Dust Devil
3 Correntes de poeira
(O q-que é is-so?!)
Mal consegui raciocinar direito, em anos aquela foi a primeira vez que me afundei no oceano do desespero e pânico.
«Deixai toda esperança, ó vós que entrais!»
Era a frase que mais combinava com aquele instante, só que neste caso não seria ‘entrais’, mas ‘acordais’.
Será que isto é o que acontece após morrer?! É assim que Dante se sentiu após se perder na selva e aceitar a proposta de Virgílio?! Porém, eu devia estar me sentindo muito pior, afinal de onde estava não podia encontrar ninguém e não tinha o amor para me dar coragens.
Tudo que via era uma penumbra esverdeada, como se estivesse olhando através de um binóculo noturno aos cacos, estar ali era como estar submerso em um líquido respirável.
A histeria tomou conta do meu ser, comecei a me debater como um tubarão fora d’água, foi então que confirmei, eu realmente estava imerso em um líquido estranho, translúcido, esverdeado e definitivamente respirável.
Como resultado dos meus movimentos exasperados o recipiente no qual me encontrava se rompeu, era como nascer novamente, sai mais uma vez duma placenta.
Fui lançado nu ao chão, seguindo o fluxo do fluído verde, minhas roupas haviam se derretido, quase como se tivessem sido digeridas.
Eu não acreditava, aquilo só podia ser um sonho, no máximo uma alucinação.
Aos poucos fui me acalmando e analisando mais friamente a situação, ponderei com atenção cada parte do meu corpo e o ambiente onde estava, principalmente do recipiente — se é que posso chamá-lo assim — donde sai.
Um casulo, a única palavra que veio a mente para descrever aquela coisa, lembrava-me de Alien.
Então, se aquilo decerto fosse um casulo, não estivesse sonhando ou tendo alucinações, eu sofri uma metamorfose?! Impossível, um ser humano, nem nas teorias mais absurdas poderia sofrer tal transformação tão radical, além disso não havia mudado nada em meu corpo, isto é, que fosse visível a olho nu.
Dúvidas e mais dúvidas vinham a minha mente, eu estava prestes a perder a sanidade e tornar-me por completo em uma entidade insipiente, entretanto, prometi para mim mesmo que não importaria o que acontecesse, eu não seria destruído tão facilmente.
Se o mundo mudasse, eu também mudaria.
Naquele instante eu decidi aceitar tudo o que viria, seja sonho, alucinação ou realidade, não seria devorado sem lutar.
Eu estava em casa, no mesmo lugar onde havia perdido a consciência, a escuridão predominava, apenas um ou dois feixes sutis de luz afrontavam o breu.
Não podia fazer nada, antes de procurar uma roupa, além de sentir um pouco de frio, não muito, não poderia sair de casa pelado.
Quando fui procurar umas roupas, por alguns segundos o temor dominou minha mente.
Ao tentar abrir a porta do guarda-roupas que estava emperrada, um brilho azulado partiu da minha mão e desmaterializou a porta, quase como se ela tivesse sendo absorvida.
Respirei fundo e suspirei… Um sonho ou uma alucinação…
Continuei procurando por uma roupa adequada para a ocasião, pois cria que passaria muito tempo no hospital, esperava que não fosse em um sanatório.
Finalmente encontrei uma roupa decente e vestí-a.
Peguei uma mochila e coloquei tudo o que poderia precisar, algumas roupas extras, um pouco de dinheiro, meus documentos e um punhado de comida.
Estava pronto para ser internado por um bom tempo, espero que não seja dissecado ou vire cobaia em experimentos científicos, caso isto seja real.
Enfrente a porta, segurando a maçaneta, parei e hesitei por alguns instantes, o que mais minha mente fabricaria adiante?
Exatamente no instante em que abri a porta um vento extremamente forte, carregou consigo uma enorme quantidade de poeira para dentro do meu quarto.
— O q-que é isso?!
Nada podia dizer, a esta altura, a não ser o que pensei antes, mas agora em voz alta.
Não haviam muitas aberturas ou janelas grandes naquele edifício, mas mesmo assim o vento era muito forte, quanto mais seria do lado de fora? E por que havia tanta poeira?
Estas eram perguntas que apenas seriam respondidas, se saísse do prédio.
Prevendo ou imaginando o que haveria do lado de fora, coloquei um óculos de natação — por sinal ridículo, mas eficiente — e cobri os ouvidos, o nariz e a boca com um lençol branco de algodão.
Fantasia ou realidade, estava pronto para enfrentar a poeira.
A lampada, o relógio, meu celular ou qualquer outra coisa elétrica não estava funcionando, por isso não sabia as horas ou quanto tempo passei desacordado.
