Duty & Honor
1 Capítulo 1 - A fruta não cai longe do pé
Notas iniciais
Capítulo 1: a fruta não cai longe do pé
Eu sentia meu estômago embrulhar. Cruzar o atlântico num voo de Bruxelas até os Estados Unidos era aterrorizante, de fato, mas o Gulfstream G700, jatinho oficial da realeza carinhosamente comprado com impostos reais, fazia com que a viagem, em geral, fosse bem tranquila.
Meu estômago embrulhava por saber que, hora após hora, meu destino se aproximava cada vez mais. Fazia muito tempo que não voltava à Montana, provavelmente uns 5 anos, mas me reunir com meu irmão e sua família e encarar todos os procedimentos reais e burocráticos não era o fim. O fim era reencontrar ele.
Na última vez em que nos vimos eu despejava no seu colo uma verdade dolorosa, para mim e para ele: que eu não poderia me casar com ele. Que eu o amava, mas meu amor não era o suficiente para me inserir num contrato social meticulosamente planejado pelos anos de patriarcado. Que eu estava deixando o maldito do meu pai vencer, mais uma vez.
Dimitri era um bom homem, e estávamos apaixonados. Aos 17 anos eles assumem que você não sabe de nada. Mas eu sabia que o amava. E sabia que iria para todos os lados do mundo com ele. Se fosse necessário iria até o inferno.
Eu o conheci na Rússia, há 10 anos. Meu pai havia sido transferido para a St. Basil’s Academy. Segundo o alto escalão moroi, fazia-se necessário uma presença real dentro da academia. Os alunos tinham muita dificuldade de se subordinar a seus iguais, os dhampir. Meu pai prontamente aceitou a difícil decisão de se esconder nos confins da Rússia. Para ele, quanto mais miserável sua família estivesse melhor.
Ele era um fodido.
E, naquela época, no auge dos meus 15 anos, aquilo foi o fim.
Ouvi sobre Dimitri pela primeira vez em um jantar, na minha casa.
— Ele é um bom garoto. Disciplinado, grande para sua idade, forte. Excelente lutador. Alguma coisa essa merda de academia fez de bom para ter treinado esse rapaz — Meu pai comentou na tentativa de quebrar o gelo, após um grande período de silêncio ensurdecedor. Havíamos acabado de presenciar mais uma de suas discussões intermináveis com minha mãe.
— Dimitri é seu nome. Vem de uma família de fodidos. Ninguém sabe o paradeiro do seu pai, mas é um moroi qualquer. A mãe é decente. O criou bem aparentemente.
Fui incapaz de elaborar uma frase razoável para comentar a fala estupida de meu pai mas lembro-me de ter pensado que Dimitri combinava com alguém loiro. Talvez até dos olhos claros.
Eu também frequentava a St. Basil’s Academy mas é claro, com o profundo repúdio que meu pai sentia pelos inferiores, como gostava de nomear (dhampirs), fazia o possível para que eu e meu irmão, Christian, não frequentassemos os mesmos espaços que os demais guardiões em treinamento. Naquela academia quase não haviam morois, muito menos morois reais, mas meu pai, utilizando-se do seu poder de reitor, juntou os poucos que haviam, em torno de 10 ou 12, para que formássemos uma turma de alunos diferente, com outros professores, grade de horários, e rotina.
Assim, praticamente não nos cruzávamos com os dhampirs. Eu achava aquilo estupidamente ridículo. O sangue bom da minha mãe pulsava em minhas veias e, Graças a São Vlad, ela havia sido capaz de dar uma boa educação para mim e meu irmão, apesar do meu pai.
Eventualmente, meu caminho cruzou o de Dimitri. O resultado, é claro, foi no mínimo desastroso.
Nós éramos a 13ª família real, os Mazur-Savoia, “família puro sangue italiana”, legítimos herdeiros ao trono real. Meu pai gostava de se gabar disso. Pessoalmente, eu desconfiava que sua superioridade inata a seu espírito era, na verdade, uma insegurança.
Nossa família levou 200 anos para ser reconhecida como descendentes da realeza e, portanto, família real. Éramos a 13ª, e última, família real. Mesmo após 150 anos de nossa ascenção, acreditava que meu pai se sentia menosprezado por isso. Apesar do meu ódio ao meu pai, sentia-me mal ao pensar que ele provavelmente havia carregado essa insegurança até o túmulo, dois anos mais tarde.
De vez em quando pegava-me imaginando o que meu pai pensaria se estivesse vivo para presenciar meu irmão sendo rei-consorte. Ele encheria o peito para falar sobre o orgulho que sentia do seu primogênito. Sua relíquia. Nosso pai era assim. Gostava de falar somente as melhores coisas de nós, publicamente, é claro. No privado gostava de bater no meu irmão e abusar verbalmente de mim e da minha mãe.
