E Eu sou o Amor da Sua Vida?
60 Imperfeito é Melhor que Perfeito {Bônus}
Notas iniciais
Luco
Você não pode sentir meu coração bater mais rápido? Eu quero que isso dure, preciso de você do meu lado. Me desculpe pela minha fraqueza, mas eu não sei porque; sem você é tão difícil de sobreviver.
Dia 02 de maio. Meu Glorian day! Meu dia especial com a minha galáxia, meu interior estava celebrando aquele dia que eu não poderia esquecer. Nunca, depois de tanto tempo, ela estava ali por mim, comigo...
Mesmo que ela mal conseguia olhar para mim, e é compreensível, muita coisa aconteceu nos anos que ficamos separados. Mas, eu me apeguei tanto a ela que sinceramente, não sei se é saudável. Obviamente não é, eu não me importo muito sobre isso, Dégel não precisava de mim para sua apresentação no sábado, já que ele basicamente nasceu no palco, eu seria apenas mais um ali, e tudo bem. Ela arruma os fios de cabelo loiros os colocando atrás da sua orelha. Aquilo tira o meu folego como sempre; se existisse uma competição mundial para charme em ser discreta e sensual com o cabelo, Katherynne venceria sem algum esforço, nota dez, nota máxima; medalha de ouro, troféu de diamante. Após um longo tempo sem dizermos nada puxo assunto.
—Estou pensando... – Abaixo os óculos escuros, sinto incrível e sensual fazendo isso, embora pareça que ela não gosta, porque toda vez que me olha sua expressão é... Indecifrável. – Vamos perder a apresentação da nossa Monitora, amor do Young e do Antonie. – Dou uma risada. – O clima vai ser maravilhoso...
—Aposto que sim. – Ela não me olha diretamente. – Sem você lá seria um caos, não seria? – Nego com calma. – Como vocês puderam fazer uma aposta dessas? Separar o grupo assim...
—Foi ideia do Dégel, e completamente ideia dele. Não sei porque, mas, ele sugeriu... – Não era mentira, não sei porque. – Estávamos todos nervosos, as provas, as apresentações e os testes, ele melhor do que ninguém sabe o que fazer para amenizar o estresse.
—Causando mais estresse? – Ela pergunta se virando para mim e eu dou um sorriso longo. – Que foi?
—Eu estou feliz que você esteja aqui comigo. – Ela desvia o olhar. Me recomponho. – Não é causando estrese, é realmente divertido, é engraçado. – Kathy está em silêncio. A viagem até La Mére Lachaise demorava cerca de trinta minutos, e sei que podia ser uma viagem desconfortável.
É um dia bonito, a primavera dá as caras, aos poucos o ônibus vai enchendo, é quando por lógica, o espaço entre nós diminui e ela está agora do meu lado; posso sentir o seu perfume que me recarrega, consigo sentir o calor do seu corpo sob o meu.
—Não é pra se acostumar... – Ela diz do nada, mas, suponho que é sobre o passeio. – Isso não vai acontecer novamente! – Sim! É sobre o passeio, então eu dou um sorriso.
—É por isso que estou aproveitando... – Mas, sua expressão corporal muda de repente, ela parece tensa, o que eu não quero que aconteça. – Sinceramente, eu podia ver o Young estragar a sua apresentação com um simples escorregão. – Ela me olha. – Me desculpa, mas, eu não posso mentir, ele não tem muito ritmo...
—(...) – Ela olha para a janela. – Não tem. Não fizemos nem a coreografia que eu queria... Fizemos uma mais calma. – Ela suspirou, aquilo me desequilibrou, como sempre fazia. – Se a minha nota abaixar por causa dele...
—Não vai não. Você dançou bem, e tocou principalmente, a harmonia trabalhou bem e o equilíbrio foi o ponto essencial. – Segurei em sua mão, e para minha surpresa ela não repeliu ou tentou se afastar, ela apertou. Meu coração começou a bater acelerado, uma onda de felicidade invadiu o meu corpo, de uma maneira que eu não conseguia explicar. – Tipo, eles podem perceber que você estava dando suporte, o que será ruim se chamarem ele para um teste solo.
—Como a Mikaele pode se apaixonar por ele? – Ela parecia indignada.
—Apaixonada?
