu só queria ter certeza de duas coisas...

—Ora, ora, ora... – Essa voz. – Quem ainda está aqui sozinho; o novato brasileiro. – Número um.

—Éponine... – Sorri para ela que sorriu de volta. Seus cabelos estavam presos em um coque estilo de noiva, faltava apenas o véu e a grinalda. – A veterana... – Travei. – Canadense?

—Quem me dera... – Ela sorriu. – Quem companhia? – Não a sua.

-Lógico. Sente-se. – Ela se sentou de frente para mim, como sempre, para olhar nos meus olhos. Fiquei em silêncio. Eu ia esperar ela falar primeiro, eu não tinha o que dizer, eu tinha, mas, não queria. Era injusto convidar alguém por interesse. De qualquer jeito, não era justo. Ou era, era errado. Não gostaria que alguém fizesse isso comigo.

—Faz tempo que não conversamos...

—Nossos horários não batem. Estamos nos desencontrando. – Eu quis me levantar,

—Faz tempo que não te beijo, nem te sinto, nem nada...

—Na verdade...

—Sente falta dos meus beijos? – Que tortura.

—Eu...

—Eu sinto... – Ri sem graça. – Ok. – No dia dos namorados, alguns casais do dormitório vão sair para se divertir. – Ela riu. – Fazemos gincanas...

—Gincanas? – Ergui uma sobrancelha, me mostrando interessado, como se nem soubesse do que ela falava. – Como?

—O casal com a melhor foto irá ser sorteada nas férias e ganhará uma viagem. – Ela amarrou o longo cabelo preto em um rabo de cavalo. – Ou no fundo não é nada demais. Apenas para sairmos e voltarmos no mesmo horário. Para não ter problemas. Mas, tirar fotos e ao menos ter ela em um mural por um ano em um lugar romântico; é muito tentador.

—Isso parece um jogo.

—Um jogo?

—Um jogo para alguém mostrar quem tem a melhor noite. Humilhando o outro. –Ela riu.

—E se for um jogo? Jogue também. – Mordi o polegar e a encarei.

—E quem iria?

—Metade do colégio. – Ela fez um bico. – Não garanto todo mundo. Depois da briga com o Silva e o Rowell...

—Qual seria o problema? – Ela bufou.

—Se Rowell for com a Sales; será muito chato. – Com certeza. – Alguém te convidou?

—Comentaram comigo.

—Pensa em ir?

—Não tenho companhia.

—Vamos ir juntos? Não seria nada ruim. O que acha? – Peguei minha pêra, me levantando e concordei com ela.

—Acho que não seria nada mal. – Ela sorriu e me beijou. Éponine parecia só saber fazer isso. Conversas curtas, beijos longos e não. Não era legal, porque eu estava ali por outro motivo. E ela estava resolvendo muito por mim, talvez por nós. Porque eu achava, estava pensando; bem, eu PENSAVA e PENSO que ela ainda gosta do grandão, ela ainda tem que sentir uma queda por ele. Por vários motivos, ela me largaria em um dois, se Mikaele desse mole.

SE ela der mole.

—Eu sentia falta disso...

—Disso? O que Exatamente?

—Ora seu sotaque brasileiro e seu perfume... –Dei um sorriso para ela, eu estava fazendo errado? Sim, estava por puro interesse, mas por ai ia.

—Mas, não significa que estamos juntos. – Eu respondi.

—Como não?

—Quer minha companhia para o dia dos namorados. – Ela respirou fundo e virou os olhos. – Não é?

—Isso, mas, vai que... Rola? – Ela disse.

—Eu nem queria ir. – Comecei.

—É só um passeio erh... Aan...

—Victor. – Ela esqueceu meu nome?

—É só um passeio Victor. É só um feriado. – Ela esqueceu meu nome.

—Que todo mundo quer que eu vá.

—Pode ficar aqui e assistir filmes melosos no salão de apresentações. – Ela parecia ter murchado. – Ou sair e admirar a cidade.

Era complicado. Eu só queria “ela”.

