Dó, Ré, Eli
1 Capítulo 1 - As mentiras que os livros contam.
Notas iniciais
Fongorn, Centro, 14h: 30min.
Já faz 147 dias que você não reclama mais da bagunça que eu faço, nem do meu egocentrismo, nem da geladeira cheia de cervejas, ou das migalhas de bolo que eu deixei cair no piano. Faz 147 dias que eu não posso ver mais sua cara de brava e nem seu sorriso confiante. E cada um desses dias estão me matando.
Eu não consigo ser incrível sem você, Elizaveta. Talvez fosse você que me tornasse assim. Por que você se foi? Agora, sentado no sofá da sala olhando o teto, a única coisa que eu posso fazer sem você, é lamentar.
Hoje deveria ser um bom dia, tenho que ir à biblioteca central para dar autógrafos aos fãs do meu novo livro, “Dó, ré, Eli”. Escrevi um romance idiota que fez muito sucesso e todas as pessoas mal-amadas e com gatos começaram a ler e a clamar meu nome, ainda mais quando percebesse que meu romance acaba em desgraça. Eu nunca havia escrito um romance antes, sempre fiz historias de suspense e ação. Porém, este livro é baseado em fatos (quase) reais.
O que tem de importante nisso? Bom, o livro é baseado em mim, não em mim na verdade. Ele é baseado ‘nela’. Nos livros, principalmente os de romance tudo é narrado de forma bonita e comovente. Pessoas apaixonadas são idiotas, talvez por isso que consegui colocar tantos mimimis ao escrever aquela historia, mas na pratica não foi bem assim.
Em meu livro, é contado a historia de Elizaveta e Roderich. Um casal comum, com sérios problemas mentais... Quer dizer, todo casal tem seus defeitos e conflitos no começo da relação, assim eles vão enrolando até perceberem que foram feitos um para o outro e blábláblá. Depois de algumas reviravoltas, acabam perdidamente apaixonados. Era como se não fosse só amor, mas uma ‘parada’ bem mais legal, como se fosse eterno.
Pois é ai que está o problema! Os livros de romance deveriam ter em sua ultima pagina o seguinte, incrível, conselho e o único que me sobrou depois de minha vida ser resumida a amarguras, talvez o único que eu gostaria de ter escutado antes de ter me perdido no olhar dela...
Nunca ame demais alguém!
Isso menos, NUNCA ame alguém demais. Sabe aqueles amores de tirar o fôlego, de lutar contra a família, contra o mundo, de romper barreiras e mais todos esses problemas clichês de romances? Pois bem, na maioria das vezes ou em todas que eu saiba, acontece uma desgraça, alguma coisa que impede a felicidade perfeita dos enamorados. Por isso, felizes para sempre não existe, pois seu amado, de acordo com os livros, acaba tendo que ir para alguma guerra, ou algum lugar muito distante que os impeça de se ver ou acaba tendo alguma doença incurável e na pior das hipóteses, morre!
Talvez seja pedir demais ter sua outra metade sempre, não se pode ter tanta sorte em poder amar alguém e ser amado, durante toda vida. Por que algo sempre irá acontecer para fazer toda a magia ir embora. O amor simplesmente não é para durar para sempre. Deve ser algum castigo.
E foi isso que aconteceu comigo. Ela partiu, deixando-me com a sensação de que tudo isso não é real, eu não queria que fosse, mas é. E eu sinto muita falta dela, mesmo depois de 147 dias que ela já se fora.
Contudo, eu não me coloquei no livro amando Elizaveta. Eu inventei alguém perfeito para ela. Roderich, um cavalheiro, com alguns defeitos de aristocrata para deixar o personagem mais real, mas que pelo menos soubesse demonstrar aquilo que sentia. Eu queria que Liza tivesse partido depois de ter sido amada como merecia, visto que eu não pude fazer isso. Eu não consegui dizer que a amava, nem sequer uma vez, até hoje não consigo acreditar o quão idiota fui por não ter conseguido dizer isso a ela, algo que quase me explodia o peito toda vez que eu me sentia acolhido por sua presença. Sinto-me miserável. Eu... o incrível demais para isso... A perdi. Há nós em minha garganta prendendo tudo que eu não disse. E por isso eu escrevo.