—Não é amor, eles não tiveram tempo para desenvolver algo além da atração física e emocional... – Kathy continua segurando na minha mão com você, talvez nem percebeu, talvez não ligasse mais; porém, era um fato de que alguma coisa aconteceu para ela usar tantas desculpas e aceitar sair comigo. Não é um encontro. Não ainda. É apenas um passeio. Uma caminhada! – Foi como um golpe que saiu um pouco fora do esperado. Lutar para conseguir, foi mais ou menos isso. Não é amor.
—E qual é a diferença? – Ela me olha como se meu rosto estivesse sujo, então ela olha para as nossas mãos juntas, na qual ela leva um susto e solta minha mão, a quebra do contato quase me faz suspirar, quase revirar os olhos.
—(...) Bem... Tem uma diferença. – Kathy engole em seco, ela nervosa me fazia querer abraça-la. – A paixão é intensa e passageira, o amor é profundo e duradouro. Como Mika mesmo disse, “Amor é para sempre, a Paixão não. ”. – Ela fez uma pausa. – Não é amor que ela sente. Talvez foi o físico dele.
—Hãn, o Young? – Dei uma risada, mas, ela ficou séria, então contive o riso. – Aan... Não pode ser por outra coisa? Mais dele do que dela?
—Não sei se o intelecto deles é parecido. Eu não sei como eles se envolveram. Apenas sei que isso é. Ridículo. – Concordo com a cabeça.
—Mas, então significa que seria uma probabilidade dela ficar com o Antonie? – Ela faz um bico, pensando. Estava pensando no que Verônica me disse. O que ela me contou.
O desabafo irritado, apaixonado e amargurado dela. Ela ficou do lado de Antonie quando fomos para Rússia, ela era o seu apoio, ela se apegou a ele, mas, ele não queria ela, a via como a boa amiga; e se ela falou que tinha certeza que ele iria ganhar o coração da Mikaele, é porque ela vê além do que a nossa brincadeira. Que pra ela não era uma brincadeira pra ela. E como conhecemos Kathy, ela odeia perder, ela fará de tudo para vencer, não ficaria surpreso se ela tivesse dito a monitora com quem ela deveria sair, como uma boa amiga ela faria... Não quero que ela torne a minha vida miserável, então quero que Kathy apenas diga que apesar dos defeitos, Victor tem chance... Porque não posso contar que Verônica gosta do Antonie. Mas, eu não posso fazer muito se ela mesma não dá um passo em frente.
Eu preciso consertar a aposta do Dégel, Kathy era a aliada mais forte que eu tenho...
—Bom; eles se conhecem a muito tempo. – Kathy disse depois de muito tempo. – Mesmo que passassem muito tempo separados; ele se manteve cuidadoso, respeitoso, porque ele se importou em dar espaço pra ela. O que o guri não fez; então, eu consigo ver Antonie sendo uma pessoa que ela voltaria, porque ele é uma pessoa que ela considera confiável e segura, mesmo que não pareça, é uma opção.
Que droga!
—Você acha que ela não daria uma chance pro Young? Qual é, o Young é legal, é tranquilo é...
—Por favor, ele é muito devagar... – Kathy falou, eu precisava contornar a narrativa.
—Mas, mesmo que foi uma paixão, durou bastante. – Comecei a mexer as mãos. – Pelo que eu entendi, foi de repente, como uma faísca que se ascendeu tão rápido e levou a ela trair Armin. – Ela me olhou, aquele olhar me fazia perder o raciocínio, perto dela eu sou um corpo vagando sem rumo, mal penso normalmente. E eu mal penso com convicção. – Quero dizer, nenhuma chance?
—Nem sabemos se ele vai passar para Cênicas; se ele não passar, ele vai pro intercambio. – Ela levantou um dedo. – E se ele estiver no intercambio não estará no mesmo prédio que nós... Ela não ficaria com ele...
Passei a mão no rosto.
—E porque ela não poderia voltar pro Cainan? – Ela me encarou. – Armin? Ela devia estar com Armin não é? Ou...
—Tem algo que você sabe, e não está me contando? – Kathy ficou muito próxima do meu rosto. Pude sentir sua respiração e meu corpo se arrepiou. – Quer mudar a minha opinião porquê? Só porque eu sou amiga dela? – Fiz um bico e fiz um barulho com a boca. Dei um sorriso com o gesto. Mas, ela não gostou.