Fui arrancada de meus pensamentos quando ouvi o piloto anunciar no autofalante que em breve pousaríamos. Agora, meu estômago não estava mais apenas embrulhado. Eu sentia que ia vomitar a qualquer momento. Provavelmente estava pálida pois senti a mão de Reni, minha querida amiga e colega de trabalho, apertar a minha.
— Você está bem? Parece que viu um fantasma – Ela me questionou.
— Não vi, apenas me lembrei. – Em solidariedade, ela apenas deu um sorriso amarelo. Reni sabia de Dimitri. Sabia do nosso amor e de como eu, covardemente, o havia deixado a 10 anos. Eu havia confidenciado isso a ela ha alguns anos.
E sabia ainda que ele estaria lá, no momento em que meu avião pousasse. Meu irmão me receberia na pista de pouso e eu, cuidadosamente, dei um jeito de perguntar quais guardas da guarda-real haviam sido destacados para acompanhar minha comitiva até St. Vlads Academy.
“Separamos 20 guardas. Têm havido muitos ataques recentemente. Não há muitos guardiões que você conheça já que você não tem a menor vontade de visitar sua família regularmente para conhecê-los, mas 3 deles são Sokolov, Belikov e Petrova”
Não haviam palavras pra descrever o arrepio na nuca que senti quando ouvi o nome dele. Belikov. Eu sentia falta de ouvir seu nome.
“Lembra-se? Sokolov você sabe, Belikov também era do nosso grupo de amigos, na Rússia, mas se distanciou. Petrova é Alberta, a guardiã ousada que você admira”
Não existia um universo em que eu não me lembrava de Belikov.
O avião iniciou os procedimentos de pouso e instantaneamente me arrependi de todas as minhas decisões profissionais. Após eu e meu irmão nos formarmos na academia, desamparados pela recente morte do meu pai, Christian havia decidido seguir pelos profanos caminhos da realeza e do jogo político. Há cerca de 5 anos casou-se com Vasilissa, a princesa herdeira. Ao menos o jogo político havia o dado algo de bom.
Eu sentia desprezo pelo mundo real e pela decisão de meu irmão de permanecer neste caminho, mas não podia julgá-lo, eu não havia seguido para muito longe disso.
Mesmo menosprezando meu pai por toda a sua inserção na realeza e subjugando profundamente seu trabalho, eu não fiz muito diferente. A fruta realmente não cai longe do pé.
O que me levava aos Estados Unidos após 5 anos e, pior, a academia em que Dimitri morava e trabalhava era puramente profissional. Sou uma Diplomata Real. Meu papel envolve uma série de atribuições reais e de representação da minha família, e das demais famílias puro-sangue, no contexto internacional.
Como diplomata, sou encarregada pelas negociações para estabelecer tratados e acordos entre as famílias reais. Além disso, a representação internacional é uma parte crucial das minhas responsabilidades, envolvendo a presença em eventos diplomáticos, festivais e encontros.
Construir e manter relações positivas com outras famílias reais, líderes vampíricos e diplomatas é o cerne do meu trabalho. O que é curioso, já que sempre fui muito introvertida e quieta e agora meu trabalho era basicamente sorrir, acenar, gargalhar e coletar assinaturas nos acordos que me eram exigidos. Trabalho com a arte do convencimento por meio de eventos sociais, basicamente.
Senti o trem de pouso tocando o chão e, quase que imediatamente, meu coração pulsou no peito e passou a bater incessantemente. Eu sentia como se todos ao meu redor pudessem ouvir meu coração batendo, tamanha rapidez em que ele batia.
Mesmo que isso fosse uma expressão da verdade, ainda não ia ser de grande problema já que, dentro daquele avião enorme, havia somente eu e Reni. Um grande desperdiço do dinheiro público se você me perguntar.
Assim que o avião terminou de taxiar e parou por completo, o piloto anunciou no autofalante que já estávamos autorizadas a descer, as portas já estavam abertas, e que a comitiva real já nos esperava do lado de fora.
Bom, agora não posso mais fugir do meu infeliz destino. Sorrir e acenar e fingir que não acho tudo isso absurdamente patético passaria a ser rotineiro.
— Coragem, Rose, Coragem – Reni carinhosamente falou, afagando minhas costas, enquanto nos encaminhávamos para a porta do avião.
Coragem.
Assim que cheguei na porta do avião e contemplei a comitiva real, instantaneamente obtive mais informações do que era capaz de processar.
