E Eu sou o Amor da Sua Vida?
59 De Volta aos Nossos Pontos Zeros
Notas iniciais
Mika
Você não esteve lá, você nunca esteve, você não estava afinal. Mas isso não é justo. Eu te dei tudo de mim, você não foi justo. Você me deixou cair.
Depois daquela última ligação do Armin.
Ele não me mandou mais mensagem.
Também não queria ligar, era obrigação dele se quisesse falar comigo. O que acho que ele nem queria tanto assim...
Depois da apresentação meu andar, Niedja disse achou algumas cartas interessantes.
Aparentemente, Dégel passou por uma cirurgia. O que era muito inesperado, o que mais a machucou foi que, ele entrou em contato com ela, dava informações, atualizações, e ela nunca recebeu, o que era desolador, e se ele tivesse morrido, Guilherme teria entregado aquelas cartas? Provavelmente não. Eram tantos sentimentos destruídos e construídos com mentiras...
E eu estou mentalmente exaustada. Como alguém pode roubar tudo de você mentalmente? Emocionalmente? Simples, ele fez. Acho que me sinto uma idiota porque, de uma maneira que ele fazia eu sentir borboletas no estomago sentia um peso esmagador sobre meu peito, não era dor de coração partido, pessoas morrerem com esses sintomas, e se fosse assim, eu já estaria aos prantos, como se antes eu não estivesse. Apenas o fato de parecer que está tudo retrocedendo, como se Dégel estar voltando para a vida de Niedja fosse ruim, como se a possibilidade de Luco entrar na vida de Katherynne também fosse péssima. O que é, mas, tantas possibilidades foram abertas... O que eu não poderia deixar afetar era a apresentação, pois, grande parte da minha nota vai pra ela, além das provas...
Respirei fundo e decidi finalmente o que eu apresentaria primeiro. Aproveitando que minha voz está ótima, irei cantar, depois tocar um instrumento e dessa vez pensei em dançar em vez de outros longos monólogos. Eles são ótimos, mas, dessa vez eu queria dançar, e se por um breve descuido não desse certo, voltaria aos monólogos. Não era um problema, mas, não quero que seja uma apresentação sem graça e sem sal. Foi quando ouvi batidas eufóricas na minha porta, passei a mão no rosto, olhei no espelho, eu estava com uma aparência horrível, mas, devia ser importante. Quando abri a porta vejo Kathy, ela estava chorando e muito assim que ela entrou em meu quarto ela sentou no chão, estava inconsolável e eu fechei a porta.
—O que houve? – Me sentei na cadeira de frente pra ela.
—Mateus já foi um Coloré, assim como o Igor! – Ela praticamente jogou a informação. – Quem causou meu termino com Luco, foi Mateus! – Abri a boca e sentei no chão junto perto dela que já estava soluçando. – Porque aparentemente ele era uma criança estadunidense mimada, ele destruiu meu relacionamento com o Seward, começou nosso relacionamento cheio de mentiras e más decisões... – Era muita informação pra mim, foi quando eu me aproximei dela para consolar ela, era o máximo que eu podia fazer, entretanto, ela me encarou. – E você beijou o Victor e nem me contou! Fiquei sabendo pelo Luco. – Me afastei e fiquei imóvel, como é? – Vergonha? Culpa? Você traiu o Armin! – Abri a boca, era muita informação. – Desculpa, eu não sei o que fazer, em quem acreditar, porque ninguém me dá uma resposta?
—Faça uma pergunta? – Perguntei assustada.
—Você gosta do Victor sim ou não? Porque se você gostar dele, vai precisar sair com Antonie!
—Como é? – Coloquei a mão no peito. – Do que você está falando? O que?
—Você não confiou em mim! – Ela exclamou e eu fiquei em silêncio, não sabia o que dizer, o que falar, por onde começar. Então fiquei em silêncio, esperei ela se acalmar. – (...) Você não vai falar nada? Sério?
—Eu não sei o que você quer que eu fale, você disse muita coisa, fez um pedido absurdo e.
—Não é absurdo, é lucrativo! – Ergui a sobrancelha. – Vamos do começo. – Ela limpou as lágrimas. –Mateus armou tudo para que Luco e eu terminasse comigo. – Houve um estalo em minha mente.