—Sim; foi uma aposta ruim. Eu não me dei conta que pessoas poderiam sair machucadas com essa escolha. – Kathy franziu a testa e me olhou intrigada. Por longos segundos, coloquei os óculos escuros acima da cabeça e respirei fundo. – Não pensei que forçar isso seria legal, porque vi que tem muitos sentimentos ocorrendo em volta da nossa Monitora.
—Mon Dieu! – Ela exclamou.
—O que? – Perguntei assustado, quem estava no ônibus olhou para nós dois. Me virei. – Pardon... – O que foi?— Sussurrei.
—Agora você percebeu que foi uma ideia idiota depois de tudo isso se alongar? – Dei uma risada e olhei pela janela. – Estávamos perto do destino, pedimos licença e a segurei pelo cotovelo, ela estava receosa.
—Ah vamos lá, Kat. – Sorri, o que a deixou meio surpresa. Eu não sabia pronunciar o nome dela quando nos conhecemos, então, diminui ele. – É a nossa parada! Pra onde você quer ir?
Ela suspirou, levantando-se pegando os óculos da minha cabeça e colocando nela.
—Claro, combinam com o estilo espiã secreta. – Ela olhava ao redor enquanto caminhávamos, ela mantinha uma distância entre nós, há um silêncio, talvez constrangimento.
—Pra onde estamos indo?
—Tomar café... – Respondo; então estendo o meu braço para que ela se apoie nele. Quando Kathy me olha faço um gesto para ela encaixar seu braço no meu, após um tempo que pra mim parece uma eternidade Kathy finalmente aceita e estamos andando de braços dados, como dois amigos, dois colegas de curso, dois alunos de intercâmbio, mas, especialmente, estou andando com a minha galáxia.
—Não significa nada...
—Eu sei. – Digo contendo a risada, mas, aquilo é tudo para mim. Meu coração está como uma balada de felicidade com esse contato. –Sei, podíamos tomar no refeitório, mas, deve estar uma bagunça lá. – Quebrei o silêncio depois de dois minutos cronometrados na minha mente. Não queria conversar com ela sobre a aposta, sobre as conversas que ela provavelmente teve com a Monitora, éramos apenas nós dois, e uma caminhada para livrar os nervos. – Não vai no baile barroco esse ano né?
—Provavelmente não. – Ela responde sem muito animo, ela parece chateada.
Há dois eventos em que usamos roupas do século XVII, uma na primavera, que é no Castelo Vaux-Le-Vicomte, é onde geralmente vamos, pois, tem jogos, concursos da melhor fantasia e há um piquenique. Nesse, é livre para todas as idades, entretanto precisa fazer a reserva do local. O segundo é no verão, sendo o mais famoso e cobiçado, no Palácio de Versalhes para o baile de máscaras noturno. Nesse além de reserva, precisa de um convite e o mais importante a idade, menores são acompanhados por maiores, geralmente os veteranos sempre vão no de Versalhes, não os culpo, é incrível.
—Se você fosse, ainda iria de Maria Antonieta?
—Claro. – Ela disse com um sorriso encantador. O sorriso que eu achava mortal. Tudo nela me fazia extremamente bem. – Irei querer comer brioches!
Chegamos a um bistrô, o famoso La Mére Lachaise, é um lugar onde raramente estudantes vem, existem bistrôs mais perto do dormitório e do colégio; entretanto, apenas pelo fato de pouca gente conhecer é mais tranquilo, não há um alvoroço. Ele tem uma entrada estilo retro, há mesas do lado de fora, como em todo lugar na França, mas o visual de dentro é muito mais bonito. A arquitetura é linda, o ambiente é agradável e além do mais, é aconchegante. Pode ser movimentado por causa de alguns turistas, mas, não temos dificuldade para pegar uma mesa para nós dois. Fazemos o pedido, e esperamos. Sem constrangimento, como duas pessoas normais.
—Claro, uma Maria Antonieta sem nenhum parceiro, sem Rei ou cavaleiro né? – Ela olhou pela janela. – Você parece preocupada com algo, não diga que é porque você vai perder a apresentação da Niedja! – Ela fica em silêncio. – Conversa comigo, relaxa.
Nossos cafés, pães, geleias, biscoitos e frutas chegam; temos um desconto por ser do Depardieu, o que eu adoro, por dois motivos, descontos são bons e ainda por cima somos reconhecidos como artistas. E por estarmos a tanto tempo na França o sotaque é menos constrangedor e ninguém tem a mentalidade de “invasores do nosso país. ”. Ela se serve primeiro, e eu em seguida. Talvez depois de comer um pouco ela fique mais calma, foi arrastada para longe para comer, e pessoas com fome ficam furiosas. Aguardo um pouco.