Como eu disse, eu ‘tenho’ que ir a biblioteca Central dar autógrafos. E eu gostaria de matar meu editor por isso. Ele sabe que eu não estou em condições para isto, e que eu odeio fazer esse tipo de coisa. Ver pessoas felizes me perguntando como é perder alguém, que sentimentos me inspiram a escrever sobre? E mais um monte de idiotices?
Eu ainda estava no sofá bege da sala em minha casa, tentando me vestir para a sessão de tortura com os fãs, quando a campainha começou a tocar, provavelmente era ele, Antonio, meu editor e amigo grudento. Ele sabia que se não fosse me buscar eu furaria. Eu não poderia culpa-lo, esses dias eu estava simplesmente insuportável, parecia ter envelhecido 80 anos, eu vivia mal humorado e reclamava de tudo, não era mais o incrível eu, e meus amigos estavam tentando recuperar o antigo Gil. Mas parece que eu o enterrei junto com ela. Eu me sentia cansado de viver assim.
–POR QUE!? Por que você tinha que levar minha incrivibilidade, Liza? – Essa palavra existe, tá!
–GIL! Abra a porta! – Antonio bateu na porta, algumas vezes.
Bufei me levantando e indo em direção à porta, ainda meio vestido, não tinha calçado os sapatos e a camisa social preta ainda estava aberta, vesti uma calça de cor clara, e meus cabelos brancos, como sempre, estavam bagunçados.
Destranquei a porta, e Antonio estava com um dos maiores sorrisos de “Vamos animo” ou “Bom dia”. Fiquei o encarando com meu melhor olhar de indignação sobre aquele sorriso entusiasmado, fazendo com que ele se desfizesse em um olhar de preocupação. Ele sempre ficava tentando me animar e depois terminava me dando um sermão de mãe preocupada.
– Bom dia, Gil. O que houve? Sua cara esta péssima?
– Jura? – Respondi irônico, ele sabe que eu não durmo direito há algum tempo, por isso tinha enormes olheiras e meus olhos estavam mais vermelhos do que já eram. Estava com essa cara abatida há dias, e quer saber a melhor parte? As pessoas sabiam o por que, e mesmo assim, elas insistiam em me perguntar, como Antonio. Isso é o que mais me irritava. Calma! Calma, Gil! Ele é seu amigo, seja legal. Tente.
– Não é nada, Tonio. Não dormi bem. Quer entrar, assim eu termino de me trocar? – Tentei dar uma resposta melhor forçando um sorriso, abrindo passagem para que ele entrasse, a casa estava uma zona, cheia de garrafas e latas de bebidas, mas eu não ligava para isso.
Ele entrou indo em direção ao sofá, enquanto eu fechava minha camisa e colocava-a, dentro da calça.
– Diga que você não tem só bebido o dia todo. Você tem se alimentado? Quer comer um lanche antes de ir?
– Eu estou bem. Vou pegar meus sapatos. – me virei fugindo das perguntas, mas foi uma tentativa falha.
– Gil, eu não vim te buscar por achar que você não iria, eu... Eu, quer dizer, nós! Francis, Lud, Veneziano e até o Athur estamos preocupados com você.
Ótimo, começou o sermão do dia. Começou cedo. Virei de volta para olha-lo, estava cansado disso. Tonio sentou-se no sofá batendo neste para que eu me sentasse do seu lado. Fiquei parado de frente para ele, cruzando os braços, negando o pedido.
– Eu já disse que estou bem, para todos vocês.
– Não esta não, olhe para você. Acha que me engana. – Odeio quando ele começava a falar como minha mãe, isso me irrita profundamente. Resolvi me calar, talvez ele desistisse, não posso discutir com ele. Ele só está preocupado comigo, se controle Gil, não posso estrangula-lo, por isso.