—Como Guilherme fez com a Nieh? – Kathy me olhou surpresa.
—Bom, eu não sei porque eles terminaram, mas, eu sei que o Mateus e o Igor eram Coloré. – Ela pensou um pouco. – Porque você terminou com o Antonie? – Comecei a pensar, na verdade relembrar, não havia um bom motivo, ao menos um que eu lembrasse. – Pensa...
Não tinha muito o que lembrar, eu realmente não me recordo, Antonie e eu nos dávamos bem, os Colorés eram uma ótima companhia, lembro de alguns comentários inocentes de Armin sobre mim e Antonie, nós dois raramente brigávamos, nunca houve um catalisador, mas, quando Kathy terminou com Luco, todos se uniram para apoia-lo; o grupo nunca se desfez, mas, andávamos separadamente, não era possível que Cainan, Guilherme e Mateus arquitetaram tudo para ficar conosco.
—Não houve nada. – Respondi. – Apenas que depois que você e Luco terminaram, o grupo ficou desfocado. Porque Mateus te disse uma coisa dessas? – Kathy olhou para as suas mãos, ela respirou fundo.
—Começou porque ele não foi demitido, ele foi transferido. – Ela parecia mais calma, ou seja, eu conseguia entender ela. – Ele conversou com o demônio do irmão dele, o Guilherme e pasme, ele disse que eu não sou descente o suficiente para ser uma “Senhora Silva. ” – Arregalei os olhos.
—Como ele ousa dizer isso? – Perguntei indignada. – Ele é idiota?
—Segundo Mateus, ele é traiçoeiro, todos os Silva são. – Ela respirou fundo. – Eu não sei como você ficou tanto tempo com Cainan, ele te tratava tão... Como posso dizer? – Ela hesitou em falar. – Como pose, como um cão de guarda, como você aguentou tanto? – Nem eu sabia, dei ombros; era muita coisa. – Eis que, o meu ex envenenado, me disse que vai para Austrália em um salto de carreira. – Ela estava furiosa, sabia disso porque seu sotaque gaúcho saiu com força. – Ele destruiu um relacionamento que por anos eu vi como um pesadelo e no fim, o anjo exterminador era quem eu achava que era meu salvador. – Ela mordeu os lábios. – Ele inventou mentiras sobre o Luco, e me deu como verdade, ele destruiu meu futuro perfeito! – Kathy estava aflita. – E agora depois que eu falei mal dele horrores e fiz tanta coisa contra ele... Não tenho cara para olhar pra ele.
—Ele só te disse isso porque vai embora?
—Basicamente. – Ela disse cansada. – Existiam outros Coloré antes dos que conhecemos, ele disse outros veteranos. – Ela tinha uma expressão confusa no rosto. – Eu acho que aconteceu alguma coisa com esses Coloré. Porque não faz sentido Mateus e Igor saírem dos Coloré, eles sendo temporários ou não. Então estou dizendo que você tem que sair com Antonie! Mas, antes, porque não contou que beijou o guri? Achei que nós éramos amigas, achei que confiava em mim. – Meus ombros caíram. – Você traiu o Armin, e...
—Eu contei pra ele. – Meus ombros caíram, me sinto uma derrotada, ela me olhou surpresa.
—Você contou pra ele que você traiu ele com o guri?
—Não. Disse que eu havia beijado um calouro e eu gostei. – Ela me olha desacreditada, com a mão na boca, talvez em estado de choque. – Não contei quem era, eu contei pra ele porque ele sempre teve ciência de que.
—De que? – Abaixo a cabeça. – Ah não! Você vai me contar! – Respirei fundo.
—Você vai ficar irritada...
—Eu já estou irritada! – Ela exclama.
—Eu já gostava dele. (...) Do Victor. – Faço uma pausa. – Mas, eu estava feliz com Armin, céus, ele é tão... – Não tinha palavras para descrever o quanto eu sentia por ele. – Eu contei porque senti culpa e remorso. E não é que e nunca te contaria mas... Como eu contaria?
—Como está me contando agora?!