—Não estou nervosa porque perdi a apresentação da Niedja. – Estamos começando bem, por isso fico em silêncio, pois, parece importante. – Ela é capaz de fazer uma boa apresentação, ela tem uma ótima rede de apoio. É que... Como posso dizer? (...) Me desculpe.
Solto uma risada.
—Deve ser a quinta ou décima vez que você me pede desculpas, e eu não faço ideia do porquê...
—Nosso relacionamento. – Paraliso, mal consigo colocar geleia no pão. – Ele não tinha nada de errado. – Certo, fui pego de surpresa, solto a faca e coloco o pão no prato.
—Por essa eu não esperava, nem em dozes anos luz... – O que era muita coisa. – De verdade. Eu... – Estava engasgado em sua garganta. Mas, eu não queria estragar esse momento.
—E quero saber se você decidiu que área artística você escolheu.
Kathy me olha surpresa pela mudança de assunto.
—Área?
—Quando nos conhecemos, você queria o ramo de atriz. Depois você quis ser coreografa e depois cenógrafa. – Ela me olha. – Escolheu alguma? – Ela parece constrangida, ou confusa, mas, não quero minha galáxia triste. E mudar de assunto é um jeito de aliviar a tensão, sei que por hora não, mas, é sábado, precisamos respirar um pouco, da pressão das apresentações.
—Bem. – Ela come um biscoito. – Gosto do campo em geral.
—Conte-me mais... – Ela tira o lenço preto da cabeça e seus cabelos loiros caem em forma de cachos, essa visão me deixa entusiasmado.
—Não há o que contar. – Inclino a cabeça.
—Você vai fazer tudo?
—(...) Não ao mesmo tempo. – Ela suspira demoradamente. – Tipo, eu queria muito focar em duas áreas. Coreografia e Música. – Dou um assobio e em seguida dou um sorriso, mas, abaixo a cabeça, ela detesta meu sorriso que parece o gato de Cheshire, Kathy balança a mão. – Pode sorrir, não precisa esconder.
Okay. De duas uma.
Ou minha galáxia levou uma tijolada na cabeça e simplesmente assumiu outra personalidade para antes de nos separamos.
Ou
Eu estou tão dopado de remédios que já estou imaginando coisas, cenários, situações, interações... E se essa nem for a Kathy? E se eu estiver no meio de um protesto sentado no chão?
—Entendi. – Digo em tom sério, mas, evito dar longos sorrisos. – Você seria uma ótima dançarina... Musicista também.
-Obrigado. E você?
—Eu?
—Em qual campo quer trabalhar agora? – Respiro fundo.
—Diretor, quero ser o homem por trás da câmera que dá o sucesso.
—Se você não for muito dramático, tem chances de ser reconhecido. – Estou sendo elogiado?! Meu ego aumenta.
—Reconhecido como Steven Spielberg? Tim Burton? Guilhermo Del Touro ou.
—Reconhecido. – Ela me interrompe com graciosidade. – Tipo, ser um nome popular... Com a ideia certa, com o ponto certo e visão certa. – Suas palavras fazem a minha cabeça girar; e é bom... Ela me faz bem.
—Entendi.
Conversamos mais um pouco sobre o curso e as aulas, sobre os instrumentos que aprendemos a tocar, ela havia aprendido recentemente violoncelo, mas, não estava tão otimista assim, gosta do violão, da harpa, eu lembro que ela tocava harpa como uma deusa grega, como uma musa em um palco de marfim e vestido dourado brilhante. Quando ela perguntou sobre o que aprendi na Rússia, digo que não foi muita coisa; apenas que eles são doidos.
Em relação a isso aprendi aquelas danças sincronizadas russas, aquela confusão, dispensei o balé, a patinação e práticas que eu não considerava útil, claro, o currículo é diferente, mas, aprender em russo é horrível, sem contar que eles não ensinavam em inglês, ou você sabia russo ou sabia alemão, inglês? Era um preconceito comigo, podia sentir. Éramos uma turma só de vinte estudantes, e apenas eu era estadunidense; Dégel que se deu bem, assim como Verônica e Pandora, sabiam russo e alemão; Steffano e Antonie quase nada; Conrado, piorou. Conclui dizendo que ao menos as roupas eram bonitas, o que ela concordou e começamos a falar sobre os pontos turísticos. Mas, estávamos com tanta raiva de termos ido pra lá que mal aproveitamos os lugares, porque lá o toque e recolher é muito mais rigoroso.