Primeiro, quem me aguardava ao fim da escada do avião não era meu irmão, como imaginei que seria, e sim Caleb, o chefe de gabinete real e melhor amigo do meu irmão. Era de praxe que houvessem representações oficiais no embarque e desembarque de membros da realeza. Provavelmente meu irmão teve algum imprevisto e enviou seu fiel escudeiro. Mas confesso que havia me preparado psicologicamente para ter o abraço carinhoso do meu irmão e, assim, conseguir me regular, e não ter que seguir com protocolos reais.
Veja bem, na sociedade vampírica, os Diplomatas Reais detêm um status distinto, equiparado ao de oficiais da realeza, com patentes que refletem sua experiência, habilidades e contribuições para a política internacional. Quanto mais alta sua patente, mais subordinados o Diplomata tinha e menos ele era subordinado aos outros.
Atualmente, sou Embaixadora, me conferindo 4 das 7 estrelas de distinção na profissão. Sou a mais jovem e uma das 5 mulheres a ocupar meu cargo. É claro, meus títulos reais me conferiram certas facilidades para alcançar tamanha façanha mas eu realmente me considero boa no que faço.
E a segunda informação que obtive era que os 3 guardiões que aguardavam fora de um, dos 3 carros da comitiva, eram justamente Sokolov, Belikov e Petrova. Uau. Ele estava ainda mais lindo.
Com seus cabelos na altura dos ombros, presos em um rabo baixo ao final da nuca, Dimitri encontrava-se em posição de sentido, com as pernas abertas e as mãos juntas na frente do corpo, como os demais guardiões. Ele estava totalmente de preto, com botas militares. Me recordei do pensamento que tive quando o vi pela primeira vez, 10 anos atrás: “Se ele fosse loiro não seria tão bonito. Os cabelos escuros combinam com a pele alva”.
Nitidamente mais velho, mais forte e robusto, ele ainda era o homem mais lindo que eu já havia visto na vida. Senti meu coração bater da forma como só batia com ele. Parecia que meu coração havia voltado a vida, depois de anos de inanição.
Me dei ao direito de ter 3 segundos de choque, antes de começar a descer as escadas. Caleb me esperava ao final dela em posição de continência. Apesar de meu bom amigo, o protocolo o obrigava. O protocolo ainda me obrigava a cumprimentá-lo, também em continência, e mantê-lo ao menos 3 segundos em posição de sentido, antes de liberá-lo. Era um sinal de respeito.
— Descansar, Caleb – Falei após cumprimentá-lo e aguardar os benditos 3 segundos. – Vem cá me dar um abraço, seu idiota.
Rimos juntos da situação que tinha tudo para ser constrangedora e nos abraçamos. Eu e Caleb nos conhecemos na academia, na Rússia. Apesar de ser um Dhampir ele e meu irmão viraram amigos instantaneamente e acabou virando também meu amigo. Para falar a verdade, era quase uma reunião do colegial aqui nesta pista de voo. Eu, Caleb, Alexander Sokolov, ou Alex pros íntimos, Dimka e Christian éramos um grupo inseparável no Ensino Médio, nada nos impedia de nos encontrar.
Após a morte de meu pai e o fim das implicações constantes pela amizade com nossos amigos Dhampirs, assim que meu irmão ascendeu na hierarquia da realeza e posicionou-se profissionalmente levou-os consigo. Hoje, Sokolov tinha um bom posto de guardião, como chefe da guarda de meu irmão, e Caleb estava na Chefia do Gabinete real. Apesar de atualmente ele ser muito mais Chefe de Gabinete do que guardião, ainda guardava alguns truques na manga, mas preferia a vida política em detrimento da vida na ativa. Dimitri não havia precisado deste empurrão. Bom, e após tudo, ele havia se distanciado muito de todos nós. Acho que em certa medida eu também.
Notei que o cabelo loiro claro de Caleb estava mais longo que o habitual mas não o suficiente para que ele fosse obrigado a prender e sua barba estava por fazer. Pude depreender que ele havia sido requisitado de última hora para me recepcionar, caso contrário teria sido obrigado a fazer a barba.
— Seu irmão gostaria muito de vir – Falou após me soltar do nosso longo abraço – Mas há algumas horas uma comitiva da família Drozdov foi atacada. Por sorte, não haviam membros reais e as baixas foram mínimas, mas confirmou nossa hipótese de que os Strigoi estão focando-se em famílias reais – Uau, era extremamente animador ouvir isso.
— Era muito arriscado ter dois dos três herdeiros da casa Mazur-Savoia dentro do mesmo carro. Ele pede mil desculpas – Eu entendia, é claro, Christian tinha grande apreço por mim.