—É que, eu tenho sentimentos realmente confusos sobre Victor e Armin. – Ela me olhava surpresa ainda, menos indignada eu diria. – Eu classifiquei Victor com um badboy. Porque, eu não o reconheço depois que ele começou a andar com os Coloré, eu gostava do jeito perdido dele, do jeito receoso, era fofo e magnifico. Entretanto, agora ele parece tão cheio de si, o que devia ser bom, mas, não é. É apenas assustador, ele ter mudado tanto nem sei pra que. – Kathy ia fazer um comentário, mas, ela apenas ouviu com a mão na boca. – Então classifiquei Armin como um goodboy; ele estava me fazendo feliz, e era do jeito que eu sempre o conheci, ele não mudou em nada... E como eu falaria que estava apaixonada por um menino cinco anos mais novo que eu? Que eu sou Monitora? Eu teria que sair do cargo de Monitora para ficar com ele, mas... O que me assustou foi quando ele me encurralou e me beijou. Foi errado, eu, posso ter gostado, mas... Por Deus! Isso custaria tanta coisa. E.
—Você estava com vergonha de estar com um menino mais novo que você? – Concordei. – Mas, gosta dele ou de Armin?
—Armin é outro problema. Ele foi pra Nova York e sempre tinha uma garota com ele quando eu ligava. – Limpei as lágrimas. – Não julgo, ele é muito atraente, simpático, mas...
—Então fica com Antonie. – Ela disse segurando no meu ombro.
—Mas, eu nem sei porque nós terminamos, não tem como eu sair ficando com ele, aliás, eu fui muito vagabunda, ficando com o primeiro que me dava atenção... – Kathy olhou para cima. – Primeiro Antonie, depois pulei pra Cainan e por fim, fiquei com Armin e depois com Victor, como isso é algo bom? Eu não tenho nenhum pingo de vergonha.
—(...) Agora você sabe ao menos o que quer? – Fiquei pensando.
—Mas, e você? Me trouxe informações, me fez perguntas, e também está em conflito. Me diga em que ponto do palco você está. – Ela engoliu secamente.
—Atrás da cortina. – Ela disse olhando para o lado. Então eu seguro a sua mão.
—Somos duas. – Temos a opção de sair do palco, ou dar um passo para frente e nos apresentarmos. Estamos indecisas em qual ponto queremos seguir. – Aliás, acho que estamos em três. – Digo. – Você sabia que Dégel fez uma cirurgia? Nieh ficou sentida com a informação.
—Cirurgia do que?
—Do coração. – Respondi. – Já pensou se ele tivesse morrido? Guilherme nunca contaria...
—Se nós pararmos para pensar, a história só é contada da parte do mocinho, nunca ouvimos a versão do vilão. – Respirei fundo e concordei, mas, na verdade eu estava com muita vergonha para descobrir o lado do Antonie, porque até do lado do Cainan eu fui uma vilã.
*
Sendo um feriado mundial, não tinha como o 5º Andar se apresentar, eles até poderiam, mas, não teriam ninguém para julgar e dar nota; então ambos os teatros estavam abertos para ensaios, e um novo cronograma mesmo que os teatros estejam abertos para ensaios, quem não tinha se apresentado como o 5º, 6º e 7º andar não haviam se apresentado, alguns decidiram ensaiar, mesmo que pudessem ensaiar em seus quartos; na qual eu optei por fazer. Então no sábado, dia 2, foi literalmente o dia mais agitado que eu tinha visto no dormitório. Só haveria o sábado para apresentações, queríamos dividir pra metade se apresentar no domingo, mas, sem chance, ninguém queria abrir mão da folga dominical, era nesse ponto do caos em que estávamos.
O 5º andar iria começar a se apresentar após o café no teatro Elisabeth; enquanto no mesmo horário o 6º andar se apresentaria no teatro William; nisso o 7º andar se dividira para se apresentar entre os dois teatros após o fim das apresentações dos outros andares ou seja, após o almoço. Como eu iria me apresentar com o pessoal do 7º andar escolhi o teatro William, ele é o menor, eu estava nervosa.