Fez-se um silencio constrangedor, tentei ir atrás dos meus sapatos de novo, porém ele se levantou de repente e segurou meu braço antes que eu pudesse me mover. Olhando-me agora de uma maneira mais determinada, mas ainda cheia de preocupação.
– Gil, por favor... Você tem que voltar ao normal, tem que voltar a se socializar, ficar perto dos seus amigos. Você não fala mais conosco e parece estar sempre fugindo. Escreveu um livro em menos de dois meses e agora vive bebendo e sua saúde esta fraca. Você precisa seguir sua vida, quem sabe procurar ajuda medica. Todos estão sentindo falta da Liza e aposto que ela não gostaria de te ver assim...
Agora ele tocou na minha ferida, vem me dar sermão e agora quer falar dela... Isso já era demais.
– Por que vocês não me deixam em paz então? Como sabe o que ela gostaria? Vocês não conseguem entender que não é fácil? Em como dói? Eu não quero ver ninguém. Ela esta morta, sinto como se eu estivesse também. É algo que eu não posso mudar. Por favor, parem de se preocupar. – Eu já falava com um tom de voz alterado e meu rosto possivelmente estava vermelho.
– Gil...
– Chega Antonio! Eu não vou nessa maldita sessão de autógrafos e também não quero a companhia de vocês. Eu vou sobreviver se é o que te preocupa, eu vou sobreviver... Infelizmente. Eu só preciso de um tempo... — diminui o tom para não magoa-lo. Precisava sair dali.
– Quanto? Quanto tempo? Até que eu te encontre acabado? Hein, Gil? GIL? Aonde você vai?
– Quero ficar sozinho, ok!
Sai de casa o mais depressa que pude, de chinelos, deixando um Tonio preocupado gritando por mim. Eu não aguentava mais isso. Anteontem tinha sido o Lud, na segunda o Francis. Eu não estou bem, eu admito, mas não é meio obvio que isso não é algo que vá passar se eu simplesmente sair e agir como se nada tivesse acontecido. Eu ainda vou sentir meu erro batendo na porta, eu ainda estarei morrendo de saudades e ainda vou querer ela comigo de novo.
Caminhei em passos rápidos até ter certeza que Tonio não me seguiria. E então deixei que a rua fosse me levando, caminhei sem direção.
Mesmo chateado com meus amigos, no fundo eu podia entendê-los. Eu já era um adulto, poxa. Por quanto tempo eu me lamentaria por não poder te ver Liza? Será que eu ficaria assim para sempre? Perderia todos os meus amigos, e ficaria sozinho escrevendo romances para pessoas como eu? Que decadência!
Há um milhão de conselhos para se sobreviver neste mundo cruel, livros e mais livros de autoajuda. Um milhão de conselhos de como lidar com sentimentos de perdas e decepções, mas alguém incrível como eu não precisa disso, até por que todos eles são inúteis na pratica. O que eu estava sentido era um milhão, não, um bilhão ou não sei quantas vezes pior do que eu consegui colocar no livro. Era devastador. Estou cansado de sentir sua falta.
Por que essa maldita dor não passa, por quê? Liza eu sinto muito, sinto demais. Não consigo mais prender as lágrimas, todos os dias estão sendo assim. Eu falo um monte de coisas sem sentido na minha cabeça, viro noites escrevendo sobre você ou declarando-me para você e me arrependo por ter sido desse jeito que a historia terminou. Queria ter dito que te amava. Eu queria tanto, tanto ter dito o que sentia.
Acabei chegando ao cemitério. Que surpreendentemente não parecia ter saído de um filme de terror. Havia folhas secas do outono por toda parte deixando quase tudo laranja e marrom, exceto pelas lapides cinzas.