Enquanto tomamos café falamos de coisas diversas, entretanto, eu sinto que tem algo errado. Mas, não foco exatamente nisso, foco em mantê-la distraída, então nesse processo digo coisas aleatórias, que saem da minha boca com agilidade, envolvem uma fofoca, como da vez que Young chamou nossa Monitora para sair; eis, que Kathy também havia sugerido isso, mas, aparentemente ela ainda está com os sentimentos imersos em Armin. Certo, é um ótimo ponto, o único problema para a solução da Verônica, se mudou para outro continente, minha amada Nova York. Mas, há uma esperança, pequena, mas, não é nula; não volto ao assunto da aposta, porque ela vai perguntar porque e estou a coagindo a mudar de lado; e prometi a Verônica que não falaria nada, amo a minha galáxia, mas, se eu estiver morto não vou aproveitar nada. Terminamos nosso café da manhã e ficamos sentados por mais um tempo, antes que o local lote de pessoas. Pagamos nossa conta com a gorjeta devidamente incluída dessa vez... Eu pago, porque a convidei para caminhar, porque a amo, porque ela é especial para mim e porque, claro, preciso causar uma boa impressão. Enquanto caminhamos para fora em direção ao nosso próximo destino, me arrisco a olhar para ela, que me olha fixamente, profundamente, assim posso dizer; quero dizer, faz muito tempo... Muito tempo mesmo, que ela não me olha daquele jeito, especialmente daquela maneira, e meu coração acelera, espero que o dela esteja acelerado também, ou ao menos gratificado em estar ao meu lado, mas, não com medo.
O Cimetière du Père-Lachaise fica a exatamente menos de cinco minutos do La Mére Lachaise, era minha intenção trazer ela primeiro aqui, mas, como não comemos, não seria justo, não com Kathy. Então paramos na entrada do cemitério; ela está muito perto de mim, me viro pra ela, seus cabelos estão soltos, mas, os óculos escuros ainda estão em seus olhos. É quando ela faz uma coisa que eu nunca imaginei que ocorreria; ela levanta os óculos e prende seu olhar no meu, o que é incrível, indescritível e.
—Vamos ficar aqui parados mesmo? – Ela interrompe o meu raciocínio; então sou arrastado para a realidade.
—Claro que não... — Seguimos em frente.
Esse é um dos cemitérios mais famosos da França, ele foi inspirado no estilo dos jardins ingleses; ele teve muitas ampliações desde que foi construído, o local é uma mistura de cidade em miniatura, com museu a céu aberto e aula de arquitetura, história e como gente rica está enterrada aqui... Entre as catacumbas de Paris, a Catedral de Notre Dame e o Point-Zéro, o cemitério du Père-Lachaise é o passeio “obrigatório” de todos os estudantes do Depardieu; não somos devidamente obrigados, mas, em geral como grandes personalidades estão enterradas aqui, é como uma inspiração. Realmente é uma inspiração está sobre ossadas de escritores, poetas, pintores, músicos, cineastas, cantores e atores. Existem nobres, mas, ninguém liga pra isso realmente, não nós do Depardieu. Basicamente todos que foram enterrados aqui não deixaram muitos herdeiros, resultando em passeios turísticos. Nesse momento o celular dela toca. Levamos um susto enquanto estávamos passando entre alguns mausoléus.
—Oui? – Ela se afasta um pouco, e começa a conversar, estou parado no mesmo lugar, Kathy está um pouco mais a frente. Ela troca algumas palavras rápidas e depois de se despedir, ela olha pra mim, acompanho seu ritmo.
—Quem era?
—Mikaele. – Ela diz em um tom apreensivo. – Estava me procurando. – Observo sua expressão. – Não disse que estava com você. – Ela engole em seco. – Não é soando malvado, mas... É que... – Ela mesma se interrompe. – Luco, eu sei que eu fui muito cruel com você. – Fico sério enquanto caminhamos. – Eu sei que passado é passado, não deve ser relembrado ou mexido. Mas, estamos em um cemitério. – Ela aponta para os túmulos. – E isso definitivamente é passado, quero lhe compartilhar uma coisa.