Desci as escadas do prédio com receio e cercado pelo vento empoeirado.
Ao chegar na entrada, ou saída, do prédio, a parte restante da minha sanidade quase foi sugada pela cena desoladora.
Sem dúvidas, caso não soubesse das teorias de Einstein, diria que havia viajado no espaço e no tempo.
O fenômeno que me veio a mente foi o Dust Bowl ou uma tempestade de areia, talvez um Dust Devil… Não! Isto é muito maior, alias, de onde surgiu tanta poeira? Incompreensível, sequer posso ver a mais de dois metros de distância.
Mesmo o lençol, os óculos ou minhas roupas não eram suficientes para impedir que a areia se espalhasse pelo meu corpo.
Descargas eletrostáticas como mini-raios serpentinavam por objetos metálicos, daí que vinha os feixes de luz do meu quarto.
O vento era frio e a poeira densa, objetos grandes voavam carregados pelos fortes ventos, ou melhor, eu quase era um deles, havia muito esforço para simplesmente ficar em pé e não ser arrastado, o som da areia se chocando com tudo o que estava a frente era insuportável.
Minha roupa parecia estar sendo esfolada pelas partículas voadoras, seria muito útil para um funileiro, afinal poderia fazer o trabalho de remover a tinta e lixar as imperfeições.
Não sei se estou sendo um pouco sensacionalista ou aumentando os eventos, mais duas coisas são certas: o vento era extremamente veloz e meu juízo não estava em perfeito estado.
Por instinto, eu decidi seguir em direção ao hospital mais próximo, que por sorte era na próxima quadra.
Era em linha reta, por isso se soubesse em que direção ir, bastava seguir em frente tendo a calçada como guia.
Cada passo era tão cansativo quanto escalar uma pequena montanha, infelizmente o hospital ficava no sentido oposto ao vento, o que dificultava ainda mais meu avanço.
Um trajeto que em condições normais levaria menos de quinze minutos para percorrer, já estava tomando mais de vinte minutos da minha vida.
Em algum lugar tinha plena convicção de que estava tendo alucinações, talvez seja madrugada e o fato de não ver ninguém se deva a isso.
Deveras à noite aquela região não é movimentada, é quase desértica, se for este o caso tudo ficaria explicado o frio e a moleza do meu corpo, mascarados como resultados de uma tempestade de areia — ou seria de poeira? —, são na verdade frutos de uma febre e outros sintomas — com certeza, deve ser uma doença nada agradável, se é que existe uma que seja. Dor, febre, moleza, alucinações, fatiga, perda de consciência são prognósticos nada promissores.
Continuei a andar, até finalmente chegar ao hospital, porém não foi como previsto, apesar de funcionar por todas as vinte e quatro horas e estar aberto, não havia ninguém, muito menos luz.
Ali era mais um dos recintos dominados pelas trevas, onde sequer um vivo ser dava o ar de sua graciosa existência.
Ao fechar a porta, pude me livrar da poeira que se infiltrou pelas brechas e por entre os fios tecidos de minha roupa, o hospital parecia estar livre da poeira e das correntes bravias de vento.
Após me livrar do lençol, das roupas sobressalentes e dos óculos ridículos, decidi me aventurar, explorar aquele lugar, em busca de mais alguém.
Foi quando percebi um ferimento na minha cabeça, deveria ter sido causado por um daqueles objetos que foram lançados ao céu pela tormenta.
Havia, agora, mais um motivo para ponderar adiante, a fundo, cada parte daquela área.
Pessoas, ajuda e curativos, estes eram meus objetivos, o que queria encontrar, em ordem de necessidade.
Porém só o terceiro propósito era garantido, curativos e remédios são coisas inatas em hospitais e são tão ou mais necessários que o próprio prédio.
O ferimento não era nada sério, entretanto a ferida não parava de sangrar e acaso fosse verdadeiramente um cenário apocalítico, no mínimo deveria morrer de maneira mais dramática, solene e elegante do que por causa duma simples infecção.
Eu pensei em como seria grato se encontrasse uma lanterna que funcionasse, mesmo que fosse daquelas que se encontra em lojinhas de um e noventa e nove.
Um fósforo e uma vela já bastariam, mas não seria fácil encontrá-los.
Uhunf! Francamente, apenas quando se perde algo que nós damos o devido valor, imagino como a vida era muito mais difícil antes do descobrimento do fogo.
O que mais precisava, um isqueiro, fogo!…
Eu almejei tanto quanto minha mente poderia almejar…
Até que o destino zombou da minha face, se ele pudesse se personificar seria um desgraçado inacreditável, claro, se sobrevivesse por muito tempo antes de eu torcer seu pescoço.
— Che!… Não me espanto com mais nada, se é pra ser assim, que assim seja!