Resolvi entrar. Na época, não consegui comparecer ao seu enterro, para mim era tudo uma grande brincadeira sem graça, eu não aguentaria vê-la em um caixão. Seria a primeira vez que eu a visitava. Talvez fosse disso que eu precisasse. Encarar sua lapide. Ver que não tem volta, não há mais com quem se desculpar. Que tudo se tornou palavras bonitas e vazias agora. Chorar. Despedir-me de você.
Andei entre as estatuas de anjos, flores deixadas para entes falecidos e continuei mais um pouco até poder ver seu nome, porém eu não pude me aproximar muito. Já havia alguém lá. Um homem. Tentei engolir o choro e cheguei mais perto parando em pé na frente de uma lapide qualquer ao lado. Ele estava agachado e parecia estar chorando muito devido aos soluços altos que se poderia ouvir claramente. Eu não era o único sentido sua falta? Mas eu não sabia quem ele era. Uma franja um pouco comprida cobria lhe parcialmente o rosto, sendo meio difícil de identifica-lo.
Fiquei esperando que ele fosse embora, eu gostaria de ficar sozinho nesse momento. Por que o mundo e as pessoas a nossa volta não podem apenas sumir? Liza sempre me perguntava isso quando se sentia frustrada quando seu trabalho não ia bem e eu insistia em perturbá-la, por simplesmente acha-la linda emburrada. “Você poderia sumir, por alguns minutos, por favor, estou tendo uma crise, ok?” Liza, eu quero te perturbar mais um pouco.
Por que essa cara não vai embora logo? Se estivéssemos na parte final do meu livro eu poderia chorar e me despedir em paz. Maldita realidade.
Fiquei observando-o e esperei que ele se recomposse e fosse embora, quando me pareceu que era o que faria, ele se levanta e tira do sobre tudo marrom um lenço branco, bordado nas laterais de lilás e com uma flor violeta no centro, com pequeninas iniciais, R.E. Bem delicado e fofo, e extremamente parecido com o que eu tinha no bolso da calça. Só não era idêntico, por que as iniciais no meu são G.E. Gilbert e Elizaveta. Mas até a falha da pétala era a mesma. Isso não é possível. É?
Eu me lembro da Liza falando que era um presente especial para mim. Ela nunca foi muito ‘feminina’ e sempre foi estabanada, por isso havia se esforçado bastante para conseguir fazê-lo especialmente para MIM! Então, porque esse cara tem um lenço igual? Qual o sentido disso? Claro, que ela poderia fazer uma lembrança também para seus amigos, mas por que ela falaria que o que eu tenho é único? Por que fez todo aquele discurso de que o fez para que eu tivesse uma parte dela quando quisesse chorar? Liza, eu exijo respostas. Quem é esse cara? Isso é mais outra brincadeira, Liza? Além de me deixar para trás você também deixou um amante? Meu próximo livro com certeza será: Como ser um incrível idiota.
Eu teria partido para cima do sujeito ao meu lado e lhe quebrado a fuça se no momento seguinte ele não tivesse parado para me olhar. Fazendo com que eu levasse um dos maiores sustos da minha vida.
Não, ele não parece um mostro, ou é um fantasma e nem tem alguma cicatriz medonha... O fato que me espantou, foi ele ser igual ao personagem do meu livro, Roderich. Isso mesmo, Roderich. Veja bem, caro leitor, cada autor inventa em sua cabeça a parecia física de seus personagens, e eu obviamente também assim os faço a partir da minha imaginação. Rod, em meu livro tem um físico normal, nem gordo, nem magro, nem alto demais, nem baixo demais, tem o rosto não muito másculo, mas o suficiente para não ser confundido com uma garota, e cabelos de um tom castanho bem escuro. E para que ele não se tornasse um completo sem graça. Eu o fiz com olhos violetas, isso na historia era uma justificativa para a cor do bordado e da flor. Afinal nas historias tudo parece se encaixar perfeitamente, Rod amou o lenço com bordados que lembram seus olhos, já Gilbert, pessoa real, odeia lilás ou roxo. Mas eu não colocaria meu personagem falando isso depois do esforço que a bela Liza teve para fazê-lo, como eu fiz e acabei apanhando por isso.
