Début
1 Capítulo único
Há uma grande comoção nos finais. Um leitor sente-se ansioso ao chegar ao final de um livro, um telespectador chora com o desfecho de um filme, uma garota tem o coração partido com o término de um relacionamento, uma criança chora quando a hora de brincar acaba. Os finais são superestimados.
Ao contrário dos finais, os começos tendem a ser subestimados, porque os começos são difíceis, lentos, confusos, rasos e desconhecidos. Mas existe algo mágico em um começo. Perceba agora, nesse começo.
É fim de tarde, o sol se põe atrás dos prédios, ela caminha entre rostos cansados de um dia de trabalho e estudo. Os cabelos ruivos caem sobre os ombros como uma cascata, ela está distraída contando mentalmente as coisas boas que ela fez durante o dia. Era necessário aguentar todas as coisas ruins que ela via e que aconteciam com ela, por isso ela listava mentalmente tudo aquilo que havia sido bom. Uma balança, um equilíbrio. Uma sobrevivência.
Ela não está sofrendo por um relacionamento, não está sofrendo porque é uma vítima, não está sofrendo por nada. Mas ela sente um peso sobre os ombros. O peso do mundo está sobre ela. Ela vê coisas que a machucam, a sensibilidade exacerbada a atinge em cheio todos os dias. A falta de empatia no mundo é algo que a incomoda no mais íntimo de seu ser.
Seu nome é Sofia, e ela caminha entre tantos rostos, entre tantos desconhecidos. Sofia é forte, ela tem que ser. Não importa se faz sol ou chuva, todos os dias quando ela acorda, ela é forte.
Sofia caminha mais alguns metros, a lista mental cresce gradativamente, quando de repente ela olha para o seu horizonte. Um sorriso brota em seu rosto, e ela sente um calor nas bochechas. Ela vê, com toda a sua sensibilidade ela a vê.
Linda e sutil, com os cabelos ao vento, ela veste um sorriso e caminha em sua direção, e Sofia já não pode conter a alegria que cresce dentro de si. Quando Manuela para a sua frente, ela ri, não precisa dizer uma palavra sequer. Ela entrelaça seus dedos ao dela, e caminham pela rua apinhada. Era assim todas as tardes, desde que haviam se conhecido. Uma conexão instantânea entre elas.
Sofia olhava de canto de olho, era impossível para ela controlar os olhares. Caminham juntas por mais um quarteirão até chegar ao café de sempre. Uma mesa, um pedido, dois cafés quentes e um dia para compartilhar.
Sofia já não mentalizava a lista de coisas boas do seu dia, quando estavam juntas aquilo era o ápice do seu dia.
− Você vai rir de mim, quando eu contar. – Manuela diz no meio da conversa, ela ri baixinho e olha para baixo.
Sofia não faz ideia do que ela tem para contar, qual havia sido sua aventura do dia, mas ela sabia que Manuela tinha vocação para confusões e desastres. Ela gosta de pensar que a conhece bem, que é capaz de antecipar suas reações.
Ela prova o doce sabor da presença da outra, dos risos compartilhados, do carinho singelo e da atenção que lhe é dirigida. E para ela isso era o céu, era um começo.
Não importava como aquela aventura poderia terminar, não importava como seria o final feliz dessa história, de sua história. Para Sofia o que importava eram os começos, quando havia entrega e ela podia sentir o rosto corar, o coração bater acelerado, as borboletas batendo suas asas dentro do seu estômago, quando as expectativas eram delirantes e sonhadoras. Para Sofia a vida era feita de começos.
Notas finais
Que tal dizer o que achou?
Obrigada por lerem
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