Naquela manhã vi Nieh com um papel em mãos, ela estava no corredor, parecia perdida, o andar dela iria se apresentar primeiro, então eu posso imaginar a quão nervosa ela estava. Me aproximo dela, que leva um susto quando cutuco seu braço.
—Ah é você! – Ela disse com um sorriso fraco.
—Quem achou que fosse? – Seus cabelos cacheados e vermelhos estavam presos como o penteado da princesa Bela, de a Bela e a Fera, coque alto com uma fita azul que prendia o coque os cachos soltos davam um charme, ela estava muito. Mas, parecia aflita. – O que está acontecendo?
—Bem... Eu, estou sem par.
—Como assim? – Ela dobrou a folha e me olhou.
—Por causa do feriado o 7º andar se apresenta hoje e eu não achei nenhum músico disposto a me fazer companhia, não sei se eu consigo sozinha...
—O que você ia fazer? – Pergunto enquanto íamos em direção ao refeitório. Ela começa a arrumar os cabelos e controlar a respiração.
—Cantar e tocar, mas, todos estão com seus instrumentos e. – Ela parecia perdida. – O que você vai fazer?
—Vou cantar. – Digo com calma, se eu mostrar que estou nervosa, ela também vai ficar nervosa, mais ainda. – Mas, se você precisar, eu posso te ajudar, minha apresentação é mais tarde. – Ela dá um suspiro de alivio.
—Eu vou agradecer muito, de verdade. – Ela dá um sorriso. – Qual instrumento você está mais afinada a tocar? – Pegamos nosso petit déjeuner e nos sentamos.
—Violino e acho que estou afinada no piano, claro, preciso dar uma treinada. Qual você prefere? – Nieh então colocou a mão no bolso, foi quando ela se levantou. – O que foi?
—Eu perdi o papel da apresentação... – Ela deu uma volta e olhou para o chão procurando, foi quando Dégel apareceu observando por uns instantes e dando um sorriso, eu fico imóvel e cutuco Nieh que se vira com tudo e dá de cara com ele. – Ah! Bonjour! – Ela diz nervosa e ele acena para ela e depois para mim.
—O que houve? – Ela olha para o chão talvez tenha escorregado quando ela sentou.
—Nada. – Ela responde e ele continua em silêncio por um tempo observando ela.
—Você está linda hoje. – Nieh parou e o encarou por uns instantes, deu a impressão que apenas os dois estavam no refeitório, e que o tempo parou para os dois, depois do silêncio ele deu um sorriso. – Você deixou isso cair. – Ele entregou o papel para ela.
—(...) Aan. Obrigada. – Seus lábios estavam levemente roxos, como se ele estivesse com falta de oxigênio, mas, parecia bem.
—De rien. – Ele responde e começa a andar, porém, ele volta. – Não pude deixar de ouvir, mas, você precisa de alguém para tocar na sua apresentação? – Antes que ela pudesse dizer alguma coisa ele se sentou conosco na mesa. Não vou negar, foi estranho, porém, parecia que eu nem estava ali, então eu apenas fiquei em silêncio.
—Sim.
—Eu dei uma olhada na letra, me desculpe pela intromissão.
—Tudo bem. – Ela disse com o corpo rígido.
—Pela melodia o piano é melhor, mas, eu queria fazer um convite. – Houve um silêncio. – Posso ser seu acompanhante na sua apresentação? – Isso pegou nós duas de surpresa, como ele se convida? Nieh olha para mim e eu estou sem palavras. – Claro, eu posso apresentar depois... – Dégel está no 6º andar. – Eu não me importo.
—Mas, a sua nota? – Ele mexeu a mão.
—Posso ser seu acompanhante? – A pergunta não parece ser uma autorização, estava mais para uma súplica, ele queria estar do lado dela.
—Eu... – Sua voz estava quebrada. – Aan. Pode. Pode sim; claro. – Dégel lhe devolve o sorriso.
—Obrigada. Te vejo no teatro... – Então ele se levanta e vai para a mesa dos Coloré, como se nada tivesse acontecido nesse curto período de tempo. Um tempo se passa, ela estava se recuperando de tudo, eis que então ela olha pra mim com uma expressão que eu não sei o que significa.
—Você viu o que acabou de acontecer? – Aceno positivamente. – Meu Deus! O que e vou fazer? Eu, estava com raiva dele e.