Até hoje não sei como Liza se apaixonou por mim. Na época eu deduzi que era por eu ser incrível, mas não. Provavelmente nunca fora levada ao oftalmologista e nem a nenhum psiquiatra. Eu tive muita sorte. Ela era maravilhosa. Tinha longos cabelos castanhos claros, um rosto delicado, olhos verdes cheios de determinação e sorriso sapeca com direito a covinhas e tudo.
E agora o personagem que eu inventei para ama-la e sentir sua falta estava diante de meus olhos. Chorando...
Talvez não fosse uma má ideia procurar um medico antes que mais personagens pulassem de meus livros e viessem me assombrar.
Respirei fundo. Estava sendo ridículo em ficar bravo com aquela pessoa. Liza tinha caráter e nunca me trairia, ela odiava com todas as forças qualquer tipo de mentira, por isso essa ideia estúpida esta fora de cogitação, apesar da gigantesca coincidência. Eu finalmente teria deixado de lado todos os meus pensamentos anteriores depois de concluir que eu estava imaginando demais e assim vendo alucinações se meu querido ‘personagem’ não tivesse se dirigido a mim.
– Perdoe-me senhor, por perturbá-lo em seu momento...
Ele parecia constrangido por estar chorando perto de alguém, mas seu rosto esta muito fofo devido ao brilho que as lagrimas lhe deram aos olhos e as bochechas vermelhas. Era realmente o Rod, sem tirar nem por, e eu estou louco sem tirar nem por.
Continuei o olhando perplexo o que resultou em um olhar assustado da parte dele. Mas eu precisava confirmar uma coisa ainda.
– Não, por favor, não se incomoda comigo... Eu só... — Esperei alguns segundos, estava receoso e me achando patético pelo que eu iria perguntar. — Perdão, mas você parece ser muito chegado a esta pessoa, eram amigos?
–Ah, eu... Eu era mais que isso.
Fechei a cara na hora. Mais que isso? Mas o quê...? PQP! Calma, Gilbert. Elizaveta, não te trairia, mesmo que eu não tenha sido a melhor pessoa. Você está apenas alterado. Seria coincidência demais, se Liza tivesse um amante igual ao personagem que inventei, não estamos em um livro. Respirei fundo mais uma vez e fechei os olhos com força tentando por meus pensamentos no lugar, talvez ele desaparecesse quando eu voltasse a abrir os olhos. Mas não, ele começou a falar enquanto eu ainda permanecia com os olhos fechados...
– Eu era mais que isso.Eu era mais que isso... Mas não consegui tornar-me o que realmente eu gostaria ter sido para ela. Não consegui ser bom o bastante, não tive coragem para tanto e muito menos tempo... Tempo de tê-la levado ao altar, feitos votos de que a amaria independente de todas as circunstancias, de que viveríamos juntos para sempre, que seria uma benção acordar e vê-la ao meu lado todos os dias, sentir seu calor, seu abraço, seu amor... E depois de trocarmos os anéis que demonstrariam a força e o valor de nosso amor. Ter sido quem ela chamaria de marido e pai de seus filhos. Ah... Como eu gostaria de ter me tornado seu companheiro para toda a jornada que é a vida, ser seu apoio e a pessoa que encheria seu coração de felicidade... Assim como ela foi para mim... E agora ela não está mais aqui, nunca mais vai estar, apenas no meu coração.Nesta vida sereiapenas alguém que chora por ela... Ah, mil desculpas. Estou lhe importunando novamente. Eu geralmente não falo com desconhecidos, contudo... Achei que estornar minha angustia aliviaria a dor.
Um gelo me subiu a espinha e eu sabia que ele estava se segurando para não chorar, forçando um sorriso ainda com lágrimas nos olhos, enquanto apertava o antebraço. Quando abri meus olhos tive minha confirmação disto, afinal eu escrevi essa cena, essa fala, não comigo incluído, obviamente. Mas vivenciar isso estava sendo bem pior. Olhar pessoalmente a expressão de tristeza no rosto dele... Será que as pessoas também me olhavam assim?