Loucura ou sanidade… Eu decidi superar…
Uma chama azul fluorecente emanava da palma da minha mão, mas não havia nenhum combustível, não era quente, muito menos queimava, simplesmente emanava dela, nada além.
Mais o que era aquilo? Toda a lógica estava desmoronando em cadeias sucessivas de incidentes excêntricos e extraordinários, todos os meus conhecimentos científicos e senso comum estavam ruindo sobre si, uma implosão, quase descontrolada.
Que seja, aquele efeito era conveniente, se não demonstrasse consequências aterradoras, não haveria motivos para não usá-lo ao meu favor.
Enfim… Era muito melhor e mais assustador que uma vela, não era meu inimigo, então era meu amigo.
Os meus passos ecoavam nos corredores obscuros e amplos, o sentimento era horrível, igual a um filme B de terror, eu o único ser existente em um local tão misterioso e que inspirava tensão.
Passos… Passos… Passos… A chama, no mínimo assustadora, tremulava, gerando sombras oscilantes nas paredes, os sons dos passos ressonavam no espaço pouco iluminado, nos meus ouvidos e medo.
Ninguém sabe o tanto que havia me contido, como me levei aos limites para aceitar toda aquela situação, nesta ocasião eu tinha certeza que não se tratava de um sonho, só me restavam a alucinação e a mais temida realidade.
Já havia se passado algum tempo, estava agindo como um programa ou sub-rotina de computador, abria a porta mais próxima de mim, via o que tinha além dela, fechava novamente e partia para a outra mais próxima, em um «loop» constante e vicioso.
Se não fosse pelas numerações dos quartos não poderia mais dizer quantas portas abri, quantas vezes repeti a mesma ação obsessiva.
Era a ducentésima vigésima segunda porta que iria abrir, o quarto número duzentos e vinte e dois.
Naquele ritmo em pouco tempo minhas mãos encheriam de calos ou contrairia alguma lesão por movimentos repetitivos, além de adquirir uma injúria mental.
Antes nunca havia prestado atenção nas dimensões daquele hospital, embora fosse o único que frequentava quando ficava doente, quantos quartos e consultórios haviam? Eu não tinha nenhuma estimativa.
Através da porta ouvi um pequeno ruído, o que senti foi esperança, mera e inútil esperança.
Um suspiro derradeiro e o auge da coragem…
Abri a porta…
Booom…
Fui lançado como um bola de tênis para trás.
O barulho da minhas costas se chocando com a porta oposta me deixou apreensivo, exatamente qual foi o número de ossos que quebrei? Está pergunta me deixou perturbado.
Mas poucos segundos depois voltei a si e constatei que não foi nada grave, exceto o som, o impacto não foi tão imenso a ponto de fraturar meus ossos, no máximo, teria hematomas doloridos noutro dia.
Uma confusão de prioridades, o questionamento mais imediato que deveria ter feito era: O que diabos me arremessou?
Voltei meus olhos medrosos e curiosos para o quarto enigmático.
Não havia nada de suspeito, absolutamente nada, nenhum sinal de explosão ou qualquer coisa similar que pudesse ter feito aquilo impiedosamente.
— Quem é você?! — Disse a voz sombria…
Hã?! Quem sou eu? Não brinque comigo, mais de uma hora andando e procurando, mais de duzentos quartos depois, mas ninguém havia dado sinal de vida, agora alguém simplesmente pergunta quem sou eu?
— Não sei quem ou o que você é, muito menos o que você fez, mas para uma alucinação você é muito violenta… Quanto a mim, não passo de um colegial assustado e tendo alucinações. Mais alguma pergunta?
Talvez eu tenha sido muito frio novamente, creio que a voz e o conteúdo não combinavam.
— Ha ha ha ha!… Interessante… Um babaca maluco me encontrou! Ha ha ha…
— Qual é a graça?
— Nenhuma, outros idiotas já vieram aqui, mas nenhum deles era como você. Sabe, vinham com uma conversa de sobrevivência, do tipo: Encontrei uma mulher, vamos brincar de Adão e Eva! Pessoas doentes não tem mais espaço neste mundo. E outros papos mais loucos… Mas você foi o mais de todos!
Que há todo tipo de pessoa neste mundo, eu já sabia há muito tempo, das pessoas pode-se esperar qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, desde OVNIs à demônios que as atormenta por debaixo de suas camas.
Não há sequer uma exceção para os pensamentos, crenças, esperanças, manias de grandeza absurdas que possam ter e isto é apenas a ponta do «iceberg».
Eu não desacredito que já veio pessoas assim neste lugar, afinal ele é fruto das minhas alucinações, isto só reforça esta ideia de que nada é real.
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