No meu quarto eu estava com esperanças de Éponine me deixar para ficar com o grandão e eu poder ficar com a Mikaele. E se nós entrássemos nessa onda de tirar foto e concorrer à uma viagem? E se nós fossemos sorteados? Qual cidade ou país ou lugar eu gostaria de ir? Qual lugar ela gostaria de visitar? Nós? Talvez a Grécia; seria um belo lugar para um passeio, ouvi dizer e vi por fotos que as praias da Grécia são as mais belas da Europa. Até porque, em boa parte dos demais países europeus o mar não toca tipo a França; ela rodeada de outros países nem tem como ver o mar se não for mais ao norte ou sair dela, o Rio Sena já é o suficiente. Mas a Grécia está na pontinha da Europa, assim como a Itália com o seu formato de bota. É capaz de se ver o mar. Então; é belo. Sem mencionar que eu me familiarizo com o mar.

Então naquela manhã mudaram o pesadelo dos calouros, e eu era um desses. Por ser extremamente cansativo aula e depois curso só iria ter curso entre duas a três vezes durante toda a semana (isso pode incluir sábado e domingo) dependendo da disponibilidade do G. S. menos mal. A única coisa que me incomodava é que Mikaele parou de aparecer, realmente, como disse Leonardo; ela sumiu. Niedja tomou o seu lugar para monitorar; nessa manhã além da boa notícia, ganhei uniforme novo, era um uniforme completamente azul escuro, um de verão e um de inverno; não como a roupa que eu usava para identificar que eu era do Depardieu; era um uniforme europeu, social, com gravata, e brasões nas roupas, calças e blusas; e na gola da camisa, o nome da escola. E o meu nome. Nem tinha como dizer como fiquei feliz, meu nome, me fazendo me sentir importante.
Só estaria mais feliz se eu tivesse ao menos notícias dela.

O bilhete que eu havia escrito, o bilhete que ela devolveu, foi á mais? E se eu tivesse ficado quieto ela teria me mandado outro bilhete no dia seguinte?
Conforme os dias passam, percebo que fiz duas enormes besteiras. Combinar de ficar com Éponine e ter mandado um bilhete á ela. Alimentar sentimentos por uma pessoa e estando com outra é um pesadelo para mim. Porque eu queria a monitora. Quando me vestir e sai do meu quarto naquela manhã para tomar meu café e ir ao colégio levei um susto. Ou parecia mais curioso do que assustado. Havia sussurros, cochichos, algumas palavras, frases, e conversas que eu não conseguia entender, porque era em diferentes idiomas. Havia risadas quando eu cheguei ao hall de entrada, á caminho do refeitório, entendi por partes o que estava acontecendo, havia uma folha, o motivo do tumulto era “uma folha”. Como uma placa ou um aviso. Aproximei-me para ler, mas estava em francês; e tive que dar espaço para quem mais queria ler e era muita gente; eu não tinha habilidade para ler rápido o suficiente, mas fiquei ali tentando juntar uma palavra com outra pra ver se eu conseguia ler. Fazia isso com textos em espanhol e inglês; porque não em francês? Porque em francês é mais complicado. Tinha algo sobre “Eiffel”; então citava a Torre Eiffel.

— “O cabelo dele era castanho claro e macio, a pele era clara, os olhos mais brilhantes do que tudo o que eu já vi, eles iluminavam mais que a Torre Eiffel, tem um sorriso encantador… E uma voz que prende a atenção. Mas eu estraguei nosso futuro.” Me virei para ver quem estava sussurrando no meu ouvido. – Bonjour guri.

—Que?

—É o que está escrito... Ao menos aqui. – Ergui uma sobrancelha

—Escrito ao menos aqui? – Ela apontou para o refeitório e quando eu entrei nele. Eu vi mais folhas e o tumulto que não parecia ter um fim.

—O que é isso? O que é tudo isso?

—Eu não faço idéia. Mas, está por todo o dormitório. As meninas estão afobadas, os garotos estão atiçados.

—Por quê? – Perguntei.

—Por quê? Todos querem saber para quem foi e quem foi. – Estava digitado, imprimido e colocado com cuidado na parede. Mas, só pelo jeito de se expressar, do jeito que estava escrito eu devia imaginar quem foi.

Mas, se foi quem eu estava pensando seria para quem? Seria pra mim?

Mikaele escreveu aquilo para mim?

Aliás, foi mesmo ela?

Porque sair escrevendo amores e colando por ai?

Notas finais
Devido ao meu computador ter sete anos; ele sempre está nessas me dando um susto com medo de perder tudo. Espero que tenham gostado, não deixe de comentar porque isso ajuda muito! Estou tentando diminuir o número de palavras, mas... Não tem jeito amoras... :3 Até o próximo capítulo... ~♥~ Beijos da Autora.~♥~