Sorri quando me lembrei de minha sobrinha ao Caleb mencionar “dois dos três herdeiros”. Rhea tinha agora por volta de 4 anos. Era a única coisa boa que minha família havia sido capaz de produzir. Ela dava fim ao legado de dor e sofrimento e enfim trazia esperança e beleza para esta linhagem.
— Uau, Caleb, você sabe mesmo como desestressar uma garota após um voo de 9 horas, ein? – Às vezes a piada era meu único mecanismo de defesa, mas não pude deixar de me arrepiar com a hipótese de sermos atacados por strigois.
— É meu dom, Rosie, você sabe – Rimos mais e seguimos em direção a um dos 3 carros da comitiva. Era sempre muito bom estar com Caleb, ele era divertido, amigável e normal. Acho que talvez tenha sido por isso que eu e meu irmão gostamos tão prontamente de Caleb há 10 anos: ele nos tirava dos tentáculos vis da realeza e, com ele, podíamos apenas ser nós mesmos.
Quase chegando ao carro Reni me cutucou lentamente, tirando-me da conversa animada que estava tendo com Caleb:
— O cumprimento aos guardiões, Rosie.
Tinha digerido tantas informações simultaneamente que quase havia me esquecido da última etapa do protocolo: deveria cumprimentar os guardiões que estavam fora do carro e agradecê-los pelos seus serviços. Sim, a educação não estava morta na realeza e não seria eu e meus sentimentos que faríamos Sokolov, Belikov e Petrova pensarem o contrário. Também não queria que Dimitri pensasse que ele me afetava. Embora ele o fizesse, e muito.
Pedi licença a Caleb e andei até os guardiões, que estavam a uns 500 metros de mim. Apesar de estarmos na pista de pouso, um local aberto, conseguia ouvir meus saltos batendo contra a pista e o “toc toc toc” era quase ensurdecedor pra mim.
A cada passo que me aproximava de Dimitri eu sentia meu coração falhar mais um pouco. Na verdade, poderia jurar que meu coração e o barulho dos meus saltos estavam no mesmo compasso. Quando cheguei verdadeiramente perto, minha boca salivou, perdi o ar e quase esqueci como se respirava. Sabia que estava olhando para ele, diretamente, e sabia que o contrário também era verdade. Quase poderia jurar que ele estava tão afetado quanto eu. Quem diria que reencontrá-lo pela primeira vez depois de tanto tempo seria assim.
Quando tive este pensamento ele imediatamente fechou a cara e voltou a sua pose de guardião sério e sem sentimentos. Dimitri, Dimitri, você quase me engana.
— Sokolov – Proferi enquanto apertava sua mão. Pude jurar que quase vi um sorriso em seu rosto. Era bom revê-lo, éramos muito amigos.
— Belikov – Apertar sua mão quase fez com que eu vomitasse todo o café da manhã que havia digerido no avião. Senti a eletricidade correndo quando nos tocamos no aperto de mão. Nossos corpos sempre reagiram um ao outro. Sabia que ele me olhava no fundo do meu olho, como se observasse minha alma. Ele sempre foi bom em decifrar o que eu pensava. Temia que isso não tivesse mudado.
— Petrova – Apertei sua mão e sorri. Haviam rumores de que ela e Dimitri tinham um envolvimento. Eu não sabia o quanto disso era verdade e, se fosse, não podia imaginar o quanto ela saberia sobre mim. Não sei se você conta para seu romance proibido que foi noivo da mulher que ela está recebendo. – Ouvi muitas coisas sobre você, Alberta.
— Espero que todas boas, senhorita Savoia. – Eu podia notar que ela tinha pouco se não nenhuma familiaridade com os procedimentos reais. Isso me fez gostar mais ainda dela. Eu havia ouvido das façanhas de Alberta. Admirava seu ímpeto e coragem. Confesso que também era muito fã do seu desprezo pela realeza. Eu compartilhava do mesmo sentimento.
— As melhores possíveis, Alberta. – Falei enquanto sorria – Obrigada, senhores e senhorita, pelos seus serviços.
E finalmente minhas obrigações procedimentais estavam cumpridas. Me esforcei para não correr de volta até o carro, onde Caleb gentilmente segurava a porta para mim. Entrei, após agradecer a ele, e imediatamente soltei o ar que nem notei que estava prendendo.
Rumo a academia, eu via que meu suplício não estava nem perto de terminar, mas ao menos o choque inicial estava se dissipando. E bom, eu tinha uma longa viagem de 3 horas pela frente até St. Vlad Academy para me recuperar.
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