E Ainda Assim, Amor
27 Capítulo 27 – O Peso do Que Não é Dito
Lucy permaneceu vários dias na enfermaria por ordem direta de Madame Pomfrey, que não aceitava protestos quando se tratava de repouso absoluto. O corpo precisava de recuperar, mas era a alma que parecia ferida de forma mais profunda — e essa não respondia a poções nem a encantamentos.
A enfermaria era demasiado branca, demasiado silenciosa. As camas alinhadas, os frascos nas prateleiras, o som distante dos passos no corredor criavam uma sensação estranha de suspensão, como se Lucy estivesse fora do mundo real. O tempo passava devagar, arrastado, e cada dia parecia uma repetição dolorosa do anterior.
Durante esse período, recebeu apenas duas visitas regulares: Hermione Granger e Luna Lovegood.
Hermione aparecia quase sempre depois das aulas, carregada de livros e pergaminhos. Pedia autorização a Madame Pomfrey antes de se sentar junto à cama e estudava com Lucy num tom baixo, prático, quase determinado — como se se recusasse a permitir que a amiga ficasse para trás.
— Os exames começam na próxima semana — dizia, ajustando os apontamentos. — E vais fazê-los. Tens capacidade para isso.
Lucy assentia, agradecida por aquele esforço quase teimoso de Hermione em manter alguma normalidade no meio do caos.
Luna surgia de forma mais leve, sentava-se na beira da cama e falava de coisas improváveis, de pensamentos soltos, de sensações que, segundo ela, surgiam quando alguém estava a sofrer em silêncio. Nunca fazia perguntas diretas. Nunca duvidava. Apenas estava ali — e isso, de uma forma estranha, ajudava mais do que qualquer discurso.
Eram as únicas que acreditavam nela.
Ron não apareceu uma única vez. Lucy não o via, mas sabia — sentia — que ele estava dividido. Hermione deixava escapar pequenos silêncios quando o nome dele surgia, e isso bastava para Lucy perceber que Ron não sabia de que lado ficar. Não acreditava que ela fosse capaz de algo assim… mas o sofrimento de Harry era visível demais para ser ignorado.
Quando ficava sozinha, a fachada desmoronava.
Lucy virava-se de lado na cama, mordia o lábio para conter os soluços e deixava as lágrimas correrem em silêncio. Chorava não apenas pelo presente, mas por um padrão cruel que parecia persegui-la: sempre que acreditava ter encontrado algo bom, algo verdadeiro, isso era-lhe arrancado sem aviso.
O rosto de Harry perseguia-a.
O olhar dele — duro, magoado, quase irreconhecível — no momento em que a vira naquela cama com outro. A incredulidade, o desgosto, a quebra imediata de tudo o que existira entre eles. Era essa imagem que mais a destruía.
Harry Potter vivia aqueles dias numa guerra constante consigo próprio.
Sabia que Lucy estava na enfermaria. Sabia desde o primeiro dia. Hermione mencionara-o de forma objetiva, como se falar daquilo com emoção fosse demasiado perigoso. Madame Pomfrey garantira que Lucy não corria perigo, que apenas precisava de repouso.
Ainda assim, a palavra enfermaria não lhe saía da cabeça.
Pensou em ir vê-la mais vezes do que estava disposto a admitir.
Chegou a subir o corredor que levava à ala hospitalar, parou à porta uma vez — uma única vez — e deu meia-volta. O peito ardia-lhe, a raiva misturava-se com a desilusão, e o orgulho gritava-lhe para não ceder.
— Não depois do que viste — dizia para si próprio. — Não sejas fraco.
Mas à noite, deitado no dormitório da Grifinória, o pensamento regressava sempre.
E se ela estiver a sofrer sozinha?
E se não for tudo como pareceu?
O pior de tudo era a verdade que ele não queria aceitar: Harry ainda a amava.
Esse sentimento persistia, incómodo, quase ofensivo. Amava-a apesar da dor. Apesar da imagem que lhe corroía a mente. E sentia raiva de si próprio por isso. Raiva por não conseguir desligar o coração com a mesma facilidade com que tentava desligar o olhar sempre que passava por alguém que mencionava o nome dela.
Evitar Lucy tornara-se um exercício diário de sobrevivência.
No sábado seguinte, Lucy recebeu finalmente autorização para sair da enfermaria.
Vestiu o uniforme com cuidado, como se cada gesto exigisse concentração. Respirou fundo antes de deixar aquele espaço que, apesar de tudo, a protegera do julgamento direto dos outros.
O caminho até à torre da Grifinória pareceu-lhe mais longo do que nunca.
Quando entrou no salão comunal, o impacto foi imediato.
Harry estava sentado num dos sofás, inclinado para a frente, o olhar fixo no fogo da lareira. Ao seu lado, Ginny falava animadamente, rindo, gesticulando, tentando puxá-lo para o presente. Mas Harry parecia distante, como se estivesse ali apenas fisicamente.
O coração de Lucy disparou.
Deu um passo em frente — e sentiu os olhares.
Conversas cessaram. Alguns colegas desviaram o rosto. Outros encararam-na sem pudor, com expressões carregadas de reprovação silenciosa. Lucy sentiu-se exposta, julgada, culpada de um crime que ninguém se dava ao trabalho de compreender.
Ao fundo, junto a uma das janelas, Oliver observava tudo com um sorriso discreto, quase divertido, como quem aprecia um espetáculo bem encenado.
Lucy cerrou os punhos com força.
Harry sentiu a presença dela.
Não a viu de imediato, mas sentiu — como sempre sentira. Um aperto súbito no peito, uma tensão inexplicável no ar. Por um segundo, quase se virou.
Não o fez.
Fingiu que não a vira. E esse gesto — pequeno, frio, calculado — foi mais devastador do que qualquer palavra.
Lucy sentiu a dor atravessá-la como lâminas. Engoliu em seco, virou-se e subiu as escadas para o dormitório sem olhar para trás.
Harry permaneceu imóvel.
Só quando ouviu os passos desaparecerem é que fechou os olhos por um breve instante, respirando fundo, como se tivesse acabado de perder algo irreparável.
Os exames começaram pouco depois.
Lucy obrigava-se a concentrar-se em cada pergaminho, em cada feitiço, em cada resposta. Sabia que o seu futuro dependia daquilo. O dela… e o do bebé que carregava, silencioso, invisível para todos os outros.
Por vezes, o olhar traía-a.
Duas cadeiras à frente, Harry escrevia com a testa franzida, concentrado. Lucy sentia o peito apertar, mas desviava o olhar depressa, respirava fundo e continuava.
Não podia cair agora.
Harry, por sua vez, sentia-a atrás de si como uma presença constante. Nunca se virava. Nunca. Mas cada movimento dela, cada pausa, cada suspiro parecia ecoar dentro dele.
Era assim que viviam agora.
Lado a lado.
Separados por tudo aquilo que ainda não tinham coragem de dizer.
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