—Sabe o que eu e Kathy percebemos? – A interrompo, ela está tão confusa como nós. Ela presta atenção em mim. – Nós deixamos os “mocinhos” – Faço aspas. – contarem a sua versão. Mas, nunca ouvimos a versão do vilão. – Ela passa a mão no cabelo com calma, retomando a postura.
—A narrativa foi muito mudada?
—Completamente reescrita para ganhar simpatia. – Ela colocou a mão na bochecha. Sinceramente, eu estava sentido cada cicatriz minha doer, as cicatrizes que eu fiz aos outros me torna tão ruim quanto eles.
Niedja foi a oitava a se apresentar, ela parecia nervosa quando subiu no palco, ela estava com uma saia azul que iam até abaixo dos seus joelhos, sentei o mais perto que pude, não vi Kathy em lugar nenhum, onde ela estava? Também não vi Luco junto com os Coloré, fechei os olhos, não, ontem ela estava convicta de que ela passou muito tempo falando mal do garoto para cair nas graças dele. E eu só precisava dar uma força para Nieh; quando ela subiu no palco e se apresentou ela olhou para o piano, tecnicamente o andar do Dégel estava apresentando naquele momento, então era bem possível duas coisas, que ele não sabia qual teatro ela iria se apresentar, ou tentou se apresentar no seu andar e não conseguiu chegar a tempo. Ela respirou fundo e me olhou, foi quando ela se apresentou, disse seu nome o papel tremia em suas mãos, foi quando Dégel pediu licença. Pediu desculpas pelo atraso e disse que iria se apresentar, que ele estava ali como voluntário, ele estava vestindo uma roupa de cavaleiro, com suspensório e camiseta branca, ela ficou vermelha quando ele apareceu e sentou no piano. Confesso, internamente, eu achei extremamente elegante, e fiquei um pouco com ciúmes, ele era muito atencioso, por Deus, como foi que Guilherme conseguiu separar aqueles dois? O que ela contou para ela, o que ele ouviu dele?
Ela cantou “Parte do Seu Mundo” da pequena sereia, e Dégel tocava o piano com agilidade, e de um jeito profissional, porque vez ou outra ele olhava para ela, dava um sorriso e dava atenção as teclas, perto do final da música, no agudo final pra ser mais exata, ambos trocaram olhares, a plateia rompeu em aplausos, e os dois agradeceram; assim que foi anotado que eles compareceram, Dégel conversava com ela, em seguida ela veio em meio encontro animada.
—Você viu? Você viu? Eu... – Dei risada e a abracei. – Foi mágico.
—Foi lindo! – Eu disse olhando para ela, seus olhos brilhavam, céus, como ele fazia bem pra ela.
—Preciso ir no teatro! – Ela exclamou me pegando pelo pulso e me arrastando, entretanto, ele corria mais rápido que eu, ela saiu em direção ao teatro William como se estivesse atrasada para sua própria apresentação. Compreendo, ela queria dar uma força pra ele, ela podia ir na frente, sem problemas. Eu quero evitar ter um ataque cardíaco.
Me sentei na última fileira do teatro, eu não vi onde Nieh se sentou, mais eu a vi entrando então ela estava por aqui. Dégel estava ofegante, acho que ele não devia ter corrido. Ele pediu licença, desculpas e em seguida ele se apresentou dizendo seu nome. e quando se sentou ao piano ele simplesmente sorriu para plateia. Então quem ficou surpresa fui eu. Ele apontou para o canto do palco, onde Niedja apareceu. Ela se apresentou também, era voluntária, eu quase engasguei de tão seca que minha boca ficou. Ela se sentou do lado dele perto do piano, sorte que o banco era grande; entretanto ela se sentou de costas para ele.
—Niedja, c'est pour toi! (Niedja, isto é para você.) – Em seguida ele começou a tocar e cantar: “Um Mundo Ideal” de Alladin; céus, eles estavam em um dueto, quando isso foi decidido? Era uma confirmação para mim, e com certeza para ela também; de que Dégel cantou aquela música para ela, porque ela fazia parte do mundo dele.