—Novamente. – Digo sorrindo. – Não estou acostumado com você se desculpando tanto, olhando pra mim, conversando comigo e.
—Você tinha conhecimento de que Igor e Mateus eram Colorés? – A pergunta me pega de surpresa. Então nego. – Pois bem, eles eram, saíram um pouco antes de você entrar para os Coloré. – Ela colocou a mão no peito. – Eu sempre ouvi um lado da história, por isso nós terminamos; entretanto eu ouvi a história de outros ângulos e. – Ela fez uma pausa para respirar. – Deus! Que droga! – Ela exclamou, como se desse por vencida. – Nosso relacionamento era bom, nossas conversas eram boas, nosso clube do livro particular de terror era bom, sua risada era boa, sua companhia era impecável, você foi verdadeiro e sincero comigo ao último...
—O que tá acontecendo? – Perguntei assustado. Porque, não tinha como não ficar. Segurei minhas mãos, me controlando, estava ansioso demais para retrucar ou perguntar, então ela começou a chorar.
—Acredita que Guilherme disse para Mateus que eu não era descente o suficiente para ser uma Senhora Silva? Acredita que ele escondeu todas as cartas que Dégel escreveu para Niedja durante todo esse tempo? E usava as falas bonitas dele para conquistar ela? – Eu nem ousei a falar, deixei ela descarregar as emoções. – Mateus disse que ele nunca poderia vencer você! – Dou um sorriso largo, eu o venceria! – Mateus te detestou desde o momento que te viu; ele inventou mentiras sobre você, tantas que eu duvidei de mim mesma e terminei com você sem ouvir seu lado da história.
Paramos no meio do cemitério, não tinha ninguém perto. Ela me olhou, meu coração quebrou, não gosto de ver ela triste. Fiquei em silêncio por um tempo, absorvendo que eu era melhor que ele, palavras que eu nunca tinha ouvido vindo dela. Não depois que terminamos... Pisquei, ela me olhava com uma expressão estressada, mas, o que eu poderia fazer? Não podia abraça-la, ela estava irritada.
—Você nunca serviria para ser uma Senhora Silva. – Ela estreita os olhos e eu me aproximo em um tom calmo. – Não é um sobrenome com destaque, é muito comum, e você não é comum, nunca foi.
—(...)
—Eu me lembro quando nos conhecemos... – Recomeçamos a caminhar, mas, só quando ela estava mais calma, sem soluços e claro, mesmo que eu queria limpar as suas lágrimas achei inadequado, até porque, ela estava enfim, se abrindo comigo. Se eu subir a montanha que me mantem seguro de Kathy, no quesito, estamos em uma zona de conforto, se eu atravessar o rio, ela pode escapar dos meus dedos... Não! Definitivamente hoje não. Nunca mais. Ela estava triste, eu era um suporte para ela, e tinha que estar ali para ela.
—Estávamos lendo o que? Drácula? – Ela chuta, eu dou risada porque ela não se lembra.
—Não, não estávamos lendo nada. – Digo. – Eu era o único que queria ir nas catacumbas de Paris. Steffano e Armin iriam passar o recesso fora, os outros já estavam de “férias”. – Fiz aspas. – Era véspera do meu aniversário.
—Não era véspera do seu aniversário. – Ela diz séria. – Não era recesso, era um fim de semana... – Ela ficou em silêncio. – Era o aniversário da sua irmã.
Fico surpreso. E meu coração aperta, Kathy coloca dois dedos sobre os lábios. Ela se lembrava de verdade, não sabia que era importante pra mim, apenas foi como uma companhia macabra ás catacumbas, e de lá fomos para o ponto onde estávamos agora, no cemitério dos vampiros.
Tecnicamente nosso cemitério, onde de repente descobrimos que amávamos o casal Warren, amávamos contos de terror, mas, ela apenas ficou comigo naquela noite de 11 de setembro de 2011, quando fazia dez anos que eu perdi a minha irmã, que amava Edith Piaf e gostava da pronuncia do nome Alan Kardec; foi por causa dela que eu estava na França; E foi por causa de Kathy que eu não esquecia minha irmã. Porque todos os aniversários dela, Kathy estava comigo. Foi por isso que ela era minha galáxia; o cuidado que ela tinha por mim era tão grande quanto uma galáxia, pois sua grandeza não tinha como comparar, eu podia ser uma estrela no coração dela e estava tudo bem, porque estávamos juntos. Mesmo que fosse celebrando o aniversário de morte da minha irmã.