– Eu também queria... Roderich. – Falei sem pensar.
Não devia ter dito isso, droga. Ele me olhou com espanto. Virei-me e comecei a caminhar para a saída, decidido a ir embora já que eu não conseguiria me despedir naquele momento. Só espero que ele não tenha percebido do que eu o havia chamado, poderia só me considerar um maluco qualquer que encontrou em um dia odioso, assim como eu mesmo estava me considerando.
Entretanto, antes de finalmente estar fora daquele maldito cemitério, senti meu braço sendo agarrado com certa força que fez eu me voltar de frente para ele. Pelo visto, nem meus devaneios me deixariam em paz. Ele estava atônico, com uma mistura de assustado e perturbado.
– Como o Senhor sabe meu nome? Sabe quem eu sou? Sabe por que vim parar aqui? Por que as coisas parecem iguais, mas os nomes estão diferentes?
– Me solta. – Ele perguntava uma coisa atrás da outra enquanto eu tentava me soltar empurrando-o, porém ele segurava meu braço com muita força.
–O que aconteceu com minha casa? Com a casa que eu dividia com Elizabeth? Responda-me. O que esta acontecendo?
–Já disse para me soltar. – empurrei-o com mais força finalmente me libertando. Sai correndo sem olhar para os lados da rua e quase me juntei a Liza quando vi uma caminhonete azul passar diante de meus olhos, se Rod não tivesse me segurado de novo pelas costas da camisa que eu estava usando, me fazendo voltar para calçada do cemitério. Não tinha escapatória agora.
– Por favor... Por que parece que eu nunca existi? – a voz dele saia abafada por estar com a cabeça encostada em minhas costas. Estávamos ofegantes, devido ao susto e ao mero esforço de agora pouco.
– Por que... Na verdade você não existe Rod. – falei baixo e calmo.
Ele me soltou e eu pude virar-me novamente e encara-lo.
– Claro que existo. Como posso não existir? – Em seu rosto havia uma expressão de desespero obvio.
– Você só é fruto da minha imaginação ou possível depressão. Você não existe.
– Do que você esta falando?
– Você é uma criação minha. Saiu do livro para me assombrar e provar que eu preciso de tratamento. – Estou cansado, e não acredito que estou falando com um possível Roderich perdido. — Aposto que você é algum fã maluco.
Bingo! Era isso. Não era? Em seu rosto agora se formava uma expressão de profundo desgosto e raiva.
– Não brinque comigo. Eu não sou nenhum fã e muito menos sua imaginação e posso provar que existo. –Disse confiante.
Concluído sua fala, pude ouvir alguns passos atrás de mim e olhei para ver de onde vinham. Uma senhora estava se aproximando. Voltei-me para ele, ignorando o fato que provavelmente ela acharia que eu estava falando com algum fantasma. Mas Roderich me encarou como se estivesse me desafiando. Quando a velha estava quase do meu lado ele se inclinou um pouco para olhá-la e disse:
– Por favor, a Senhora poderia me informar que horas são?
Ela olhou diretamente para ele. Estendeu um pouco o braço para afastar a manga do pulso deixando um relógio a vista.
– 15h20min meu jovem.
– Obrigado. – Ele voltou então a me encarar confirmando seu ponto, eu estava perplexo. – Então, como pode ver, eu existo e... EI! Ei! Senhor? Volte!
Sai correndo mais uma vez. Sou um covarde agora, que foge o tempo todo. Mas eu tinha que fugir daquela loucura. Corri o máximo que pude até voltar para minha casa. Antonio já não esta mais aqui, isso evita mais explicações e sermões. Estou esgotado e suando frio, meus pulmões parecem querer explodir. Joguei-me no sofá e fiquei observando as paredes, sentia-me tonto agora.
– Liza. Desculpe. Não consegui me despedir.
Por fim, acabei adormecendo.
– Fim do Primeiro capítulo.
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