Eu tinha noção que os doze minutos de atraso dele mudariam sua nota, mas, sinceramente, eu não sabia como aquilo pode acontecer, como tudo aquilo estava acontecendo, parecia um castelo de cartas caindo depois de uma ventania.
—Que coisa estranha não é? – Olhei para o lado e um arrepio percorreu a minha espinha, Antonie estava do meu lado, seu perfume praticamente fez meu corpo virar para olhá-lo de frente. Na qual ele deu um sorriso. – Niedja e Dégel, juntos, depois de tanto tempo... Mas, eu também posso dizer que o que foi mais surpreendente foi que primeiro Katherynne terminou com Mateus, e depois, Niedja terminou com Guilherme. – Ele soltou uma risada baixa. – Pelo visto sempre voltamos para nossos pontos zeros né? – Me sinto nervosa e estranha, voltar para o ponto zero para achar o caminho certo foi o que ele quis dizer, certo? Meu sorriso vacila e eu volto meu olhar para o palco. – Está nervosa para sua apresentação?
—(...) – Olho para seus olhos cintilantes, meu coração pulsa, eu não consigo olhar tanto tempo. Então abaixo a cabeça. – Antonie, posso te fazer uma pergunta sincera?
—Você já fez... – Ele diz, meu coração está batendo tão rápido que tampa meus ouvidos. – Mas, pode fazer outra.
—Porque nós terminamos? – Olho pra ele que parece surpreso com a pergunta. Na verdade, eu não queria ouvir a resposta, não sei porque, mas, eu não queria lembrar.
—Você quer falar disso aqui? – Fico em silêncio e colocou uma mão no ouvido. – Não quer ir para outro lugar? – Nego. – É quando ele suspira fundo e estica o corpo inclinando a poltrona, ele olha para o teto por uns instantes enquanto a finalização do dueto de Dégel e Niedja termina, há aplausos, na qual eu fiz de pé, eles se abraçam como amigos, e depois de agradecerem aos professores, eles saem, é onde temos a folga para o almoço e depois retomar para as demais apresentações.
Dégel passa com seus amigos, uma parte deles, Victor não está no meio deles, e Niedja parece me procurar, é quando Marjorie se junta a ela, sei que ela é do 5ºandar, então não sei o que ela fazia na apresentação do 6º; aos poucos o teatro é esvaziado, e fico sentada com Antonie olhando para cima. O silêncio me incomoda.
—(...)
—Porque você tocou nesse assunto? – Antonie pergunta.
—Eu não me lembro, quero lembrar. – Ele solta uma risada.
—Não sabia que eu era tão esquecível assim. – Fiquei em silêncio. – Certo, então vou te recordar exatamente o que aconteceu. – Meu estomago dói. Não há raiva em sua voz, há ironia, um toque de sarcasmo eu diria. – Estávamos nas provas finais, a última apresentação que fizemos; dia 03 de maio de 2012, apresentamos a Flauta Mágica, tínhamos ótimas notas, significava que podíamos ir para o piquenique no Castelo Vaux-Le-Vicomte, com roupas barrocas, você estava tão animada. Entretanto eu não quis ir. – Ele era ótimo com datas, ou seja, para ele guardar por tanto, que merda. – Mesmo que eu não gostasse de todo aquele glamour de época, eu te ajudei a escolher um vestido, um azul escuro com detalhes lilás, tudo como a moda do século XVII pedia. – Ele suspirou, e então se sentou e virou de frente pra mim. – Era o meu presente para você; o importante era você estar feliz e bonita para seu aniversário não é? – Coloquei minhas mãos embaixo do pescoço e ouvi ele desabafar. – Mas, você não podia ir sem uma companhia, sem um cavalheiro não foi? Cainan se ofereceu para te acompanhar, e tudo bem, porque ele era um Silva, ele era tranquilo, novato na França, você era a guia dele. Mas, mesmo assim, não achei que você fosse passar mal.
—Eu passei mal?
—Nunca soube exatamente o que aconteceu, Niedja e Dégel que te ajudaram, entretanto, só eu sabia qual remédio você tomava, pedi tanto para Françoise levar o remédio para você, mas, Guilherme não deixou, mas, no final você ficou bem, você ficou duas semanas no hospital, eu não podia te visitar, não era da família. Apenas a família podia. – O encarei.