—Sim... – Murmuro. – Ela fica em silêncio.
—Eu sei que ela estaria orgulhosa de você onde quer que ela esteja... – Paramos em frente ao tumulo de Edith Piaf, andamos muito. – Você era uma gracinha quando criança. – Ela via muito meu álbum de família. – Na Rússia você não ia aos cemitérios.
—Não era a mesma coisa, eu não sentia a presença dela. – Faço uma pausa. – Me perdoe; mas, eu não tinha você para me ajudar nisso.
É quando sou surpreendido por um abraço, um abraço forte, um abraço que eu não consigo dizer nada além de depois de um longo tempo a abraçar de volta. Seu batimento cardíaco me assusta, mas, ela não quer me largar, não que eu queira, mas, faz muito tempo, eu queria aquilo, mas, estava surpreso e eu não estava encaixando as coisas bem, não compreendia.
—Me desculpa por não ouvir seu lado da história. Desculpa ter lhe ignorado e largado de lado como se fosse um demônio no corpo de uma bruxa na da época das bruxas de Salém – Ela me solta e me encara. – Um garoto perverso se esforçou para roubar você de mim – Eu podia ver o brilho de culpa em seus olhos. – Guilherme, Mateus e Cainan são lobos que usam o disfarce de ovelha muito bem.
—Mas, porque eles fariam isso? Com que intuito? – Ela dá de ombros, continuamos andando mais um pouco, em silêncio, até decidirmos voltar para o dormitório, ao menos para o almoço, para saber como nossos amigos haviam se saído. Em uma parte do caminho, é ela quem quebra o silêncio, fico feliz em ouvir a voz dela, e sim, caminhar até o dormitório não era a escolha mais inteligente, mas, eu passaria mais tempo com ela.
—Igor não falava com vocês depois que ele saiu dos Coloré?
—Eu nem sabia que ele era um Coloré.
—Mas, Conrado, Armin e Dégel sabiam. – Kathy fala. Ela toma a postura que eu mais gosto, a de determinação. – Sei que eu falei muito mal de você, e te julguei horrores, e desculpa pelos pratos e.
—Eu amei... – Digo sorrindo. – Você estava prestando atenção em mim, e isso era minha tortura realizada e maravilhosa. – Posso ver ela se arrepiar. – É a verdade, não vou mentir, eu gostei. – É quando inconscientemente nossas mãos se tocam, há tensão entre nós, claro, porém, dou o passo para segurar em sua mão e ela entrelaça os seus nos meus... Por Deus! Eu morri tantos dias esperando por isso, eu a amei por todo o tempo, e a amo mais e mais, e não consigo esconder minha felicidade.
—Vamos descobrir a raiz do problema dos Silva. – A olho sem entender.
—Porque? – Estávamos em um momento bom. – Não temos o nome de todos os Colorés escritos em um caderno. – Faço uma pausa. – Mas, não acho que alguém iria se lembrar do que aconteceu á mais de seis anos atrás.
—Quando eu descobri, parecia que uma parte da história estava faltando, eu quero descobrir tudo, como os Coloré decaíram tanto? – Faço um bico. – Não é estranho?
—Não quero falar deles, quero falar sobre você. Sobre como você é maravilhosa, esplêndida e fantástica! Você rouba a atenção de todos quando você passa, e você consegue iluminar o meu dia como ninguém. O jeito que você mexe no cabelo mexe comigo. Não é fácil estar do seu lado, nem ao menos feliz. Então, pra que se preocupar com eles agora? Não podemos descansar?
Ela para de andar, me encara, espero um soco ou um tapa.
—Eu...
—Se você visse o que eu consigo ver, entenderia porque eu te quero tão desesperadamente... – Espero o tapa, um palavrão, fecho os olhos e então sua mão toca em meu peito, que está parecendo uma orquestra desafinada e agitada com o tempo acabando da apresentação.
—(...) Estou te olhando não consigo acreditar; que você é um louco que eu apreciava, um maluco que eu gostava... – Fico imóvel. Não sei se é um elogio ou uma crítica. – Como posso explicar? Me sinto mal de não ter lhe ouvido, e eu estava zangada; mas, eu não me lembrava dessas coisas... Eu não queria me lembrar de você!
—Certo. – Concordei. – E agora?
—Bem... – Ela começou a me puxar para caminhar, não largou a minha mão. – Como eu disse eu falei muito mal de você, por um bom tempo, não posso cair de amores agora. – Ela é tão orgulhosa, eu amo tanto ela! – Mantemos a aposta em pé, descobrimos mais sobre esses Colorés, já que Armin não pode nos dizer e daí, a partir de então vemos no que vai acontecer...
—Aan. Isso é uma coisa boa?
Ela coloca os óculos escuros e olha pra frente.
—Talvez sim. Talvez não... Quero investigar como Agatha Christie escreve...
—Certo Hercule Poirot! – Digo com um sorriso, ela está focada em olhar pra frente, agora eu só posso falar sobre livros...
—Sim. – Ela confirma.
E nossa volta para o dormitório é sobre livros de mistério, sobre os livros com finais ruins e assassinatos muito óbvios, sim, a volta é divertida, quando chegamos ao refeitório sentamos em uma mesa afastadas, ela parecia querer se camuflar para não ser vista, ninguém estava prestando atenção, haviam três andares se apresentando naquele sábado, mais parecia mesmo vergonha de me ver, o que eu não liguei muito. Estava com ela, era tudo o que importava. Tivemos um almoço agradável onde até mencionamos em voltar com nosso clube do livro, foi minha ideia, ela disse pra eu me acalmar e segurar a emoção, não era tão fácil assim.
Fiquei no teatro William depois do almoço para ver uma parte das apresentações do 7º andar, o que era bastante gente, pois abrangia alunos até os 19 anos que estavam no 2º prédio; Mikaele foi a décima quarta a se apresentar, ela cantava Eleanor Rigby ao som do violino que ela tocava, não entrei com Kathy no teatro, ela disse que não precisamos ser vistos juntos e se ocorrer fofocas ela vai me bater, quando eu admirei a ideia, ela reformulou a frase para “outra pessoa vai fazer isso”, o que perdeu a magia, então fiquei na última fileira, apenas observando, e pensando, como ela poderia se interessar em Victor e deixar a ideia de ficar com Antonie de lado? Eu tinha 6 dias para resolver isso ou Verônica iria fazer minha vida um inferno, o que eu não queria...
De repente senti alguém puxando minha blusa, olho para trás assustado.
—Você precisa ver isso! – Audrey praticamente me cutuca quando Mikaele toca a última nota e se faz o gesto de agradecimento para a plateia. Há palmas, então Audrey me puxa com força. – Vamos, Conrado está atrás de você! – A encaro confuso.
—Porque o Conrado está atrás de mim? – Ela me puxa e eu deixo Kathy para trás, saímos do teatro William e corremos até o Elisabeth, antes de chegarmos lá podemos ouvir um canto A cappella de Chandelier da Sia, sem instrumentos, apenas vocal e palmas, nem sempre isso acontece, principalmente em apresentações para os professores valendo nota. Algo semelhante é usado em outros testes. A porta do teatro está um pouco aberta e assim que entro dou de cara com Conrado, Stefano, Verônica, Pandora e Joana; ambos estavam na entrada, com a expressão irritada, de braços cruzados, exceto Joana, ela tem uma expressão diferente.
—O que aconteceu? – Conrado apontou para o palco, se ele tivesse super poderes, eles teriam sido usados agora, estreito os olhos para poder ver, era um maestro, com as mãos estava guiando a plateia com a música, o tempo e os sons. – O que eu não estou entendendo? – Quando a música acaba, a plateia bate palmas empolgado, entretanto, quando o maestro se vira, e agradece, estou em choque.
Era Armin! Armin Rowell! Sorridente como sempre, bem vestido, fazer uma apresentação, como se sua ausência não significou nada, ele sumiu como uma entidade na escuridão e renasceu como uma fênix sobre os aplausos, e quando ele se virou apontando para seus cantores; era um misto de emoções e principalmente confusão. Quando esse satanás chegou na França? Quando ele veio para Paris?
Olhando de outro ângulo.
A aposta vai ficar divertida. O dormitório vai voltar a ser um caos....
Não que eu goste do caos, mas... existe... Mas, no entanto, porque ele voltou? Oh, Mikaele vai enlouquecer, porque parece que nada aconteceu, que não mudou, que ele sempre esteve ali e não do outro lado do oceano, em outro continente. Que impressionante.
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