—Minha família nunca veio pra França. – Ele então passou a mão no meu rosto.
—Eu sei. Mas, quem estava do seu lado? O demônio do Cainan. – Olhei surpresa pra ele. – Quando você voltou, estava tudo bem, mas, aos poucos, ao decorrer do verão você foi se afastando e então você parou de falar comigo porque eu te deixei para morrer... Eu tentei dizer que era mentira, que eu tentei de ajudar, mas, o fato de eu não estar lá não ajudou muito. – Respirei pesado. Que merda. – Eu tentei tanto te explicar o meu lado, mas, você estava tomada pela toxidade daqueles Silva, e quando pudermos tivemos uma oportunidade para explicar com a ajuda do Françoise; fomos transferidos para longe. E então descubro que você está com Cainan, que Armin também te quer e você nunca ouviu meu lado da história! – Ele estava frustrado. – Você ouviu o lado que era mais tinha influência Eu não te culpo, se eu ficasse no hospital sozinho com estranhos em um país estranho, eu também me apegaria ao que conseguisse.
—Nós não brigamos? Não discutimos? Nem houve agressão ou manipulação?
—Não. Foi apenas nos afastamos, e depois, eu te perdi, assim como Luco perdeu a Katherynne e Dégel perdeu a Niedja, mas... Se todos voltaram ao ponto zero deles, porque nós não? – Me afastei um pouco.
—Eu traí você e te magoei, como assim você ainda me quer?
—Porque eu não ia querer? O que aconteceu foram fatores que eu não pude resolver na época, agora eu posso, e eu quero, porque você é encantadora, você não mudou nada, o que não é ruim, é que sua essência não mudou. – Ele engoliu secamente. – E você ficou mais bonita, claro, você está fantástica; sempre foi. Eu só devia ter te protegido melhor. – Engoli em seco. – Eu quero ainda... Mas, eu sei que você precisa de um tempo para pensar nisso.
—Com certeza. – Disse tremendo, foi quando Antonie me abraçou, senti meu corpo ficar mole então o afastei com delicadeza. – Sem parecer indelicada, tem alguém que pode confirmar a sua versão da história? – Ele me olhou com um sorriso de quem já esperava por isso.
—Você pode perguntar pro Dégel e pra Niedja que te ajudaram, pode perguntar para o Françoise, mas, se você quiser ouvir mais afundo, pergunta pro Igor.
—Porque pro Igor?
—Igor não era seu Monitor? – Acenei, faz tanto tempo, mas Igor era meu monitor quando eu cheguei na França, especialmente em Montpellier, para o curso francês antes de vir para Paris. – Ele tinha sua pasta médica. – Fiquei imóvel um tempo. Raciocinando, refletindo, por isso que eu não lembrava, por isso parece um grande branco, não houve briga, parecíamos um belo casal. Antonie me olhou. – Você tem que comer, logo é sua vez de se apresentar...
Caminhei até o refeitório, ainda estava com a mente bagunçada, estava quebrada emocionalmente por Armin, assustada por como Victor vinha agindo, pelas descobertas que estão me fazendo duvidar dos meus próprios julgamentos, foi quando vi Kathy e Luco conversando em um canto do refeitório, ela parecia um pouco presa em relação a ele que estava animado, não posso imaginar sobre o que eles conversavam, mas, Kathy estava de óculos escuros, em outro canto quase imperceptível, pude ver Niedja com Dégel, Marjorie e outros alunos do andar dela, olhando aquela situação minha cabeça doeu. Victor acenou para mim da mesa dos Coloré, ele parecia animado mas, eu estava receosa. Entre de quem eu gostava naquele momento para a frase “Voltamos aos nossos pontos zeros”.
Eu quero permanecer atrás das cortinas do palco? Ou quero mesmo voltar pro meu ponto zero? Pois todos os caminhos sempre dão no ponto zero; profundamente, eu queria me retirar da narrativa, então fui pro meu quarto, não quero comer, não sei o que sentir ou falar.
Que caminho eu pego para sair da estrada do ponto zero?
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